Criação e uma fé lógica

Não tenho muita fé na lógica como solução dos problemas do mundo, mas quero uma fé lógica. Não exijo que minha fé corresponda à “lógica científica” como concebida no presente, mas espero que ela seja inteiramente consistente.

Estou falando aqui da lógica interior da Escritura e doutrina, naturalmente. Quero crer o que a Bíblia ensina, mas também quero que essa crença seja lógica — não quero crer em “fábulas engenhosamente inventadas” (II Pedro 1:16).

Recuso crer em qualquer “doutrina cristã” que não posso, para minha satisfação, fundamentar na Bíblia. Todavia, também recuso abandonar qualquer doutrina cristã apoiada na Bíblia, mesmo que ela seja impopular ou seja chamada “não científica”. Fazê-lo seria ilógico.

Tenho um amigo, capelão em minha universidade estadual, que tem uma fé ilógica, embora pense que o ajudará a persuadir estudantes de faculdade lógica. Ele crê, diz ele, na existência de Deus, em Jesus Cristo como seu Salvador, no nascimento virginal e na vida eterna — mas não crê na Criação. A meu ver, isso faz de sua fé um absurdo ilógico.

Muitos cristãos supostamente lógicos partilham esta fé ilógica deste capelão. Gostaria de explicar porque é ilógico biblicamente e doutrinalmente não crer que Deus criou a vida na Terra em seis dias literais.

Estou assumindo, como base da discussão, que a Bíblia é a inspirada Palavra de Deus, que nos foi dada mediante palavras escolhidas por homens, mas infalível quanto à doutrina no autógrafo original. Se não é, se é apenas as especulações humanas de escritores piedosos, então não temos nenhuma base lógica ou autorizada para fé e doutrina, o que quer que creiamos.

Eis o problema: Muitas doutrinas cristãs são baseadas parcialmente sobre textos que também dizem de modo claro e inequívoco que Deus nos criou. Embora digam ou não, os textos asssumem que a criação ocorreu em seis dias — os escritores bíblicos não tinham outra teoria sobre o tópico. Assim, logicamente, se Deus não criou como a Bíblia diz que Ele o fez, então esses textos, errados em parte, bem podem ser errados noutra parte qualquer. Como podemos argumentar que uma frase que identifica Jesus como Salvador é inspirada, mas a frase seguinte, que o identifica como Criador, é apenas lenda? Tal compreensão arbitrária da inspiração é um engano ilógico.

Examine as afirmações seguintes e os textos que as apeiam. Se estas passagens das Escrituras são aceitas como um apoio autêntico e inspirado de doutrina e fé, então como cristão, não tenho outra alternativa lógica para afirmar a validez de sua implicação de que Gênesis 1 é um relato inspirado por Deus e verdadeiro de que Deus criou a vida na Terra em seis dias.*

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para a crença de que Jesus é o Messias, o Salvador e o Filho de Deus:

“Assim diz o Senhor, o que vos redime, o Santo de Israel...Eu sou o Senhor, vosso Santo, o criador de Israel, vosso rei” (Isaías 43:14, 15).

“Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1:3).

“Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também por ele” (I Coríntios 8:6; ver também Hebreus 1:1-3, Colossenses 1:15-20, I Pedro 1:18-20).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer na volta de Cristo e o fim do mal:

“Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” (Apocalipse 14:7).

“Pois que eu crio novos céus e nova terra....e nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor” (Isaías 65:17-19).

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mateus 25:34).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer nos Dez Mandamentos como a lei de Deus:

“Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êxodo 20:11).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer na santidade do casamento:

“Não tendes lido que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher,” e disse, “Por esta causa deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mateus 19:4-6).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer no novo nascimento, na regeneração:

“Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Colossenses 3:9, 10).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer que a vida é um dom de Deus:

“Se ocultas o teu rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem, e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra” (Salmo 104:29, 30).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer na revelação de Deus ao mundo mediante a natureza:

“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis” (Romanos 1:20).

“Tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as suas próprias paixões, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação. Porque deliberadamente esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus, pelas quais veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em água. Ora, os céus que agora existem, e a terra, pela mesma palavra têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o dia do juízo e destruição dos homens ímpios (II Pedro 3:3-7; ver também Isaías 41:17-20).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer na existência de Deus como regente do universo:

“Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas” (Apocalipse 4:11).

Se Deus não nos criou, não temos base lógica para crer na oniciência de Deus:

“E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hebreus 4:13).

Se não cremos que a vida foi criada na Terra em seis dias, como Gênesis 1 ensina, então é naturalmente ilógico crer que Adão e Eva jamais pecaram, como Gênesis 3 ensina. Se evolvemos, seja por “evolução teísta” ou “por desígnio”, então a morte sempre existiu na Terra. Deus, se é que Ele existe, torna-Se um Deus de “dentes e garras”, oferecendo-nos “sobrevivência do mais apto” em vez de “salvação pela fé”. Se a morte sempre existiu, então a morte não entrou no mundo como resultado do pecado. Portanto, se evolvemos, não pode haver pecado que leva à morte, e assim não há necessidade de um Salvador do pecado, mas também não temos razão para esperar o fim da morte. Se Cristo é identificado como o Criador por João e Paulo mas eles estavam errados, então não temos base para esperar que tivessem razão quando escreveram que Ele morreu pelos nossos pecados, ressuscitou, ascendeu a Seu Pai e voltará para nos salvar e recriar aquilo que Ele originalmente criou.

“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (I Coríntios 15:19).

Não penso que podemos ter as duas coisas. Se aceitamos que Deus criou o mundo do modo como a Bíblia ensina, então é lógico esperar por Sua volta. Se não aceitamos a Criação, então fé em Cristo é mero devaneio, o Corpo de Cristo mero clube social.

Ed Christian (Ph.D., University of Nebraska) ensina Inglês e a Bíblia como Literatura na Kutztown University. Este artigo é adaptado de uma de suas apostilas de Literatura do Velho Testamento. Seu endereço postal: Department of English; Kutztown University; Kutztown, Pennsylvania 19530; E.U.A. Endereço E-mail: christia@kutztown.edu

Notas e referências

  1. Especifico “vida na Terra” porque concordo com Richard Davidson que o texto hebraico de Gênesis 1 requer uma criação da vida em seis dias, mas sugere que Deus criou o mundo “informe e vazio” e o universo em épocas remotas antes da criação da vida aqui. Ver Davidson, “No Princípio: Como Interpretar Gênesis 1”, Diálogo:3 (1994), págs. 9-12.