Maria Lee: Diálogo com uma adventista diretora de rede hoteleira na China

Maria Lee é uma verdadeira primeira dama. Ser capaz de trabalhar numa sociedade dominada pelos homens é uma coisa, mas destacar-se nesse mundo é outra. Dedicação ao dever, vontade de ser bem-sucedida e de fazer competentemente tudo o que vier às mãos, desde o manuseio de roupas hospitalares no Hospital Adventista de Hong Kong, à diretoria de uma cadeia de hotéis em Hong Kong. Em 1987, a Sra. Lee trabalhava como gerente de hotel; agora ela ocupa cargo executivo no Grupo Península, New World Hotel, e China Travel Services Ltd.

Em 1997, depois de trabalhar como executiva geral-adjunta do Hong Kong China Travel Hotel Management Ltd., supervisionando 21 hotéis em Hong Kong, Macau e China, Maria fundou a Cheer Success Hospitality Management Ltd. Ela é agora diretora geral do primeiro hotel-boutique cibernético de Hong Kong, recém-inaugurado com o nome de Best Western Rosedale on the Park, localizado em Causeway Bay, Hong Kong. Ela também é diretora-gerente do Rosedale Hotel Management Ltd. Seu projeto mais recente inclui a operação do Plaza Canton Hotel em Guangzhou, China, que há pouco mudou sua razão social para Rosedale Hotel Guangzhou.

A despeito da exigüidade de seu tempo, ocupado quase que totalmente na administração de todos os hotéis e em levar a efeito os novos projetos, Maria, que se tornou adventista ainda muito jovem, não deixou de dedicar seus talentos e experiência à obra da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Presentemente ela atua como representante leiga da União-Missão Chinesa na Comissão Executiva da Divisão Ásia-Pacífico do Norte. Além disso, Maria faz parte do conselho administrativo da Hong Kong Adventist Hospital.

Fale-nos um pouco sobre sua família.

Nasci numa família de quatro irmãos: eu e três irmãos mais jovens. Quando contava onze anos, tive minha primeira experiência de trabalho: cuidar de crianças no verão, percebendo assim um dinheirinho enquanto freqüentava a escola secundária. Foi esse trabalho que me deu a primeira oportunidade de relacionar-me com pessoas de várias origens e camadas sociais. Isso também me proporcionou senso de responsabilidade e espírito independente. Meus pais reconheceram essa capacidade de cuidar de mim mesma e não fizeram objeções à minha freqüência às reuniões de jovens, embora algumas vezes chegasse em casa tarde da noite.

Entendo que você não nasceu numa família adventista. Quais foram as circunstâncias que a levaram a se unir à igreja?

Fiquei conhecendo a fé adventista por um meio indireto e miraculoso. Em 1966, meu pai, um fumante inveterado, inscreveu-se no plano para deixar de fumar em cinco dias por recomendação de um colega. Depois ele foi convidado para assistir a uma série evangelística conduzida pelo Pastor Milton Lee, um veterano missionário na China. Dois anos mais tarde, minha mãe e eu fomos batizadas na igreja depois de termos recebido estudos bíblicos do pastor.

E seus fundamentos educacionais? A senhora freqüentou alguma escola adventista?

Freqüentei a San Yuk Secondary School de Hong Kong, em 1973. Depois de trabalhar durante um ano como nutricionista do Hospital Adventista de Hong Kong, foi-me concedida uma bolsa de estudos para cursar Alimentação e Nutrição no Philippine Union College. Infelizmente só pude completar o segundo ano. Tive de voltar para casa por causa da enfermidade de minha mãe.

E então?

Fui trabalhar no Hospital Adventista de Hong Kong como zeladora-chefe. Aos 21 anos eu era a mais jovem chefe de departamento. Mais tarde, obtive um certificado de gerência hoteleira executiva, e em 1985, recebi um diploma de gerente de hotel da American Hotel & Motel Associations. Também freqüentei o programa de formação em gerência-geral na Cornell University.

Depois de quatro anos de serviço no hospital, aceitei o cargo de administradora do Hotel Península, um dos dez hotéis mais famosos do mundo. Desde então minha carreira progrediu. Os primeiros três meses no Península foram difíceis. Contudo, essa experiência me ajudou a formar um conceito genuíno de gerenciamento, bem como aprender a ética envolvida na gerência hoteleira.

A senhora foi entrevistada por um jornalista da World Hotel Magazine, não é?

Ele queria saber o que contribuiu para que eu me tornasse a primeira gerente- geral em Hong Kong. Achavamme uma gerente “futurista”. Gosto de novas idéias e novos conceitos e de fazer com que as coisas aconteçam, em lugar de seguir as tendências do passado. Devo louvar a Deus por ter recebido meu primeiro treinamento de liderança nas atividades jovens da igreja.

Que aspectos especiais em seu estilo gerencial atraíram a atenção da revista?

Penso que foi o conceito de gerência ABCDE que aplico em meu trabalho. Baseei-me no conceito “C” para construir o Rosedale.

A = Alinhamento, que significa que toda a equipe de auxiliares precisa ter o mesmo objetivo e a mesma visão. Planificamos a visão da companhia desde o nível de gerência até os escalões menores. Realizamos cursos de treinamento para a equipe de auxiliares, inclusive os novatos, baseados nesse conceito. O impacto é tão forte que todo o mundo tem o senso de ser parte do negócio.

B = Negócio é negócio. Na área de hotelaria precisamos saber o que nossos clientes necessitam, e propiciar-lhes todas as facilidades para o aprimoramento de nosso negócio, de modo a garantir- lhes uma boa estada fora de casa.

C = Conceito. Nosso serviço é computadorizado, completo, cortês, compacto, conveniente, competitivo, confidencial, consistente, comprometido, clientelizado (voltado ao cliente) e correto.

D = Diligência e devotamento. Espera- se que cada membro da equipe seja plenamente devotado à companhia, disposto a ser um líder eficaz e um trabalhador competente, que preste bons serviços aos hóspedes e seja um cidadão exemplar.

E = EQ e ética. Nossa ética é ser sensível e racional nas decisões gerenciais, procurando cumprir aquilo que prometemos e prestar um serviço à altura de nosso comprometimento. Sempre considerei a Bíblia, com suas máximas e injunções, como minha melhor enciclopédia gerencial.

A senhora acredita firmemente que negócio e automatização serão a tendência futura em hotelaria. Pode nos dizer como isso aprimorará a prestação de serviços aos hóspedes e a eficácia operacional?

A automatização parece onerosa, mas é fator de economia a longo prazo. Por exemplo, ao utilizarem a rede telefônica, os hóspedes não precisam levar consigo seus computadores e podem verificar seus e-mails pela rede mundial. O telefone digital sem fio permite aos hóspedes fazer a refeição matinal, almoço e jantar ou estar no centro de convenções sem perder um chamado sequer. Ademais, nossos agentes ou corporações além-mar podem ter acesso instantâneo ao nosso estoque. Por essa razão, temos uma situação vantajosa para todos — hotel, associados e clientes. Isso resultou em maior eficiência e provou ser mais econômico e rápido. Além disso, os elevadores são trancados e só podem ser abertos com as chaves dos quartos. Assim temos o mínimo de roubos e assaltos, promovendo em nossos hóspedes a sensação de segurança.

Nossas conexões de Intranet criaram um escritório sem papelada, o que é favorável ao meio ambiente. Não há mais problemas de entrega e atrasos e o sigilo pode ser mantido. O acesso gratuito à “banda larga” doméstica é um grande benefício prestado aos hóspedes. Essa é uma das razões por que os gerentes corporativos e de investimentos sempre retornam ao hotel.

Com uma agenda tão sobrecarregada que a senhora tem, como encontra tempo para cooperar com a obra da igreja?

A fim de estar presente à reunião anual da Divisão como representante leiga, tenho de pedir quatro semanas de férias, embora meu chefe tenha apenas duas. Estou ativamente envolvida no coral de minha igreja, organizo retiros e atividades leigas durante o sábado, bem como outros programas da igreja. Gasto tempo aconselhando meus irmãos da igreja e orando por eles. Além disso, dou decidido apoio a todos os projetos de levantamento de fundos para a igreja, bem como de subvenção de bolsas de estudo.

A senhora pode nos dizer como dá testemunho perante seus colegas e clientes nãoadventistas no trabalho?

Em meu relacionamento com clientes e colegas, procuro adotar uma abordagem cristã. Assim, quase todos sabem que sou cristã e que vou à igreja aos sábados. Com efeito, sou a única pessoa que não precisa marcar o ponto no sábado, numa companhia com mais de dois mil empregados. Não tenho dado motivo de queixas a meu chefe quanto às minhas ausências aos sábados, pois prometi trabalhar 44 horas por semana. Amiudadamente tenho trabalhado além das horas regulares requeridas.

Além disso, amo meu trabalho e o executo com prazer. Em meu trato com colegas adoto as diretrizes da Bíblia: Percebo a beleza nas pessoas em vez de me demorar sobre suas fraquezas. Sou boa ouvinte de meus subordinados e demonstro respeito a meus superiores. Cumpro o que prometo e aprecio os desafios, em vez de ficar ansiosa com o volume de trabalho.

Que conselho daria às pessoas que trabalham em ambientes não-adventistas?

Os funcionários adventistas são considerados pessoas dedicadas e conservadoras. Se estivermos à altura dos padrões cristãos e praticarmos os princípios bíblicos, podemos ser eficientes testemunhas de Deus. Também contribuirá com esse propósito se mantivermos uma atitude franca e não nos incomodarmos com as críticas de pessoas que crêem sermos materialistas quando trabalhamos fora da denominação. Lembre- se de que podemos ainda contribuir com a missão da igreja, testemunhando a pessoas que de outro modo não teriam contato algum com um adventista que lhes contasse acerca de Jesus Cristo. Dedicação à nossa fé e devoção ao dever é o segredo.

Entrevista concedida a Mary Wong. Mary Wong (Ph.D. pela Michigan State University) era até recentemente diretora de ministérios de crianças, família e mulheres da Divisão Ásia-Pacífico do Norte. Ela escreve de S. José, Califórnia. Seu e-mail: mhtwong@aol.com E-mail de Maria Lee: gm@rosedale.com.hk