Lars Justinen: Diálogo com um ilustrador e artista adventista

“Fico enfadado facilmente”, admite Lars Justinen. Assim uma das coisas que ele particularmente aprecia sobre o que faz, é variedade. “Nenhum dia é jamais o mesmo”, diz ele.

O leque de interesses de Lars — e habilidades — marcam-no como um verdadeiro homem da renascença. Além de sua arte, interessa-se em música, Natureza, tecnologia de computador, família, religião e outras áreas. Os adventistas estão familiarizados com a arte de Lars através de suas capas da lição da Escola Sabatina de adultos, usadas em redor do mundo. Além disso, seu trabalho e o de sua esposa, Kim, aparecem regularmente em muitos livros, periódicos e publicidade tanto para igreja como para outros.

O Grupo Criativo Justinen, a firma que Justinen e Kim fundaram, emprega um número de indivíduos com habilidades suplementares. Recentemente, a firma tem-se envolvido cada vez mais com a animação de computador e planejando web sites. Lars não considera que a explosão recente em tecnologia de computação ameace a criatividade artística. Ao contrário, aprecia as mudanças que o computador trouxe. “É fantástico”, declara ele.

Esteve você sempre cônscio de que possuía habilidades artísticas — que você podia desenhar, por exemplo?

Sim. A arte sempre desempenhou um papel importante em nosso lar e em minha vida. Minha mãe era artista amadora, e guardava pilhas de papel pela casa, com lápis. Desde a infância meu irmão e eu nos deitávamos no chão e desenhávamos os tipos de brinquedos que queríamos ter. Num olhar retrospetivo, aquela foi provavelmente uma experiência melhor para nós do que ter brinquedos de verdade.

Teve você instrução artística formal?

Minha mãe era associada a um grupo de mulheres que pintavam. Toda vez que saíam na Natureza para pintar, eu acompanhava minha mãe e pintava e me divertia. Quando cheguei aos 18, minha mãe matriculou-me numa classe particular de pintura por umas poucas semanas.

Como decidiu fazer da arte seu ganha-pão?

Cheguei à arte através de um caminho indireto de pré-medicina e odontologia. No Walla Walla College, fiz o pré-médico enquanto me especializava em arte! Além de gostar de arte, pensei que as escolas de medicina pudessem considerar favoravelmente alguém com uma especialidade fora do comum, em vez de uma especialidade em química. Mas, no penúltimo ano, estava gostando tanto de arte que disse a mim mesmo: “Se eu for para medicina, não terei tempo para arte”. Assim transferi-me para pré-odontologia. Já tinha feito uma porção de cursos pré-médicos que podiam ser aplicados ao curso de odontologia igualmente. Meu plano era simples: seja dentista três dias por semana desfrutando de uma vida confortável, e dedique o resto do tempo à arte.

Então em meu último ano, fiquei sem dinheiro. Assim abandonei a escola e voltei para Victoria, British Columbia, para ganhar suficiente dinheiro a fim de terminar a faculdade. Gastei os quatro anos seguintes vivendo a vida proverbial do artista pobre, do cheque para o aluguel ao cheque para o aluguel. Finalmente, sabia que tinha o talento e habilidade para ganhar a vida como artista. Tive algumas oportunidades. Mandei imprimir uma edição limitada, a qual foi bem recebida. Comecei a olhar para artistas bem sucedidos e dizer: “Penso que poderia fazer isso”.

Qual foi a primeira obra de arte que você realmente fez?

O primeiro desenho que jamais vendi foi uma pintura a creiom de um pôr de sol. Vendi-o por cinco centavos. Tinha sete anos então. Fiz esses desenhos para um projeto de inversão da Escola Sabatina, e membros da igreja os compraram. Minha mãe comprou alguns e os guardou. Ainda tenho um em alguma parte. Diz “cinco centavos” num canto. Também me lembro ganhar algum dinheiro mais tarde pintando aquarelas em papel branco e vendendo-as a turistas. Mas, profissionalmente, minha primeira venda foi através de uma galeria. Levei dois quadros a uma galeria e pedi que pusessem uma moldura, mas fiquei surpreso quando a galeria ofereceu para pôr em exposição ambos os quadros. Orei bastante a Deus para que fizesse isso acontecer de algum modo. A galeria vendeu os dois quadros e recebi 200 dólares por cada um. Essa experiência me deu confiança de que poderia ganhar a vida como artista.

Você pode descrever o processo criativo como o experimenta? Surge uma ilustração em sua imaginação? Faz muita pesquisa primeiro? É uma espécie de inspiração que não exige esforço, ou é simplesmente trabalho duro?

Todos esses fatores! Toda vez que faço algo criativo enfoco tudo que me aconteceu no passado. Esta é uma razão pela qual encorajo jovens artistas a fazer bastante experimentação. É por isso que prática é tão importante. O processo criativo não é sem aquele salto do que você sabe ao que não sabe. Essa é a parte do “talento” do processo e a parte mais difícil de expressar. Mas sem os instrumentos, você é ainda um amador. Os instrumentos e a experiência é o que distingue uma criança criativa com creions de um artista profissional que tem uma imagem mental de onde ele ou ela quer ir e sabe usar os instrumentos para atingir aquela destinação.

De tudo o que você faz, o que acha mais gratificante? E, de outro lado, o que aprecia menos?

O menos? Prazo de entrega! Para saber que realmente nunca perco todas aquelas horas gastas criando, posso pegar uma revista de 1986 e ver uma ilustração que fiz, e lá vejo todas as horas e o esforço exigido para criá-la. Este é um nível de satisfação. Outro é saber que provavelmente a qualquer hora do dia ou da noite, alguém em alguma parte está olhando uma ilustração ou uma gravura impressa de edição limitada ou a capa de um livro que fiz. Em certo sentido, por causa da quantidade de trabalho que já fiz, estou constantemente conversando com as pessoas através de minha arte, e isso é gratificante.

Tem você um quadro favorito, um que aprecia mais do que qualquer outro?

Meu quadro favorito é sempre aquele que vou pintar da próxima vez. Para ser franco, a maior parte do trabalho acaba sendo um tanto inferior ao que esperava que fosse. Uma vez ou outra, algo satisfaz minha expectativa. Raramente uma obra excede minha expectativa. Mas a graça está nisso — procurar ver se posso fazer aquela ilustração perfeita.

Com a tecnologia afetando todas as áreas da vida, como percebe seu efeito na arte?

Mais força. Na indústria de publicação hoje, o artista tem um papel mais central no processo de imprimir do que há dez anos. O investimento criativo permaneceu o mesmo, mas a execução foi automatizada. A meu ver, o resultado é dar mais força ao artista.

A tecnologia tem sido excitante para mim. Comprei meu primeiro computador quando estava num ponto em minha carreira em que senti que tinha dominado quase tudo que esperava fazer. Subitamente, senti-me um novato outra vez, aprendendo a fazer no computador aquilo que fazia por outros meios. Senti estar na escola de novo. Gosto da justaposição de trabalhar em conjunto com meios tradicionais e com tecnologia de ponta. E você pode integrá-las; elas de fato podem complementar uma a outra. E é divertido!

Sua esposa é artista por conta própria. Que papel desempenhou sua família em sua carreira?

Fui muito feliz em ter uma esposa que não só é minha melhor amiga, mas também minha colega e melhor crítica. Nós nos completamos profissionalmente.

Recentemente fiquei pai pela segunda vez, e com os filhos vêm algumas restrições às longas horas de trabalho. Não quero perder a oportunidade de vê-los crescer.

Como sua fé cristã afeta seu trabalho como artista?

Deus colore cada coisa na vida do cristão. Minha fé me afeta de modos práticos, como a qualidade de trabalho que aceito. Uma vez fui convidado para fazer um cartaz para uma cervejaria. A oferta era atraente, mas tive de rejeitá-la. Há um preço a pagar para o cristão.

O maior efeito, no entanto, é que todo o processo criativo se torna uma extensão da natureza criativa de Deus. Ele nos criou à Sua imagem, e creio que isso inclui a habilidade de nós mesmos criarmos algo. A experiência criativa pode ser uma experiência espiritual.

Recentemente um rapaz que trabalha para você foi batizado. Diga-me como isso aconteceu.

Randy estava trabalhando para nós primariamente como animador. Ele tinha observado cuidadosamente minha esposa e a mim, soubemos mais tarde. Notou como fechávamos tudo para o sábado e íamos à igreja. Tínhamos trabalhado num livro sobre o batismo. Um dia me disse: “Gostaria de ir a sua igreja”.

“Isso seria excelente”, exclamei. “Terei prazer de apanhá-lo no próximo sábado. Penso que você gostará da visita.”

“Não”, disse ele. “Quero pertencer a sua igreja!

Aqui estava alguém que queria unir-se à Igreja Adventista do Sétimo Dia e que nem tinha entrado numa antes. Assistiu às reuniões da Net 96 e respondeu ao primeiro convite para o batismo.

Que mais tem influenciado sua vida pessoal e profissionalmente?

Dois indivíduos. Com um passei quase toda a minha vida, e com o outro só gastei um único dia.

O primeiro foi minha mãe. Ela sempre me encorajou. Ela teve a visão de me expor a coisas novas — museus, livros, arte. Aprendi dela que o talento devia ser apreciado e aperfeiçoado.

O outro foi Harry Anderson, falecido há pouco tempo. Eu o admiro porque em sua obra primeiro reconheci os princípios de composição e de iluminação. Quando era jovem, tínhamos em casa livros com suas ilustrações, e pude ver que possibilidades havia na pintura. Tive a oportunidade de passar um dia inteiro com Harry Anderson em sua casa, em Connecticut. Era uma pessoa muito simpática e culta.

Que conselho daria a um jovem que se sente atraído à arte como carreira?

Primeiro, tenha um cabedal razoável de talento artístico. Isso pode ser subjetivo; assim leve seu trabalho a um artista profissional e peça uma apreciação honesta.

Segundo, seja dedicado. Um artista devia ter o mesmo senso de dedicação que alguém que quer ser advogado ou médico.

E, finalmente, prática. Se uma pessoa quer ser primeiro violinista numa orquestra, ele ou ela precisa dedicar muitas horas diárias à prática. Um artista não pode fazer menos. Alguns têm a idéia romântica de que você simplesmente senta e o desenho corre de seus dedos. Não é assim que acontece.

Entrevista por B. Russell Holt. B. Russell Holt é vice-presidente para desenvolvimento de produtos na Pacific Press Publishing Association, em Nampa, Idaho, e é o autor de muitos artigos e livros. O endereço de Lars Justinen: 110 12th Avenue South; Nampa, ID 83651; E.U.A. E-mail: INTERNET: lars@jcg.com.