A Janela 10/40: novas oportunidades para missões

Janelas sempre me intrigaram. Janelas com cortinas franjadas. Janelas com jardineiras transbordando de plantas em flor. Janelas com venezianas bem fechadas contra a tempestade. Janelas com grades para proteger do perigo. Janelas coloridas para comunicar beleza ou uma mensagem.

Janelas. Às vezes abertas dando-nos boas-vindas, outras vezes estão cerradas confinando-nos do lado de fora.

Mas considere outra janela — uma janela especial por trás da qual vivem milhões de pessoas dispersas em milhares de “lares”, em vintenas de países. Essas pessoas são como nós, com lares, famílias, alegrias e tristezas. Gente como nós, que precisa do Senhor. Mas quando olham para fora de suas janelas, não podem ver a Cristo; elas não conhecem a alegria da salvação. Precisamos, então, perguntar-nos: Que podemos fazer para ajudar?

No início da última década, estrategistas de missões e planejadores das igrejas cristãs de todo mundo começaram a contemplar com mais profundidade a tarefa que os defrontava. Depois de quase 2.000 anos de “ir a todo o mundo”, que tem a igreja realizado? O que falta fazer? Onde deveria a igreja concentrar seus esforços a fim de cumprir o mandado de Cristo de “ir a todo o mundo” e pregar o evangelho a “toda nação, tribo, língua e povo” (Marcos 16:15; Apocalipse 14:6)?

Como estão os cristãos passando?

Enquanto os líderes missionários consideravam cuidadosamente as questões envolvidas em alcançar o globo para o Mestre, diversos fatos, tanto alvissareiros como preocupantes, tornaram-se aparentes. Primeiro, as boas-novas:

  1. A missão cristã tem sido extremamente bem-sucedida na maior parte do mundo. Como resultado, a igreja hoje não é mais uma instituição euro-norte-americana; mas a maior força religiosa em toda a América Central, América do Sul, em muitas ilhas do Pacífico e na África subsaárica. Os membros ativos nesses países excedem em muito àqueles dos países “paternos”.
  2. A igreja desses primeiros “campos missionários” tem agora uma força-tarefa nativa capaz de suportar maior carga evangelística, testemunhal e cultural.
  3. As igrejas dessas partes do mundo tornaram-se importantes núcleos missionários — ouvindo e obedecendo ao mandado de Jesus para “ir”. O alvo de ter missionários indo “de todos os lugares para todos os lugares” tornou-se uma realidade.

Agora, os fatos que preocupam:

  1. Mais de dois bilhões de pessoas, isto é, 40% dos habitantes do mundo nunca ouviram falar do evangelho de um modo direto.
  2. A maioria deles faz parte de grupos em cujo meio não há a presença cristã. Não há ninguém que fale sua língua e/ou compreenda sua cultura ou viva próximo a eles para partilhar com eles as boas-novas. Eles são o que os missiologistas hoje chamam de “grupos não-atingidos”, os quais jamais ouvirão o evangelho a menos que alguém cruze as barreiras de cultura e língua que os cercam.
  3. Todo país no mundo tem tais grupos no seu meio. Contudo, a maioria desses grupos está concentrada em uma parte do globo. Essa área específica da Terra tem sido cognominada de janela de necessidade, janela de oportunidade e, ao mesmo tempo, uma janela parcialmente fechada. Ela é referida como “A Janela 10/40”.

O que é a Janela 10/40?

A Janela 10/40 é uma área que vai desde o norte da África, passando pelo Oriente Médio e a Ásia central e oriental, entre os paralelos 10 e 40 ao norte do equador (veja o mapa na pág. 16). Essa área apresenta várias características que os cristãos devem considerar:

Os adventistas e a Janela 10/40

A igreja adventista sempre reconheceu a necessidade de ir a “todo o mundo”. Desde meados de 1980, contudo, tem havido uma crescente ênfase na busca das áreas do mundo ainda não atingidas, enfocando-as diligentemente em termos de obra missionária.

Diversas organizações têm estado na vanguarda dessa iniciativa. A Agência Adventista de Desenvolvimento e Assistência (ADRA), com sua ênfase em projetos de assistência e desenvolvimento, vai com determinação a lugares do mundo onde outros empreendimentos missionários não seriam bem-vindos. A Universidade de Loma Linda e suas especializadas equipes de medicina e cirurgia têm conseguido levar o dom de cura a algumas áreas ainda intocadas. Missão de Vanguarda Adventista tem focalizado seus esforços nas “fronteiras” do mundo, fazendo seu trabalho em áreas antes não penetradas.

Além disso, desde 1990 o escritório de Missão Global da Associação Geral vem lançando programas para atingir não somente as nações do mundo, mas também os grupos não evangelizados dentro de cada país. Muitos deles fazem parte da Janela 10/40. Em 1998, como parte da missão global, quase 20 mil pioneiros globais penetraram novas áreas em seus próprios países, para fazer um trabalho pioneiro de evangelização sobre uma base voluntária, enfocando um grupo novo durante um ou dois anos.

Que podemos fazer?

Como cristãos dedicados do século 21, que podemos fazer para enfrentar os desafios e as necessidades que a Janela 10/40 nos apresenta? Obviamente, não queremos volver as costas aos que sofrem, aos pobres e aos destituídos da alegria da salvação. Eis algo que podemos fazer:

1. Encarar seriamente a questão. Atingir os não-alcançados é um assunto sério e urgente. Jesus falou sobre ele na parábola do bom pastor; com 99 de suas ovelhas a salvo no aprisco, o pastor arrisca-se a enfrentar os perigos da noite para procurar a que estava perdida. Arriscou tudo por apenas 1%. Podemos fazer menos, quando mais de 50% das ovelhas de Cristo nem O conhecem?

2. Orar por essa área. Junte-se a milhões de cristãos ao redor do mundo em oração intercessória, em favor dos povos da Janela 10/40. Eles precisam experimentar a alegria da salvação que conhecemos. Coloque-os perante o trono de Deus cada dia. A igreja cristã primitiva consistia de gente que orava diaria e ferventemente em busca de poder e sabedoria. E através da história, o avanço missionário tem sempre estado ligado com oração diligente. Hudson Taylor, o célebre missionário, disse certa vez: “Se você quiser entrar na província de Honan (no Sul da China), você precisa avançar de joelhos”. Podemos fazer menos?

3. Envolva-se. Nosso envolvimento em nível pessoal é essencial para alcançar essa gente com as boas-novas. Nossos talentos e recursos precisam ser colocados sobre o altar de Deus. Precisamos aumentar nossos esforços para atender às necessidades físicas, materiais e espirituais do povo que habita essa área. Trabalho humanitário, educacional e assistencial faz grande diferença.

4. Procure modos criativos de partilhar a “alegria da salvação”. Uma das melhores iniciativas do Novo Testamento é ir como “fazedores de tendas”. O apóstolo Paulo entrou em territórios novos como um profissional com um ofício. Ganhou sua vida fazendo tendas, mas devotou muito de sua energia levando as boas-novas a gente que nunca as tinha ouvido. Os imitadores modernos de Paulo estão tendo alegria e obtendo sucesso exercendo atividades profissionais em países compreendidos no âmbito da Janela 10/40. Especialistas em computação, engenheiros, pessoal médico, homens de negócio, educadores e outros profissionais estão seguindo nas pisadas de Paulo, trabalhando para o avanço do reino de Deus, não como missionários patrocinados pela igreja, mas como modernos fazedores de tendas.

Estudantes cristãos podem continuar seus estudos, especialmente em níveis mais avançados, nas universidades localizadas dentro da Janela 10/40. Aí podem pôr-se em contato direto com os líderes intelectuais do futuro, enquanto obtêm uma educação válida.3

Mas antes de entrar no ministério 10/40, precisam estar bem-informados sobre uma ou mais das maiores religiões do mundo e a cultura local. Os que vão para países dessa região do mundo obviamente precisam informar-se sobre costumes, cultura, crenças religiosas e convicções de seus habitantes. Só assim podem eles apresentar as boas-novas que os cristãos têm por tão caras, de modo que sejam significativas para os ouvintes, respondendo-lhes as questões sobre a vida, satisfazendo as necessidades de seus corações, de modo significativo e culturalmente relevante para eles.

Não importa o método ou abordagem que usemos, precisamos nos identificar com o povo como Jesus fazia, vivendo entre eles, aprendendo sua língua, partilhando tanto quanto possível de sua vida e cultura. Somente então teremos o direito e as oportunidades de começar a partilhar nossas convicções e crenças.

Pratique a arte de amizade genuinamente cristã. Não amizade com um “gancho oculto”, exibido diante dos não-cristãos e que se retrai se eles não respondem favoravelmente. Não uma amizade com uma “agenda oculta”. Mas afeto genuíno que aceita com seriedade as pessoas e suas vidas. Precisamos nos envolver no dia-a-dia delas e tratá-las como amigas. Lembre-se: Podemos dar nosso amor e amizade a não-cristãos onde quer que os achemos, e o Espírito Santo poderá então usar-nos. Não precisamos produzir ou mesmo nos afligir com os resultados.

Um ponto final. Quase todo país no mundo abriga gente dos países da Janela 10/40 que aí trabalham ou estudam. Podemos alcançar alguns desses estrangeiros que vivem entre nós, e assim fazendo, dar-lhes uma amostra mais clara do que os cristãos e o Deus do cristianismo são em verdade.

A Janela 10/40 é uma janela de oportunidades — às vezes entreaberta e às vezes firmemente fechada. Cristãos consagrados não podem fechar seus olhos ao que vêem através da Janela 10/40. Vemos necessidades, sentimos dor. Tudo isso nos chama a atenção. E Deus nos chama para alcançar aqueles que vivem atrás da janela.

Pat Gustin é diretora do Instituto da Missão Mundial Adventista do Sétimo Dia. Seu endereço: Andrews University; Berrien Springs, Michigan, 49104; EUA. E-mail: gustin@andrews.edu

Notas e referências

  1. População da área segundo sua religião: maometanos, 22% ou 706 milhões; hindus, 23% ou 717 milhões; budistas, 5% ou 153 milhões.
  2. A qualidade de vida é definida pelos níveis da expectativa de vida, mortalidade infantil e alfabetização.
  3. Para mais informação sobre “fazer tendas” e estudar em países localizados na Janela 10/40, contate as Sociedades Globais no Instituto da Missão Mundial, E-mail: partners@andrews.edu — Web site; www.andrews.edu/IWM/patners.