Racismo Versus Cristianismo

O racismo é quase tão velho quanto a raça humana. Ele aparece em muitas formas, tanto explícita como camufladamente. Racismo existe quando permitimos que cor, casta, língua, nacionalidade, tribo, etnia ou cultura, possam de alguma maneira erigir uma parede entre pessoas, individual ou coletivamente, de maneira a fazer que alguém expresse desprezo, preconceito ou domínio sobre outrem.

A idéia de que algumas pessoas são inerentemente superiores ou inferiores pode ser derivada da religião (sistema de casta na Índia ou purificação étnica na Bósnia), da superioridade econômica (colonialismo), do chauvinismo (nazismo, apartheid, tribalismo) ou de uma premissa genética falsa (Ku Klux Klan). Qualquer que seja o fator, o racismo afirma que os seres humanos não possuem os mesmos valores intrínsecos e idêntica dignidade.1

Mas seria o racismo realmente uma religião, como sugere o título deste artigo? Por que e de que maneira seria o racismo incompatível com o cristianismo? Na qualidade de adventistas, que podemos fazer para promover normas bíblicas nas relações humanas?

Racismo _ uma religião

A antropóloga Ruth Benedict salienta que o racismo é uma religião estabelecida numa mundivisão naturalista. Racismo, afirma ela, é "o dogma que postula estar um grupo étnico condenado pela natureza a uma inferioridade hereditária, enquanto outro grupo está destinado a uma superioridade hereditária. Segundo este dogma a esperança da civilização depende da eliminação de algumas raças enquanto outras são preservadas puras".2

Aqueles que acreditam ou praticam a superioridade ou inferioridade inerente de um grupo de indivíduos sobre outro, podem não admitir, todavia, que eles estão de fato aderindo a uma religião que lhes é própria. No entanto, o racismo partilha de todas as caraterísticas essenciais de uma religião, seja secular ou sobrenatural.3

Como religião, o racismo oferece um sentimento de poder. Os racistas fazem da raça superior o valor central ou o objeto de devoção. Conseqüentemente, nessa religião, os membros encontram o "poder de ser" através da adesão e identificação com a raça superior. O poder do racismo toma duas formas distintas: o racismo legal pelo qual práticas discriminatórias são codificadas nas leis do país (o apartheid, o nazismo, a escravatura); e o racismo institucional em que práticas raciais, mesmo sem o apoio legal, são imperceptivelmente construídas em diversas estruturas sociais.

Na qualidade de religião, o racismo possui as estruturas comuns à religião. Ele possui sua própria ideologia (arianismo, supremacia branca, poder da raça negra, triunfalismo tribal), realidades tangíveis (suástica), um semideus (Hitler), credos, crenças, mitos, rituais e práticas (cerimônias de purificação, cultos místicos), simbolismos, cultos comunitários (asserções periódicas do grupo) e até mesmo valores morais (como os conceitos do "certo ou errado" definidos segundo as percepções e prioridades do grupo).

Na qualidade de religião, o racismo compete com outras religiões. As religiões tradicionais apelam para o sobrenatural, para figuras e valores extraterrenos, enquanto que o racismo é mais terrestre e secular. Ele pode competir com outras religiões e explorá-las para seus fins próprios. Por exemplo, considere como o nazismo tentou destruir o cristianismo autêntico enquanto cooperava com as igrejas subjugadas.

A religião apela para um líder supremo, condena os males da sociedade, procura prover respostas aos problemas sociais, exalta elevados ideais de justiça, eqüidade e irmandade, requer absoluta obediência e sacrifício próprio e possui o seu próprio livro de código. Tal acontece com o racismo, embora restrito ao seu próprio grupo composto de seres humanos superiores.

Racismo e cristianismo: a incompatibilidade

O racismo é totalmente incompatível com o cristianismo. Os Adventistas do Sétimo Dia precisam entender isso pela simples razão de que o racismo, ao usar a capa da religião, se torna tão facilmente domesticado que até mesmo os cristãos sinceros são incapazes de reconhecer seus perigos, tornando-se vítimas de sua insistência na superioridade étnica. O cristianismo autêntico se dissocia e condena qualquer forma ou prática de racismo. Enumeraremos sete áreas importantes nas quais o evangelho da graça rejeita a loucura do racismo.4

Epistemologia. A Bíblia ensina que o conhecimento da verdade e da realidade vem "do alto": proveniente de uma revelação de Deus em Jesus e na Palavra escrita (João 17:3; II Timóteo 3:15-17). O racismo, por outro lado, apela para as "fontes de baixo", que pressupõem a existência de uma alegada raça superior, contendo várias versões de orgulho étnico. Por exemplo, os brancos racistas no século 19 encontraram uma epistemologia confortável na teoria de Darwin sobre a sobrevivência do mais forte. Através dessa teoria, os europeus encontraram confirmação de que "eles eram os mais fortes de todos".5 Herbert Spencer, argumentando em favor do darwinismo social, afirma que algumas raças são "por natureza incapazes" por serem biologicamente e inerentemente inferiores. Tais argumentos fornecem a "permissão suprema para regras sociais de dominação" e "outorga credenciais espúrias ao racismo".6

Outra fonte de conhecimento para o racista é a compreensão subjetiva e derrogatória da outra raça, que é solidificada por crenças exageradas, mitos, estereótipos e piadas. Para se obter um entendimento cabal daquilo que se passa num determinado contexto social, é necessário pertencer a uma raça particular e adotar suas interpretações da realidade.

A versão racista da verdade ignora ou rejeita assim a asserção bíblica de que todos os seres humanos, criados à imagem de Deus, têm a capacidade de compreender, ter empatia, apreciar e comunicar entre si, a despeito do contexto racial. Ao rejeitar a revelação bíblica, o racista busca na sociologia, antropologia, história e ciência, a maneira de explicar e encarar os problemas raciais. O racismo pode às vezes consultar a Bíblia, mas somente para encontrar apoio para suas posições.7

Criação. A doutrina bíblica da Criação estabelece a unidade e igualdade biológica da raça humana. A declaração paulina de que Deus "de um só fez a geração dos homens" (Atos 17:26) enfatiza a singularidade de Deus e a singularidade da humanidade. A pressuposição racista da inferioridade de algumas raças não somente nega esse princípio bíblico, como afronta o caráter de Deus, ao sugerir que Ele é responsável dos supostos defeitos em algumas das espécies humanas.

Além disso, uma teologia racista implica que algumas pessoas não fazem parte da família humana a quem Deus confiou o domínio sobre a ordem criada (Gênesis 1:26), e que tais podem ser subjugados e explorados por uma raça superior. T. F. Torrence argumenta corretamente que o "racismo é uma invasão da própria ordem da Criação", e funciona em "oposição direta ao propósito divino da graça, sobre o qual toda a criação depende".8

A natureza dos seres humanos. O ensino bíblico de que os seres humanos são criados à imagem de Deus implica que, como agentes morais livres, eles fazem escolhas das quais terão que prestar conta a Deus e a eles mesmos na comunidade.

O racismo rejeita a doutrina bíblica da humanidade e apela para o determinismo genético ou biológico a fim de sustentar suas reivindicações racistas. Quando o racismo ensina, por exemplo, que algumas raças são, por natureza, fisicamente fracas, intelectualmente limitadas ou moralmente inferiores, tal determinismo limita o potencial e a atuação humana, negando a responsabilidade humana perante Deus _ algo básico na mundivisão bíblica (ver Atos 17:31; Apocalipse 14:6).

O pecado e a depravação humana. A Bíblia ensina que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Romanos 3:23; ver também 5:12; I Coríntios 15:22). O pecado original e a conseqüente degradação e morte que vierem a todos os seres humanos são resultados do pecado de Adão (Romanos 5:12-21). Mas o argumento racista de uma raça superior/inferior não vê problemas, tais como a Queda e o pecado. O argumento racista é de uma hierarquia em depravação: quanto maior a suposta inferioridade da raça, maior a depravação.

Mesmo que a teologia racista admita que a raça superior também caiu, ela reinterpreta a natureza da Queda. O racismo vê nas chamadas raças inferiores uma dupla queda: a primeira por causa da queda de Adão, e a segunda, uma queda "racial" particular. Conseqüentemente, para o racista a mistura racial resulta na perda da pureza da raça. Assim é que Hitler no seu Mein Kampf sustentou a tese de que a raça superior experimenta uma queda cada vez que ela permite que seu sangue se misture com o da raça inferior.

Como poderá tal crença ser compatível com a reivindicação bíblica de que a raça humana, em sua totalidade, tem uma origem e um problema comum?

O Grande Conflito. A Bíblia apresenta um conflito cósmico entre Cristo e Satanás (Efésios 6:10 e seguintes). O assunto central desse conflito é o caráter amoroso de Deus e sua atuação e exigência da ordem criada. Como religião, o racismo também reconhece a existência de um conflito entre forças superiores, mas seus participantes estão divididos em linhas raciais: Deus e Seus anjos são forjados à imagem da raça superior, enquanto que Satanás e seus anjos formam a essência da raça inferior. Esse dualismo ajuda o racismo a criar a dicotomia "nós-contra-vós".

Essa plataforma cósmica também ajuda o racismo a falar de um golfo intransponível entre raças.9 A única maneira de se obter harmonia racial é fazer com que cada raça descubra seu lugar na sociedade. Para evitar conflitos, os dois mundos devem ser mantidos à parte, separados e segregados.10

Mas a visão bíblica do Grande Conflito antecipa uma reunião final de toda a família de Deus com "uma única palpitação de harmonioso júbilo...por toda a vasta criação".11 Quando o evangelho de Jesus exige a prática da unidade na Terra, como pode o racismo com seu ódio e segregação ser compatível com o cristianismo?

Redenção. O racismo contradiz a doutrina cristã da redenção. A expiação substitutiva em favor do pecado realizada na cruz, redime todos os seres humanos que escolhem aceitar a Jesus, sem tomar em consideração qualquer diferença entre eles (João 3:16; Romanos 1:16; Gálatas 3:26-28). A cruz também assegura uma consumação escatológica da redenção na Nova Terra (João 14:1-13; I Tessalonicenses 4:14-17; II Pedro 3; Apocalipse 21). Na teologia racista, todavia, os seres humanos (a raça superior) procuram efetuar sua própria redenção: "A essência da redenção é a renovação racial, o reavivamento da raça superior através de técnicas de purificação."12 Através de técnicas tais como eugenia, esterilização, guerra, limpeza étnica, etc., a escatologia racista almeja proteger os genes superiores contra a debilitação da raça inferior. Isso implica que a raça superior deve procriar enquanto a inferior deve ser eliminada.13

Ética. A ética cristã opõe-se totalmente à ética racista. A primeira baseia- se na "santidade da vida humana", brotada da doutrina da Criação. A Bíblia apresenta os Dez Mandamentos como a mais explícita norma de conduta humana, e Jesus como o exemplo supremo para a humanidade.

O racismo, todavia, eleva a doutrina da "qualidade-da-vida-humana", que sugere ser a personificação do ser humano determinada por suas caraterísticas biológicas, tendo algumas pessoas apenas um valor relativo. Segundo a ética da "qualidade-da-vida-humana",14 alguns seres humanos não são realmente "pessoas" e conseqüentemente, podem ser exploradas. Assim é que em 1857, no infame caso do Dred Scott, o juiz Roger Taney da corte suprema dos Estados Unidos pôde argumentar: sendo que os pretos são de uma ordem inferior, "o preto deve ser legalmente e justamente reduzido à escravidão para seu próprio benefício. Ele foi comprado, vendido e tratado como um artigo ordinário de mercadoria e tráfico, desde que certo lucro pudesse ser obtido através disto".15

Filosofia da história. A Bíblia vê a história como se desenrolando sob a soberania de Deus. Deus trouxe a criação à existência para que se tornasse a "arena da história"; Ele criou o tempo para medir o "movimento da história"; e formou os seres humanos para serem uma "entidade habitando a história".16

Segundo a religião racista, todavia, a raça superior é o centro da história humana. O racista crê que somente "uma raça [a raça superior] trouxe progresso à história humana e ser ela a única que pode assegurar o progresso futuro".17 Assim o racista não somente ignora, diminui e distorce a história das outras raças, mas também recusa ouvi-las ou delas aprender. Afinal, existe apenas uma história: a história da raça superior tal como ela a interpreta.18

Embora não se possa culpar o racismo pela falha humana em reconhecer a contribuição e os potenciais de outros povos, é intrigante constatar como o racismo, de maneira sutil, influenciou a procrastinação da igreja em conceder a todos os cristãos igual oportunidade em sua vida e missão.

O racismo e os adventistas: o desafio

Os Adventistas do Sétimo Dia têm uma oportunidade única de lidar com o assunto do racismo tanto na igreja como na sociedade. Consideremos três vantagens que temos.

Ser o remanescente. Quando nos identificamos como o remanescente, reivindicamos ser o povo de Deus do tempo do fim, que guarda os mandamentos de Deus e tem o testemunho de Jesus (Apocalipse 14:12). Tal reivindicação deve levar-nos a reconhecer, tanto na proclamação como na prática, que o direito de pertencer ao povo remanescente não depende do nascimento natural mas espiritual (João 3:3-21); não do sangue étnico mas do sangue redentor de Cristo (Hebreus 9:14-15); não de uma raça superior mas da raça santa (I Pedro 2:9).

Ter uma missão global. Com nossa fé, nossa missão e nossa estrutura empenhada em criar uma família escatológica global, devemos combater tudo que crie separação entre um povo e outro. O racismo prejudica o corpo de Cristo e destrói sua missão global. Fomos chamados para louvar e proclamar Aquele que com Seu sangue resgatou "para Deus homens de toda a tribo e língua, e povo e nação" (Apocalipse 5:9; ver também 14:6).

Adotando um nome. Nosso nome exige uma rejeição do racismo e uma demonstração de harmonia.19 Quando reivindicamos o sábado do sétimo dia, afirmamos também ser Deus o Criador e Pai de toda a raça humana, e, conseqüentemente, sustentamos a idéia de que todos os povos são irmãos. Reivindicar o componente "adventista" em nosso nome implica vislumbrar um tempo e lugar em que pessoas "de toda nação, tribo, povo e língua" viverão juntas em perfeita paz.

Que tal grupo humano, proveniente de cada nacionalidade, raça e língua possa realmente existir, será uma maravilha a ser contemplada. Entretanto, a igreja deve ser "um tipo de modelo preliminar, numa escala reduzida e imperfeita, daquilo que será o estado final da humanidade no desígnio de Deus".20

Nascido em Ghana, Samuel Koranteng-Pipim é um candidato doutoral na área de Teologia Sistemática no Seminário Teológico da Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos.

Notas e Referências

  1. Stephen Jay Gould, "The Geometer of Race", Discover (November 1994): 65-69.
  2. Ruth Benedict, Race: Science and Politics (New York: Viking Press, 1959), pág. 98.
  3. Para uma discussão construtiva sobre a natureza, caraterísticas e tipos de religião, veja Elizabeth K. Nottingham, Religion and Society (New York: Random House, 1954), págs. 1-11.
  4. Uma discussão detalhada pode ser encontrada em meu artigo "Saved by Grace and Living by Race: The Religion Called Racism", Journal of the Adventist Theological Society 5:2 (Autumn 1994): 37-78.
  5. Alan Burhs, Colour Prejudice (London: George Allen and Unwin Ltd., 1948), pág. 23; citado em T. B. Maston, The Bible and Race (Nashville, Tenn.: Broadman Press, 1959), pág. 64.
  6. Ver Stephen T. Asma, "The New Social Darwinism: Deserving Your Destitution", The Humanist 53 (September-October 1993) 5:12.
  7. Ver Matson, págs. 105-117; Cain Hope Felder, "Race, Racism and the Biblical Narratives", em Stony the Road We Trod, Cain Hope Felder, ed. (Minneapolis: Fortress Press, 1991), págs. 127-145.
  8. T. F. Torrance, Calvin's Doctrine of Man (London: Lutherworth Press, 1949), pág. 24.
  9. Lewis C. Copeland, "The Negro as a Contrast Conception", em Edgar T. Thompson, ed., Race Relations and the Race Problem (New York: Greenwood Press, 1968), pág. 168.
  10. Ver George D. Kelsey, Racism and Christian Understanding of Man (New York: Scribner's, 1965), pág. 98.
  11. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), pág. 678.
  12. Kelsey, pág. 162.
  13. Ver Jacques Barzun, Race: A Study in Superstition (New York: Harper & Row, 1965), págs. 47-48.
  14. Ver Joseph Fletcher, Humanhood: Essays in Biomedical Ethics (Buffalo, NY: Prometheus, 1979), págs. 12-18.
  15. Dred Scott v. Standord, 60 U.S. 393 em 404. Ver também Curt Young, The Least of These (Chicago, Ill.: Moody Press, 1984), págs. 1-20.
  16. Ver Gerhard Maier, Biblical Hermeneutics, Robert W. Yarbrough, trad. (Wheaton, Ill.: Crossway, 1994), pág. 23.
  17. Benedict, pág. 98.
  18. Ver Robert Hughes, Culture of Complaint: The Fraying of America (New York: Oxford University Press, 1993), págs. 102-147.
  19. Ver Sakae Kubo, The God of Relationships (Hagerstown, Md.: Review and Herald Publ. Assn., 1993), págs. 33-49. Este livro foi revisado em Diálogo 6:2 (1994), pág. 30.
  20. C. H. Dodd, Christ and the New Humanity (Philadelphia: Fortress, 1965), pág. 2.