Adventistas e ficção: outra consideração

Historicamente a maior parte dos adventistas tem sido contrária à ficção literária. Contudo, membros da igreja escrevem novelas e casas publicadoras adventistas as publicam. Professores adventistas, como eu, ensinam novelas e escrevem artigos profissionais a respeito. Estudantes adventistas de 2º grau na América do Norte como regra estudam uma novela ou duas, e ficção é ensinada nas faculdades e universidades norte-americanas. Mesmo assim, numerosos adventistas consideram ficção prejudicial, banal e um desperdício de tempo.

Esta situação resulta, creio eu, por causa de ingenuidade geral sobre a natureza e valor de boa ficção, e por causa dos comentários de Ellen White sobre ficção.

Fato e ficção

Alguns supõem que “ficção” e “não-ficção” são espécies de literatura opostas e sem relação. Imaginam que autores de obras reais desenvolvem seus temas em papel de ofício e depois transcrevem as notas. Inversamente, escritores de ficção inventam contos fantásticos de romance juvenil, ficção científica ou algo sem nexo com a realidade ou a experiência.

Consideremos alguns fatos. Existem muitas semelhanças composicionais entre ficção e não ficção. Nenhuma história é uma apresentação exclusiva de fatos históricos, pois uma história precisa ser construída para ser contada. O autor seleciona um começo, um centro e um fim da corrente infinda de acontecimentos reais. Mesmo para autores que trabalham numa narrativa de fatos, os requisitos da história vão freqüentemente além dos fatos disponíveis. O autor carece de citações exatas para diálogo e precisa com freqüência adivinhar a motivação, para não dizer lacunas, nos próprios fatos. Tal carência tem levado autores a incluir diálogos criativos e justaposição de eventos.

De outro lado, histórias fictícias nunca são inteiramente produto da imaginação; incluem a experiência pessoal do autor, capacidade de observação e pesquisa. C. S. Lewis diz: “Rearranjamos os elementos que [Deus] proveu. Não há sequer um vestígio de real criatividade em nós. Procure imaginar uma nova cor primária, um terceiro sexo, uma quarta dimensão, ligados. Nada acontece.”1

Narrativas de fato seguem de perto os fatos disponíveis e não deviam iludir o leitor quando não são reais; narrativas fictícias consideram os fatos como matéria-prima a ser usada, posta de lado ou transformada, de acordo com as necessidades da história e o propósito do autor.

O aspecto hipotético da ficção

A maior parte da ficção pode ser considerada hipotética; isto é, o autor experimenta com que seria se? Os trimensários da escola sabatina para crianças estão cheios de que seria se. Que teriam Adão e Eva feito durante seus primeiros dias no jardim? Como teria sido um dia típico na vida de Dorcas? Isto também se aplica ao nível de adultos. Como teria sido uma família de crentes durante o movimento milerita? Você poderia estudar os registros históricos e descobrir como seria uma tal família, e você poderia converter seu estudo numa narrativa como Till Morning Breaks.2 Os personagens nesta história — Justin Fletcher, Bethene Fletcher e Rufus Bailey — não são especificamente históricos, mas muito do mérito do livro jaz no fato de que são historicamente plausíveis. O sabor do séc. XIX de um nome como “Bethene” seria arruinado se fosse substituído por um nome contemporâneo como “Brooke”.

Esta ligação com plausibilidade é uma das grandes atrações da ficção de boa qualidade e foi estabelecida como um critério importante de avaliação desde a obra Poética de Aristóteles. Os autores estabelecem os parâmetros de uma novela, e dentro desses parâmetros precisam fazer um conto plausível — mesmo se a história é uma fantasia. Longe de ser um saco de mentiras, ficção boa é tipicamente um pano bem tecido de coerência interna, de causa e efeito, motivação e ação bem relacionadas, de um modo raramente observado na vida cotidiana, em que os acontecimentos tantas vezes parecem coincidências. A realidade é mais estranha que a ficção porque a ficção precisa obedecer a uma certa lógica, ao passo que a realidade simplesmente é.

O legado de Ellen White

Por que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem sido relutante em aceitar novelas? Em parte por causa das observações críticas de Ellen White sobre ficção. E em parte por causa de seus intérpretes, tais como Leon William Cobb. Em seu livro, Give Attendance to Reading (1966), Cobb afirma que “através de um período de cinqüenta e sete anos, encerrados apenas dois anos antes de sua morte, [sra. White] foi inspirada a condenar toda classe e qualidade de novela”. Para reiterar, “o leitor não acharia lugar para dúvida honesta que `ficção de alta classe’ é condenada tão especificamente como a de baixa”.3 A sra. White claramente fez muitas afirmações fortes sobre “novelas” e “ficção”, e o tom desses comentários, embora diferindo em intensidade, é uniformemente negativo. Contudo, mesmo aqueles que reconhecem sua autoridade têm proposto diversos argumentos para o uso inteligente de ficção.

1. Os comentários negativos de Ellen White foram baseados amplamente e com justiça sobre a ficção popular inferior de seu tempo, deixando assim a porta aberta para o consumo inteligente de “ficção boa”. O artigo de John Wood, “The Trashy Novel Revisited: Popular Fiction in Age of Ellen White”, examina o panorama literário norte-americano na segunda metade do séc. XIX, e não deixa dúvida de que a maior parte da ficção popular merecia má reputação.4 Muitos dos comentários da sra. White visavam especificamente a esta categoria de ficção. Josephine Cunnington Edwards, uma das contistas “clássicas” no mundo da língua inglesa, afirmou que “Ellen White tinha em vista a novela corrupta” quando ela condenou ficção.5 Contudo, Ellen White também faz alguns comentários específicos condenando ficção de “alta classe”.

2. Ellen White advogava desenvolvimento intelectual amplo e a obtenção de conhecimento literário. Certamente a leitura de ficção seria um ramo deste desenvolvimento. Paul Gibbs, professor de inglês na Andrews University entre 1950 e 1960, defende esse argumento e chama a atenção para o fato de que Moisés, Daniel e Paulo parecem ter sido bem educados na cultura secular de sua época.6 A desvantagem desse argumento de “cultura ampla” é que ele apenas sugere, ao passo que os argumentos contra ficção são baseados em afirmações diretas.

3. Ellen White mesma lia e recomendava ficção, logo também nós. O argumento tem dois efeitos principais. Primeiro, Ellen White apreciava e recomendava O Peregrino, de John Bunyan. Embora O Peregrino seja obra de ficção, seria considerado uma alegoria, não uma novela, segundo o uso literário geral. Não obstante, sua longa narrativa fictícia, completada com caracteres vívidos, fez dele uma influência central, no desenvolvimento da novela em inglês. Ellen White não parece ter sido afeita a raciocinar sobre gêneros literários. Presumivelmente ela não via contradição em condenar ficção e recomendar O Peregrino. O segundo ponto é a natureza combinatória das histórias que Ellen White coletou para Sabbath Readings for the Home, como descreve John Waller em seu estudo.7 Como Waller mostra, Ellen White recortou muitas histórias de periódicos de sua época, reuniu-os em cadernos, e posteriormente compilou seleções destes cadernos em Sabbath Readings. Depois de analisar as praxes editoriais das revistas das quais as histórias foram selecionadas, Waller concluiu que muitas das histórias eram fictícias. Outros estudiosos adventistas chegaram à mesma conclusão.8 Logo, ou Ellen White contradisse suas próprias opiniões, ou ela não compreendeu que estava recortando ficção, ou por ficção ela queria dizer algo diferente de “irreal”. Waller conclui: “Aparentemente, então, sua condenação não visava a ser aplicada sem discriminação a todas as histórias que não correspondem aos fatos.”9 Desta exceção, parece que se pode concluir que os professores de literatura podem selecionar ficção “boa” para suas classes, e editoras adventistas podem publicar ficção “boa”.

4. Embora Ellen White condenasse ficção, ela não a rejeitou por ser ficção, mas por outras razões. Portanto, se tais “outras razões” não existem, ficção pode ser permissível. A preocupação de Ellen White com ficção pode ser resumida do seguinte modo: “(1) Tende a viciar. (2) Pode ser sentimental, sensacional, erótica, profana ou barata. (3) É escapista, fazendo com que o leitor regrida a um mundo de fantasia e seja menos capaz de enfrentar os problemas da vida de cada dia. (4) Desqualifica a mente para estudo sério e a vida devocional. (5) Consome tempo e é sem proveito.”10 Ironicamente, as condenações específicas de ficção por Ellen White indicam, inversamente, as condições sob as quais ela poderia tê-la apreciado. Embora seja claro que ela faz muitas afirmações contra a novela e a ficção, uma condenação em massa do gênero contradiria sua própria prática e não estaria de acordo com as razões pelas quais ela condena ficção.

Dois outros argumentos defendendo ficção têm sido usados freqüentemente por adventistas e outros cristãos.

A Bíblia e a ficção

A Bíblia contém material fictício, e deste modo dá o imprimatur à ficção. A parábola do Rico e Lázaro (Lucas 16:19-31) e a parábola das árvores (Juízes 9:19-31) são exemplos de ficção bíblica. É difícil discutir este ponto, mas Cobb, por exemplo, cria definições peculiares de parábola e alegoria como “não-literárias” mas não-fictícias, deste modo salvando a Bíblia e O Peregrino por seu argumento. Estas definições não são convincentes, mesmo para Arthur White, que se refere a O Peregrino como “ficção”.11

Senso comum

Ninguém que eu saiba tem apresentado um argumento convincente contra ficção per se. Logo, ficção deve ser julgada caso por caso, como obras de outros gêneros. Por muito tempo, notáveis educadores adventistas, incluindo Harry Tippett, Alma McKibbin e Don Snider, têm argumentado que o gênero em si é moralmente neutro, e que obras individuais devem ser julgadas individualmente.12

Tempos mudados

Gostaria de sugerir mais um argumento. Nos dias de Ellen White, ficção era primariamente uma forma de entretenimento popular. Embora ainda o seja parcialmente, rádio, televisão e cinema têm alterado dramaticamente o entretenimento caseiro. Muitos dos dizeres de Ellen White sobre ficção seriam mais apropriadamente aplicáveis à televisão, filmes e música popular.

Na medida em que muitas das preocupações de Ellen White enfocavam a “juventude” no ato de consumir entretenimento popular em ambientes sem supervisão, concordo com ela. Não quero que meus filhos vejam “Power Rangers” ou visitem arcadas de vídeo. Contudo, o estudo de literatura tem-se tornado um ramo acadêmico desde a época da sra. White, produzindo leitores educados profissionalmente e dotados de análise crítica. Com efeito, somos entretidos, mas não estamos ocupados em ensinar leitura barata, superficial ou aleatória que usualmente preocupava a sra. White — ao contrário, estamos provendo um antídoto a isto.

Três mudanças em nossas atitudes

Neste contexto educacional, gostaria de sugerir três mudanças em nossa atitude para com ficção.

1. Mude o enfoque de escolher os livros corretos para fazer a qualidade correta de leitura. Alguns livros são melhores que outros, e sem dúvida é melhor gastar o tempo lendo os melhores livros. Mas teríamos enfatizado erroneamente seleção como o aspecto crucial na leitura? O erudito literário cristão, Leland Ryken, diz: “O índice menos confiável para julgar a moralidade de uma obra é seu assunto, embora este seja freqüentemente o critério principal aplicado por cristãos quando fazem objeção a obras literárias.” “Mais importante é a perspectiva moral que os escritores encorpam em suas obras” “e a reação do leitor individual”.13 Como parte da educação sólida, precisamos desenvolver bons hábitos de leitura: procurando compreender um livro no espírito em que foi escrito; desenvolver uma atenção minuciosa e crítica, assumir a atitude de um leitor ativo e não passivo; reler.

2. Não use instrução moral como a justificação única ou primária para estudar literatura. O propósito tradicional da literatura é duplo: deleitar e instruir. Tendemos a pender para um lado. É-nos tão difícil justificar literatura como entretenimento. A introdução dos editores às minhas revisões de novelas adventistas observa que: “Das parábolas de Jesus ao O Peregrino de John Bunyan, os cristãos têm usado personalidades fictícias e histórias para comunicar verdades morais e espirituais.”14 De fato, mas nada é dito sobre deleite ou prazer. Nunca devíamos esquecer o potencial da literatura para instruir, mas devíamos igualmente reconhecer deleite e prazer como qualidades dignas.

3. Novelas vêm como bagagem mista e desafiam leitores maduros a tratá-las como tais. A parábola do trigo e do joio sugere a natureza mista da vida terrestre. Assim não vamos nos concentrar em separar os livros em categorias de perfeição e perdição, antes tentemos identificar o que há de excelente dentro de um livro particular. Filipenses 4:8 tem sido ocasionalmente mal usado como uma proscrição bíblica da ficção, com “tudo o que é verdadeiro” exigindo que as histórias sejam compostas com fatos autênticos. Eu sugeriria outra aplicação. Como Lewis observa, um dos principais prazeres da literatura é que ela nos leva fora de nós mesmos, nos permite ver o mundo do ponto de vista de outra pessoa.15 Como leitor maduro, posso procurar o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável e excelente nas novelas de Lewis, ou num filme potencialmente argüível como Jesus of Montreal. Posso reconhecer pontos de desacordo e ao mesmo tempo apreciar o livro ou filme. Se como igreja tivéssemos dado mais peso em identificar excelências em vez de defeitos, suspeito que como adolescente teria ingerido algo além da dieta constante de filmes de Disney em reuniões sociais da igreja.

Como adventistas temos por muito tempo visto ficção e novelas com suspeita. Devíamos continuar a encarar todas as formas de cultura popular e séria com atenção crítica, mas a novela não mais do que outras formas de literatura. Leiamos com inteligência e discriminação, de todos os modos, e estejamos igualmente prontos para risada, tristeza ou reflexão sóbria, como a situação requeira.

Aprendendo a ser um bom leitor

  1. Leia boas novelas, ensaios, poesia, historietas e drama como parte de uma educação literária completa.
  2. Leia de novo. Desenvolva o prazer de conhecer bem um livro. A grande literatura melhora com a leitura.
  3. Reaja. Ao ler, escreva suas idéias num caderno. Discuta-as com um amigo, pais ou bibliotecário. Idéias tornam-se sua propriedade quando você trabalha com elas.
  4. Não aceite nada apenas porque um escritor o afirma. Seja receptivo para novas idéias, mas não as engula.
  5. Eduque-se para se tornar um melhor leitor cristão. Eu recomendaria An Experiment in Criticism de C. S. Lewis e/ou Windows to the World de Leland Ryken.
  6. Comece com os clássicos. A leitura dos clássicos dar-lhe-á normas elevadas para depois aplicá-las a obras contemporâneas.

Scott E. Moncrieff

Literatura: critérios gerais para escolas adventistas

A literatura recomendada em escolas adventistas devia:

  1. Ser arte séria. Levará a uma compreensão significativa da natureza humana em sociedade e será compatível com valores de adventistas.
  2. Evitar sensacionalismo (a exploração do sexo ou da violência) e sentimentalismo piegas (a exploração de sentimentos levianos com o detrimento de uma visão sadia e equilibrada da vida).
  3. Não ser caracterizada por profanidade ou linguagem grosseira e ofensiva.
  4. Evitar elementos que dão a impressão de fazer o mal desejável ou o bem trivial.
  5. Evitar histórias simplificadas, excitantes ou dominadas pelo enredo que encorajam leitura apressada e superficial.
  6. Ser adaptada ao nível de maturidade do grupo ou do indivíduo.

—Selecionado do Guide to the Teaching of Literature in Seventh-day Adventist Schools, Associação Geral, Departamento de Educação.

Scott E. Moncrieff (Ph.D., Universidade da Califórnia, Riverside) leciona Literatura Inglesa na Andrews University e tem escrito vários artigos e estudos críticos. Seu endereço: English Department, Andrews University, Berrien Springs, MI 49104, E.U.A.

Notas e referências

  1. C. S. Lewis, Letters of C. S. Lewis (New York: Harcourt, 1993), p. 371.
  2. Elaine Egbert, Till Morning Breaks: A Study of the Millerite Movement and the Great Disappointment (Boise, Idaho: Pacific Press Publ. Assn., 1993). Uma apreciação deste livro foi publicada em Diálogo 8:1 (1996), p. 31.
  3. Leon William Cobb, Give Attendance to Reading: Guidelines in the Field of Books and Reading: Studies Based on the Writings of Ellen G. White (Portland, Oregon: impresso particularmente, 1966), p. 63.
  4. John Wood, “The Trashy Novel Revisited: Popular Fiction in the Age of Ellen White”, Spectrum (April 1976), pp. 16-21.
  5. Em Helen Metz Rhodes, “On Fiction”. Transcrito de uma palestra dada em Christian Scribes Campout em Crystal Springs, October 15, 1977.
  6. Paul T. Gibbs, “Literature in Adventist Schools”. Manuscrito não publicado, September 1962, pp. 24-26.
  7. John O. Waller, “A Contextual Study of Ellen G. White’s Counsel Concerning Fiction”. Manuscrito lido na reunião quadrienal de professores de inglês de faculdades adventistas, em La Sierra College, August 1965.
  8. Gibbs, p. 8; John D. Snider, Highways to Learning: A Guide Through Bookland (Washington, D.C.: Review and Herald Publ. Assn., 1951), p. 303; Harry Moyle Tippett, “A Review of Some Principles in Dealing with Fiction and Imaginative Forms of Literature in Our Schools.” Manuscrito não publicado lido no Concílio de Professores de Inglês de Faculdades, Takoma Park, August 23-30, 1949, p. 4.
  9. Waller, p. 18.
  10. Guide to the Teaching of Literature in Seventh-day Adventist Schools (Washington, D.C.: Department of Education, General Conference of SDA), p. 7.
  11. Arthur White, carta não publicada para o Dr. Lamp, December 2, 1974.
  12. Snider, pp. 300-309.
  13. Leland Ryken, “Literature in Christian Perspective”, God and Culture: Essays in Honor of Carl F. H. Henry (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1993), p. 231.
  14. Ver “Holiday Reading”, Adventist Review, North American Division edition (December 1994), pp. 12-14; também “More Holiday Reading”, Adventist Review (December 8, 1994), pp. 15 e 16.
  15. C. S. Lewis, An Experiment in Criticism (Cambridge: Cambridge University Press, 1978), p. 137.