Linda Hyder Ferry: Diálogo com uma médica

Milhões de pessoas são escravas da nicotina. Viciadas, aflitas e desamparadas, gostariam de nunca ter dado a primeira baforada, e gostariam ainda mais de poder vencer o hábito e ser livres de novo. Para tais pessoas e para um tempo como o nosso, a ajuda pode estar a caminho pela pesquisa de Linda Hyder Ferry, professora-associada de Medicina e Saúde Pública na Universidade de Loma Linda, Califórnia. Linda Ferry, M.D., M.P.H., é médica com uma missão: ajudar as pessoas a deixarem de fumar. Uma pesquisa original levou à produção de bupropion (Zyban), o primeiro tratamento farmacológico não causador de dependência, isento de nicotina, a ser aprovado pela Food and Drug Administration. Ferry diz de seu trabalho: “Creio que isso ocorreu sob a direção divina. Ele deu-me a preocupação persistente de fazer algo sobre o fumo”.

Adventista do sétimo dia de quinta geração, a Dra. Ferry formou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Loma Linda. Fez residência em prática de família na Universidade do Texas, retornando depois à Universidade de Loma Linda para obter o mestrado em Saúde Pública. É casada com David Ferry, chefe de cardiologia do Centro Médico de Problemas dos Veteranos de Loma Linda.

Em 1997, a Dra. Ferry fundou a FIND: Fundação para Inovações em Dependência da Nicotina. Esta organização sem fins lucrativos provê recursos materiais e desenvolve pesquisas que ajudarão os que querem abandonar o cigarro e eliminar sua dependência da nicotina. Você tem acesso à fundação pela Internet em http://www.findhelp.com. ou escrevendo para: P.O. Box 2001, Loma Linda, Califórnia 92354, E.U.A. Telefone: (909) 777-3290, Fax: (909)777-3281. E-mail: info@findhelp.com

O que a levou a essa missão dinâmica de combater o cigarro?

Minha especialidade é medicina preventiva e saúde pública. O Senhor persistiu em colocar-me diante de um foco específico. “Linda”, parecia Ele estar dizendo, “seu interesse é medicina preventiva. E o problema de saúde mais sério no mundo é o tabagismo. Que está você fazendo a respeito?” Senti que Deus queria que eu examinasse criticamente o problema do cigarro e procurasse novas soluções. Uma vez escolhido o enfoque, as portas se abriram no tempo certo.

Como médica, a senhora poderia ter-se especializado em muitas áreas diferentes. Por que se envolveu com a questão do cigarro?

Três razões, talvez. Primeiro, minha perspectiva adventista e a crença na mensagem de saúde. Ao começar a trabalhar com saúde pública, reconheci que se as pessoas pudessem deixar de fumar viveriam com mais saúde, desfrutariam melhor a vida e seriam mais úteis ao próximo.

Segundo, meu trabalho como diretora médica da Unidade de Tratamento de Vícios no Hospital dos Veteranos de Loma Linda. Meu trabalho era tratar pacientes com problemas oriundos de seus vícios (exemplos: álcool, heroína, cocaína, anfetaminas). Mas depois de completarem os programas de recuperação, ainda saíam do hospital com um maço de cigarros no bolso. Eu me perguntava: “Se eles podem abandonar toda espécie de drogas causadoras de dependência, por que não podem abandonar a nicotina?”

Terceiro, minha responsabilidade como diretora da residência de medicina preventiva na Universidade de Loma Linda. Ao planejar um programa para deixar de fumar, descobri algumas pesquisas intrigantes. O primeiro estudo indicava que as pessoas que tentam deixar de fumar e fracassam têm maior probabilidade de ter uma história de depressão. O segundo foi uma pesquisa com milhares de fumantes, mostrando que quase um terço tinha sintomas de depressão. Finalmente, um colega psiquiatra mencionou que seus pacientes, tratados com bupropion para depressão e desordem com déficit de atenção, relatavam que não mais ansiavam usar café, chocolate ou cigarro como antes.

Tudo isso me levou a pensar em antidepressivos como possíveis auxiliares para deixar de fumar.

Como começou a trabalhar com sua idéia?

Em minha primeira tentativa de pesquisa, recrutei minha mãe, enfermeira jubilada, como assistente. Não tinha recursos para contratar uma. Os residentes em medicina preventiva fizeram todo o trabalho gratuitamente. Comprei a medicação e paguei os testes de laboratório com um subsídio da Universidade de Loma Linda. Uma vez completado o estudo-piloto, os fabricantes de bupropion ofereceram subsídios para desenvolver um programa de pesquisa.

E o resultado?

O fumo cria um traço de dependência no cérebro, visto que a nicotina controla o centro de prazer e recompensa do cérebro. O uso do bupropion modifica essa química cerebral. Em algumas pessoas, o bupropion diminui o desejo de nicotina enquanto ainda fumam, e dentro de uma semana os cigarros não têm mais um gosto agradável. Uma vez que a pessoa deixa de fumar, o bupropion estabiliza os mensageiros químicos no cérebro, onde a nicotina opera, e diminui a síndrome de abstinência da nicotina.

Por que o uso do medicamento é importante? Por que não enfatizar a força de vontade?

Freqüentemente as pessoas dizem: “Por que dar a essa gente todas essas drogas? Abandonar o cigarro é uma questão de cabeça”. Sim, é uma questão de cabeça, mas tem a ver com química. O que os não-fumantes não reconhecem é que o medicamento rearranja a disposição, afeta a neuroquímica dos fumantes, e os deixa com o sentimento de serem normais.

Que dizer daqueles que acham que você deve apenas orar?

Sim, você deve orar. Mas além da oração, há outras coisas que você precisa fazer. Ensine os fumantes sobre mudança de comportamento e preparação psicológica, mostrando como a pessoa se sente vivendo sem dependência de nicotina. Afinal, Deus criou a química de nosso cérebro. Ele criou humores e emoções. Quando substâncias prejudiciais destroem o equilíbrio neuroquímico do cérebro de maneira que não funcione de modo apropriado, por que não ajudar a corrigir o problema? Especialmente quando o bupropion não é uma substância que vai criar um novo vício ou problema?

Assim, o que é exatamente que a nicotina faz? Qual é o verdadeiro homicida?

A nicotina não é necessariamente o que mata as pessoas. É o que mantém o cérebro viciado de modo a conservá-las usando tabaco. São os 4800 produtos da combustão do tabaco que as matam. Trinta por cento de todas as doenças do coração estão relacionados com o fumo, que é o homicida número um nos Estados Unidos. Entre 85 e 90 por cento dos casos de câncer do pulmão se devem ao cigarro. Provavelmente 30 por cento de todos os cânceres são devidos ao cigarro. Enfermidade crônica que obstrui o pulmão é outra assassina. Um amigo especialista em pulmão disse-me recentemente que ele perderia o trabalho se as pessoas deixassem de fumar! O tabaco é também responsável por doenças vasculares, outro grande assassino. Assim, o tabaco é responsável pela morte de 434 mil pessoas cada ano nos Estados Unidos, e a maioria está morrendo 10 a 30 anos antes do tempo.

Onde nos encontramos agora? Não há menos fumantes?

Fumar cigarros realmente aumentou entre 1920 e 1930. Os números continuaram a crescer durante a Segunda Guerra Mundial, pelo fato de os soldados receberem cigarros gratuitamente. Depois da guerra o vício atingiu um ponto alto, quando mais de 50 por cento da população dos Estados Unidos fumava.

A primeira advertência contra o fumo veio em 1964, quando o chefe da Saúde Pública condenou o cigarro como um perigo para a saúde. Desde então, o hábito de fumar tem diminuído 1 a 2 por cento cada ano. Mas desde 1994 o declínio parece ter parado e a estatística estacionou nos 25 por cento da população americana.

Deixar de fumar é somente questão de ir ao médico e obter uma receita de Zyban?

O tratamento dos vícios não é alcançado simplesmente alterando a química do cérebro, embora isso seja importante. O vício é como um triângulo, e a dependência neuroquímica é apenas um dos três lados. Os outros dois lados — ajudar as pessoas a modificarem seu comportamento e tratar as razões para a dependência psicológica — são também essenciais. Além disso há o lado espiritual. Em minhas classes para deixar de fumar, enfatizo o uso de todos os recursos, incluindo o espiritual, para vencer o vício.

Como é que a senhora se envolveu nessa atividade de prestar ajuda, que é claramente um ministério no seu caso?

Cresci como filha única. Tive a sorte de ter pais cristãos. Desde que me lembro, meu pai lia para mim cada noite. Minha história bíblica favorita era a da Rainha Ester. Quando comecei a ler sozinha, já conhecia a história de cor. Fui profundamente moldada pela história de uma meninazinha que nada podia esperar do futuro. Deus a colocou num lugar onde foi um instrumento para salvar a vida de milhares de pessoas.

A história me fascinou a vida toda, especialmente a frase que Mardoqueu dirige a Ester: “Quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” E se você se recusar, Deus achará outra pessoa.

Quando o Senhor me conduziu ao envolvimento com saúde pública, Ele continuou a dizer, “Linda, o mais sério problema de saúde hoje é o fumo. Que vai você fazer a respeito?” Orei simplesmente: “Não sei o que fazer, Senhor. Por favor guia-me. Parece que nada posso fazer que signifique uma diferença. Mas continuarei a seguir aonde Tu me guiares”. Deus fez a diferença em minha vida.

Qual foi o aspecto mais gratificante de seu trabalho?

Apresentar-me com minha mãe, minha enfermeira voluntária na pesquisa inicial, diante de um grande público e ser reconhecida como tendo sido instrumento em levar este novo tratamento ao ponto em que ele se acha hoje. Pensar em todos aqueles que serão salvos de uma morte prematura, e em quão mais saudável a América pode ser! Servir a Deus é um ministério muito compensador.

Entrevista por Jonathan Gallagher. Jonathan Gallagher é o diretor de notícias da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia.

* Quando a entrevista foi feita, ainda não havia acesso ao bupropion fora dos Estados Unidos.