Joan Coggin: Diálogo com uma embaixatriz internacional de cuidados médicos

Joan Coggin é cardiologista, educadora médica e embaixatriz de cuidados médicos. Por quase cinqüenta anos a Dra. Coggin tem atendido pacientes, famílias e nações ao redor do mundo. Presentemente, é também vice-presidente de extensão global do Centro de Ciências Médicas da Universidade de Loma Linda, e professora de medicina nessa mesma instituição.

Nascida em Washington, D.C., a Dra. Coggin graduou-se pelo Columbia Union College e matriculou-se na Escola de Medicina da Universidade de Loma Linda em 1948. De posse de um diploma em medicina em 1952, ela continuou seus estudos em nível de pós-graduação em Los Angeles, Londres e Toronto; posteriormente iniciou a carreira que lhe conferiu um lugar de distinção na história médica norte-americana.

Num tempo em que as mulheres não representavam nem cinco por cento dos graduandos nas escolas de medicina no país, a Dra. Coggin fez uma bem-sucedida especialização em cardiologia e construiu uma reputação como médica de aguda sensibilidade às necessidades de seus pacientes.

No início da década de 60, a Dra. Coggin ampliou as fronteiras de seus serviços ao constituir-se em co-fundadora da famosa equipe de cirurgia cardíaca da Universidade de Loma Linda Além-mar. Em seus quase 40 anos, a equipe cardíaca sob sua direção iniciou ou aperfeiçoou programas cirúrgicos de coração aberto em muitos países incluindo Paquistão, Índia, Tailândia, Taiwan, Grécia, Vietnã, Arábia Saudita, Hong Kong, Quênia, Zimbabwe, China, Chile, Nepal, Malásia e Coréia do Norte. A Dra. Coggin tem sido também consultora das indústrias de cinematografia e televisiva para programas de orientação médica.

No decurso de seus trabalhos internacionais, a Dra. Coggin encontrou pessoalmente com os chefes de estado do Paquistão, Grécia, Arábia Saudita, Zimbabwe, Quênia, Vietnã e Nepal. Também avistou-se com os presidentes Lyndon Johnson e Richard Nixon. Ela recebeu ainda numerosas condecorações por seu destacado serviço em prol das ciências médicas.

Dra. Coggin, a senhora talvez seja mais conhecida como co-fundadora da Equipe de Cirurgia Cardíaca da Universidade de Loma Linda Além-mar. Como foi concebida e implementada essa idéia?

A equipe cardíaca foi concebida nos pioneiros dias da cirurgia de coração aberto. O Dr. Ellsworth E. Wareham e eu estávamos trabalhando no White Memorial Medical Center, em Los Angeles. Como muitos hospitais não faziam cirurgia cardíaca naquele tempo, nós operávamos um dia por semana no Los Angeles County General Hospital. A cada semana preparávamos o aparelho pulmocardíaco e todo o equipamento auxiliar que necessitávamos para a cirurgia e os púnhamos no porta-malas do grande carro do Dr. Wareham. Foi então que ocorreu a idéia: “Se podemos arrumar tudo isso num veículo e transportá-lo para outro hospital, por que não poderíamos levar uma equipe para além-mar?”

Cerca dessa mesma época, o vice-presidente norte-americano Lyndon Johnson, enquanto em viagem pelo Paquistão, encontrou-se com um guia de camelos e o convidou para visitar sua fazenda no Texas. Mais ou menos ao mesmo tempo, a filha de do contramestre de uma fábrica no Paquistão necessitava de cirurgia cardíaca, o que não existia no Paquistão. Depois de ler um artigo sobre cirurgia cardíaca na Universidade de Loma Linda, o contramestre paquistanês raciocinou que se um guia de camelos podia ser levado de avião para os Estados Unidos às custas do governo norte-americano, então certamente sua filha, que tinha uma necessidade muito maior, podia receber o mesmo favor.

Afshan Zafar, uma menina de quatro anos, foi operada com sucesso no White Memorial Hospital. Quase que imediatamente após a volta de Afshan para casa, a embaixada dos Estados Unidos no Paquistão ficou abarrotada de pedidos semelhantes. Foi então que o vice-presidente Johnson nos chamou e perguntou se podíamos exportar cirurgia cardíaca para o além-mar.

E o que aconteceu?

O chamado de Johnson pareceu ser providencial. Tínhamos conversado sobre uma tal oportunidade durante muitos meses. Dentro de poucos meses estávamos a caminho do Paquistão [em 1963], e a equipe do coração nasceu. Creio na concretização e em não ter medo do fracasso.

Qual tem sido o impacto da equipe cardíaca?

Uma das impressões mais importantes é sobre a vida individual dos pacientes. Outra é sobre a medicina internacional. Quando essa idéia foi concebida, não existia nenhuma equipe médica internacional. Todos com quem conversávamos diziam que era impossível a uma equipe cirúrgica viajar para além-mar a fim de fazer cirurgias em coração aberto. Deram-nos uma porção de razões. Examinávamos cada razão e achávamos poder contornar cada dificuldade. Quando viajávamos para o exterior, um de nossos alvos, além de ajudar o maior número possível de pessoas, era ensinar o conceito de equipe. Em muitos países, o conceito de equipe, como praticado nos Estados Unidos, não existe.

Quais são algumas de suas mais memoráveis experiências?

Fico maravilhada com as centenas de pacientes “extras” que nossa equipe tem ajudado. Se tivéssemos ficado em casa, não estariam vivos hoje. Depois de visitar a Grécia em 1967 e 1969, retornei a esse país. De algum modo, a notícia de minha visita chegou aos ouvidos de uma de nossas antigas pacientes. Ela veio ao hospital com sua bela filhinha de três anos e expressou sua gratidão à equipe por lhe ter salvo a vida.

Através dos anos, a senhora tem recebido muitos prêmios. Qual lhe é mais caro?

O prêmio que mais aprecio é um cobertor de lã vermelho que me foi dado pelo pai de uma meninazinha que operáramos na Grécia. Ela foi trazida por seu empregador desde Creta até Atenas para ser operada. A cirurgia foi bem-sucedida, mas surgiram complicações durante a recuperação. Após seus pais terem recebido a notícia, o genitor foi a Atenas e, através de um intérprete, expliquei-lhe a gravidade do estado da filha. Ele finalmente compreendeu e lágrimas correram-lhe pela face. Tínhamos certeza de que a menina não escaparia, mas o pai estava certo de sua filha sobreviveria. Ele disse: “Vocês oram por seus pacientes.” Miraculosamente ela sobreviveu. Quatro anos mais tarde viajamos para a ilha de Creta e visitamos seus pais no vilarejo. Aquele laço de simpatia estabelecido quatro anos antes, a despeito da barreira idiomática, ainda existia. Estávamos chorando ao nos abraçarmos. Ao sairmos, o pai me trouxe um cobertor de lã vermelho que sua mulher tinha feito no tear da família. Essa é minha maior recompensa.

Como diretora da equipe cardíaca, a senhora teve a oportunidade de encontrar muitos chefes de estado. Quem mais a impressionou?

Dois deles. Um foi Lyndon Johnson. Johnson tinha grande calor pessoal. Ao encontrá-lo, você sentia que era seu amigo. Sua atitude cordialíssima chegava a ser surpreendente para mim. O outro chefe de estado que se destaca em minha memória é o Rei Constantino da Grécia. Encontrei-o pela primeira vez em 1967 através de sua mãe, a Rainha Frederika. Ele era muito agradável e com um vivo senso de humor. Seu governo foi derrubado no fim de 1967 e ele e sua esposa, a Rainha Ana Maria, exilaram-se na Inglaterra. Ao longo dos anos, enviei à sua mãe alguns alimentos vegetarianos e isso o impressionou. A Rainha Ana Maria apreciava o livro de receitas vegetarianas que lhe enviei.

Como se interessou pela medicina?

Eu realmente não conheci outra vida que a de médica. Completei meu segundo aniversário em Loma Linda quando meu pai entrou para a Escola de Medicina. Cresci querendo ser médica.

Sempre quis ser cardiologista?

Não. No início queria ser pediatra. Uma das razões por que mudei de idéia foi que, por vezes, uma criança podia estar muito doente num dia, e no dia seguinte estar boa. O que gosto na cardiologia é que você pode diagnosticar qual é o problema. Você tem nas mãos indícios, a história do paciente. Se o coração faz um certo ruído, você sabe imediatamente qual é o problema.

Como é que se interessou pela cardiologia infantil?

Quando comecei a estudar medicina, a maior parte da cardiologia pediátrica era feita por cardiologistas de adultos. Descobri que gostava dos desafios associados a doenças congênitas do coração, os tipos de enfermidades do coração que mais se vêm em crianças. Então fiz um curso avançado no Hospital Infantil de Toronto, e estudos complementares no Hammersmith Hospital em Londres.

Lançando um olhar retrospectivo sobre sua carreira médica, quais foram seus momentos mais gratificantes?

Tratar de pessoas que estavam antes incapacitadas, jovens ou velhos, e vê-las depois restabelecidas. É isso que torna a medicina muito gratificante.

O que produz desapontamentos na medicina?

Ser incapaz de ajudar seus pacientes. Você se sente tão desamparado quando seu paciente morre. Mas isso acontece muito menos agora do que quando comecei. Recentemente, joguei fora um slide usado no ensino, cujo título era: “Condições Cardíacas Para as Quais Não Há Tratamento.” Alistadas no slide havia 12 condições. Hoje, todas essas condições podem ser tratadas com sucesso. Confunde a mente pensar no progresso que a medicina fará nos próximos 50 anos, se o tempo durar!

Que influência a fé cristã teve sobre sua carreira profissional?

Tem tido uma influência direta e significativa. O fato de sermos cristãos deve fazer com que nos relacionemos com os outros em compaixão e compreensão. Isso é necessário em qualquer profissão, mas na medicina tem grande significado. Em tempos de doença e emergência, as pessoas são mais vulneráveis. Ser capaz de dispensar carinho e avivar a esperança para o futuro são metas diárias que eu e todo médico cristão tentamos alcançar.

Entrevista por Richard Weismeyer. Richard Weismeyer é diretor do Escritório de Relações-públicas da Universidade de Loma Linda. A Dra. Coggin pode ser contatada através do Escritório de Negócios Internacionais; Loma Linda University; Loma Linda, Califórnia 92350; EUA. Fax: 909-558-4116. E-mail: jcoggin@univ.llu.edu