A Súplica de Rosa

"Uma rosa com qualquer outro nome teria a mesma doce fragrância." --Shakespeare.

Mas não esta. De repente ela saiu de um beco escuro, saltou na minha frente e pegou minhas mãos. Ela implorou: "Por favor, senhor, faça amor comigo." Em sua aparência não havia beleza; em sua voz havia tragédia. Ela devia ter 11 ou 12 anos. Mesmo em contraste com as sombras da escuridão, pude perceber a doçura da inocência escrita em seu rosto.

Eu conhecia bem a cidade. Conhecia suas selvas de concreto e sua desumanidade. Conhecia sua pobreza e arrogância. Mas não estava preparado para esse encontro na escuridão. Cheio de justiça própria como era, comecei o meu sermão. "Mocinha, você sabe o que está dizendo? Não ouviu falar da AIDS? Não sabe que você vai morrer se continuar vivendo assim?"

Mas Rosa estava mais preocupada com a minha saúde. Disse ela: "O senhor não precisa se preocupar, eu tenho camisinha."

Ah, vida miserável!

Disse-lhe: "Você é ainda muito jovem para morrer. Vá para casa, para junto dos seus pais."

Ia embora, enojado, e por um instante fiquei atordoado. Mas essa sensação se desfez com a súplica de Rosa. Apontando para a rua, ela disse: "Esta é a minha casa, e minha mãe e minha irmãzinha bebê estão ali na esquina. Faz três dias que não comemos e vamos morrer de qualquer jeito. Por favor, senhor..."

Sua súplica sacudiu minha presunção e pude sentir dentro de mim mesmo a agonia de seu rogo. Por quê? Por que essa criança? Senhor, que farias Tu?

A imagem de um dedo eterno a escrever nas areias da Palestina cruzou pela minha mente. Não, essa criança não deve estar à venda nem ser condenada. E quem sou eu para perdoá-la?

Disse-lhe: "Vem comigo, Rosa, vamos comprar alguma coisa para comer." Compramos frango assado, batatas fritas e leite. Sentei-me na rua com Rosa, sua mãe e o pequeno bebê. Enquanto comiam sua primeira refeição descente em vários dias, elas me contaram sua história -- de pobreza, de serem penhores nas mãos do poder e da injustiça.

Rosa era a filha mais velha de uma família jovem. Seu pai era um fazendeiro de subsistência própria. A vida era dura. Apesar de seu suor e labuta, o diminuto pedaço de terra que possuía não alcançava para sustentar a família. Ali perto, uma grande companhia multinacional havia estabelecido uma indústria produtora e processadora de alimentos. Eles necessitavam mais terras e começaram a comprar pequenas propriedades em troca de trabalho. O pai de Rosa vendeu sua terra e entrou para a fábrica. Mas os trabalhadores perceberam logo que a companhia lhes pagava salários abaixo da média. Eles solicitaram o pagamento adequado à gerência e foram despedidos. Centenas deles esperavam no portão cada dia para trabalhar por qualquer preço.

Os pais de Rosa tinham uma única saída: ir para a cidade, onde, de uma maneira ou outra, era possível sobreviver. Como moradia, alugaram um barracão numa favela na periferia da cidade. Os três se uniram a outras 85.000 pessoas que vivem como sardinhas enlatadas em três hectares de terreno pantanoso. O pai de Rosa encontrou trabalho entregando produtos de uma mercearia em casas particulares. O trabalho era duro. As horas não terminavam nunca. Em pouco tempo ele começou a tossir sangue. Alguns meses depois, a tuberculose colheu seu fruto. Rosa e sua mãe estavam na rua. Sem qualificações para trabalhar, a mãe recorreu à profissão mais antiga do mundo, enquanto Rosa cuidava da pequena bolsinha de plástico que continha todas suas posses terrenas.

A irmãzinha bebê de Rosa era uma menina de rua, concebida e nascida nas ruas. Nos últimos meses da gravidez de sua mãe, Rosa, que tinha 10 anos, teve que fazer seu sacrifício extremo em busca da sobrevivência. Ela se tornou o ganha-pão. "Por favor, senhor..." era o começo de sua súplica noite após noite.

Minhas emoções estavam em tumulto ao ouvir os intermináveis ecos daquela súplica. Estava com raiva e em choque. Como se permitia tamanha injustiça? Indiquei à Rosa e sua mãe onde poderiam encontrar ajuda e parti, deixando-lhes dinheiro suficiente para algumas semanas.

Aquela foi a última vez que vi Rosa. Voltei àquela cidade várias vezes desde então. Em cada ocasião tentei encontrar Rosa, mas em vão.

Porém, a súplica de Rosa ainda soa em meus ouvidos. Surgem perguntas difíceis para mim, e espero que também para você que é cristão. Existem centenas de Rosas presas na rede da injustiça -- feridas, famintas e sem esperança. O que deveríamos fazer? Não existem respostas simples. Mas algo sabemos com certeza: nosso Deus afirma constantemente Seu interesse pelos pobres e declara Seus juízos contra a cobiça e a injustiça. Ele é o Deus que exige que Seus seguidores "Façam justiça para os pobres e os órfãos! Sejam honestos com as pessoas aflitas e sem ajuda! Socorram os fracos e necessitados! Salvem os pobres das mãos dos homens malvados" (Salmo 82:3, 4).

Jesus definiu Sua missão em termos semelhantes. No início de Seu ministério, Ele Se declarou o Redentor, "para pregar a Boa Nova aos pobres; ... para anunciar que os presos serão libertados...; que os oprimidos serão libertados de seus opressores, e que Deus está pronto a abençoar todos aqueles que vêm a Ele" (Lucas 4:18, 19).

Nos últimos dias, Jesus Se colocará como Juiz do Universo e Sua avaliação da humanidade estará relacionada a duas questões: Conhecemos a Deus na pessoa de Seu Filho? Ministramos-Lhe através das necessidades dos pobres e dos marginalizados?

Nesse contexto bíblico, eu, como cristão, sou chamado a atender as necessidades humanas. Fazê-lo pode ser difícil e arriscado. Talvez implique muitos gastos e não produza frutos. Mas não existe escapatória.

A pergunta definitiva em relação à minha própria salvação não é quantas vidas mudei ou quanta injustiça impedi, mas quanto de mim mesmo dei a outro ser humano em necessidade. Agora mesmo eu não sei onde estão Rosa, sua mãe e irmãzinha. Não sei se o que fiz alterou suas vidas. Mas isto sei: a paz que provém quando, no frescor de uma trágica noite, o Deus dos pobres passou por cima de meu preconceito e julgamento instintivos, e me ajudou a ouvir uma obcecante súplica. A súplica de Rosa.

David R. Syme, nascido na Inglaterra, é diretor para o desenvolvimento da Missão Global Adventista. Ele trabalhou como enfermeiro e pastor na África.