Vendo através dos olhos de Jesus

Jesus estava em Jerusalém. Provavelmente foi durante a Festa de Dedicação. A cidade estava apinhada de peregrinos de perto e longe. Sacerdotes e levitas, fariseus e saduceus, rabinos e doutores da lei, os simples e os curiosos todos se aglomeravam nas ruas estreitas da cidade de Davi. Havia tanto para ver: o templo, o palácio, os muros, as grandes portas da cidade e outras atrações turísticas. Havia tanto para ouvir: pregadores de rua expondo a lei, os fariseus argumentando sobre a herança judaica, os zelotes cochichando aqui e ali sobre o momento favorável para expulsar os romanos. Havia tanto para fazer: adorar no templo, fazer um voto diante dos grande marcos miliários na cidade ou simplesmente assentar-se à sombra de uma árvore e observar a multidão passar.

Jerusalém tinha muito para oferecer aos milhares de visitantes durante essa época festiva. Mas Jesus não era um visitante comum. Seus olhos e ouvidos, Sua mente e coração, não eram de um turista, atraído pelo resplendor e encanto da cidade. Ele era uma pessoa do povo. “Caminhando Jesus viu um homem cego de nascença”. Nesta simples sentença, o autor do Evangelho distingue Jesus do resto da multidão.

Imagine-se visitando Washington, D.C. Que veria você? A Casa Branca, o Memorial de Lincoln, o monumento a Washington, os museus Smithsonian e o edifício da Associação Geral talvez entrassem na lista. Se tivesse a escolha de ver alguém, o Presidente dos Estados Unidos com certeza seria um. Mas certamente não os desabrigados do Dupont Circle.

Geralmente vemos o que é importante para nós. O foco de nossas atenções é determinado pelo que está dentro do coração. Jesus veio a este mundo revelar o amor de Deus pelos farrapos da humanidade. Veio para salvar os perdidos, curar os enfermos, dar vista aos cegos, ressuscitar os mortos. Essa era Sua paixão. Nada era mais importante para Ele do que restaurar o quebrantado de coração, dar liberdade aos cativos, pregar as boas novas de salvação, proclamar o ano aceitável do Senhor. Assim fazendo, Jesus estava disposto a privar-Se de descanso, alimento, água — e finalmente da própria vida. Por isso, quando a cidade inteira estava preocupada com outras coisas, Jesus viu o cego e foi em seu socorro.

Assim, que significa ver através dos olhos de Jesus? Observe estes quatro pontos:

Visão compassiva

Ver através dos olhos de Jesus significa ver com compaixão. Tudo que Jesus fazia era condicionado por Seu infinito amor e compaixão. Precisamos ser sensíveis e responsivos aos desafortunados, como Ele era. Precisamos sentir o que Ele sentia. Precisamos ter um coração terno que pode tocar os que sofrem. Jesus identificava-Se com as dores e necessidades do cego. Quando Sua compaixão despertou uma resposta de fé, os olhos do cego foram abertos. Pela primeira vez na vida, viu o brilho do sol, a beleza da natureza e o Senhor da cura. Com o coração repleto de gratidão e louvor, proclamou o que Jesus fizera por ele. Não receou dar glória a Deus.

Visão desobstruída

Ver a outros através dos olhos de Jesus significa descartar tudo o que impede uma visão clara. Quando Jesus viu o cego, viu uma pessoa em grande necessidade e percebeu uma oportunidade de revelar o poder de Deus. Mas os discípulos viram algo diferente. Viram um problema teológico. “Mestre, quem pecou, este ou seus pais?” perguntaram (João 9:2). Freqüentemente, os cristãos permitem que a teologia e doutrina interfiram no ato de ver as pessoas como são e o que necessitam. A teologia e doutrina, entretanto, devem focalizar quem Deus é e o que Ele quer que façamos pelos outros. Sempre que a teologia perde este enfoque, torna-se um estorvo e um instrumento de Satanás para diminuir-nos a visão e destruir nossa missão.

Visão baseada na revelação de Deus

Ver como Jesus vê exige que aceitemos a visão que a revelação de Deus oferece. Considere os vizinhos do cego. Sabiam que ele era cego e desamparado desde o nascimento. Agora ouviam o testemunho do homem, de que Deus o tinha curado. Deus o encontrou pessoalmente e restituiu-lhe a vista. O homem era uma vindicação viva do poder de Deus. Mas os vizinhos não estavam dispostos a receber a revelação de Deus. Até duvidaram de que fosse o mesmo cego que se assentava no bairro e esmolava cada dia. Buscaram a opinião dos fariseus. Preferiram o julgamento de outros à revelação de Deus.

Os fariseus tinham sua própria catarata. Quando descobriram que a cura ocorrera no sábado, não puderam aceitá-la. Concluíram que Aquele que curara no sábado quebrara o sábado, e por conseguinte não podia ser de Deus (João 9:26). A visão dos fariseus estava tão ofuscada por uma interpretação legalista da guarda do sábado que não podiam ver o Senhor do sábado. Para eles, Jesus não era a revelação final de Deus, mas um homem que não guardava o sábado. Ver como Jesus via é ir além dos rudimentos exteriores da lei e reconhecer a dimensão interior de que a lei é um transcrito do caráter de Deus.

De modo bastante irônico, a visão dos fariseus era com efeito cegueira da pior espécie. Ellen White explica por que: “Os fariseus julgavam-se demasiado sábios para necessitar instruções, demasiado justos para precisar salvação, muito altamente honrados para carecer da honra que de Cristo vem.... Apegavam-se às formas mortas e desviavam-se da verdade viva e do poder de Deus.”*

Apego a tradições e regras às custas de rejeitar a revelação de Deus não nos pode ajudar a ver como Jesus via. Certa vez um irmão veio visitar-me. Estava muito preocupado porque na igreja não estávamos adorando corretamente. Não nos ajoelhávamos para cada oração. Não estávamos cantando a doxologia do hinário da igreja. E assim por diante. Obviamente, nosso irmão identificava o culto com tradições e práticas. O ponto principal é adoração — vir perante Deus, louvar-Lhe o nome, oferecer-Lhe nossas orações e ouvir Sua Palavra. O modo como fazemos tudo isso pode ser diferente, mas ver o culto como Jesus o via é aceitá-lo como um meio de louvar e glorificar a Deus.

Se tradições ou regras humanas não nos ajudam a sentir o amor de Deus e nos impedem de ver como Jesus vê, precisamos rejeitá-las. Se não, elas nos cegarão como cegaram os fariseus. Tornaram-se tão cegos que não podiam entender a lógica mais fundamental e clara apresentada pelo cego. “Uma coisa sei,” disse ele, “Eu era cego, e agora vejo” (João 9:25).

Visão corajosa

Ver como Jesus via é ver corajosamente. Note a reação dos pais do cego. Deviam estar contentes. Agora seu filho podia ver. Não mais precisava ser mendigo. Podia trabalhar e ter vida independente. O povo tinha suas dúvidas, os fariseus tinham sua teologia, mas os pais não tinham razão para duvidar de que seu filho se tornara uma nova pessoa. Não podiam, entretanto, ver como Jesus via. A visão de Jesus era uma visão corajosa. Ele viu um homem carente e o curou no dia de sábado, sem receio dos fariseus. Ao fazer o bem, restaurando a vista ao cego, não restava lugar para a covardia. Mas os pais estavam com medo e disseram: “Perguntai a ele, idade tem; falará de si mesmo” (João 9:21). Acharam melhor ser aceitos por outros do que por Deus. A pessoa que tem medo de ser rejeitada por outros por dizer a verdade não pode ver como Jesus vê. Mais cedo ou mais tarde, a escuridão se apossará de tal pessoa.

A maior necessidade

Por conseguinte, nossa maior necessidade é ver como Jesus vê. Como crente, como estudante ou profissional, precisamos buscar diligentemente ver como Jesus vê. Há ocasiões quando não sabemos o que fazer, o que dizer, que direção tomar, mas é reconfortante saber que Jesus está disposto a romper através de nossa confusão e escuridão e trazer luz a nossos corações. O Espírito Santo está pronto para pôr colírio em nossos olhos, habilitando-nos a ver corretamente.

Jesus é o maior optometrista de todos os tempos! Ele tem a prescrição certa para a visão correta. NEle, tudo é 20/20. Está pronto para restaurar-nos a visão, para habilitar-nos a ver como Ele vê.

Rubén Ramos (M.Div., Andrews University) é ministro ordenado e coordenador da obra adventista entre hispânicos na Associação de Potomac, que compreende a área metropolitana de Washington, D.C. Seu endereço: 12521 Marie Ct.; Silver Spring, Maryland 20904; E.U.A.

* Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Santo André, SP.: Casa Publicadora Brasileira, 1979), págs. 257, 258.