Francisco de Araújo: Diálogo com um regente, produtor e diretor artístico adventista

O cartão de visita mal sugere as qualificações do Dr. Araújo: Diretor-associado de Promoção e Diretor do Pro Arts International no Atlantic Union College, em South Lancaster, Massachusetts, EUA. Um dos editores do Washington Times escreveu acerca dele: “Vale a pena observá-lo, isto é, se você não se importar em contemplar um gênio”. Esse comentário foi feito após a apresentação do Drama da Paixão dirigido por Araújo em 1981 no Monte das Oliveiras. Surpreendentemente, naquela terra de campos religiosos minados, o evento foi um grande sucesso, com cobertura de primeira página no New York Times e a publicação pela Editora Doubleday de um livro sobre arte religiosa, baseada nessa apresentação.

Araújo sempre trabalhou com música em nível mundial. A música é seu instrumento de evangelização. Ele fundou a Choral Arts Society of Japan e fez uma turnê pelos Estados Unidos com seu mundialmente reconhecido grupo de jovens. Alan Gershwin, filho de George Gershwin, ouviu-os no Town Hall de Nova Iorque e trabalhou para que dessem um concerto na sede das Nações Unidas.

Depois de trabalhar como missionário no Japão durante sete anos, Araújo voltou aos Estados Unidos e fundou o Washington National Chorus, um grupo coral adventista, o qual queria que funcionasse nos moldes do Mormon Tabernacle Choir. Foi um grande sonho e no final de 1960 esse coro causou considerável impacto sobre a igreja.

Araújo levou sua música até o turbilhão dos eventos internacionais. Foi convidado pelo presidente Anwar Sadat para reger a Orquestra e o Coro Nacional do Egito, num concerto de gala pela celebração do segundo aniversário da iniciativa de paz com Israel. Em 1994, com sua Camerata Nuove Singers e Orquestra, ele dirigiu uma apresentação televisada do Messias na Igreja da Natividade, em Jerusalém. Dois dias mais tarde, eles cruzaram o Jordão para dar um concerto na abertura das celebrações do aniversário do rei.

Em 1996, Araújo visitou novamente a Jordânia e apresentou a Nona Sinfonia de Beethoven, em comemoração ao pacto de paz recém-assinado com Israel. Nessa ocasião, o presidente Yasser Arafat pediu-lhe que executasse o concerto “Paz para a Palestina”, na Universidade de Belém.

As homenagens são comuns para os artistas, mas alguns comentários feitos por Yoni Fighel, então governador militar do West Bank, após a turnê do Messias, em 1994, toca no cerne do que Araújo faz com a música: “Você não tem idéia do que realizou aqui esta noite. Por quase 50 anos nossos políticos têm tentado em vão congraçar estes povos. Numa única noite, você reuniu neste santo lugar judeus, cristãos, muçulmanos e palestinos, todos louvando a um só Deus ao se levantarem durante o ‘Coro do Aleluia’. A influência desta noite será sentida aqui por muito tempo.”

Dr. Araújo, como o senhor ingressou no evangelismo musical?

Eu era um menino de roça. Meus pais imigraram dos Açores para os Estados Unidos. Não havia nenhum destino grandioso para minha vida. Eu era apenas um dos sete filhos, e era difícil para meus pais porem comida sobre a mesa. Papai desejava o melhor para nós, mas fui o único filho que cursou faculdade. Todos os outros quiseram sair para trabalhar. Eu tinha uma paixão inata pela música, mas eu realmente não sabia o que era música. Nunca ouvira uma sinfonia ou coisa parecida, embora soubesse que queria envolver-me com música.

Depois da escola secundária, escolhi o Atlantic Union College (AUC). E foi lá que conheci a Dra. Virgínia Jean Rittenhouse, que se tornou primeiramente uma conselheira e depois uma boa amiga, ao trabalharmos em muitos projetos durante 50 anos. Ela me deu a visão do serviço missionário.

Papai vendeu sua casa a fim de custear meus estudos no AUC e viveu o resto de sua vida num apartamento. Seu sonho não era que eu me tornasse músico, mas um pastor. Mamãe costumava dizer: “Sempre desejamos um filho missionário.” Bem, fui ao Japão como missionário.

Quais são algumas lembranças do início de sua carreira musical?

Embora nunca tivesse grandes projetos para minha vida, sempre me lembro do que me disse H. M. S. Richards, pai, quando eu trouxe o coro japonês para uma turnê pelos Estados Unidos: “Deus pôs Sua mão sobre você, irmão, seja cuidadoso.” Isso me chocou e mesmo me assustou, mas sempre cri no conselho de Ellen White de que Deus nos espera no degrau mais alto da escada. Nunca fui atraído pela fama fora da igreja, embora tenha recebido muitas homenagens. Inadvertidamente, esse tem sido um dos efeitos colaterais de se fazer música. Uma das minhas maiores alegrias foi a oportunidade de levar um coral jovem ao SkyDome, numa sessão da Associação Geral, para cantar diante de 50 mil pessoas. Os organizadores da programação musical disseram-me que não podíamos cantar lá porque estávamos muito atrasados. Disseram que não havia tempo. Lembro-me de dizer-lhes: “Vamos cantar para a Associação Geral. Pode ser nos toaletes ou no palco. Mas vamos cantar.”

Tenho sempre dito aos membros de meu coral que não devíamos jamais limitar a Deus. Como você pode limitá- Lo? Quando Ele aponta o dedo para você e diz: “Quero que você faça um trabalho para Mim”, quem somos nós para impedir isso? Você não pode fazê-lo!

Durante meus sete anos no Japão, vi jovens deixarem o budismo e aceitarem o cristianismo. Vi-os tornaremse membros e obreiros na igreja. Hoje, ao olhar para trás, constatamos que o diretor de nossa obra no Japão, o chefe de nosso hospital e o chefe da estação de TV, foram membros do coro.

A obra no Japão, hoje, é dirigida por aqueles sobre os quais tive alguma influência, e isso é muito gratificante.

A música tem sido sua vida. Mas o começo não deve ter sido fácil, não é?

Quando fui para o Atlantic Union College, estava no degrau mais baixo da escada. Toda vez que ia para as lições de piano com a Dra. Rittenhouse, voltava para meu quarto e chorava. Eu dizia: “É o fim, não posso fazer isso; isso não é para mim!” Essa luta continuou semana após semana. Finalmente subi ao telhado do dormitório dos rapazes e disse: “Senhor, precisamos resolver isso, Tu e eu. Não sairei daqui até que me abençoes. Até que me digas que estou fazendo aquilo que queres que eu faça.” Essa luta prosseguiu noite adentro. De madrugada, senti que tinha a resposta: eu devia continuar nessa senda.

Realmente, nunca me arrependi disso. Não fiquei milionário, mas tenho sido rico em bênçãos de Deus. Não sei o que acontece quando jovens cantam, mas sei que tem tocado meu coração e me dado satisfação.

Que peça musical tocou-o mais profundamente?

Há muitas peças maravilhosas que tenho executado tantas e tantas vezes. Mas gosto do Coro do Aleluia, acima de tudo. A primeira vez que você o ouve, imagina que está rumando para o trono de Deus. Tendo dito isso, devo acrescentar que é muito difícil escolher uma peça musical e dizer: esta é a melhor. Contudo, a que mais se destaca em minha carreira é o último coro da Paixão Segundo S. Mateus, de Bach. É a parte em que Jesus jaz no túmulo e dois coros, acompanhados por duas orquestras, cantam “Descanse em Paz”. Os componentes dessa peça são inesquecíveis.

Bem disse Mendelssohn: “Essa música não brotou do homem; veio de Deus.” Tomei a Paixão Segundo S. Mateus e fiz dela uma peça de moralidade. Na última cena, os discípulos tomam o corpo de Jesus e o colocam sobre uma laje de mármore. Ao dizerem adeus a Jesus, o coro canta com a mais profunda emoção. Penso que essa tem sido uma das maiores experiências musicais de minha vida.

Faz alguma diferença se um crente ou um descrente canta o Messias? Basta ser um profissional bem treinado? Que papel o senhor vê na fé pessoal, ao ser ela comunicada mediante a música?

A coisa mais importante para um cantor é prover um toque espiritual, e isso precisa originar-se na própria experiência do cantor. Se a espiritualidade é demonstrada na vida, vai projetar- se através da música.

O senhor tem algum conselho especial para os jovens de hoje?

Nada pode substituir o valor de uma educação cristã para o adolescente. Creio que nossos jovens deveriam estudar em escolas adventistas. É aí que deviam obter seus fundamentos. Nada pode substituir o valor e a educação espiritual e social que nossos colégios oferecem. Mas onde isso não é possível, eles devem procurar condições sob as quais possam alimentar a fé e estimular seu compromisso cristão.

Deus tem uma obra para cada jovem. Ele tem um plano definido para cada um de nós; precisamos descobrilo e trabalhar para torná-lo uma realidade. Podemos ter uma visão tão grande quanto quisermos, mas se nela não houver lugar para Deus e Sua igreja, ela é vã.

Entrevista concedida a Lincoln Steed. Lincoln Steed é editor da revista Liberty e diretor-associado de Relações Públicas e Liberdade Religiosa da Divisão Norte-Americana dos Adventistas do Sétimo Dia, em Silver Spring, Maryland, EUA. O Dr. Francisco de Araújo pode ser contatado pelo e-mail: faraujo@atlanticuc.edu