À nossa própria imagem? A ética e a clonagem humana

Cumulina. Não é uma cidade romântica numa ilha remota. Não é um prato exótico. Nada que você pudesse ter adivinhado alguns meses atrás. Embora Cumulina seja apenas uma ratazana, ela é uma valente recém-chegada num valente mundo novo. Aninhada na serragem de gaiolas de plástico transparente em Honolulu, na Universidade do Havaí, Cumulina e cerca de 50 outros ratos são recentes pioneiros na pesquisa científica com implicações assustadoras. Os ratos parecem bem normais, indistinguíveis de outros em qualquer laboratório de animais. O grupo, contudo, é sui-generis porque só tem “progenitores” femininos. Como Dolly, a ovelha mais conhecida, os ratos foram produzidos pelo transplante de uma célula somática nuclear — em outras palavras, por clonagem.

Dolly provocou uma tempestade de debates. O anúncio de seu nascimento feito pelo cientista escocês Ian Wilmut em fevereiro de 19971 levantou a possibilidade de que, num futuro próximo, seja possível clonar seres humanos. As implicações filosóficas e éticas ocuparam a mídia por meses e puseram a clonagem humana na agenda de corpos legislativos e centros de estudos ao redor do mundo. Por um ano e meio o debate continuou, restrito unicamente pela incapacidade de outros cientistas repetirem o processo, pelas dúvidas de que a tecnologia possa ser adaptada para seres humanos e pelas sugestões de que a concepção de Dolly pudesse não ter sido imaculada.

Aqueles argumentos foram removidos por três reportagens publicadas em julho de 1998 na revista Nature. Dois grupos apresentaram evidências convincentes de que Dolly é geneticamente idêntica à ovelha da qual foi derivada; ela é de fato um clone autêntico2,3. O grupo de Honolulu mostrou que o transplante da célula somática nuclear pode ser repetido, criando três gerações sucessivas de ratos clonados4. Também apresentaram evidências de que isso pode ser feito com espécies que se supunha serem difíceis de clonar, inclusive seres humanos. Segundo o editor, “torna-se tanto mais provável que, onde alguém tiver licença [de clonar humanos], ele o fará”.5 Essa probabilidade ganhou força quando o físico Richard Seed anunciou ter identificado clientes, apoio financeiro e cientistas para fazer funcionar sua clínica de clonagem em Chicago.

Devem os seres humanos ser clonados?

Mas, devem os humanos ser clonados? Como cristãos adventistas, que apreciamos o valor que Deus atribui à vida humana e levamos a sério nossas responsabilidades como mordomos da terra, devemos examinar cuidadosamente a questão. Depois de explorar a ciência e o aspecto econômico da clonagem, o objetivo deste artigo é identificar princípios éticos que possam guiar-nos através do emaranhado de problemas e emoções que cercam a perspectiva de duplicação assexual humana.

Comecemos com a reprodução sexual. Seu livro de biologia diz que quando duas células germinais se unem para fertilização, elas combinam seus genes para criar um zigote unicelular. O material genético do zigote, na forma de DNA, é mais tarde reproduzido e distribuído entre as duas células resultantes, formando um embrião de duas células. O embrião se desenvolve por ciclos ordenados de reprodução do DNA e divisão celular. Toda célula recebe uma cópia do material genético, metade provida originalmente por cada progenitor. Quando o embrião atinge um número de células crítico, começa a especializar-se, expressando seletivamente alguns genes e desligando outros, segundo um programa embutido. Dependendo do padrão de expressão, algumas se tornarão células nervosas; outras, células de músculos, e ainda outras, células de pele. A diferenciação finalmente forma um feto com centenas de tipos de células especializadas que constituirão o organismo ao nascer.

Embora a reprodução sexual seja um tema comum, não é universal. Seu livro de biologia também descreve microorganismos unicelulares, como bactérias e fermento, cujo modo de reprodução é assexual. Eles simplesmente se dividem em duas células geneticamente idênticas, clones uma da outra e da célula original. Muitas plantas também se reproduzem assexualmente. Um fragmento espalhado pelo cortador de grama do vizinho pode dar início ao crescimento de capim de roça em seu gramado. Uma trepadeira favorita, uma roseira ou uma planta caseira pode ser clonada plantando-se um galho, até crescer e tornar-se uma planta completa. Alguns animais, como a estrela-do-mar e as minhocas, podem regenerar-se de um fragmento. Cada um desses casos de reprodução assexuada depende do fato de que toda célula num organismo complexo traz em si todos os genes do organismo todo, mesmo se a célula veio da folha de uma planta, onde usou apenas os genes necessários para a folhagem.

Supunha-se que os genes apagados durante o desenvolvimento embrionário fossem permanentemente desativados nos animais. Décadas de tentativas fracassadas de gerar organismos inteiros a partir de células do corpo isoladas (chamadas células somáticas) resultaram na crença de que elas eram diferenciadas de modo terminal. Parecia não haver um modo simples de religar os interruptores genéticos — até surgir Dolly.

Transplante de células somáticas nucleares

Seguindo a trilha de experimentos feitos nas décadas de 1950 e 1960, o Dr. Wilmut obteve oócitos de ovelha (ovos antes da maturação) e manualmente removeu seus núcleos (que contêm o material genético) usando pipetas delicadas de vidro. Então fundiu os oócitos sem genes com células somáticas extraídas do úbere de uma ovelha adulta. O núcleo da célula do úbere substituiu os genes normalmente providos pelo esperma e óvulo no momento da fertilização. O citoplasma do oócito aparentemente proporcionou o ambiente adequado para recompor os genes no núcleo do úbere, permitindo que eles se expressassem na seqüência normal do desenvolvimento embriônico. Depois de um período de crescimento numa solução nutritiva, o oócito reconstituído, que se tinha tornado um embrião multicelular, foi implantado numa ovelha com vistas ao desenvolvimento completo1.

Foi assim que Dolly veio à existência. Os passos cruciais no processo refletem-se em seu nome — transplante de célula somática nuclear. Com várias modificações, a equipe de Honolulu usou a mesma técnica para fazer Cumulina, o primeiro rato clonado, e clones de clones em duas gerações sucessivas4.

Diversos fatos merecem ênfase. Dolly e Cumulina não têm nem pai nem mãe no sentido convencional — pais que contribuíram com células germinais para sua concepção. Em lugar disso, cada uma tem um doador nuclear que proveu todo o material genético nuclear, um doador oócito que proveu a “incubadora” celular na qual os genes foram colocados e uma gestante que nutriu o embrião até ao nascimento. Como nenhum dos participantes foi macho, poder-se-ia dizer que Dolly e Cumulina têm, cada uma, três “mães”.

Segundo: um clone tem o mesmo material do cromossoma do doador do núcleo. Alguns compararam o clone a um gêmeo idêntico do doador nuclear. O oócito doador contribuiu com uma quantia minúscula de material genético achado no mitocondro; a gestante provê só o útero nutriente. As três progenitoras de Dolly foram Finn Dorset, Poll Dorset e uma ovelha escocesa Blackface, respectivamente. Ela se parece com sua “mãe” nuclear Dorset.

Terceiro: embora a clonagem seja uma realização espantosa, é extremamente ineficiente. Mais de 400 óvulos de ovelha foram usados para produzir Dolly1. Todos os outros morreram pelo caminho. Cumulina e sua corte representam 2,5 por cento das tentativas nos experimentos de Honolulu4. Obviamente, a reprodução sexual é mais eficiente, simples e usualmente mais satisfatória.

Isso pode provocar a pergunta: “Por que, afinal, tentar fazer clonagem?” Surpreendentemente, a primeira motivação é duplicar animais, não seres humanos. O valor da clonagem é a conseqüência da diferença crucial entre reprodução sexual e assexual. Considere as incertezas da reprodução tradicional de animais. Os bezerros nascidos de uma produtora de leite premiada, por exemplo, recebem apenas a metade dos genes da mãe. Como a produção de leite depende de muitos genes que interagem, poucos entre suas crias herdarão a combinação exata que fez da vaca uma tão grande produtora de leite. Depois de ganhar a Tríplice Coroa, por exemplo, Secretariat gerou mais de 400 potros pelas melhores éguas do mundo. Nenhum deles teve uma carreira bem-sucedida em corridas!

Fábricas de animais transgênicos

Os clones, em contraste, têm exatamente os mesmos genes de seus doadores nucleares. A clonagem garantiria que o equipamento genético de uma ovelha com lã grossa e macia ou de galinhas que botam ovos com baixo colesterol seria reproduzido precisamente. Embora estas características sejam desejáveis, outras são apreciadas ainda mais. O motor que impulsiona o desenvolvimento de transplantes nucleares é o desejo de produzir animais que levem genes humanos, animais chamados transgênicos.

Durante os últimos 25 anos, a biotecnologia tem identificado e isolado os genes humanos que codificam vários componentes e produtos celulares. Como resultado prático, a insulina e outras proteínas humanas são agora feitas por bactérias resultantes de engenharia genética que crescem em barris de cultura. Muitas proteínas valiosas, contudo, são complexas demais para as bactérias reproduzirem corretamente. Uma alternativa é usar culturas de células humanas ou de mamíferos, modificadas geneticamente, mas é dispendioso cultivá-las e só fazem uma quantidade mínima do produto desejado. O método mais antigo, extrair proteínas diretamente de cadáveres ou de sangue humano com data vencida, é evitado por causa do risco de contaminação com agentes infecciosos como HIV ou vírus de hepatite.

Em busca de eficiência de custo e segurança, a biotecnologia voltou-se para animais domésticos para a criação de produtos sob a direção de genes humanos acrescentados a seus cromossomas. Nos melhores casos, o DNA adicionado faz com que o animal segregue grandes quantidades de proteína humana em seu leite. Chamando isso de pharming, a primeira onda de animais transgênicos é representada por cabras, vacas, porcos e ovelhas nos Estados Unidos, Escócia e Holanda, os quais fazem proteínas como antitrombina II (um agente anticoagulante), alfa-1-antitripsina (ausente em pessoas com enfisema e útil no tratamento de fibrose cística), agentes que coagulam o sangue (ausente em hemofílicos) e interferonas (agentes antivirais). Ter animais domésticos que convertam capim em proteínas é como ter uma galinha que bota ovos de ouro — talvez melhor ainda! Algumas proteínas terapêuticas valem muitas vezes mais do que seu peso em ouro.

OK, então animais que segregam proteínas humanas úteis são valiosos. Como é que a clonagem entra no quadro? Animais transgênicos de alta produção são difíceis de se fazer; a clonagem pode fazê-lo mais facilmente. O primeiro passo ao criar um animal transgênico é identificar e isolar o gene humano para o produto desejado — digamos uma proteína contra vírus. Em seguida, o gene é unido a um segmento de DNA que controla quando e onde o gene será ativo. Uma técnica típica consiste em usar um segmento que dirige o gene a produzir sua proteína contra vírus nas células produtoras de leite da glândula mamária. Estes passos são facilmente efetuados usando técnicas de genética molecular bem conhecidas, mas os estágios subseqüentes são tecnicamente difíceis e ineficientes. Diversas centenas de cópias de gene com o DNA controlador são injetadas laboriosamente em oócitos fertilizados. Os zigotes que se desenvolvem são depois implantados em mães substitutas para gestação. A eficiência é lamentavelmente baixa — tipicamente, menos de 0,5% sobrevive ao nascimento e testa positivo para o transgene. Um número menor ainda segrega quantidades úts¡s da proteína em seu leite. Claramente, pode levar anos antes de se formar um rebanho transgênico produtivo.

Métodos eficientes de clonagem mudariam o quadro. Como antes, um gene humano precisa ser isolado e unido a um segmento de controle. Então, em vez de micro-injeção, o gene-mais-o-DNA controlador é simplesmente adicionado ao líquido no qual as células animais estão sendo cultivadas. Nas condições certas, elas começam sós ou depois de um breve impulso elétrico. Usando métodos normais de seleção, as células que aceitaram o transgene podem ser purificadas e testadas para ver se dão indicação de serem boas produtoras de proteína. Visto que essas manipulações são feitas com células cultivadas, e não animais, podem ser completadas em poucos dias. Células modificadas com êxito seriam então usadas para fazer animais inteiros, transferindo seus núcleos para oócitos sem núcleo.

Tecido para transplante

Um papel adicional para a clonagem é a criação de animais com tecidos “humanizados” para satisfazer a grande necessidade de órgãos para transplante. A rejeição aguda de órgãos animais é devida a um arranjo de sub-unidades de açúcar nas superfícies das células, o qual não é tolerado pelos recipientes humanos. Visto ser possível subtrair, bem como adicionar genes, eliminar os genes responsáveis pelas mudanças da superfície ofensiva tornaria os órgãos de animais mais compatíveis com o hospedeiro humano.

É intrigante a habilidade misteriosa do citoplasma do oócito de reprogramar um núcleo. Alguns predizem que talvez seja possível tirar vantagem ainda maior desta propriedade. Depois do núcleo de um paciente ter sido reacertado para um estado embriônico dentro do oócito, será possível instruí-lo para reproduzir e amadurecer num tipo de célula diferente. O objetivo seria gerar tecidos especializados que poderiam ser usados para tratar um vasto elenco de enfermidades humanas — jovens células das ilhotas pancreáticas para tratar diabetes, células da pele para curar queimaduras, células nervosas para reconstruir estragos na espinha ou obrigar a doença de Parkinson a regredir. Se o tecido transplantado fosse derivado do paciente, seria perfeitamente compatível e evitaria rejeições imunológicas. Em vez de pensar na possibilidade horrível de clonar pessoas para serem usadas como “partes sobressalentes”, o transplante nuclear poderia ser capaz de reprogramar células humanas de modo a crescerem como órgãos isolados ou tecidos semelhantes a órgãos.

Clonagem e questões éticas

A tecnologia da clonagem promete benefícios imensos, mas a que custo? Alguns advertem que poderá ser elevado — minando a dignidade humana e degradando as relações familiares. Examinemos essas preocupações com ponderação para determinar se são guias úteis na tomada de decisões sobre clonagem. Organizaremos nossa discussão em torno de sete temas da ética cristã: proteção contra danos, conseqüências para a liberdade humana, efeitos sobre a estrutura da família, potencial para aliviar o sofrimento, mordomia de recursos pessoais, veracidade e o potencial para compreender a criação de Deus.6

1. Proteção contra danos. O criador de Dolly, Ian Wilmut, identificou a razão mais convincente para não se tentar clonar seres humanos: resultaria na perda de incontáveis óvulos humanos e na morte de muitos fetos em vários estágios de desenvolvimento, inclusive próximo ao nascimento. Também introduziria um risco elevado de crianças mal-formadas e mortes de crianças. Em seus primeiros experimentos, cerca de 60 por cento dos cordeiros clonados morreram logo depois do nascimento e muitos mostravam deformidades físicas. A clonagem é moralmente precária porque é arriscada sob o ponto de vista médico. A norma das Escrituras é evitar colocar vidas em risco indevido de dano ou morte, especialmente a vida dos vulneráveis. O mesmo princípio é reiterado no juramento médico de “não causar dano”. Proíbe uma decisão que resultaria em dezenas de natimortos, de crianças mal-formadas ou não-viáveis a fim de produzir uma criança sadia.

A Comissão Nacional de Aconselhamento Ético, designada pelo presidente dos Estados Unidos, decidiu que a clonagem humana é inaceitável no presente por motivos de segurança7. Seu julgamento foi baseado no estágio da tecnologia ainda com menos de dois anos. Recomendou uma moratória temporária, esperando plenamente que experimentos subseqüentes melhorem a proporção de sucesso. Uma proibição permanente seria o equivalente a proibir para sempre o uso público do avião depois do primeiro vôo no 14-Bis. Dolly e Cumulina representam marcos miliares numa longa série de avanços biológicos durante cinco décadas. O atual estágio de progresso requer que se reexamine a tecnologia a intervalos para determinar se amadureceu além do ponto de os benefícios superarem os riscos.

2. Liberdade e dignidade humanas. Os cristãos crêem que os seres humanos têm dignidade porque foram criados à imagem de Deus com a autonomia de “pensar e fazer”. A perspectiva de reprodução humana assexual freqüentemente evoca uma visão contrária e perturbadora — exércitos de zumbis desalmados seguindo os passos de seus progenitores. Nosso temor de cópias a carbono de humanos é poderoso, quase visceral. Deriva-se em parte de nossa tendência de equacionar aparência com identidade pessoal. No ano passado, um jornal reproduziu as respostas de adolescentes à perspectiva de clonagem humana. “Então as pessoas serão clonadas?”, disse um rapaz de 18 anos. “E como você vai saber se elas terão alma? Como saberá o que vem aí pela rua?”

Em contraste, temos pouca dificuldade em aceitar o fato de que gêmeos “idênticos” (monozigóticos) não são realmente idênticos. Desenvolvem personalidades e temperamentos distintos como conseqüência de suas diferentes escolhas, experiências e ambientes. A despeito dos genes idênticos, eles se tornam “almas” diferenciadas. Uma pessoa clonada amadureceria num indivíduo que é inteiramente distinto do doador nuclear pelas mesmas razões mas, adicionalmente, o clone teria uma “mãe” diferente, cresceria numa família diferente e viveria num tempo diferente do doador. Por conseguinte, a crença de que os clones de Albert Einstein ou Michael Jordan repetiriam as vidas de seus progenitores é totalmente sem fundamento. O bioeticista do Centro Hasting resumiu a questão sucintamente, quando observou: “Você não pode clonar um “eu”.8

Mesmo que os clones fossem indivíduos únicos, alguns podem limitar a expressão dessa unicidade. Pode você imaginar o clone de um pianista famoso a gastar horas no teclado com a exclusão de outras ocupações? Estariam algumas pessoas inclinadas a produzir clones para fins comerciais ou sacrificá-los para obter seus órgãos? Nossa opinião é que é moralmente indefensável criar clones para serem usados somente como fontes de órgãos transplantáveis, para exploração comercial ou como instrumentos subservientes. Deveríamos opor-nos fortemente à “modificação” ou “ligação genética” de seres humanos. A clonagem, como todas as tecnologias poderosas, pode ser um instrumento para o bem ou para o mal. Qualquer uso que minasse ou diminuísse a dignidade pessoal ou autonomia de seres humanos deve ser rejeitado.

3. Alívio para o sofrimento humano. A aplicação plena, criativa de nossas mentes e corpos para avançar o ministério benéfico de Cristo é um princípio fundamental da teologia adventista, que se expressa, em parte, em nossos programas mundiais de medicina e educação. Implícita na Grande Comissão está nossa responsabilidade de prevenir e aliviar o sofrimento com os meios à nossa disposição. A clonagem pode ser um instrumento poderoso de cura se permitir que evitemos a transmissão de enfermidades genéticas ou criemos tecidos de substituição e órgãos para reparos ou transplante. Retaugh Dumas, da Universidade de Michigan, expressou uma opinião que pode soar em uníssono com pessoas devotadas ao ministério da cura: “Eu poderia formular um argumento moral de que, se essas técnicas estão disponíveis e não as usamos, estamos em falta com a sociedade”.9

4. Salvaguarda para a estrutura familiar. Durante o anúncio de uma moratória para a clonagem, o presidente dos Estados Unidos expressou a preocupação de que ela tenha “o potencial de ameaçar os sagrados elos da família”. A imagem de crianças produzidas mecanicamente fora do círculo da família é de fato perturbadora. O plano de Deus é que as crianças sejam criadas dentro do contexto da família com a presença, participação e apoio de um pai e uma mãe. Visto que o transplante nuclear pode ser usado para obter a reprodução humana quando outros métodos são ineficazes, devia ser tentado somente dentro do quadro de um casamento fiel e com o apoio de uma família estável. Por essa razão, devem ser evitadas as complicações morais que surgiriam se uma terceira pessoa agisse como substituta para a gestação ou fosse a fonte de material genético.10 A clonagem poderia ser um recurso de última instância para casais que querem ter filhos, mas são incapazes de produzir células germinais normais. Em tais situações, o transplante nuclear serviria como forma avançada de reprodução assistida. Muitos têm proposto o caso hipotético de um casal cujo filho está morrendo, e que quer literalmente substituir a criança. Alguns considerariam isso uma aplicação apropriada de transplante nuclear.

5. Uso inteligente de recursos. Dados os desafios técnicos da clonagem, ela é dispendiosa e provavelmente continuará sendo assim por algum tempo. Um casal americano, por exemplo, pagou 2,3 milhões de dólares para que a Texas A&M University clonasse o seu querido cão Missy. Em sociedades democráticas, as pessoas têm a liberdade de gastar seu dinheiro de milhares de maneiras, inclusive maneiras tolas. Mas os cristãos são exortados a usar seus recursos de um modo que reflita mordomia responsável. Esse compromisso significa pôr o reino de Deus em primeiro lugar. E significa atenção, mesmo com sacrifício, às necessidades dos outros. Assim, os cristãos deveriam calcular as despesas e o custo da clonagem à luz da mordomia fiel.

6. Veracidade. As escrituras ensinam a valorizar a comunicação honesta e veraz. Quando novas tecnologias, como a clonagem, são desenvolvidas, não é fora do comum que alguns entusiastas exagerem os benefícios e subestimem os custos e os riscos. Por outro lado, é uma tentação, para os de opinião contrária, magnificar os riscos e representar mal os objetivos. Os cristãos têm a obrigação de compreender e promover a verdade.

7. Compreensão acerca da criação de Deus. Deus deseja que os seres humanos cresçam em sua apreciação da Criação. Nosso desejo de conhecer o corpo humano e o mecanismo do desenvolvimento humano não é diferente do impulso para investigar outros fenômenos naturais. Deveriam ser encorajados e apoiados os esforços para compreender o mundo ao nosso redor e dentro de nós por pesquisa ética, impulso esse implantado pelo Criador. Para aqueles que são sensíveis aos sinais da mão de Deus no mundo físico, tal conhecimento é evidência de Seu amor e poder.

Existe atualmente um acordo ético generalizado para que a clonagem humana não seja tentada. Os que estão a favor parecem ser poucos. As preocupações com a segurança por si sós deviam ser suficientes para excluir aplicações para humanos, por enquanto. Mas à medida que os biólogos acumulam mais experiência com a clonagem de animais, a técnica ficará mais eficiente e mais barata. As tentativas de clonagem de humanos poderão ser então esperadas.

Os cristãos têm agora uma oportunidade de refletir sobre as questões éticas que a clonagem humana apresenta e considerá-las no contexto de princípios bíblicos permanentes6. Fazer isso é um ato de fé e de maturidade moral.

Anthony J. Zuccarelli (Ph.D., California Institute of Technology) é biólogo molecular e diretor do Programa de Treinamento do Cientista Médico na Universidade de Loma Linda. Seu endereço: Departamento de Microbiologia e Genética Molecular, Loma Linda University; Loma Linda, Califórnia 92350; E.U.A. E-mail: azuccarelli@som.llu.edu

Gerald R. Winslow (Ph.D., Graduate Theological Union, Berkeley), é eticista e Decano da Faculdade de Religião na Universidade de Loma Linda. Seu endereço: Faculty of Religion; Griggs Hall, Loma Linda University; Loma Linda, Califórnia 92350; E.U.A. E-mail: gwinslow@ccmail.llu.edu

Referências

  1. I. Wilmut, e outros, “Viable Offspring Derived from Fetal and Adult Mammalian Cells”, Nature 385 (1997), págs. 810-813.
  2. D. Ashworth, e outros, “DNA Microsatellite Analisis of Dolly”, Nature 394 (1998), pág. 329.
  3. E. N. Signer, e outros, “DNA Fingerprinting Dolly, Nature 394 (1998), págs. 329-330.
  4. T. Wakayama, e outros, “Full-term Development of Mice From Enucleated Oocytes Injected With Cumulus Cell Nuclei”, Nature 394 (1998), págs. 369-374.
  5. “Adult Cloning Marches on”, Nature 394 (1998), pág. 303.
  6. “Human Clonig: A Seventh-day Adventist declaration of ethical principles”. Uma declaração votada pela Comissão da Compreensão Cristã da Vida Humana, março 22-24, 1998 e pela Comissão Administrativa da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, Silver Spring, Maryland, 1998.
  7. D. Shapiro, e outros, “Cloning Human Beings”. Relatório e Recomendações da National Bioethics Advisory Committee, junho, 1997. http: //bioeethics.gov/pubs.html
  8. D. Lutz, “Hello, Hello, Dolly, Dolly”, The Sciences 37 (1997), págs. 10, 11.
  9. G. Kolata, “Clinton’s Panel Backs Moratorium on Human Clones”, The New York Times (Maio 18, 1997).
  10. “Considerations on Assisted Human Reproduction”. Declaração votada pela Comissão da Compreensão Cristã da Vida Humana, Abril 10-12, 1994 e pela Comissão Administrativa da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo-dia, Silver Spring, Maryland, 26 de julho de 1994.