A ética no pós-modernismo

O modernismo dominou o pensa- mento ocidental durante os úl- timos séculos. Ele privou a moralidade de sua transcendente estrutura de referência religiosa. “Fora com Deus” era seu grito de guerra. Mesmo quando procurava formular um mundo sem qualquer referência a restrições, constrangimentos, tradições e, acima de tudo, religião, o modernismo tentou manter valores como trabalho, economia, e a postergação da satisfação imediata em troca do benefício em longo prazo. O que ele tentou reter pode ter sua origem devida a um referencial exterior ao indivíduo, mas esse não se constituiu um problema imediato para o modernismo. A expressão subjetiva era seu alvo. Mas quando ele atingiu seu ponto crítico, quando a ênfase no subjetivismo destruiu a necessidade de objetivismo, o modernismo produziu quase que um estado de ilegalidade na história humana. Conseqüentemente, surgiu uma nova moralidade. Essa era hedonista, jocosa, e visava o momento presente, negando a necessidade de olhar para o passado ou contemplar o futuro. O agora tornou-se seu novo mantra. Como resultado, levantou-se uma resistência contra todo esforço de impor limites à liberdade e à realização individual.

A nova moralidade está no cerne da ética pós-moderna.

A ética pós-moderna

Na base da ética pós-moderna jaz uma crise de autoridade.1 Esse convulsionamento envolve instituições tradicionais (família, escola, igreja, estado, justiça, polícia), e através dele o modernismo procurou organizar uma sociedade racional e progressiva. Esse abalo se manifesta mediante diferentes modos: Uma sociedade que idolatra a juventude e gratifica seus caprichos e fantasias.2 Uma cultura na qual a riqueza é sinônimo de êxito e felicidade. Uma economia consumista em que o “ser” consiste em comprar, consumir, usar e desperdiçar. Uma identidade marcada por aquisições de mercado e não por ideologias.3 Gilles Lipovetsky, filósofo francês contemporâneo, observou que no pósmodernismo a “imagem” domina a realidade. Ser alguém é aparecer na tela e no website.4 Aquilo que é visto define o que deve ser; quase ninguém mais se importa com o que é “realidade”. A imagem pública é o objeto de culto.5

A cultura pós-moderna perdeu o amor pela verdade.

Em contraste com a ética de trabalho do modernismo e a economia individual, a ética moderna estabelece os valores de gastos do consumidor,6 seu tempo livre e a ociosidade.7 Mas isso não podia funcionar sem a exaltação do individualismo, a desvalorização de causas caritativas e a indiferença em relação ao bem público.8 A busca de gratificação, do prazer e realização individual é o ideal supremo. O culto à independência pessoal e a diversidade de estilos de vida tornam-se importantes. O pluralismo provê uma multiplicidade de valores com opções individuais, mas nenhuma delas autêntica. Diferenças ideológicas ou religiosas são tratadas como modismo e consideradas superficiais.9 A cultura da independência pessoal, do divertimento e da liberdade de expressão surge como algo sagrado.10 O irracional é legitimado através das afeições, intuições, sentimentos, carnalidade, sensualidade e criatividade.11 Tudo isso tem lugar na conjuntura de um axioma respeitado por quase todos: minimizar a austeridade e maximizar o desejo, minimizar a disciplina e maximizar a tolerância.12

Ao mesmo tempo, os meios de comunicação de massa e informação formam a opinião pública e prescrevem as normas de consumo e comportamento.13 A mídia substitui a interpretação religiosa e a ética com informação precisa, instantânea, direta e objetiva. Ela valoriza o que parece real acima dos conceitos de bem e mal.14 Paradoxalmente, a influência da mídia cresce em meio à crise de comunicação. As pessoas só falam de si mesmas. Querem ser ouvidas, mas não querem ouvir. Querem comunicação sem compromisso. Daí a busca de conexão à distância, de amigos e amizades invisíveis, de hot lines, e-mails e salas de bate-papo [chats].15

Uma nova forma de moralidade

Que forma assume a moralidade no contexto epistemológico e sócio-cultural do pós-modernismo?

Segundo Lipovetsky, com o dealbar do pós-modernismo, em meados do século XX, surgiu uma época de pós-dever. Ela renega o dever absoluto no campo da ética.16 Tomou forma uma ética que proclama o direito individual à autonomia, felicidade e satisfação individual. O pós-modernismo é uma época de pós-moralidade porque despreza valores incondicionais mais elevados, tais como o serviço em prol de outrem e a abnegação.

Não obstante, nossa sociedade não exclui a legislação repressiva e eficaz (contra drogas, aborto, corrupção, sonegação, pena de morte, censura, e a favor da proteção da criança, da higiene e dieta saudável).17 O pós-modernismo não propõe um caos moral, mas redireciona as preocupações éticas mediante um compromisso fraco, efêmero e indolor, com valores que não interferem na liberdade individual: Não é tanto hedonista como neo-hedonista. Essa mistura de dever e negação do dever na ética pós-modernista torna-se necessária porque o individualismo absoluto destruiria as condições necessárias para facilitar a busca de prazer e realização individual. É requerida uma ética que prescreva alguns deveres para o controle do individualismo sem, porém, proscrevê- lo. A preocupação moral pós-moderna não expressa valores, mas indignação contra limitações à liberdade. O objetivo não é a virtude, mas a obtenção de respeito.18 Há um esforço para proibir tudo quanto possa limitar os direitos individuais. É por isso que a nova moralidade pode coexistir com o consumismo, o prazer e a busca de realização pessoal. É uma moralidade indolor e light, onde tudo é permitido, mas onde o dever incondicional e o sacrifício estão mortos. O pós-modernismo deixou para trás tanto o moralismo como o antimoralismo.19

Mas tal procedimento resulta numa moralidade ambígua. De um lado temos um individualismo sem regras, manifestado no endividamento familiar, no grupo familiar sem pais, em pais sem família, no analfabetismo, na formação de guetos, em refugiados e pessoas marginalizadas, em drogas, violência, delinqüência, exploração, crimes de colarinho branco, corrupção política e econômica, apego sem escrúpulo ao poder, engenharia genética, experimentação em seres humanos, etc. Por outro lado, flutua sobre a sociedade um espírito de vigilância hiper-moralista, pronto a denunciar todo atentado à liberdade humana e ao direito à autonomia individualista. Demonstra-se preocupação ética com os direitos humanos; apresentam-se desculpas pelos erros do passado, defende-se a ecologia, realizam- se campanhas contra as drogas, o fumo, a pornografia, o aborto, o assédio sexual, a corrupção e a discriminação; instituem-se tribunais éticos; marchas silenciosas, proteção contra o abuso de crianças, movimentos de socorro a refugiados, assistência aos pobres, etc.20

Nesse contexto, a moralidade neohedonista da vida pós-moderna se traduz em exigências que tracionam direções opostas. De um lado, temos normas: você precisa comer de modo saudável, manter sua aparência, combater as rugas, manter-se alinhado, valorizar o lado espiritual, descontrair-se, envolver- se em esportes, ser bem-sucedido, distinguir-se, controlar o comportamento violento, etc. De outro, encontramos a promoção do prazer e da vida fácil, a exoneração da responsabilidade moral, a exaltação do consumismo, a preocupação com a imagem, e a valorização do corporal em detrimento do espiritual. Como resultado, há depressão, sentimento de vacuidade, solidão, estafa, corrupção, violência, cinismo, etc.21

A moralidade pós-moderna na vida diária

Para compreender o quanto a moralidade pós-modernista tem afetado a vida ao nosso redor, considere duas listas típicas projetadas pelo pós-modernismo: uma composta de “deveres” e outra de “permissões” morais:

Lista 1: Deveres “morais” típicos da “ética” pós-modernista:

Lista 2: Permissões “morais” típicas:

“Código de consciência” pósmoralista

A ética pós-modernista não pára com tais listas absurdas. O espírito de liberdade total do pós-modernismo produz seu próprio código de consciência. Sob a atmosfera do neo-individualismo, um novo tipo de elementos ideológicos, sócio-culturais e éticos unem-se numa nova espécie de consciência pósmodernista. Suas características seriam mais ou menos estas:

Avaliação crítica: uma moralidade cínica

Tendo exposto tudo isso, alguns poderão dizer que a ética pós-modernista não é inteiramente má. Sim, há algumas contribuições positivas feitas pelo pós-modernismo em relação aos problemas que ameaçam a vida humana. Estilo de vida saudável, cuidado com o ambiente, luta contra a violência e a discriminação, todos são louváveis. Ademais, o pós-modernismo põe em relevo os fracassos éticos, teóricos e práticos do passado. Mas não nos iludamos. Em seu cerne, a ética pós-modernista não tem motivação moral. Com efeito, ela continua sua busca individualista pela autonomia e realização pessoal. Embora o motivo por trás de toda ética autêntica seja vencer o mal com o bem, o pós-modernismo é pobre em inspiração moral. Quer apenas combater os excessos do mal, mas não eliminar a causa. Luta contra certas manifestações malignas sem lhes reconhecer o fundamento. Seu alvo é alcançar a autonomia egocêntrica — algo contra o qual a descrição bíblica do pecado tanto adverte.

Como pode, então, um sistema moral lutar contra o mal se o seu fundamento é a promoção do eu, o qual é, biblicamente falando, a fonte do mal? É possível alcançar a felicidade dentro desse tipo de moralidade que o pós-modernismo advoga? Se a felicidade é a busca de autonomia, da realização pessoal, da satisfação do desejo imediato; se ela é o controle da liberdade individual excessiva, sem a verdadeira abertura da alma ao próximo e a Deus, então, nessa moralidade, a procura de felicidade é a perpetuação das coisas que sempre existiram. Ela preconiza também uma mistura de vida e morte, prazer e dor, êxito e fracasso, felicidade e tristeza. Mas tudo isso ignora o que está por trás da busca humana pela felicidade: o desejo de algo diferente que elimine essas colisões antitéticas. Falta esse “algo diferente” na busca pós-moderna da felicidade. Sua ética se contenta com uma bagatela, um objetivo inferior. Ela argumenta que já que as moralidades tradicionais, incluindo a ética cristã, não nos transformaram em pessoas melhores, é tempo de escolher um alvo inferior e aceitar as pessoas como elas são.

Contudo, essa atitude resignatória entende que o cristianismo foi verdadeiramente aplicado e falhou, e sobre essa base devemos julgar seu potencial, que para nada contribuiu. Mas essa pressuposição contradiz a máxima pósmoderna de que não há verdade absoluta. De um lado, o pós-modernismo diz que não há verdade; por outro, entretanto, defende a idéia de que a moralidade tradicional esgotou seus recursos, que o ser humano hoje não pode ser melhorado, que uma mudança radical é impossível e que deveríamos resignar- nos diante disso. Quem pode saber se isso é verdadeiro, e como pode ser ele conhecido? Parece que o pósmodernismo conseguiu de algum modo conhecer com certeza algo sobre a natureza humana e sobre o futuro, um conhecimento que ele nega a todas as ideologias e religiões do passado. É por isso que consideramos que ele apresenta uma postura cínica, afirmando (implicitamente) de um lado o que nega (explicitamente) do outro.

Raúl Kerbs (Ph.D. pela Universidad de Córdoba) leciona filosofia na Universidad Adventista del Plata, Argentina. E-mail: kerabsra@infovia.com.ar

Notas e referências:

  1. Kenneth Gergen, El yo saturado: Dilemas de identidad en el mundo contemporáneo (Barcelona: Paidós, 1992) pp. 164-168.
  2. Beatriz Sarlo, Escenas de la vida posmoderna: Intelectuales, arte y videocultura en la Argentina (Buenos Aires: Ariel, 1994) pp. 38-43.
  3. Sarlo, pp. 27-33.
  4. Gilles Lipovetsky, El imperio de lo efímero (Barcelona: Anagrama, 1990), pp. 225-231.
  5. Sarlo, pp. 27-33.
  6. Lipovetsky, pp. 225-231.
  7. Gilles Lipovetsky, La era del vacío: Ensayos sobre el individualismo contemporáneo (Barcelona: Anagrama, 1986), p. 14.
  8. Lipovetsky, El imperio de lo efímero, pp. 201, 202.
  9. Ibid, pp. 313-315.
  10. Lipovetsky, La era del vacío, pp. 7-11.
  11. Lipovetsky, El imperio de lo efímero, p. 196.
  12. Lipovetsky, La era del vacío, p. 7.
  13. Lipovetsky, El imperio de lo efímero, p. 251.
  14. Ibid, pp. 256-258.
  15. Ibid, pp. 321-324.
  16. Gilles Lipovetsky, El crepúsculo del deber: La ética indolora de los nuevos tiempos democráticos (Barcelona: Anagrama, 1994), pp. 9-12, 46.
  17. Lipovetsky, El crepúsculo del deber, p. 13.
  18. Ibid, Chapters II, III.
  19. Ibid, pp. 47-49.
  20. Ibid, pp. 14, 15, 55, 56, 208, 209.
  21. Ibid, pp. 55ff.