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Francisco Badilla Briones: Diálogo com um artista adventista e filósofo estético chileno Ruben Sanchez-Sabaté
Por que você escolheu a pintura, quando a tradição protestante e a cultura adventista do sétimo dia geralmente preferem a música, e dificilmente promovem a pintura como linguagem estética através da qual alguém pode se relacionar com Deus? Comecei a desenhar ainda criança, com cerca de 4 anos. Tive interesse por diversos temas na infância, tais como soldados e exércitos, animais, músicos, esportes etc. Assim, gastava a maior parte do dia desenhando e pintando. Naquele tempo, não era adventista do sétimo dia. Quando conheci o adventismo, já adolescente, desenvolvi o gosto artístico pela pintura e pelo desenho. É verdade que a tradição adventista considera a música como realmente importante no culto, mas penso que Deus pode usar os diferentes talentos quando os dedicamos a Ele, e decidimos pô-los sob Sua direção. Em minha visão, a pintura pode ser um canal através do qual posso externar minhas questões e visões com respeito a Deus. Em relação ao preconceito adventista, que olha para a música como estando perto de Deus e a pintura como distante dEle, posso dizer que o próprio Deus é um Grande Pintor – basta olhar a beleza, a riqueza e a variedade na criação. Você escreveu uma tese para a obtenção da licenciatura sobre a conexão entre o puritanismo e a pintura. O que descobriu? Os puritanos geralmente consideravam as imagens pecaminosas. Arte puritana é definida como purismo anicônico, uma vez que para eles as imagens eram de natureza impura. A Reforma de Lutero também rotulou de heresia todas as imagens que representavam a morte de Jesus. Assim, os países que aceitaram a Reforma tiveram um tipo de arte sem qualquer representação de santos ou virgens, ou mesmo de Jesus. A arte estava voltada para paisagens, cenários tradicionais, objetos, natureza morta etc. Os artistas tinham de pintar justamente o que seus olhos eram capazes de ver. Era-lhes vedado fantasiar com imagens que podiam corromper alma e mente. Mais tarde, nesses países, apareceram novos e modernos estilos artísticos, ligados à mente e ao espírito em vez de aos sentimentos e à sensualidade, como se dá com o conceito de arte abstrata e minimalista. Essa é uma razão por que sugiro em minha tese o uso combinado de vários elementos, a fim de criar metonímias visuais que simbolizem a morte de Cristo. Mas em suas pinturas podemos também observar representações claras de Jesus. Correto. Dentro da cultura adventista, lidar com o corpóreo é muito complicado, mas como um “artista adventista”, questiono a iconografia protestante, mas desejo explorar seus limites e descobrir uma linguagem pictórica contemporânea. Esse objetivo me tem feito pintar a paixão de Jesus em quadros nos quais apenas faço uso da pintura e acrescento alguns objetos como traves, pregos, espinhos, entre outros, que possam de alguma forma nos relacionar ao evento. Por outro lado, devo dizer que o estado social dos assuntos na América Central e do Sul tem sido uma fonte de inspiração para mim. Pude transformar eventos da vida comum em metáforas das ideias bíblicas, conforme refletidas em minhas pinturas O Semeador ou A Escolha. Essas pinturas são figurativas e expressam minha transição do abstrato para o realismo. Quem o influenciou como artista? Como você se definiria? Na arte religiosa contemporânea, gosto das obras de George Rouault, um expressionista francês, e de William Congdon, expressionista abstrato norte-americano. Ambos desenvolveram uma arte cristã de códigos fortes, e traços e ambientes violentos. Nesses artistas, a mensagem de Cristo é pintada clara, honesta e belamente. Amo a abstração, mas também gosto da arte figurativa e da textura. Meu trabalho é uma combinação de abstração, textura e formas. Não posso me colocar dentro de uma única tendência artística contemporânea. Onde você gostaria de ter suas pinturas exibidas? Em qualquer lugar onde possam levar uma mensagem sobre Deus e sejam capazes de alcançar espectadores indagativos. Também gostaria de chegar a frequentadores de galerias de arte ou museus, é claro, e em lugares reconhecidos onde possam mostrar minhas pinturas, de modo que sua exposição intensifique sua dimensão, como escolas, universidades e igrejas. Você julga apropriado que nossas igrejas exibam obras de arte? Por que não? Mas precisamos ser seletivos. Nem toda obra de arte contribui para a adoração a Deus. Também temos de nos esforçar para apresentar artes que reflitam qualidade técnica, expressional e simbólica. A arte deve ser uma linguagem que comunique conteúdo cristão. Antigamente, as imagens eram consideradas as “letras dos iletrados”, mas agora elas têm de ser simbólicas, contemporâneas, poéticas e capazes de ampliar os sentidos para o conhecimento de Deus. Precisamos desenvolver uma arte que seja um canal de compartilhamento da mensagem de Cristo. Penso que falta à nossa igreja educação em artes visuais e, consequentemente, em apreciação estética. Se as igrejas tivessem obras de arte contemporâneas, seriam meios de educação visual e, o que é mais importante, poderiam se tornar uma experiência estética que reforçasse a alegria do culto a Deus. Fale-nos sobre seu processo criativo. Como você sente que foi inspirado a fazer uma pintura? Inspiração não vem espontaneamente. Precisa ser buscada. Sinto-me inspirado por Deus quando procuro por isso e consigo pensar nas ideias sobre Jesus. Às vezes, faço alguns esboços e escrevo algumas ideias e reflexões com respeito à Palavra de Deus. Assim, dou início ao processo criativo que frequentemente termina numa nova pintura. Ser artista é ser humilde. Significa deixar que Deus nos use como um instrumento em Sua obra. Gosto de pensar em mim mesmo como um canal de expressão estética de Sua mensagem. Conte-nos sobre algumas de suas obras. Em seu trabalho Espaço e Tempo, posso ver a encarnação (http://www.franciscobadilla.com/imagenes/espacioytiempo.jpg). Isso está correto, é um símbolo de Cristo. Representa Jesus em Sua forma corporal e em Seu papel de mediador entre Deus e o homem. Hegel disse que a arte é uma intermediária entre a matéria e a ideia. E em minha disposição de explorar essa definição, tenho criado uma pintura com muita “carnalidade”, mas, ao mesmo tempo, abstrata e simbólica. Como a arte pode nos ajudar a trans-cender as limitações de espaço e tempo, de forma que tenhamos um vislumbre dos conceitos que unicamente pertencem a Deus, tais como eternidade, onisciência, onipotência e onipresença? Mediante a apreciação da arte, a meditação e a manutenção de um diálogo com a obra artística. Para que isso aconteça, é necessário uma experiência estética – visual nesse caso – que permita nos regozijarmos em Deus. Em linguagem simbólica e polissêmica, a arte abre nossa percepção para conhecer melhor a Deus. Quando ouvimos uma peça musical na igreja, desfrutamos a percepção de que sua mensagem foi composta para louvar e adorar a Deus. A mesma coisa deveria acontecer com as artes visuais. Por que você dividiu a pintura em duas esferas? A pintura preparada como um díptico representa dois eventos diferentes na vida, morte e ressurreição de Cristo. O formato pequeno no lado direito da pintura é morte, com cores que simbolizam carnalidade e sangue. O da esquerda simboliza a ressurreição de Cristo, onde o espaço branco é o Céu, que se abre para receber seu vitorioso Rei, e também – graças ao sacrifício de Cristo – para que tenhamos acesso a Deus. O uso de texturas táteis reforça a sintaxe do significado da natureza humana de Cristo, algo contestado pelos iconoclastas. Nesse caso, porém, as duas teofanias são expressas sem imagens. Com referência à pintura Jesus, que significado tem o Cristo crucificado em nossa sociedade pós-moderna? (http://www.franciscobadilla.com/imagenes/jesus.jpg) Para nossa sociedade pós-moderna, Jesus é apenas história: um evento histórico e relevante que deu origem ao pensamento cristão. Creio que nossa sociedade não quer ver Jesus na cruz ou de outro modo qualquer. Até certo ponto, isso é desconfortável para eles, embora realmente precisem dEle. Você não acha que Jesus é muito católico e ocidental? Você é influenciado pelo fato de ter estudado numa escola católica? A questão é que não temos uma iconografia protestante. Então, é natural que uma imagem da crucifixão de Jesus tenha ligações com as pinturas católicas. O que vejo é que sua obra Jesus, ao contrário das outras, transmite muita paz. Para pintar essa paz, é essencial senti-la em primeiro lugar? Bem, como pintor, tenho de estar em paz, mas, ao mesmo tempo, preciso estar inquieto, sentindo a necessidade-de Deus. A fim de pintar Cristo, é importante sentir aquela paz que permite tomar decisões durante a pintura, confiando em Deus para guiar meu trabalho de forma que alcance e toque o coração dos espectadores. Em sua obra Símbolo e Realidade, onde está o símbolo e onde, a realidade? (http://www.franciscobadilla.com/imagenes/simboloyrealidad.jpg) Nesse políptico [quadro pintado em vários painéis], o símbolo e a realidade estão entrelaçados. A cruz é um símbolo não representado de modo convencional, mas como a imagem de um homem carregando uma viga. Isso quer dizer que a cruz é um símbolo, mas é também a realidade aqui e agora para cada um de nós. Quando pensamos no Calvário, precisamos ver a nossa realidade. Os formatos à direita simbolizam a Trindade – Deus, o Pai, acima; Jesus, no centro; e o Espírito Santo, abaixo. Para a realidade penetrar em nós, vai depender de como relacionamos o poder e a graça da Trindade. Como o símbolo contribui com nossa percepção de realidade? Um símbolo nos dá identidade. Ele apela para o que somos. Aponta para Cristo que morreu por nossos pecados, o que deveria ser suficiente para nos mostrar qual é nossa realidade. Temos de chegar ao ponto em que decodifiquemos o símbolo da cruz na vida diária, para aumentar nossa percepção de realidade como filhos de Deus que dEle necessitamos. Ruben Sanchez-Sabaté tem duas graduações, Letras e Jornalismo, na Universidade Pompeu Fabra em Barcelona, Espanha (Humanidades e Jornalismo). Atualmente, ela trabalha como jornalista freelancer. Recentemente, recebeu uma bolsa para um mestrado em jornalismo e religiões em Nova York. E-mail: rubensabate@yahoo.com Francisco Badilla Briones E-mail: francisobad@gmail.com |
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