Como você reage quando ofendido?

“Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você ganhou seu irmão” (Mateus 18:15).

Ângela Monteiro luta para sair da cama. Seu corpo todo dói e o rosto está coberto de contusões. Na noite anterior, Artur, seu marido, surrou-a mais uma vez em meio a um acesso de raiva. Olhando-se no espelho, aplicou forte maquiagem nas manchas e pontos inchados. Penteou seu cabelo de lado para cobrir o olho roxo, tentando aparecer apresentável em seu trabalho.

Jonas está furioso. Ricardo, seu companheiro de trabalho, apresentou uma proposta à mesa diretiva da empresa onde ambos trabalham, e recebeu importante reconhecimento e aumento salarial. A ira de Jonas se deve ao fato de a idéia daquela proposta ser sua, tendo-a ele partilhado com Ricardo durante uma conversação informal. Jonas passa o dia planejando como se vingar de Ricardo, para que ele pague por sua traição.

Patrícia recebe um telefonema anônimo. Seu marido, Rodolfo, a está enganando com sua secretária. Quando Rodolfo chega em casa, após o trabalho, ela lhe lança em rosto a sua infidelidade. É uma experiência traumática para o seu casamento. Depois de muitas semanas de terapia e muita conversa, o casal consegue superar a crise. Embora isso tenha sido muito penoso, ambos admitem que tal experiência ajudou a fortalecer sua união.

Considere essas reações a situações ofensivas. Ângela submeteu-se à violência, cobrindo-a com os cosméticos do silêncio e da dissimulação, que alimentam e perpetuam a situação. Jonas agiu com agressividade diante da ofensa, seguindo a lei do “olho por olho e dente por dente”. Patrícia enfrentou corajosamente sua penosa crise a fim de salvar seu casamento. Estas são três respostas típicas a ofensas: a atitude passiva, a reação agressiva e a conduta pró-social de negociação e reconciliação.

Desde 1992, um grupo de colegas da Universidade Adventista del Plata (UAP), na Argentina, e eu temos investigado como as pessoas reagem quando ofendidas, as desordens que o atrito produz e as maneiras de superar as disputas (Moreno e Delfino, 1993; Pereyra, 1996; 2003; Moreno e Pereyra, 1999; 2000; 2001). Nossas investigações têm revelado oito atitudes características. As atitudes são formas distintas de comportamento que refletem estados emocionais, de pensamento e de vontade. Essas oito atitudes podem ser assim definidas:

Oito atitudes

1. Submissão: Aceitação passiva do insulto, submetendo-se à crítica ou atitude reprovadora do ofensor, criando justificativas autodesqualificadoras e humilhantes como, por exemplo: “Eu mereço isso” ou “É culpa minha”.

2 Negação: Exclusão consciente da lembrança de idéias ou sentimentos associados à ofensa sofrida; empreendimento de esforços para “esquecer o assunto”.

3. Reação hostil: Predisposição para reagir imediatamente com violência, atacando o agressor da mesma forma; uma atitude primitiva que pode não deixar ressentimentos em relação ao sujeito, mas provavelmente agrava o conflito com a pessoa que sofre o ataque emocional.

4. Vingança: “Olho por olho e dente por dente”. Busca intencional de vingança e planejamento para executá-la, tentando dar ao ofensor a mesma ou até maior punição do que o agravo sofrido. Isso também é diferente da primeira atitude, na qual a reação não é imediata. Muito tempo pode passar antes que a retaliação tenha lugar.

5. Ressentimento: Tendência de reter sentimentos de ira e ódio, lembrando-se freqüentemente da afronta sofrida, mantendo comportamentos de animosidade e rancor para com a parte culpada, sem realmente praticar atos diretos de vingança, como na reação vingativa já mencionada.

6. Explicação: Enfrentamento do faltoso na busca de uma explicação, justificativa ou motivo para a ação, a fim de superar a discórdia mediante o diálogo; “esclarecer as coisas”.

7. Perdão: Essa atitude também se centraliza na comunicação, mas busca a compreensão para esclarecer satisfatoriamente as causas da controvérsia; a pessoa cerra as portas a ações hostis, vingança ou rancor.

8.Reconciliação: Superar a discórdia mediante o diálogo e com disposição perdoadora, assim como ocorre nas duas atitudes precedentes, mas com a intenção de reavivar os laços de afeição com o ofensor, a fim de restabelecer o bom relacionamento.

Quando analisamos estatisticamente centenas de estudos realizados através de testes para mensurar essas atitudes (Questionário de Atitudes em Situações de Ofensa, ASOQ [Moreno e Pereira, 2000]), com pessoas de diferentes faixas etárias, sexo, situação conjugal, crenças e origens, descobrimos que essas formas específicas de reação correspondiam a três modelos básicos.

Três respostas comportamentais gerais

Em outras palavras, quando somos vítimas de uma ofensa, respondemos segundo três padrões de comportamento geral, como aconteceu com Ângela, Jonas e Patrícia. O primeiro inclui atitudes de submissão e negação, que podem ser interpretadas como a tendência de internalizar impulsos hostis, reprimindo-os ou negando-os. Esse é o caso de alguém que “engole” ou controla suas emoções, revelando exteriormente uma aparência tranqüila, “fingindo coragem”.

A segunda resposta corresponde a comportamentos hostis, vingança e ressentimento. Diferentemente dos comportamentos submissos, essa tendência envolve agressão, buscando a certeza de ferir aqueles que feriram você. Ela inclui “explosões” e perturbações que alimentam a ira até sua descarga.

A terceira forma de resposta canaliza as emoções através do diálogo e da negociação. Ela cobre as três últimas atitudes: explicação, perdão e reconciliação. Consiste em buscar superar os conflitos, preservando o bom relacionamento interpessoal e administrando o problema mediante a comunicação, como Patrícia o fez.

As descobertas da investigação

Investigações científicas múltiplas relatam que tanto a repressão como a negação da agressão (a primeira resposta-padrão), e a violenta exteriorização da emoção hostil (a segunda resposta-padrão), podem estar associadas a graves desordens físicas e mentais. Por conseguinte, pode-se entender que os comportamentos dialogais, o perdão e a reconciliação estão relacionados à boa saúde. Numa investigação realizada com um grupo de jovens adultos normais (n=126), descobriu-se que aqueles que reclamavam ter mais sintomas psicossomáticos revelavam uma pontuação mais elevada nas escalas de Vingança e Rancor; em contraste, aqueles que deram respostas pró Perdão e Reconciliação, foram negativamente relacionados com sintomas “neuróticos” (Pereyra e Kerbs, 1998).

Outra pesquisa realizada por A. Barchi (1999) comparou pacientes que tentaram o suicídio com uma amostra de controle simples. Barchi descobriu que o grupo suicida atingiu alta pontuação em três escalas agressivas. O mesmo resultado foi constatado em pacientes hemodialíticos de falência renal crônica (Pereyra, Bernhardt e Fontana, 1999).

A literatura sobre o assunto revela que aqueles que nunca expressam suas emoções, mas as reprimem profundamente, são mais suscetíveis ao câncer. Semelhantemente, a liberação da ira de modo explosivo, com emoção violenta, também pode causar enfermidades como ataques cardíacos ou outros sintomas cardiovasculares.

A “Personalidade Tipo A” é definida na literatura especializada como sendo de indivíduos reativos, enfáticos e que explodem facilmente quando provocados. Entre eles, são freqüentes os ataques cardíacos, derrames cerebrais ou outros tipos de distúrbios cardíacos. Essa informação não prediz necessariamente o que acontecerá com a pessoa; ela apenas mostra a correlação entre tendências no trato com a agressividade e propensões a essas enfermidades.

Investigando essa correlação, submetemos o ASOQ a mais de 50 pacientes que padeciam de diferentes tipos de câncer, e 50 pacientes de ambos os sexos que sofriam de diversas doenças cardiovasculares. Os resultados foram compatíveis com o que fora encontrado na literatura. As diferenças foram significativas em três fatores, especialmente nas “Respostas Passivas”, onde as atitudes submissas foram altamente expressivas em pacientes cancerosos. E também, enquanto o primeiro grupo estava freqüentemente em atitude de negação, os pacientes cardíacos eram mais hostis e rancorosos, mesmo em nível mais elevado na área de seu relacionamento com Deus, como se O culpassem por seu sofrimento e enfermidade (Moreno e Pereyra, 2000).

Finalmente, outro estudo muito interessante (ibidem) de uma amostragem de 863 pessoas de cinco países pertencentes ao continente americano, e de diferentes confissões religiosas, mostrou que aqueles que tinham crenças e costumes religiosos ativos, em contraste com os que nada professavam, mostraram pontuações diferentes em todos os tipos de atitude diante de ofensas. As diferenças foram mais marcantes na questão das respostas agressivas. Os que não eram religiosos mostraram elevado índice de vingança, rancor e hostilidade, enquanto os crentes revelaram mais alta disposição para a humildade e sujeição, bem como para os comportamentos que tendiam ao diálogo e à busca de perdão e reconciliação.

A perspectiva bíblica

A Bíblia sempre nos surpreende com seus conceitos maravilhosos e iluminados. As descobertas feitas na pesquisa que apresentamos dão grande apoio ao que a Palavra de Deus diz sobre relações humanas. No Sermão da Montanha, Jesus censurou severamente o exercício do insulto e da agressão, considerando-o como objeto de juízo e de merecida condenação. Aquele que ofende um “irmão” deve comparecer não apenas diante de um simples magistrado, mas perante Alguém muito maior e cuja sentença é também mais grave: ele “corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mateus 5:22).

A agressão consome seu autor, por isso é imperioso resolvê-la rapidamente, procedendo à reconciliação com a vítima. Para enfatizar a urgência e a obrigação de reparar um relacionamento danificado, a Bíblia declara que a pessoa precisa priorizá-lo até mesmo sobre o cumprimento de obrigações religiosas, tal como fazer uma oferta sobre o altar (versos 23 e 24). A lei sugere que se alguém não tiver sucesso na reconciliação, precisa tentar conseguir um acordo com o adversário, evitando assim que o caso vá perante o juiz (versos 26 e 27). Essa fórmula de resolução de conflito é a “reconciliação” ou, se houver intervenção de terceiros, a “mediação”.

A despeito de tudo isso, se o agressor não cumprir o seu dever de tomar a iniciativa de resolver a discórdia, ou talvez não estiver cônscio dela, o que pode ser feito? Essa situação também está prevista na Palavra. Em Mateus 18, Jesus levanta a questão mais uma vez, dirigindo-se à vítima: “Se o seu irmão pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro” (Mateus 18:15). A responsabilidade de resolver a disputa agora é transferida ao ofendido. Pela leitura dos textos de Mateus 5 e 18, conjuntamente, podemos interpretar que, de início, o agressor tem o dever de resolver o problema, mas se após um prazo razoável ele não agir, então a vítima deve ser quem precisará tomar a iniciativa de obter um acordo. Para que isso aconteça, uma série de passos é recomendada (versos 16 e 17).

Nossa pesquisa revela que aqueles que possuem convicções religiosas resolvem suas disputas pessoais mediante diálogo particular, assim como Cristo aconselhou. Apesar disso, um elevado percentual de pessoas prefere esquecer o que aconteceu, colocando as diferenças de lado, prosseguindo avante como se nada houvesse ocorrido e pensando ser essa a melhor solução.

Mas, às vezes, o silêncio pode aprofundar a dor e avolumar as paredes de separação. Contrariamente, o diálogo nos ajuda a acalmar as emoções turbulentas, a obter concórdia e salvar da dissolução os relacionamentos. Para alcançar esses objetivos, o diálogo deveria ter lugar sob condições adequadas, quando a ira diminuir e a reconciliação for capaz de superar os mal-entendidos e conservar a amizade. Conservar aberta a rede de relacionamentos amigáveis e satisfatórios com o próximo promove a boa saúde mental. Isso ajuda a manter o senso de bem-estar e preserva a alegria de viver.

Por essa razão, é bom lembrar a exortação de Paulo: “Façam todo o possível para viver em paz com todos”. (Romanos 12:18).

Mario Pereyra (Ph.D pela Universidad de Córdoba) preside o departamento de psicologia clínica na Universidade de Montemorelos, México. O Dr. Mario pode ser contatado através do site www.mariorpereyra.com.

REFERÊNCIAS

    A. Barchi (1999) “Organización familiar, agresividad y esperanza em intentos de suicídio”. Tese, Universidad Adventista del Plata, Libertador San Martín, Argentina.

    E. Moreno e C. Delfino (1993), “Estudio sobre el significado referencial de la noción de perdón”, Enfoques, 5:12, pp. 54-65.

    E. Moreno e M. Pereyra (1999), “Aplicaciones clínicas del CASA, Estudio comparativo con pacientes cardiológico, oncológicos, renales crónicos y psiquiátricos con intento suicida”. Documento apresentado durante o XXVII Congresso Interamericano de Psicologia, Caracas, Venezuela.

    E. Moreno e M. Pereyra (2000), Cuestionario de actitudes frente a situaciones de agravio: Fundamentación teórica, validación y administración. Universidad Adventista del Plata, Argentina.

    Moreno, E. e Pereyra, M. (2001). “Attitude toward offenders scale; Assessment, validation and research”, em Manuela Martinez, ed., Prevention and Control of Aggression and the Impact on its Victims (Nova Iorque: Kluwer Academic/Plenum Publishers), pp. 377-384.

    M. Pereyra (1996), Estrategias y técnicas de reconciliación. Psicoteca Editorial, Buenos Aires, Argentina.

    M. Pereyra, E. Bernhardt e A. Fontana (1999), “Esperanza-desesperanza y manejo de la agresividad en pacientes renales crónicos en hemodiálisis”. Psicología y Salud, 113, pp. 63-71.

    M. Pereyra (2003), Reconciliación: Cómo reparar los vínculos dañados. Publicaciones Universidad de Montemorelos, Montemorelos, México.