Ele tinha compaixão deles: A atitude de Cristo para com os pobres

O ensino mais distintivo do cristianismo é que Deus deixou a esfera do divino e entrou completamente na experiência humana. Nesse processo, Jesus mostrou ao mundo que os seres humanos podem ser santos mediante compaixão prática em favor dos pobres, dos opressos, dos excluídos e dos estrangeiros.

Os evangelhos revelam a verdade irresistível de que Jesus foi tocado pelas necessidades humanas, e atendeu-as por atos de misericórdia. Freqüentemente Ele chamava a atenção para as necessidades e preocupações dos pobres e desprezados. Cristo tinha um interesse particular em alcançá-los e partilhar-lhes as boas-novas da salvação. Mas Jesus também atendia às suas carências físicas, muitas vezes antes mesmo de suprir-lhes as insuficiências espirituais. Ele desafiava aqueles que tinham recursos a cuidar dos pobres como sendo seu dever. Disse que eles nos proporcionavam a oportunidade de fazer o bem; eles são um teste de aptidão para o reino (ver Mateus 25:31-46).

A preocupação de Jesus com os pobres

A empatia de Jesus pelos pobres é revelada repetidamente nas páginas do Novo Testamento. Ele contou a história do rico que pensava ter um problema com a armazenagem inadequada de sua colheita. A preocupação desse homem ficou expressa numa ansiosa declaração: “Que farei? Não tenho onde armazenar minha colheita” (Lucas 12:17). Enquanto esse homem próspero tencionava edificar celeiros maiores para armazenar sua colheita abundante, parecia completamente esquecido das necessidades dos pobres. Mas Jesus apontou para o verdadeiro problema de sua vida: egoísmo e ganância. Ele poderia ter resolvido o problema simplesmente reconhecendo seu dever para com os pobres. Precisava aprender a lição que Jesus tão claramente ensinou: Somos abençoados a fim de ser uma bênção para os outros; somos privilegiados em servir a outros. Jesus chamou o homem de louco e ensinou onde reside a verdadeira sabedoria: na ajuda aos necessitados.

Outro exemplo da profunda preocupação de Jesus com os pobres é Seu diálogo com o jovem rico. Esse homem não era somente poderoso economicamente, mas possuía também influência religiosa e política. Evidentemente, a riqueza e a influência não satisfaziam os anseios profundos do seu coração. Assim, aproximou-se de Jesus com a sincera intenção de buscar a vida eterna. Jesus demonstrou solene interesse por ele e, em resposta à sua pergunta, disse-lhe: “Vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres... e vem e segue-Me”. Mas essa exigência de discipulado era demais para ele — pelo menos assim pensava. Era um preço muito alto a pagar para seguir a Jesus. Por isso, o jovem rico “retirou-se triste” (Marcos 10:21-22).

Dentre as muitas lições que podemos tirar dessa história, pelo menos uma é clara: Jesus repetidamente demonstrava preocupação com os pobres. Eles estavam sempre em Sua mente e eram uma parte de Sua conversação. Ele começou Seu ministério público lendo o que o profeta Isaías tinha predito acerca do Messias: “O Espírito Santo é sobre Mim, pois Me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-Me a curar os quebrantados de coração, a apregoar liberdade aos cativos, e dar vista aos cegos; a pôr em liberdade os oprimidos; a anunciar o ano aceitável ao Senhor”. (Lucas 4:18, 19).

Jesus estava consciente de que Sua messianidade incluía cuidar dos pobres e necessitados. Por exemplo, quando João estava definhando na prisão e dúvidas começaram a surgir em sua mente a respeito de Jesus e de Sua pretensão de ser o Messias, ele enviou alguns de seus discípulos a fim de inquirirem Jesus. Ao se encontrarem com Cristo, perguntaram-Lhe: “És Tu Aquele que havia de vir, ou esperamos outro?” A resposta de Jesus foi simple: “Ide e anunciai as coisas que ouvis e vedes: Os cegos vêm, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressucitados, e aos pobres é anunciado o evangelho” (Mateus 11:3-5). As obras de compaixão de Jesus testificavam ser Ele o Messias. Os seguidores de Cristo precisam demonstrar por suas obras como eles cumprem sua responsabilidade para com os pobres e necessitados; não somente por palavras eloqüentes concernentes à pobreza, mas por ações simples que aliviam seu sofrimento. Em outras palavras, nosso dever com os pobres vai além do que dizemos, para incluir também o que fazemos. Com efeito, “o verdadeiro culto consiste em trabalhar juntamente com Cristo. Orações, exortações e conversa são frutos de baixo preço, freqüentemente ainda ligados à árvore; mas frutos manifestos em boas obras, no cuidado dos necessitados, dos órfãos e viúvas, são genuínos e crescem naturalmente numa boa árvore”.1

O amor em ação

O apóstolo João diz: “Quem pois tiver bens do mundo, e, vendo seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele a caridade de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (I João 3:17).

“Muitos”, escreveu Ellen White, “podem ser alcançados somente por atos de bondade desinteressada. Suas necessidades físicas precisam ser primeiro satisfeitas. Ao verem evidência do nosso amor desinteressado, será mais fácil para eles crer no amor de Cristo.”2 Embora seja verdade de que a igreja ou o cristão individualmente não possam eliminar a pobreza e enfermidade deste planeta, devemos cumprir nosso dever cristão e a responsabilidade social para com os menos afortunados, sendo sensíveis aos efeitos da pobreza, doença e injustiça na vida das pessoas. A Bíblia afirma que melhorar as condições de vida dos pobres envolve mudanças religiosas, sociais e econômicas.

Viv Grigg estava falando num tom manso e quase reverente a um grupo de vinte jovens idealistas em idade colegial e universitária sobre o desafio da pobreza e como os jovens cristãos deviam se relacionar com ele como uma oportunidade para refletir a compaixão, o cuidado e a preocupação de Jesus. “Pobreza”, disse Viv, “é o problema de nossa época. E entre os espectros de pobreza, poucos se comparam com os das grandes cidades do Terceiro Mundo. A migração urbana é o maior movimento de massa no mundo de hoje. Moradores rurais estão se encaminhando para essas megalópoles, cuja população dobra a cada dez anos. Lá pelo ano 2000, um terço da população do mundo estará vivendo nessas cidades e 40% habitará em favelas”.3

Viv então passou a desafiar aquele grupo a assumir sua responsabilidade social como um chamado de Deus. Ele os encorajou a considerarem onde poderiam ter começado e por onde haviam passado; e como, em seu conhecimento e experiência, poderiam travar contato pessoal com a pobreza, e como se relacionar com pessoas que sabiam ser pobres. Então lhes disse que, visto não serem vítimas da pobreza e da injustiça, eles deveriam tomar a sério sua privilegiada posição de trabalhar em prol dos menos favorecidos. Eles foram abençoados para que, por sua vez, pudessem abençoar o mundo, particularmente o mundo sofredor.

Falando com convicção profunda, Viv concluiu a reunião com este apelo: “Deus está chamando, procurando homens e mulheres que ouçam Sua voz e que preguem Sua mensagem ao povo nessas cidades. Deus deseja quebrar-nos para sermos grãos de trigo que morram para si mesmos e demos nossas vidas em favor dos pobres”.4

Indo além de palavras

“Tenho compaixão da multidão... não têm o que comer”, disse Jesus (Marcos 8:2). O desafio persistente que a pobreza apresenta aos seguidores de Cristo é de ir além de simplesmente falar a verdade sobre amor, compaixão e cuidado, para viver a verdade em atos de compaixão e bondade. Precisamos achar modos concretos de aliviar os fardos dos pobres e necessitados. Precisamos vê-los como pessoas com as quais estamos unidos em Deus. Não podemos realmente “louvar a Deus de quem todas as bênçãos fluem” e ignorar a realidade de um mundo de sofrimento e miséria. As bênçãos de Deus precisam fluir através de nós, de modo a produzir diferença na vida dos necessitados.

O apóstolo Tiago disse: “Se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhe disser: ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos, e lhe não derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”(Tiago 2:15-17).

Esse é um chamado para a ação. O lembrete de Ellen White é apropriado: “Muitos dos que professam Seu nome deixaram de considerar o fato de que os cristãos têm de representar a Cristo. A menos que haja sacrifício prático pelo bem de outros, no círculo da família, na vizinhança, na igreja e onde quer que estejamos, não seremos cristãos, seja qual for a nossa profissão... Ao vermos seres humanos em aflição, seja devido ao infortúnio, seja por causa do pecado, não digamos nunca: Não tenho nada com isso”.5

A melhor revelação de Deus, a imagem de Deus que nos saúda em toda a Escritura, é de um Deus compassivo e misericordioso que sempre favorece o pobre, o oprimido e o marginalizado. Temos a declaração da Escritura e de Ellen White, de que mais pessoas serão persuadidas a seguir a Cristo por nossa bondade, compaixão e devoção às necessidades daqueles que estão desabrigados, famintos e nus do que por nossas idéias elevadas sobre doutrinas corretas, que não tocam as vidas das pessoas de um modo prático (ver Isaías 58; Mateus 25:31-46; Tiago 2).

O evangelho e responsabilidade social

A ligação entre o evangelho e a responsabilidade social é claramente representada no ministério de Cristo, e tanto no Velho como no Novo Testamentos. Quando os estragos da pobreza, injustiça e opressão estão bem presentes, a Palavra de Deus insiste que uma fé que fala somente das necessidades espirituais do povo, mas deixa de demonstrar sua compaixão mediante auxílio prático é vista como um culto falso (ver Isaías 58). Com efeito, como Gandhi certa vez disse: “Precisamos viver em nossas vidas as mudanças que queremos ver no mundo.”

Um discípulo de Cristo verdadeiramente crente não pode tratar com indiferença as desigualdades materiais e a manifestação de poder e privilégio que atingem a tantos e leva ao empobrecimento espiritual de outros. O evangelho convida o discípulo de Cristo e a igreja à solidariedade com todos os que sofrem, a fim de juntos podermos receber, incorporar e partilhar as boas-novas de Jesus, a fim de melhorar a vida de todos. Como Cheryl Sanders o expressa: “O reino preparado desde a fundação do mundo é um reino onde todos são satisfeitos, alimentados e livres. Alguém se qualifica para entrar nesse reino exercendo boa mordomia da própria vida, e distribuindo vida a partir da abundância que recebeu como legado de Deus. E o evangelho declara que a vida eterna é a recompensa daqueles que cuidam da vida. Aqueles que alimentam os famintos, dão de beber aos sedentos, abrigam o estrangeiro, vestem os nus e visitam os doentes e encarcerados tornam-se identificados com a criação do reino de Deus neste mundo, e atuam em parceria com Deus no domínio dos negócios humanos. Desobedecer esse mandado bíblico é negar lealdade ao reino e ao Rei”.6

À luz das terríveis histórias de crianças famintas ao redor do mundo, os cristãos não podem dizer: “Isso não me diz respeito.” Não podemos ficar na defensiva ao lidar com o desafio persistente da pobreza. Esse não é um programa ou problema do governo. Há uma geração, o governo dos Estados Unidos assumira muitos dos programas de bem-estar social, e os idealistas da nação acreditavam que a guerra à pobreza poderia ser ganha pelos funcionários públicos com o apoio dos impostos. Mas algo estava faltando, algo que era essencial ao sucesso e algo que os funcionários e programas do governo não podiam prover — fé. A fé em Deus demonstrou-se essencial em programas bem-sucedidos de livramento das pessoas de drogas e do álcool, e de uma vida de pobreza.

Nossa sociedade tem tentado despersonalizar a pobreza falando em termos de programas, organizações e estruturas. Mas a pobreza é pessoal. As pessoas é que são pobres. Essa é a gente da qual Jesus falou repetidamente em Seu ensino e pregação. Ele tinha compaixão dela e nos desafiou a reconhecê-la, e assumir nosso dever de lhe sermos uma bênção. Assim sendo, um seguidor de Cristo não pode eximir-se do envolvimento com essa condição humana. Não podemos achar que não é nossa culpa que essas pessoas sejam pobres. É doloroso admitir que elas vivem em pobreza porque alguns de nós vivemos em conforto. A pobreza é uma crise humana. E para aqueles que são abençoados e privilegiados, ignorar isso constitui uma contradição entre confissão e conduta.

A igreja e o seguidor de Cristo precisam responder à pergunta: “Sou eu guardador do meu irmão?” O sofrimento de nossos semelhantes nos causa dor. Podemos tentar escondê-lo, negá-lo, encobri-lo ou descartá-lo, mas ainda assim o sofrimento e a dor dos outros não nos podem deixar completamente impassíveis. Nossa fé cristã reforça isso. Como posso chamar-me de seguidor de Cristo quando não me preocupo com meus semelhantes? Como posso representar o reino de Deus e não me preocupar profunda e praticamente com as pessoas que são incluídas em Seu reino?

Na Palavra de Deus, a responsabilidade do seguidor de Cristo pelos pobres e necessitados não é menos importante do que a pregação do evangelho, nem é opcional. É parte integrante de toda a história do evangelho, porque realmente vemos na face do pobre a face de Cristo: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mateus 25:40).

“Mas não necessitamos de ir a Nazaré, a Cafarnaum ou a Betânia para andar nos passos de Jesus. Encontraremos Suas pegadas ao pé do leito dos doentes, nas choças de pobreza, nos apinhados becos das grandes cidades, e em qualquer lugar onde há corações humanos necessitados de consolação. Fazendo como Jesus fazia quando na Terra, andaremos nos Seus passos”.8

Walter Douglas (Ph.D. pela MacMaster University) preside o Departamento de História Eclesiástica do Seventh-day Adventist Theological Seminary e dirige o Instituto de Diversidade e Multiculturalismo na Andrews University. Seu endereço postal: Andrews University; Berrien Springs, Michigan 49104; EUA.

Notas e referências

  1. Ellen G. White, The Signs of the Times (17 de fevereiro de 1887).
  2. __________, Testimonies for the Church (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publ. Assn., 1948), 6:83.
  3. Jenni M. Graig, Servants Among the Poor (Manila, Filipinas: OMF Literature, 1998), pág. 27.
  4. Ibidem.
  5. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Casa Publicadora Brasileira, Santo André, SP: 1979), pág. 484.
  6. Cheryl Sanders, Ministry at the Margins, pág. 28.
  7. Ellen G. White, Advent Review and Sabbath Herald (20 de janeiro de 1903).
  8. __________, O Desejado de Todas as Nações (Casa Publicadora Brasileira, Santo André. SP: 1979), pág. 616.