Fé, razão e o cristão educado

"Senhor, ajuda-me a nunca usar minha razão contra a Verdade". -- Oração Judaica

Qual é a relação apropriada entre fé e razão na vida de um crente? Através dos séculos, este assunto tem sido objeto de extremo interesse e preocupação entre os pensadores cristãos. Crentes envolvidos em estágios mais avançados de estudo, pesquisa ou profissões que desafiam a base da fé da pessoa, deparam-se continuamente com o dilema de como integrar fé e razão em sua vida diária. Essa tensão é intensificada pelo fato de muitas pessoas atualmente suporem que indivíduos inteligentes não são religiosos ou, se são, preferem guardar tais crenças em segredo.

Como esse assunto foi tratado pelos intelectuais cristãos no passado? Este artigo proverá um breve estudo histórico das opções, analisará importantes textos bíblicos sobre o tema, propondo maneiras pelas quais cristãos pensantes possam satisfazer seu entusiasmo por ambos, a crença e o cultivo de uma fé racional.

Premissas e definições

De acordo com as Escrituras, Deus criou Adão e Eva no princípio da história humana e os dotou com a capacidade de raciocinar, "a faculdade de pensar e agir".1 Exercitando estas habilidades, nossos primeiros pais desobedeceram a Deus e, como resultado, perderam sua condição perfeita e seu lar. A despeito de termos herdado a fraqueza da natureza caída de Adão e Eva, Deus tem preservado nossa capacidade de pensar por nós mesmos, exercitar confiança e tomar decisões. De fato, um dos objetivos da educação adventista é "treinar os jovens para que sejam pensantes, e não meros refletores do pensamento de outrem".2

Antes de prosseguirmos, a clareza requer que definamos alguns termos:

, de uma perspectiva cristã, é um ato da vontade que escolhe depositar sua confiança em Deus em resposta a Sua auto-revelação e às manifestações do Espírito Santo em nossa consciência.3 Fé religiosa é mais forte do que crença; ela inclui o desejo de viver e até de morrer pelas convicções pessoais.

Razão é o exercício da capacidade mental para o pensamento racional, compreensão, discernimento e aceitação de um conceito ou idéia. Razão clama por coerência, clareza, consistência e evidência adequada.

Crença é o ato mental de aceitar uma afirmação ou uma pessoa como uma verdade, fato ou algo real. No entanto, é possível também sustentar uma crença em algo que não seja verdadeiro.

Vontade é a habilidade e poder de eleger uma crença específica ou um curso de ação de preferência a outros. Escolha é o livre exercício de tal habilidade.

Razão e fé estão relacionadas assime-tricamente. É possível crer que Deus existe (razão) sem crer em Deus ou confiar nEle (fé).4 Mas é impossível crer e confiar em Deus (fé) sem acreditar que Ele existe (razão).

Eu aceito a primazia da fé na vida cristã intelectual, como expressa em duas formulações clássicas: Fides quaerens intellectum ("Fé buscando entendimento) e Credo ut intelligam ("Eu creio a fim de poder entender"). Razão é importante para a fé, mas não pode substituí-la. Para um cristão adquirir conhecimento per se não é o supremo objetivo da vida. O propósito mais elevado da vida é conhecer a Deus e estabelecer um relacionamento pessoal e amoroso com Ele. Tal confiança e amizade promovem a obediência a Deus e um serviço abnegado em favor dos nossos semelhantes.

Relacionamento entre fé e razão

Como os crentes do passado relacionaram as questões da fé e da razão? Como deveríamos nós relacioná-las? Ao longo da era cristã, as pessoas têm adotado diversas abordagens que podem ser assim descritas:5

1. Fideísmo: A fé ignora ou minimiza o papel da razão para chegar à verdade suprema. De acordo com esta posição, fé em Deus é o critério supremo da verdade ou seja, é tudo o que um cristão precisa para obter a certeza e salvação. Os fideístas declaram que Deus Se revela à consciência humana por meio das Escrituras, do Espírito Santo e da experiência pessoal, o que é suficiente para se conhecer todas as verdades importantes. Um ditado popular contemporâneo sintetiza este pensamento: "Deus disse. Eu creio. Isto é suficiente".

O fideísmo radical, não racional, foi primeiramente articulado por Tertuliano (160? - 230?), um primitivo cristão apologista conhecido por sua atitude crítica para com a cultura da época. Foi o argumentador Tertuliano que disse: Credo quia absurdum ("Eu creio porque é um absurdo"). Nos séculos seguintes outros autores cristãos exaltaram o valor supremo da fé cega em oposição direta à razão humana. Levado a um extremo, o fideísmo rejeita o pensamento racional, opõe-se à educação avançada e à pesquisa científica e pode conduzir a uma religião mística e individualizada.

Os críticos do fideísmo, especialmente de sua expressão mais radical, observam que a fé em Deus e em Jesus Cristo pressupõe a existência de um Deus que Se revelou à humanidade na pessoa de Jesus. E a menos que estas pressuposições sejam comprovadas razoáveis, ou pelo menos não contrárias à razão, não é mais apropriado crer nelas do que crer em absurdos. Além disso, cristãos que aceitam a Bíblia como uma revelação confiável de Deus, devem necessariamente, exercitar suas habilidades racionais para compreender e aceitar as proposições e exortações contidas nas Escrituras. Se a Bíblia é verdadeiramente uma expressão proposicional da vontade de Deus, bem como a base para a fé e a prática do cristianismo, a razão humana não pode ser desprezada.

2. Racionalismo: O raciocínio humano desafia e pode finalmente minar a fé religiosa. Os racionalistas sustentam que o raciocínio humano constitui a fonte principal de conhecimento e verdade, provendo assim a base para a crença.

O racionalismo moderno rejeita a autoridade religiosa e a revelação espiritual de informação confiável. Iniciando com o reavivamento humanístico da Renascença na Europa (séculos XIV a XVI), que exaltava o potencial e a criatividade humana, o racionalismo floresceu durante o Iluminismo (século XVIII), com sua crítica sistemática às instituições e doutrinas defendidas na época. Esse movimento se transformou no ceticismo moderno, o qual levanta questionamentos, dúvidas e discor-dâncias das conclusões e crenças geralmente aceitas e finalmente no ateísmo que nega a existência de Deus. Friedrich Nietzsche, Karl Marx e Sigmund Freud são representantes dessa posição.

Em oposição à fé, o racionalismo argumenta que as religiões tendem a sustentar crenças tradicionais, por vezes irracionais e frustrar a auto-realização dos seres humanos, tanto individual como coletivamente. Os racionalistas também argumentam que a realidade do mal no mundo é incompatível com a existência de um Deus poderoso, amoroso e sábio como tradicionalmente aceito pelos cristãos.

3. Dualismo: Fé e razão atuam em esferas separadas; nenhuma confirmando ou contradizendo a outra. Muitos cientistas contemporâneos, alguns deles cristãos, sustentam que a ciência lida com "fatos" objetivos, ao passo que a religião trata dos assuntos morais sob uma perspectiva pessoal e subjetiva. Portanto, as esferas de atividade da razão e da fé, do conhecimento e dos valores, não estão relacionadas entre si.6

Os cristãos que crêem na Bíblia não estão dispostos a aceitar essa posição. Eles argumentam, por exemplo, que Jesus Cristo, conforme revelado nos Evangelhos, não é apenas o centro de sua fé como o Deus encarnado, mas é também uma Pessoa real que viveu na Terra em tempo e lugar específicos na história humana. Eles afirmam que os eventos narrados e os personagens apresentados nas Escrituras também foram reais e fizeram parte de um histórico contínuo, conforme provas advindas de um volume crescente de evidências documentais e arqueológicas.

Qualquer tentativa de separar as esferas da razão e da fé, rebaixam a religião cristã a uma esfera de sentimentos pessoais, subjetividade individual e por fim ao nível de irrelevância mítica e imaginária. Tanto cristãos como não-cristãos sustentam diversas crenças por vezes contraditórias. Se elas não podem ser distinguidas quanto a sua veracidade ou falsidade pelo uso de evidências e argumentos razoáveis, então nenhuma crença, quer religiosa ou filosófica, pode reivindicar confiabilidade e lealdade.

4. Sinergia: Fé e razão podem colaborar e fortalecer uma à outra na busca humana por um compromisso com a verdade. Defensores desta posição sustentam a idéia de que o cristianismo constitui um sistema integrado e internamente coerente de crença e prática que merece tanto o compromisso com a fé quanto o consentimento racional. Os domínios da fé e da razão se sobrepõem. As verdades baseadas apenas na fé são as reveladas por Deus, mas que não podem ser percebidas pelo pensamento racional (por exemplo, a Trindade, salvação pela fé na graça de Deus). Verdades às quais podemos chegar tanto através da fé como da razão, são reveladas por Deus, mas também passíveis de serem percebidas e compreendidas pela razão humana (por exemplo, a existência de Deus, o objetivo da lei moral). As verdades sustentadas pela razão e não pela fé são aquelas não reveladas diretamente por Deus, mas descobertas pela razão humana (por exemplo, as leis físicas, as fórmulas matemáticas).

C. S. Lewis, renomado apologista cristão, argumentava que a fim de serem verdadeiramente morais, os seres humanos devem crer que os princípios morais básicos não são dependentes das convenções humanas. Esses conceitos possuem uma realidade transcendente que os torna conhecidos por todos. Lewis defendeu ainda que a existência de tais princípios pressupõe a existência de um Ser habilitado e disposto a promulgá-los.

Se o mundo real pode ser compreendido pela razão humana sob a premissa da investigação e experiência, então ele é um mundo inteligível. A acessibilidade deste mundo à investigação científica tanto no nível celular quanto galáctico permite aos seres humanos descobrir leis que fornecem evidências para um plano inteligente da mais complexa espécie. Esse plano extremamente elaborado de todas as facetas do Universo, que torna possível a vida inteligente neste planeta, aponta para um Arquiteto.

Portanto, a experiência religiosa e a consciência moral podem ser vistas como sinais da existência do mesmo Ser, que a pesquisa científica antevê como o Arquiteto inteligente do cosmos e o Mantenedor da vida.7

A razão pode nos ajudar a mover da compreensão para a aceitação e, conseqüentemente à crença. Entretanto, a fé é a escolha da vontade que ultrapassa a razão. Uma cuidadosa reflexão, guiada pelo Espírito Santo, pode remover obstáculos na vereda da fé. Uma vez que a fé esteja presente, a razão pode fortalecer o compromisso religioso.8

Fé e razão na perspectiva bíblica

A cosmovisão hebraica, conforme apresentada no Antigo Testamento, concebia a vida humana como uma unidade integrada que incluía crença e comportamento, confiança e raciocínio. Durante a maior parte de sua existência, o povo de Israel aceitou como verdade, a realidade de Deus, onde Suas revelações foram documentadas nas Escrituras e onde Suas intervenções sobrenaturais foram evidentes em sua história. Para eles, o inimigo da crença no verdadeiro Deus não era o ceticismo, mas a adoração a outros deuses, os quais eram meros produtos da imaginação humana. O propósito do povo não era um conhecimento teórico, mas sabedoria -- o dom do raciocínio correto que leva a pessoa a uma escolha sábia e a um viver justo. "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência" (Provérbios 9:10).

O Novo Testamento reflete a mudança em direção ao contexto cultural, no qual o monoteísmo hebraico tinha já se fragmentado em várias seitas judaicas, e tinha também recebido influência do politeísmo greco-romano, culto ao imperador e agnosticismo. Enquanto a Igreja Cristã Primitiva interagia com este ambiente religioso-filosófico, ela passou a articular a distinção entre fé e razão, outorgando à fé a posição de privilégio na vida do crente.

Especificamente no Novo Testamento, o ensino bíblico que diz respeito à fé e razão, pode ser resumido nas seguintes proposições:

1. O Espírito Santo desperta a fé e ilumina a razão. Se não fosse a persistente influência do Espírito Santo na consciência humana, ninguém jamais se tornaria um cristão. Em nossa condição natural, não possuímos a disposição de buscar a Deus (Romanos 3:10, 11), de reconhecer nossa necessidade emergente de Sua graça (João 16:7-11), ou de compreender as coisas espirituais (I Coríntios 2:14). Somente pela influência do Espírito Santo, somos levados a aceitar, crer e confiar em Deus (João 16:14). Após esta miraculosa transformação (Romanos 12:1, 2), o Espírito Santo nos ensina (João 14:26), guia à compreensão "de toda a verdade" (João 16:3), habilitando-nos a discernir entre a verdade e o erro (I João 4:1-3).

2. A Fé deve ser desenvolvida e praticada durante toda a vida. Cada ser humano recebe uma "medida de fé" (Romanos 12:3) -- isto é, a capacidade básica de confiar em Deus -- e cada ser humano é encorajado a crescer "mais e mais" em fé (II Tessalonicenses 1:3). De fato, "sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que se torna galardoador dos que O buscam" (Hebreus 11:6). Por isso, a súplica de um pai angustiado a Jesus: "Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé! (Marcos 9:24), e o pedido insistente dos discípulos, "Aumenta nossa fé" (Lucas 17:5).

3. Deus valoriza e apela à razão humana. Embora os pensamentos de Deus sejam infinitamente superiores aos nossos (Isaías 55:8, 9), Ele escolheu comunicar-se inteligentemente com a raça humana, revelando a Si mesmo através das Escrituras (II Pedro 1:20, 21), através de Jesus Cristo que chamou a Si mesmo de "a Verdade" (João 14:6) e através da natureza (Salmo 19:1). Deus quer "arrazoar" conosco (Isaías 1:18). Jesus freqüentemente envolvia Seus ouvintes em diálogo e reflexão, incentivando-os a uma resposta consciente (ver por exemplo, Sua conversa com Nicodemos, João 3; e a mulher sama-ritana, João 4). Diante do pedido feito pelo oficial etíope, Felipe explicou uma profecia messiânica encontrada nas Escrituras, a fim de que ele pudesse compreender e crer (Atos 8:30 - 35). Os crentes de Beréia foram elogiados por examinarem "as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato assim" (Atos 17:11). O propósito supremo da vida é conhecer a Deus e aceitar a Cristo como Salvador, tal conhecimento pessoal nos conduz à vida eterna (João 17:3).

4. Deus nos provê suficiente evidência para crer e confiar nEle. O observador imparcial pode reconhecer no universo natural o poder criador e mantenedor (Isaías 40:26). Suas "qualidades invisíveis -- Seu poder e natureza eternos -- têm sido claramente visíveis" e compreendidos por intermédio das "coisas que Ele fez". Aqueles que, a despeito das evidências, negam Sua existência e poder criador "são indesculpá-veis" (Romanos 1:20). Entretanto, quando Tomé expressou dúvidas sobre a realidade da ressurreição, Cristo lhe deu uma evidência física e o desafiou: "Não sejas incrédulo, mas crente" (João 20:27-29). Quando somos confrontados com questões referentes à origem do Universo, nosso ponto de partida deve ser a fé baseada na revelação de Deus: "Pela fé, entendemos que foi o Universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem" (Hebreus 11:3).9

5. Deus provê claras orientações para a vida, mas aceita as escolhas que fazemos. No Jardim do Éden, Deus deu a Adão e Eva o livre arbítrio -- para obedecê-Lo ou não -- e os advertiu quanto às tristes conseqüências de sua desobediência (Gênesis 2:16, 17). Falando por intermédio de Moisés, Deus reiterou as opções: "Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal... escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e tua descendência" (Deuteronômio 30:15, 19). Seus apelos à consciência humana são perfeitamente afáveis: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo" (Apocalipse 3:20). Acima de tudo Deus busca encontrar em Seus filhos amor, obediência e adoração, que são resultado da razão e do livre arbítrio (João 4:23, 24; 14:15, Romanos 12:1 [logikén = razoável e espiritual]).

6. Fé e razão trabalham juntas na vida e no testemunho do cristão. Paulo atesta que a aceitação de Jesus como Salvador depende de um entendimento racional do Evangelho. "A fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo" (Romanos 10:17). Os cristãos devem estar "sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós" (I Pedro 3:15 [resposta = apologían em grego, defesa, justificação; razão = lógon em grego, uma palavra, uma explicação]). Pedro também encoraja os cristãos: "Com toda diligência, associai com a fé a virtude; com a virtude, o conhecimento" (II Pedro 1:5, 6).

Lidando com perguntas e dúvidas

Vamos agora considerar as implicações práticas daquilo que examinamos. Como devem os cristãos que crêem na Bíblia lidar com a tensão que surge inevitavelmente entre a fé e a razão, quando eles se deparam com temas conflitantes em seu estudo, pesquisa ou experiência de vida? As seguintes sugestões podem ser úteis:10

1. Lembrar-se de que Deus e a verdade são inseparáveis. Deus nos criou como seres racionais e inquiridores. Ele é honrado quando usamos nossas habilidades mentais para explorar, descobrir, aprender e inventar, ao interagirmos com o mundo que criou e sustém. Sempre que usarmos nossa racionalidade e criatividade em atitude de humildade e gratidão, estaremos expressando amor a Deus com a nossa mente. Os cristãos não devem temer estudar, pesquisar e descobrir. Se há discrepâncias entre "a verdade de Deus" e a "verdade humana", é porque não compreendemos uma ou a outra, ou ambas. Sendo que em Cristo "todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos" (Colossenses 2:3), toda verdade pertence a Deus.

2. Aceitar o fato de que a Bíblia não revela todas as coisas que existem para conhecermos. O conhecimento de Deus é infinitamente maior e mais profundo que o nosso. Por essa razão, Ele precisou descer ao nosso nível para estabelecer comunicação conosco, respeitando nossa capacidade de compreensão. Como Jesus disse aos discípulos: "Tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora" (João 16:12). Além disso, nossa natureza caída prejudica e limita nossa compreensão. "Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido" (I Coríntios 13:12). A Bíblia pode ser encarada como um livro de história, literatura, leis ou biografias. Mas, seu principal objetivo é ajudar-nos a conhecer a Deus e ensinar-nos como nos tornarmos Seus amigos e vivermos piamente tendo em vista a eternidade. Na Nova Terra teremos tempo e oportunidade de explorar e aprender da vasta complexidade do cosmos e seus habitantes.

3. Fazer distinção entre a Palavra de Deus e as interpretações humanas. Tradições humanas e idéias preconcebidas freqüentemente nos levam a ler certas coisas na Bíblia que não estão escritas ali. Um exemplo clássico é o caso de Copérnico (1473-1543), que, com base em seus estudos e observações, propôs que os planetas, incluindo a Terra, giravam ao redor do Sol. Sendo que a maioria dos astrônomos de sua época ainda acreditava na teoria geocêntrica de Ptolomeu, muitos líderes religiosos daqueles dias consideraram heréticas as idéias de Copérnico. Em função da importância dos seres humanos e da centralidade da Terra nos planos de Deus, eles acreditavam que o Sol e os planetas giravam em torno da Terra. Quando Galileu e Kepler forneceram evidências em favor da teoria de Copérnico, a descoberta não destruiu Deus nem o cristianismo.

Três séculos depois, Charles Darwin discordou de muitos teólogos de seu tempo, que acreditavam na fixidez absoluta das espécies, a qual não é sustentada pela narrativa bíblica. Há não muitos anos, alguns cristãos afirmavam que Deus não permitiria que seres humanos viajassem pelo espaço ou chegassem à Lua. Novamente, tais afirmações estavam completamente equivocadas, revelando que se baseavam em interpretações e extrapolações pessoais.

4. Compreender que a iniciativa científica é uma exploração contínua de um segmento da realidade. A ciência experimental lida somente com fenômenos que podem ser observados, medidos, manipulados, repetidos e falsificados. Em oposição à impressão que alguém possa obter de muitos livros científicos e da mídia popular, a ciência moderna experimental freqüentemente nos leva a alguns ajustes. Na verdade, muitas das leis básicas são universalmente aceitas. Mas, ao continuarem suas pesquisas, os cientistas se valem do fato de que as teorias e explicações que foram aceitas por anos podem ser substituídas por outras teorias e interpretações que parecem mais precisas e confiáveis.11 Como objeto do método, os cientistas trabalham em suas disciplinas dentro de uma estrutura naturalista, a qual exclui o sobrenatural. Muitos deles são agnósticos ou ateus; entretanto, suas crenças não estão baseadas em evidências científicas, mas em opção pessoal. Os cientistas que estão abertos à possibilidade da existência de Deus, encontram no mundo natural inúmeras evidências de que existe um Arquiteto Inteligente que planejou e sustenta o Universo e a vida.

5. Criar um arquivo mental para problemas não resolvidos. Algumas perguntas aparecerão inevitavelmente em nossos estudos, em nossa experiência de vida e mesmo na Bíblia para as quais não temos respostas satisfatórias. Em alguns casos encontramos uma explicação posterior. Em outros casos, as perguntas permanecem não respondidas. Um exemplo clássico é a tensão entre a nossa crença em um Deus amoroso e Todo-Poderoso, e o sofrimento de inocentes. A despeito de evidências abundantes do poder e cuidado de Deus, não podemos compreender plenamente porque tragédias humanas e desastres naturais ocorrem em um Universo onde Ele é soberano. Como outros crentes do passado, tentamos encontrar sentido neste e em outros mistérios. O melhor que podemos fazer com estes assuntos é evitar o julgamento, prosseguir estudando com oração e buscar conselho com cristãos mais experientes. Algum dia alcançaremos um novo discernimento quanto aos mistérios, ou Deus nos esclarecerá tais contradições. A fé em Deus e o reconhecimento de nossas limitações mentais exigem que aprendamos a viver com algumas incertezas e mistérios.

Conclusão

Como forma de ilustrar o objetivo principal deste artigo, podemos imaginar nossa mente como um tribunal que funciona todos os dias, com sua integridade e liberdade protegidas pelo próprio Deus.12 No tribunal, nossa individualidade se assentará como juiz, enquanto a razão e a fé serão os advogados que trarão evidências a serem consideradas, e testemunhas para apresentarem seu parecer. A evidência e o testemunho provido por eles são advindos de uma variedade de fontes, as quais incluem: a influência e pessoas que amamos e respeitamos, o sentimento de amar e ser amado, nossa interação social e diálogo com outros, observações do mundo natural, experiências religiosas através da oração e do serviço a outros, leitura e pesquisa, alegrias e tristezas da vida, adoração individual e coletiva, reação à beleza das artes, efeito dos nossos hábitos e estilo de vida e a busca pela coerência e autenticidade interior.

Nossa vontade irá filtrar diariamente esta multiplicidade de informações e percepções emocionais, espirituais, racionais e estéticas, comparando-as com o código -- nossa cosmovisão.13

Por vezes, os argumentos mais complexos serão aceitos e fortalecerão as convicções. Em outras ocasiões, a evidência apresentada produzirá um ajuste em nossa cosmovisão e uma mudança em nossas crenças. Por outro lado, essas mudanças influenciarão nossa conduta. Outras vezes, a vontade preferirá não decidir. Sentado amavelmente no fundo da cena, o Espírito Santo está preparado para proferir uma palavra de advertência, correção ou afirmação. Outras vozes, talvez de observadores não convidados, são também ouvidas no tribunal, levantando objeções, apresentando evidências contrárias e dúvidas insinuantes. O tribunal de nossa vontade continuará a deliberar até o último dia da nossa vida consciente.

Como cristãos pensantes, somos desafiados a amar a Deus com nossa mente e nossa vontade, integrando na vida as exigências da fé e do intelecto. Para o cristão educado, "não há incompatibilidade entre a fé vital e a aprendizagem ampla, profunda e disciplinada, entre a piedade e o pensamento diligente, entre a vida da fé e a vida da mente".14 Para nutrir estas três facetas das habilidades concedidas por Deus -- fé, intelecto e vontade -- devemos aprofundar diariamente nossa amizade com Deus e nosso compromisso com a verdade. Ele confia que, diante das evidências disponíveis, nos tornaremos sábios em nossas decisões.15

Humberto M. Rasi (Ph.D. pela Universidade de Stanford), aposentado recentemente da direção do Departamento de Educação da Associação Geral da IASD, continua atuando como editor-chefe da revista Diálogo.

Notas e referências

    A menos que esteja indicado, todas as passagens da Bíblia neste artigo são citadas da versão Almeida Revista e Atualizada no Brasil (ARA).

  1. Ellen G. White, Educação. Casa Publicadora Brasileira, Santo André, SP 1977, p. 17.
  2. Ibidem.
  3. No mesmo livro, Ellen G. White define claramente a fé: "A fé é a confiança em Deus, ou seja, a crença de que Ele nos ama e conhece perfeitamente o que é para o nosso bem" (p. 253).
  4. "Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem" (Tiago 2:19).
  5. Ver Hugo A. Meynell, "Faith and Reason" em The Encyclopedia of Modern Christian Thought, editado por Alister E. McGrath (Oxford: Blackwell, 1993), pp. 214-219.
  6. Stephen Jay Gould, recentemente falecido autor e professor de história da ciência da Universidade Harvard, declarou: "O conflito entre ciência e religião existe somente na mente das pessoas, não na lógica ou utilidade própria destes dois temas completamente diferentes e igualmente vitais". Em sua opinião, "a ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, e desenvolver teorias que coordenam e explicam esses fatos. Por outro lado, a religião atua no campo igualmente importante, mas completamente diferente dos propósitos, significados e valores humanos". (Citado em Houston Smith, Why Religion Matters [Harper San Francisco, 2001], pp. 70, 71).
  7. O apóstolo Paulo argumenta: "Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostraram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se" (Romanos 2:14, 15).
  8. Ver Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli, Handbook of Christian Apologetics (Downer's Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1994), pp. 29-44.
  9. "O Senhor nunca exige que creiamos em alguma coisa sem nos dar suficientes provas sobre que fundamentemos nossa fé. Sua existência, Seu caráter, a veracidade de Sua Palavra, baseiam-se todos em testemunhos que falam à nossa razão; e esses testemunhos são abundantes. Todavia Deus não afasta a possibilidade da dúvida. Nossa fé deve repousar sobre evidências, e não em demonstrações. Os que quiserem duvidar, hão de encontrar oportunidade; ao passo que os que desejam realmente conhecer a verdade, encontrarão abundantes provas em que basear sua fé". Ellen G. White, Caminho a Cristo. Casa Publicadora Brasileira, Tatuí, SP, 1994, p. 105.
  10. Adaptado de Jay Kesler, "A Survival Kit", College and University Dialogue 6:2 (1994), pp. 24, 25.
  11. Thomas Kuhn, em seu livro The Structure of Scientific Revolutions, 2ª edição (University of Chicago Press, 1970) mostrou como os cientistas trabalham dentro de um paradigma conceitual mutuamente aceito que muda com o tempo.
  12. Agradecimentos a Michael Pearson pela estrutura básica desta ilustração que aqui elaborei. Ver seu artigo "Fé, Razão e Vulnerabilidade", College and University Dialogue 1:1 (1989), pp. 11-13, 27.
  13. Uma cosmovisão é uma perspectiva global que cada indivíduo maduro possui a respeito da vida e do mundo. Uma cosmovisão responde a quatro perguntas básicas: Quem sou? Onde estou? O que está errado? Qual é a solução? Ver Brian Walsh e Richard Middleton, The Transforming Vision: Shaping a Christian Worldview (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1984).
  14. Arthur F. Holmes, Building the Christian Academy (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publ. Co., 2001), p. 5. Ver também William Lane Craig, Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics, ed. rev. (Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1994).
  15. Ver Richard Rice, "When Believers Think", College and University Dialogue 4:3 (1992), pp. 8-11. Rice é autor do livro Reason and the Contours of Faith (Riverside, Calif.: La Sierra University Press, 1991).