Quando Deus Derrama Lágrimas

"Mostre que não é Deus que causa dor e sofrimento."1 --Ellen G. White

Alícia estava a um mês de seu 16º aniversário quando os pais notaram alguns caroços em seu pescoço.

"Está você se sentindo bem, Alícia?"

"Sim. Por quê?"

"Que são esses caroços?"

"Não sei."

O médico não sabia tampouco. Prescreveu alguns exames.

A enfermidade de Alícia era linfoma, uma enfermidade grave. Enquanto escrevo, Alícia está sofrendo terrivelmente como resultado da quimioterapia. Há quatro semanas ela sentia-se bem, mas o tratamento quase a matou. Os médicos esperam que o tratamento esteja matando suas células concerosas.

Por que Alícia sofre tanto? Por que inocentes sofrem? Poderíamos aceitá-lo se o sofrimento só afetasse malfeitores, mas gente boa sofre. Por quê?

Boethius escreveu On the Consolation of Philosophy, um livro que influenciou alguns dos pensadores mais lúcidos da Idade Média. Nesse livro ele disse algo assim: "Se Deus existe, por que existe o mal?" (Ver John Hick, Evil and the God of Love, ed. rev., pág. 11, rodapé 1.)

É a vontade de Deus?

Deveria Alícia e seus pais dar ouvidos àqueles que sugerem que seu linfoma é a vontade de Deus? Ao atribuírem sua doença à vontade de Deus, estão indicando que Deus a quer doente. Dizer: "É a vontade de Deus" é simplesmente outro modo de dizer: "Deus o deseja."

Segundo Hebreus 10:7, Jesus assim falou do propósito de Sua encarnação: "Vim para fazer, ó Deus, a Tua vontade." Jesus veio para fazer o que Deus queria -- ou desejava.

E que fez Jesus? Infectou Ele alguém com lepra? Feriu Ele alguém com cegueira? Não, em diversas ocasiões Ele abriu os olhos do cego. Fez Ele as pessoas ficarem surdas? Não, Ele curou os surdos.

Num sábado Jesus encontrou uma mulher aleijada na sinagoga. Durante 18 anos essa mulher tinha estado entrevada. Jesus parou no meio do sermão e contemplou-a com dó e disse: "Não se devia livrar deste cativeiro em dia de sábado esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?" (Lucas 13:16.)

Você notou a quem Jesus culpou pela condição da mulher? Satanás a tinha aleijado durante 18 anos. Mas Jesus veio para mostrar-nos o que Deus quer. E Ele curou a mulher.

Certamente podemos garantir a Alícia e seus pais que Deus é a fonte de toda boa dádiva, mas Ele, decididamente não é a causa de coisas más. Como poderemos jamais detestar a miséria que achamos em nosso planeta se continuarmos a lançar sobre Deus a causa de tudo?

Aqueles a quem Deus ama Ele disciplina

Cristãos bem intencionados têm dito a pessoas como Alícia: "Você deve ser muito especial para Deus. Deus não desperdiça Seus esforços em material inútil. Deus quer aperfeiçoá-la. Quando seu Pai celeste tiver completado Sua obra, você será como ouro provado no fogo."

Eliú, um amigo de Jó, disse praticamente o mesmo. Deus, segundo Eliú, envia o sofrimento não como castigo (como os outros amigos tinham insistido) mas como disciplina (ver Jó 33:15-22, 29-30).

Que tal?

Os pais de Alícia tinham notado imperfeições nela, e como todos os bons pais e mães a tinham disciplinado para que crescesse para ser uma honra ao nome da família e um benefício para a sociedade. É isto o que Deus está fazendo para Alícia agora?

Suponhamos por um momento que o linfoma de Alícia tenha aperfeiçoado a sua alma. É esta uma causa apropriada para o efeito desejado? Ellen White escreveu certa vez: "Deve o corpo ser mantido em estado saudável a fim de a alma estar sã."2

Sendo este o caso, como pode o linfoma de Alícia aperfeiçoar sua alma? Um corpo doentio não é o caminho para a santificação.

Se o linfoma de Alícia veio como uma disciplina divina, por que devia ela submeter-se à quimioterapia numa tentativa de curá-la? Longe dos pais de Alícia contrariar a disciplina divina na vida de sua filha! Não devem agir contrariamente ao propósito divino. Com efeito, se desastre, doença ou morte vêm para nos aperfeiçoar, todo cristão sincero, em vez de aliviar a dor, devia ajudar Deus em Sua obra de aperfeiçoamento causando dor sempre que possível!

Será que Alícia amará mais profundamente essa espécie de Deus?

Soa, porém, como a espécie de Deus em cuja existência Satanás gostaria que crêssemos. Afinal, que melhor maneira de torcer nosso conceito de Deus do que retratá-Lo como um pai abusivo!

Epicurus (341-270 a.C.), filósofo grego, fez as seguintes observações: "Ou Deus deseja acabar com o mal e não é capaz de fazê-lo; ou Ele pode fazê-lo mas não deseja fazê-lo; ou Ele não é capaz, Ele é débil." (On the Anger of God, capítulo 13, The Writings of the Ante-Nicene Fathers, traduzido por William Fletcher, vol. vii, 1951.)

Apanhados na grande experiência

Até aqui o sofrimento de Alícia como resultado da quimioterapia eclipsou qualquer sofrimento causado pelo linfoma. Não obstante, sua dor e sofrimento são terrivelmente reais -- tão reais que ultimamente ela tem sido posta sob sedativo.

Parece tudo tão sem sentido, tão absurdo. Mas em face desta loucura, os defensores de Deus têm proposto a metáfora de uma experiência cósmica entre o bem e o mal como modo de fazer sentido daquilo que parece incrivelmente sem sentido.

Alícia sabe que Deus não criou o mal; Ele criou só aquilo que é bom. Lúcifer (também conhecido como o diabo, ou Satanás, em seu estado após a Queda) inventou o mal. E ela compreende que segundo o conceito do grande conflito cósmico, Deus poderia ter destruído Lúcifer ao primeiro sinal de rebelião, mas então o Universo teria servido a Deus por temor -- não por amor. Assim Ele permitiu que Lúcifer embarcasse numa grande experiência de maldade.

Alícia crê que quando o Universo todo se convencer de que Deus tem razão e que Satanás está errado, então Deus porá fim à experiência. Entrementes ela e milhões de outros penam uma existência torturada neste globo -- como muitos ratos brancos num laboratório.

O que está acontecendo dentro deste laboratório não é agradável, mas contribui para algum bem maior.

Sim, ela reconhece tudo isso, mas pode você imaginar como tudo soa a Alícia agora? Provavelmente algo assim: Deus dispôs-Se a provar algo -- Ele mesmo. Satanás disse que Deus é egoísta, arbitrário, exigente, não realmente bom. Assim Deus dá a Satanás a oportunidade de Se defender.

E a verdadeira natureza de Satanás torna-se visível. Vêmo-lo nos desastres, nas doenças e nas mortes ao nosso redor.

Claramente, o tema do grande conflito tem muita capacidade explanatória. De todas as explicações para a existência do sofrimento, é provavelmente a mais convincente. Mas não devemos permitir que ela nos faça complacentes.

Se aceitamos o tema do grande conflito como uma das melhores explicações para o mal que tem infectado nosso planeta, não podemos ignorar o sofrimento de Alícia como algo aceitável porque apóia uma boa causa -- a vindicação do caráter de Deus.

Além disto, parece egoísmo da parte de Deus permitir todas as atrocidades deste mundo infligidas a bilhões de Suas criaturas por milhares de anos somente para provar que Ele tem razão e que Satanás está errado. Que espécie de Deus permitiria o que se passou nas últimas 24 horas -- para não dizer nos últimos 6.000 anos -- simplesmente para demonstrar que Ele -- não outro -- tem razão?

Quando apelamos à grande controvérsia para vindicar a Deus em face de doenças como a de Alícia, simplesmente não podemos passar por alto este sofrimento com um palavreado floreado. Se o fizermos, estaremos usando de métodos diabólicos, fazendo a obra do diabo.

"É melhor ... ficar sem resposta do que aceitar uma resposta inadequada." (Arthur J. Bachrach, Psychological Research: An Introduction, pág. 17.)

Et cétera

Outras explicações possíveis são também oferecidas aos sofredores. E como as poucas que examinamos brevemente, elas também têm faltas graves, especialmente quando aplicadas a casos individuais. A existência da doença, desastre e morte permanece um absurdo. À vista de tantas explicações falhas, é provável que nenhuma solução seja melhor.

Então, qual é a última palavra sobre o mal?

Temos examinado algumas das explicações que têm sido oferecidas para a presença vil do mal. Cada uma tem seu mérito, mas também algum sério defeito. Como podemos evitar fazer a obra de Satanás ao tentarmos defender Deus em face de desastre, doença e morte?

Primeiro, quando explicamos o propósito do sofrimento e a relação de Deus com ele, precisamos permanecer sensíveis ao enigma do mal. Quando inventamos teorias sobre o por quê pessoas sofrem, a tentativa mesma tende a encorajar apatia da parte daqueles que estão formulando uma teoria. Defesas de Deus que procuram lidar com o problema do mal não devem diminuir nossa sensibilidade moral. O mal, onde quer que surja, deve indignar-nos. O sofrimento, onde quer que ocorra, deve despertar nossas emoções mais ternas.

Segundo, a fim de manter nossa sensibilidade enquanto defendemos Deus e Sua relação com o mal, precisamos fazer duas coisas. Primeira, precisamos sempre sentir com os que sofrem. Precisamos tentar colocar-nos em seu lugar. Não é sempre fácil projetar-nos na situação de outro, mas se não tentarmos fazê-lo, ficamos calejados. E mais cedo ou mais tarde o calejamento se transforma em frieza, e com o tempo a frieza se converte em crueldade.

Segunda, precisamos sempre criticar nossas teorias. Não devemos ficar de tal modo enamorados de nossas teodicéias que percamos de vista suas fraquezas inerentes.

Terceiro, devemos nos lembrar que Deus não precisa de nossas tentativas frágeis de defendê-Lo. Os cristãos gostam de pensar que Deus não precisa de seu dinheiro -- embora essas pessoas insistam sobre a importância de uma mordomia fiel. Semelhantemente, devemos reconhecer que Deus não precisa de seres humanos para racionalizar Sua relação com o Universo.

Quarto, reconhecer que a existência do sofrimento é tão inexplicável como a existência do pecado. A maioria dos cristãos crê que o desastre, a doença e a morte de algum modo seguem ao pecado. Não é fácil detectar uma relação direta de causa e efeito entre comer um simples pedaço de fruta no Éden e os eventos calamitosos que diariamente mancham a existência em nosso planeta. Mas se há uma relação -- como a tradição afirma -- então a resposta à pergunta: Por que o pecado? devia lançar alguma luz sobre a questão: Por que o sofrimento?

O problema é que o pecado não tem uma explicação lógica. É por isso que as Escrituras o chamam um mistério -- o mistério da iniqüidade (II Tessalonicenses 2:7). "O pecado é um intruso, por cuja presença nenhuma razão se pode dar...Se para ele se pudesse encontrar desculpa, ou mostrar-se causa para a sua existência, deixaria de ser pecado."3 Com efeito, o mal físico ao nosso redor é tão bizarro como o mal moral que tem devastado nosso planeta. Queiramos ou não, nosso planeta tornou-se um teatro do absurdo. Se somos honestos conosco, com outros e com as Escrituras, precisamos admitir que nossas explicações carecem de convicção. O mal é um enigma que desafia explicação.

Goethe disse certa vez: "Se eu fosse Deus, este mundo cheio de sofrimento quebrantaria meu coração." (Citado por JonTal Murphree, A Loving God and a Suffering World, pág. 85.)

Quando Deus derrama lágrimas

Alícia ainda está no hospital. Sua infecção ainda se alastra. A quimioterapia a mantém balançando à beira da morte.

Mas o que dizer sobre o Deus da Bíblia? Onde está Ele neste tempo de sofrimento trágico? Que está Ele fazendo?

Temos uma pista na experiência de Maria e Marta quando seu irmão Lázaro morreu. Onde estava Jesus? Vêmo-Lo de pé junto ao sepulcro de Lázaro. E "Jesus chorou" (João 11:35).

À porta do sepulcro de Lázaro, Deus (em Jesus) uniu-Se a Maria e Marta, seus vizinhos e conhecidos derramando lágrimas.

Achamos a mesma situação no Antigo Testamento. "Então Se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na Terra, e isso Lhe pesou no coração" (Gênesis 6:6).

Isaías registra que "em toda angústia deles foi Ele angustiado" (Isaías 63:9).

Jeremias registra a mesma reação da parte de Deus: "Por isso uivarei por Moabe, sim gritarei por todo o Moabe; pelos homens de Qir-Heres lamentarei; chorarei por ti, como Jazer chora" (Jeremias 48:31-32).

Não só nossa aflição comove a Deus, mas também somos encorajados a lançar "sobre Ele toda a vossa ansiedade; porque Ele tem cuidado de vós" (I Pedro 5:7). E Paulo é enfático: "Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem vida, nem anjos, nem principados, nem coisas do presente, nem do porvir, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos 8:38-39).

A doença de Alícia não significa que Deus a abandonou. Em sua dor não deve imaginar que Deus está aborrecido. "Freqüentemente vosso espírito se poderá nublar por causa do sofrimento. Não busqueis pensar então. Sabeis que Jesus vos ama. Ele compreende vossa fraqueza. Podeis fazer Sua vontade com o simples repousar em seus braços."4

Vendo Alícia sofrer, Deus mesmo derrama lágrimas.

Isto é confortador, mas é isto tudo que Deus faz? É Ele um Deus compassivo mas impotente que torce Suas mãos em frustração ao chorar em simpatia? Não.

Volvamos a Maria, Marta e Lázaro. Disse Jesus: "Tirai a pedra" (João 11:39). Então depois de breve oração, Jesus, que é Deus encarnado, comandou: "Lázaro, vem para fora!" (verso 43).

E "saiu aquele que estivera morto" (verso 44).

Deus não só derramou lágrimas. Ele repeliu a morte.

John Bowker, orador sobre a divindade para a Universidade de Cambridge, observou: "O senso de que nenhum sofrimento pode separar o cristão de Cristo (porque o Seu próprio sofrimento não O separou de Deus) é extremamente forte no Novo Testamento." (Problems of Suffering in Religions of the World, págs. 73-74.)

Nossas aflições comovem a Deus, mas também O movem a revelar Seu propósito. Nem sempre veremos a evidência de Seu poder hoje ao enfrentarmos desastre, dor e morte. Podemos, ao contrário, apenas sentir Suas lágrimas. Não obstante, o Novo Testamento torna claros os propósitos de Deus. Por fim, Deus fará novas todas as coisas (Apocalipse 21:5).

Um dia "Ele enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram" (verso 4).

E ao enxugar Deus as lágrimas de nossos olhos, imagino que Ele enxugará os Seus uma vez mais. Então o Deus que derrama lágrimas jogará fora para sempre Seu lenço divino.

Richard W. Coffen é editor de livros da Review and Herald Publishing Association, Hagerstown, Maryland, E.U.A. É autor de muitos artigos e livros, incluindo When God Sheds Tears (Review and Herald, 1994), do qual este artigo foi resumido.

Notas e Referências

  1. Ellen G. White, Testimonies for the Church (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publ. Assn., 1948), vol. 6, pág. 280.
  2. White, Evangelismo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1978), pág. 261.
  3. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), pág. 493.
  4. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), pág. 251.