Psicologia da sociedade pósmoderna: uma perspectiva escatológica

“Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; sobre a Terra, angústia entre as nações em perplexidade por causa do bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céus serão abalados. Então se verá o Filho do homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória” (Lucas 21:25-27).

Quando estabeleceria Jesus Seu reino de glória? Quando terminaria este mundo? Quando terminaria o pesadelo do pecado e a nova ordem de paz eterna seria introduzida? Estas foram as questões que perturbavam os discípulos, e que têm ocupado a mente de cristãos através da história. Lucas registra para nós as palavras de Jesus, alistando seis sinais que indicariam especificamente a proximidade do momento climático da história. Três destes sinais têm que ver com fenômenos astronômicos: o escurecimento do Sol e da Lua e a queda das estrelas (ver Mateus 24:29 e 30). Três outros tratam de fenômenos psicológicos: ansiedade, perplexidade e desmaio.

A escatologia adventista traçou para nós o cumprimento dos três sinais na história. Este artigo vai tratar da segunda série de sinais que envolvem a vida humana ao aproximar-se do fim do tempo.

Jesus usa três frases que descrevem sinais diferentes, mas relacionados, na arena psicológica do fim. A Revised Standard Version traduz estas frases como “angústia das nações”, indicando uma ansiedade coletiva; “o rugido do mar e das ondas”, com referência a um estado confuso de perplexidade; e “homens desmaiando de medo e na expectativa do que virá ao mundo”, advertindo de um desfalecimento humano. Estes sinais ligados com a vida parecem predizer aspectos globais de conduta e estilo de vida, que envolvem saúde mental. Vamos agora examinar a natureza deste sinais, usando modelos psicológicos — ou melhor ainda, psico-patológicos — para ilustrar o dilema em que a humanidade pós-moderna se encontra, justamente agora que o fim se aproxima.

Angústia: o caso de Raskolnikov

O otimismo cedeu lugar à angústia no meio do séc. XIX. Desde que o filósofo dinamarquês, Sören Kierkegaard, publicou, em 1844, The Concept of Anguish, filósofos e teólogos têm lutado com a angústia como um fenômeno da existência humana. Considere as obras de Nietzsche (1844-1901), Heidegger (1888-1976), Sartre (1905-1980), Camus (1913-1960) e outros filósofos existencialistas, e imediatamente somos lembrados que somente a angústia que surge do nada e que é marcada pela inevitabilidade da morte, pode despertar a consciência para a realidade autêntica da existência humana. Como Heidegger observou certa vez, angústia “nos coloca na presença do mundo como mundo”, e “revela o eu existente como o problema”.

Para uma ilustração da angústia como um aspecto marcante da humanidade pós-moderna, considere Raskolnikov, um personagem na obra Crime and Punishment de Dostoyevsky (1866).1 Aqui se achava um estudante pobre e jovem procurando sair da miséria, almejando objetivos mais elevados na vida. Um dia encontra uma velha, uma penhorista. Ela tem dinheiro, muito dinheiro. Ele nada tem. Raskolnikov começa a refletir. De que vale o dinheiro nas mãos desta velha? Qual é o valor dela comparado com o meu? Se ele tão-somente tivesse aquele dinheiro, quanto não poderia realizar: poderia ajudar sua mãe, sua irmã, completar seus estudos e no fim fazer bem a todos.

Assim ele chega ao momento de sua decisão. Ele mata a velha. Por alguma estranha fatalidade, a lei não o pega. Mas então começa o drama real da punição íntima. Ele se acha numa “sensação de tortura, isolamento infinito e alienação”. Não pode dormir. Fica acordado, freqüentemente sacudido por um tremor nervoso. Seu coração palpita. Ouve barulhos estranhos. Está aterrorizado e delirante. A angústia o torna impressionável e irritado. Vive absorto em si, taciturno, trancado em seu quarto.

Então um dia Raskalnikov encontra Sonia, uma prostituta. Ela o convence de confessar-se. Subitamente as palavras do evangelho vem-lhe à mente: “Quem quer que crê em Mim, ainda que morto, viverá.” Raskalnikov experimenta arrependimento. Está agora livre de culpa e angústia. Recupera sua liberdade interior.

Assim Dostoyevsky percebeu o papel decisivo que a angústia desempenharia no séc. XX. Karen Horney também escreveu sobre as “dificuldades que reinam em nossos dias e em nossa cultura”, por causa dos “conflitos psicológicos que temos”, caracterizados por neurose e angústia.2

Angústia para o filósofo pode sugerir nada infinito e solidão absoluta; para o psicólogo, pode sugerir desordem emocional, que se aproxima da neurose. Mas para o estudante de profecia, angústia é um sinal dos últimos dias, atingindo o auge em meiados do séc. XX. Mas isto não é tudo. O tema profético de Lucas 21 vai além da angústia para nos fornecer um quadro da condição humana na segunda metade de nosso século: perplexidade máxima e confusão.

Perplexidade ambivalente: o caso de Emil Sinclair

O termo grego traduzido por “perplexidade” é aporia. Significa literalmente “sem poros”, “sem saída”. Comunica o sentido de “dificuldade”, “incerteza”, “dúvida” ou “cepticismo”.

Segundo Jesus, a perplexidade reinaria no fim do tempo como resultado “do bramido do mar e das ondas”. No simbolismo apocalíptico, mares e águas representam “povos, multidões, nações e línguas” (Apocalipse 17:15). O ponto é óbvio: perplexidade como um sinal escatológico precisa ser vista nas vozes e opiniões contraditórias e antagonísticas que controlarão o mundo no final da história. Quem tem a verdade? Em quem devemos crer? Existe alguma verdade afinal? Profecias bíblicas concernentes ao fim sugerem que o cepticismo e a dúvida vão corroer os contornos da vida, incluindo a religião, a política, a educação e os valores da família. Crianças educadas nesta atmosfera e jovens nutridos nestas filosofias tornam-se ambíguos, indefinidos ou “andrógenos”.3

Esta perplexidade não é simplesmente um problema emocional com repercussões como a angústia. Altera a identidade e a organização da pessoa e afeta a percepção da realidade. Como modelo psicológico, considere Emil Sinclair, o personagem central na obra Demian, de Hermann Hesse (1877-1962).4

Hesse, que ganhou o prêmio Nobel de literatura, retrata neste livro um personagem que vive numa perplexidade ambivalente causada pelos acontecimentos políticos anteriores à Grande Guerra. A vida de Sinclair é marcada por um profundo antagonismo espiritual. Carece de identidade. Sente que é habitante de dois mundos: um mundo demoníaco de caos e desconfiança, e outro luminoso de uma vida ordenada e crente. Dentro de casa, sente-se atormentado e insociável como um fantasma. Ele é instável, ambivalente e contraditório. Por vezes experimenta sentimentos de alegria ou temor. Ele é ao mesmo tempo Caim e Abel. Oscila entre uma idealização extrema e a depreciação. Mesmo sua vida sexual revela esta contradição: ele é tanto masculino como feminino.

Tal estado de confusão e perplexidade, que tem sua raiz em falta de identidade, domina nossa vida e cultura hoje. Erich Fromm5 atribui esse fenômeno de ambigüidade à perda da compreensão de si próprio. “A sociedade,” diz ele, “está a caminho do barbarismo” como resultado de “robotismo”, “automação”, manipulação “burocrática”. Esses fatores contribuem para uma sensação de “insanidade e destruição” que marcou a década de 1960. Esses foram os anos quando os hippies, a música rock, os Beattles e a violência do protesto juvenil parecia assoberbar o mundo.

Assim chegamos ao nosso tempo, tempo de desumanização, e andamos perigosamente à beira da insanidade. Um vácuo surge na alma. A perplexidade ameaça à frente, acima e dentro. Vivemos num mundo de perplexidade ambivalente tal, mas como cristãos antecipamos libertação, aguardando o fim desta época e a época vindoura.

Paranóia coletiva: o caso de Saul

O último na trilogia de sinais psicológicos do fim do tempo é o “desmaio”. O termo grego no original se refere a algo que vem do frio ou que produz frieza. Os psicólogos falam de frieza em termos de insensibilidade. A palavra descreve a incapacidade de experimentar emoções. Frieza é uma caraterística de pessoas mentalmente doentes, nas quais as emoções estão dissociadas de representações ou idéias. Descreve uma atitude de indiferença e alienação na qual a pessoa não é “afetada por nada”.

Na profecia também, frieza pode indicar um estado de pensamentos perturbados e doença mental ou psicose. Mas há muitas espécies de psicose. À qual delas está Jesus Se referindo como um sinal do fim? Talvez o texto nos dê uma dica: a insensibilidade advém de estar “apreensivo sobre o que vai acontecer ao mundo”.

Muita gente vive com medo. Estão ameaçadas pelos perigos do presente e pela incerteza do futuro. Estão quase paranóicas. Parecem normais, raciocinam logicamente, mas parecem ver uma conspiração em cada acontecimento e em volta de toda esquina. Sentem-se como se outros os espiassem e como se estivessem bisbilhotando a seu respeito. Sentem-se traídos e injustamente julgados. Agitam-se para proteger sua honra ou nome ou direito. São sempre chicaneiros, sempre à procura de vindicação. Como resultado, seus corações desfalecem.

Um exemplo clássico de um paranóico tal foi Saul, o primeiro rei de Israel — uma pessoa de grande poder, mas incapaz de controlar seus pensamentos e sentimentos. Via um inimigo em cada sombra. Mesmo aquele que lhe trouxe cura foi considerado inimigo. Desconfiava de Davi. Deixou de compreender os propósitos e planos que Deus tinha para ele. Depois de um começo auspicioso, Saul tornou-se uma alma vazia. O medo era seu companheiro permanente, a desconfiança seu guia. Tal medo, disse Jesus, será uma caraterística dos últimos dias e afetará os seres humanos pós-modernos.

O medo e a sociedade pós-moderna

Quem são estes homens e mulheres pós-modernos? O termo pós-moderno surgiu no final da década de 1960. Com a publicação de The Postmodern Condition, de Jean-François Lyotard, em 1979, o conceito espalhou-se rapidamente, sugerindo que tínhamos chegado a uma nova ordem. O colapso do Muro de Berlim, a queda do comunismo, a Guerra do Golfo e o fim de polaridades e parâmetros ideológicos pareciam ter atirado a vida numa nova era.

K. Gergen6 argumenta que o homem pós-moderno emerge de duas raízes: a visão romântica do séc. XV e a visão cósmica moderna do séc. XX. Estas duas raízes produziram três estágios da vida humana.

Primeiro, a vida romântica. A preocupação com o eu, paixão e criatividade marcaram esse estágio. Havia uma presença do oculto, tanto latente como profunda. O indivíduo era supremo, sublinhando os valores da amizade, do amor conjugal e unidade familiar. Sistemas de famílias ampliados regiam a vida ordinária.

Segundo, modernismo. Impôs novos valores contrários à visão romântica. Promoveu evidência objetiva, método científico e a descoberta das leis naturais. Progresso e indústria dominavam a cena. O anelo romântico pelo oculto e emoções profundas foram substituídos pelo eu racional, organizado e acessível. A família ampla cedeu lugar à família encapsulada (o casal e os filhos).

Terceiro, pós-modernismo. Subitamente surgiu uma explosão da informática. O eu é bombardeado por informação de toda espécie até se achar num estado de saturação. Na expressão dramática de Gergen, “tornamo-nos plágios, imitação barata de outros”. Há uma “cisão do indivíduo numa multiplicidade do seu eu”. O núcleo da família desintegra. Surge a mãe solteira, o conjunto, a família reconstruída (“minha, sua e nossa”7). Em vez de objetividade e racionalidade do modernismo surgem os fenômenos do pluralismo e multiplicidade, em que a incoerência é a norma (isto é: os vídeos musicais e os jogos de vídeo).

O resultado? O pós-modernismo nos empurrou para uma vida de medo paranóico. A coordenação é perdida. A fé desaparece. A violência torna-se rotina. Crime e terrorismo internacional são parte do panorama da vida de cada dia. Não estamos todos amedrontados, ameaçados, duvidando de tudo e crendo em nada e em ninguém? Não estamos um tanto paranóicos?

Umberto Eco tem dito com razão que uma enfermidade “tomou conta da cultura e da política de nosso tempo. É uma enfermidade de interpretação que tem influenciado tudo, na teologia, na política, na vida psicológica. Seu nome é ‘a sindrome de suspeita’... Por trás de um fato esconde-se outro mais complexo, e outro e assim por diante. A vida é interpretada como uma conspiração permanente.”8

Vivemos numa época de angústia culminante, de perplexidade ambivalente e de paranóia coletiva, exatamente como Jesus predisse há muito tempo. Nossos filhos se identificam com robocop, e preferem jogos de fantasia do que brincar com o ursinho. Jovens são capturados por uma música sem nexo e frêmitos da Nova Era. Os adultos têm seu deus na televisão. No processo, perdemos o significado de valores da família, amizade e realização espiritual. Somos frios, insensíveis, satisfeitos conosco mesmos, desconfiados — e com medo.

Mas este não precisa ser o caso. Temos uma alternativa. A profecia bíblica nos dá uma visão gráfica dos últimos dias. As palavras de Jesus citadas acima terminam numa nota de esperança: “Ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima” (Lucas 21:28).

Nem medo, nem ausência de sentido, nem incerteza deste mundo deviam abalar ou moldar a atitude do cristão. Porque temos uma esperança segura e firme — esperança na vinda do Senhor. Viver nesta esperança é a resposta do cristão ao terror psicológico que marcará os últimos dias.

Mário Pereyra (Ph.D., Universidade de Córdoba) é um psicólogo clínico que pratica e ensina na Argentina. É autor de muitos artigos (incluindo “Um conto de dois irmãos” [Dialogue 2:3] e “Esperança, cristianismo e saúde mental [Dialogue 5:3]) e de diversos livros em espanhol. Seu endereço: Universidad Adventista del Plata, 25 de Mayo 99; 3103 Villa Libertador San Martín, Entre Ríos; Argentina.

Notas e referências

  1. Ver Fyodor Dostoyevsky, Crime and Punishment, vol. 1.
  2. Ver K. Horney, La personalidad neurótica de nuestro tiempo (Buenos Aires: Ed. Paidos, 1967), pp. 33, 231.
  3. Ver A. Margulis, “Los jóvenes de los 90: El enganoso juego de las apariencias”, Revista de la Nación (Febrero 16, 1992), pp. 6-8.
  4. Ver Hermann Hesse, Demian (México: Cia. General de Ediciones, 1974), pp. 68, 100, 111, 161, 162.
  5. Ver Erich Fromm, Psicoanálisis de la sociedad contemporánea (México: Fondo de Cultura Económica, 1970), 8ª edição, p. 300.
  6. Ver L Gergen, El yo saturado (Barcelona: Ed. Paidos, 1991), pp. 63, 103, 106.
  7. Ver C. Wainerman, “La familia está cambiando”, Clarín (Octubre 6, 1994), p. 19.
  8. Ver Ferdinando Adornato, “Umberto Eco, el alquimista de nuestro tiempo”, entrevista em La Nación (Octubre 30, 1988).