Há Esperança para os Não- Evangelizados?

Qual é a sorte daqueles que não tiveram oportunidade de ouvir de Jesus? Serão eles salvos ou perdidos?

Estas perguntas levam a outras questões importantes. Como se relaciona o cristianismo com outras religiões? É o cristianismo de fato único no gênero? Deviam cristãos ser missionários? Não é missão um conceito colonial?

Estes não são problemas novos. Eles têm sido ponderados e debatidos por séculos. Mas com o mundo se transformando em uma vila, com sua população ultrapassando cinco bilhões e com suas religiões se tornando a fé da vizinhança, o problema assume maior importância hoje do que em qualquer outro tempo. Nesta situação complexa, os cristãos precisam permanecer leais a seu Senhor e ao mesmo tempo achar respostas que satisfaçam suas próprias mentes e sejam razoáveis aos que não partilham de sua fé.

No curso dos anos, teólogos cristãos desenvolveram três respostas básicas às perguntas acima.1

Resposta 1: Restritivismo

O restritivismo mantém que todos os que não foram evangelizados estão perdidos. A menos que as pessoas ouçam a mensagem de Jesus e aceitem-na, não têm esperança. Esta tem sido a crença mais geral através da história cristã. Agostinho mantinha esta opinião, como também João Calvino. Muitos evangélicos modernos continuam a crer nela e pregá-la.2 Contudo, muitos cristãos hoje não aceitam esta posição.

A força desse conceito jaz em sua motivação poderosa a favor de missões. J. Hudson Taylor, o grande missionário britânico do último século, fundou sua sociedade missionária nesta base. Proclamando que milhões de chineses desciam à sepultura condenados à morte eterna, Taylor moveu milhares a dar de seu dinheiro, tempo e até a vida para o interior da China. Muitas sociedades missionárias do século 20 continuam a fazer o mesmo.

Os restritivistas acham apoio para sua posição em passagens bíblicas tais como João 3:36 ("Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus") e I João 5:12: ("Aquele que tem o Filho tem a vida, aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida.").

O restritivista tem um problema. Como pode alguém crer num Deus justo e amante se pessoas se perderão porque não tiveram oportunidade de ouvir as boas novas de Jesus, não por culpa deles?

Observando um filme sobre missionários, da British Broadcasting Corporation, fiquei ciente disto de um modo vívido. O cenário era uma clareira no matagal denso da Nova Guiné. Um jovem casal de missionários evangélicos estavam sentados juntos ao serem entrevistados.

Perguntas lhes foram feitas sobre seu trabalho com uma tribo nunca dantes alcançada por missionários cristãos. Tendo observado o entrevistador em ação anteriormente, eu podia adivinhar o que viria. Ele não me desapontou. Olhando diretamente para a jovem esposa, o repórter perguntou: "Crê você realmente que esta tribo estaria perdida eternamente se você não tivesse vindo ensinar-lhes sobre Jesus? Você há pouco declarou como é amável este povo. Por que faria Deus isto?"

A câmara enfocou seu rosto, que denotava agitação e incerteza. Claramente ela fora ensinada que a resposta deveria ser "sim", mas era tão difícil dizê-la e defendê-la em tal situação. Em desespero ela voltou-se para o marido que se esforçou para dar uma resposta. A entrevista continuou, mas o objetivo havia sido alcançado.

Resposta 2: Universalismo

O universalismo mantém que todos os religiosos sinceros serão salvos. A maior parte dos universalistas cristãos vê isto como sendo efetuado por obra e mérito de Jesus. Embora haja muitas explicações diferentes sobre como isto ocorre, uma coisa é certa: no fim todos os não-evan-gelizados -- mesmo os que agora são rebeldes -- serão salvos. Uma minoria dos universalistas crê que Deus salvará todos a despeito de suas escolhas. Um número maior mantém que Deus continuará trabalhando com as pessoas até todas finalmente se convencerem de que o caminho de Deus é o melhor.

O universalismo foi advogado na igreja primitiva pelos escritos de Origens. Caiu em desfavor e foi reavivado depois da Reforma. Desde 1800 vem ganhando força tanto entre protestantes como católicos romanos. Parte desse desenvolvimento resulta da repulsa que muitos cristãos sentem ante a posição restritivista. Proponentes bem conhecidos do século 20 incluem biblicistas britânicos como William Barclay e John A. T. Robinson, bem como o teólogo norte-americano Paul Tillich.

Entre os textos favoritos dos universalistas se encontram I Timóteo 4:10, em que Paulo fala de Deus que é "Salvador de todos os homens"; Tito 2:11: "Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens"; e João 12:32, em que Jesus declara: "E Eu quando for levantado da Terra, atrairei todos a Mim mesmo."

A força da posição universalista é seu conceito de Deus. Um Ser divino que no final salva a todos pode ser visto como amoroso e longânimo.

Por outro lado, os universalistas, se tomarem a Bíblia seriamente, têm dificuldade em explicar por que Jesus manda Seus seguidores levar Sua mensagem de salvação "até os confins da Terra" (Atos 1:8) e fazer "discípulos de todas as nações" (Mateus 28:19). Por que testemunhar se todos, em toda parte, serão salvos afinal?

Resposta 3: Inclusivismo

Entre os dois extremos do restritivismo e do universalismo está o inclusivismo, ou a "esperança mais ampla". Este conceito mantém que por causa daquilo que Deus fez mediante Jesus Cristo, todos os sinceros indagadores religiosos serão salvos. Se bem que Jesus seja a base da salvação, Ele pode salvar indagadores verdadeiros de outras religiões ou de nenhuma religião que nunca souberam dEle. O inclusivismo difere do universalismo pelo fato de que pessoas que não são indagadoras verdadeiras se perdem.

Presentemente o inclusivismo está ganhando aderentes, freqüentemente com prejuízo do restritivismo. João Wesley, o fundador do metodismo e C. S. Lewis, o popular escritor cristão, estão entre aqueles que apoiaram o inclusivismo.

Que crêem os inclusivistas sobre como a salvação se efetua? Alguns mantêm que Deus de algum modo dá a todos a oportunidade de ouvir de Jesus e tomar sua decisão. Um grupo admite uma evangelização especial efetuada depois da morte, enquanto outros vêem-na ocorrendo antes da morte. Ainda outro grupo crê que Deus não precisa evangelizar essa gente. Como Ele sabe todas as coisas, Ele pode simplesmente julgá-los na base de como teriam respondido se tivessem ouvido a mensagem.

Provavelmente o maior grupo sente que a sincera busca de Deus e fazer o que é correto é tudo que importa para que a salvação se realize. Todos desta opinião concordam que Deus pode salvar as pessoas mesmo sem contato com um missionário cristão de carne e osso.

Como base bíblica para sua posição, os inclusivistas freqüentemente utilizam textos usados por universalistas e até restritivistas, mas os interpretam diferentemente. Interpretariam "Salvador de todos os homens" como significando a acessibilidade da salvação para todos, e não a necessidade de salvação. Os textos usados pelos restritivistas falam da necessidade de "ter o Filho", ou "obedecer o Filho". Os inclusivistas compreendem estes textos como significando que os não-evangelizados poderiam obter a salvação sem explicitamente conhecer o nome ou a identidade de Jesus.

Os inclusivistas pretendem que podem defender a bondade de Deus. Embora alguns se percam é por sua própria escolha. Deus respeita sua escolha, não os forçando a viver no Céu.

Princípios importantes de avaliação

Quando estudamos essas várias opiniões, devemos ter em mente quatro princípios cruciais:

1. Cristãos sinceros e amantes da Bíblia estão em todos os três grupos. Devemos resistir à tentação de julgar aqueles que discordam de nosso ponto de vista como se fossem menos que cristãos. Advogados de quaisquer desses pontos de vista poderiam dar um extenso estudo bíblico em apoio de sua posição. Se a Bíblia fosse inteiramente clara sobre o assunto, provavelmente não haveria tanta variação. Por razões que só Deus sabe, as Escrituras não tratam deste tópico tão claramente como gostaríamos.

2. Cristãos deveriam manter a centralidade e soberania de Jesus. Cristãos deveriam tomar seriamente as palavras de Atos 4:12: "E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos." Infelizmente, alguns conceitos extremos negam ou o poder de Jesus ou a posição única de Sua pessoa.

Muitos restritivistas parecem limitar o poder de Jesus. Ele pode, crêem eles, salvar apenas aqueles que podem ser alcançados por um missionário. Creio que o Cristo ressurreto, a única fonte de salvação, tenha com efeito a habilidade de salvar as pessoas por meios fora deste único método. Esforçando-se para tomar a Jesus seriamente como a fonte de salvação, restritivistas podem com efeito negar algo de Seu poder soberano. Alguns universalistas parecem negar a posição única de Jesus e sugerir que a salvação pode ser achada fora dEle. Dois autores modernos que advogam essa opinião são John Hick e Paul Knitter. Hick afirma: "Pode ser que uma [religião] facilita a libertação/salvação mais do que outras, mas se assim é, não é evidente à visão humana. Tanto quanto podemos dizer são todas igualmente produtivas da transição do eu para a realidade que podemos ver nos santos de todas as tradições."3

Creio que Jesus é único e que Ele é o único caminho para a salvação, mas também sinto que indagadores sinceros de outras religiões podem ser salvos. Gente que está perdida não precisa necessariamente saber nesta vida a fonte exata de sua salvação. Em suma, precisamos rejeitar a opinião que limita o poder de Jesus ou nega o lugar especial que as Escrituras lhe dão.

Por que deveria participar na Missão?

  • Por causa da grande necessidade de pessoas. Jesus viu as multidões "desgarradas e errantes como ovelhas que não têm pastor" (Mateus 9:36). Este é o motivo que Ele deu para enviar obreiros à colheita. Necessidades espirituais, sociais, familiares e físicas esmagam nosso mundo hoje.
  • Por que Jesus o ordena. A grande tarefa é uma ordem, não uma sugestão. Jesus sabia o que dizia. Mesmo sem entender todos os motivos, os seguidores de Jesus gostam de obedecer Suas ordens (ver Mateus 28:18-20; Marcos 16:15-16; Lucas 24:48-49; João 20:21; Atos 1:8).

3. Os cristãos precisam manter um equilíbrio entre o amor e a justiça de Deus, e a ordem clara de testemunhar. A Bíblia repetidamente enfatiza o amor e a justiça de Deus como essencial para Seu caráter. Ela também encoraja os cristãos a ir e partilhar sua crença em Jesus com outros (ver Mateus 9:37-38; 28:16-20; Lucas 24:46-49; Romanos 10:13-17; Atos 1:8).

Prefiro chamar-me um inclusivista conservador. Tal posição parece mais próxima de um equilíbrio real entre o amor de Deus e a validade de missão. Tanto o restritivismo como o universalismo deixam de alcançar um tal equilíbrio.

Creio que Deus comumente salva pessoas mediante mensageiros humanos partilhando Suas boas novas. Também creio que Deus é imparcial e amante e não limitado pelo nosso fracasso de dar a mensagem. Ele lê o coração das pessoas e julga de acordo. Embora Jesus seja sempre a base da salvação de qualquer um, alguns que nunca ouviram Seu nome ainda podem ser salvos por Ele.

Esta ênfase equilibrada aparece nos escritos de Ellen White. De um lado, ela enfatiza que muitos estão perecendo por deixarmos de alcançá-los: "Multidões perecem por falta de ensino cristão. Ao pé de nossa porta e em terras estrangeiras, estão pagãos por instruir e salvar. Quando Deus... nos tem tão abundantemente dado um salvador conhecimento de Sua verdade, que desculpa teremos nós de permitir que ascendam aos Céus os clamores dos... ignorantes e perdidos?"4

Por outro lado, Ellen White indica claramente como alguns pagãos serão salvos: "Há, entre os gentios, almas que servem a Deus ignorantemente, a quem a luz nunca foi levada por instrumentos humanos; todavia não perecerão. Conquanto ignorantes da lei escrita de Deus, ouviram Sua voz a falar-lhes por meio da Natureza, e fizeram aquilo que a lei requeria. Suas obras testificam que o Espírito Santo lhes tocou o coração, e são reconhecidos como filhos de Deus."5

4. Um estudo cuidadoso mostra que às vezes outras questões são mais apropriadas do que a questão da "salvação". Não me interpretem mal. Creio que salvar os que estão sem o evangelho é muito importante. Cristãos bem informados deviam ter uma boa resposta para este problema. Mas também creio que em algumas situações, especialmente em que crentes podem partilhar sua fé livremente, outras questões são mais proveitosas: Como está Deus operando na vida desta pessoa? Que posso eu fazer para adiantar o processo? Como opera Deus em situações divergentes? Tais perguntas deixam a salvação nas mãos de Deus e nos levam a ver como podemos cooperar com Ele.

Nosso compromisso

Quando tudo é dito e feito, a evidência cristã devia centralizar-se em Jesus. Circunstâncias podem se tornar hostis, quando adeptos de outras religiões pensam que insinuamos que os cristãos são melhores do que os crentes de outras religiões. Esta certamente não é nossa pretensão. O que é especial acerca de cristãos é que Jesus é o único Deus-homem e o caminho único a Deus o Pai. Estas são boas novas que nada têm que ver com a bondade ou maldade de qualquer pessoa ou sistema religioso. Nossa tarefa principal é relatar esta história amável e persistentemente, e deixar que Deus decida sobre quem será salvo.

Nossa crença deve também preservar a centralidade da missão. Não estou tão preocupado com a sorte dos que não foram evangelizados como estou com nosso comprometimento de obedecer à ordem de Jesus de proclamar as boas novas a todos os povos. A igreja -- isto é, nós -- vive e morre sobre a base de nossa obediência a nossa missão.

Jon L. Dybdahl (Ph.D., Fuller Theological Seminary) é diretor do Instituto de Missão Mundial na Andrews University, Berrien Springs, Michigan, E.U.A.

Notas e Referências

  1. Para um excelente resumo das posições principais, ver John Sanders, No Other Name: An Investigation Into the Destiny of the Unevangelized (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1992).
  2. Uma pesquisa de 5.000 evangélicos que freqüentaram a Urbana Mission Conference de 1975 mostrou que 37 por cento podiam ser classificados como restritivistas.
  3. John Hick, Problems of Religious Pluralism (New York: St. Martin's Press, 1985), págs. 86-87.
  4. Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), pág. 288.
  5. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), pág. 638.