Dispositivos intra-uterinos

É o uso de dispositivos intra-uterinos aceitável como medida para planejamento de família? O processo impede a implantação do ovo fertilizado. Não é isto equivalente a aborto?—Boaz Adegu, Universidade de Nairobi, Quênia.

Dispositivos intra-uterinos são usados para impedir a concepção. Colocado diretamente no útero e aí deixado por um tempo considerável, causam um processo inflamatório leve no útero, que impede (na maioria dos casos) qualquer ovo fertilizado de se implantar na parede uterina, assim impedindo a gravidez. Para aqueles que crêem que a vida começa com a concepção, isto é problemático porque nega uma vida “individual”, e poderia ser classificado como “aborto”.

Para compreender a questão, contudo, deve-se considerar os eventos que estabelecem uma gravidez viável. A concepção não é um acontecimento mas um processo com várias etapas. Quando o esperma descarrega seu material genético no ovo e o ovo começa a dividir-se em células múltiplas, há um período de tempo em que o ovo é chamado “pré-embrião”. Mais de 50 por cento das vezes, o pré-embrião é abortado” — sem intervenção ou controle de natalidade. Simplesmente é eliminado do corpo e nunca se implanta.

Também, o pré-embrião pode se implantar no útero, mas aborta mais tarde espontaneamente e a gravidez não é estabelecida.

Além disso, o pré-embrião é não-diferenciado; seu destino não determinado. Pode dividir e produzir dois ou mais pré-embriões, cada um capaz de produzir uma gravidez viável (e assim indivíduos separados). Como demonstrado em estudos em animais, dois pré-embriões (de dois ovos fertilizados separadamente) podem fundir-se e tornar-se um. Por causa das caraterísticas não diferenciadas do pré-embrião, é a opinião de alguns que não é ainda uma “pessoa” e assim é considerado diferente de um embrião maduro, cujas células se diferenciaram nos precursores dos órgãos humanos.

Muitos crêem que a “pílula” (contraceptivo oral que contém hormônios) age antes da fertilização e, portanto, não é problemático uma vez que não causa um “aborto” prematuro. Contrariamente a esta opinião errônea, os contraceptivos orais agem de dois modos. Primeiro, impedem ou reduzem a ovulação (a liberação de ovos do ovário). Contudo, ovos viáveis podem ainda ser liberados e fertilizados pelo esperma. Segundo, a contracepção oral também atua no revestimento do útero e assim impede a implantação. Como regra, não é possível saber quais destas ações ocorrem durante o ciclo menstrual. Se se conclui que há um problema moral com dispositivos intra-uterinos, também dever-se-ia concluir que há um problema moral (em alguns casos) com contracepção oral.

Tendo discutido parte da fisiologia da contracepção, seria bom destacar que a ação moral apropriada não devia ser baseada em fenômenos biológicos desconhecidos ou que sejam difíceis de compreender. Cristo ensinou que o pecado começa na mente. No contexto do aborto, há vasta diferença entre o desejo de limitar o número de filhos na família e a escolha deliberada de interromper uma gravidez estabelecida. A decisão moral mais significativa começa com a mente, e a escolha subseqüente não devia depender de fenômenos fisiológicos complexos.

Albert Whiting (M.D., Universidade de Loma Linda) é diretor do Departamento de Saúde e Temperança da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Seu endereço: 12501 Old Columbia Pike, Silver Spring, MD 20904; E.U.A.