Neville Clouten: Diálogo com um arquiteto e artista adventista

O Dr. Neville Clouten viaja pelo mundo com seu caderno de esboços na mão, coletando impressões que tem inspirado sua filosofia de ensino, suas idéias sobre arquitetura e aquilo que ele capta em suas aquarelas. Ele tem feito seminários sobre aquarela no Queen Elizabeth II e no Queen Mary II, e lidera grupos de amigos e artistas em cruzeiros pelos rios europeus.

Clouten graduou-se em Arquitetura pela Universidade de Sidney (Austrália), pela Universidade Estadual de Ohio (EUA.), e obteve seu Ph.D. pela Universidade de Edimburgo (Escócia). É membro do Instituto Real Australiano de Arquitetos e recebeu do Instituto Americano de Arquitetos, em 2000, o Prêmio Presidente de Michigan.

Trabalhou no Projeto Opera House, em Sidney, como pesquisador e guia oficial, e como arquiteto em Estocolmo, na Suécia. Nas últimas três décadas, o foco de interesse de Clouten na área acadêmica tem sido a educação arquitetônica. Ele se tornou o primeiro presidente do Departamento de Arquitetura da Universidade Andrews, em 1980. De 1990 a 2003, foi reitor da Faculdade de Arquitetura e Design da Universidade Tecnológica Lawrence, em Southfield, Míchigan. Suas publicações compreendem esboços e mais de 60 artigos em revistas de arquitetura, arte, ciência e educação. O livro Academic Lite: Treasures of Creativity and Reflection From Life as a University Professor, reflete seu peculiar senso de humor e filosofia sobre a importância de uma observação acurada e a descoberta no processo criativo. No prefácio da obra, Paul Stephenson Oles compartilha suas impressões sobre o professor Neville Clouten: um talentoso acadêmico que possui “íntima familiaridade” com sua área de estudos, e uma pessoa “plenamente humana”. Ele é “alguém que descarta o livro e inventa novas regras”.

O constante interesse de Clouten em explorar, entender e partilhar a exuberância do processo criativo é inspirador. A precisão de seu comentário de que “ao longo dos anos, a centralidade da criatividade na experiência humana tem sido importante para mim”, foi comprovada quando ele me mostrou o protótipo de uma barra de chocolate, cujo design fora feito por seus estudantes de arquitetura, com base nas preferências de chocolate desses alunos. O protótipo tornou-se posteriormente um produto real.

Suas aquarelas e esboços são regularmente exibidos em concursos de mostras artísticas, inclusive a Polk Art and Technology e a Michigan Water Color Society. Suas pinturas estão expostas em coleções particulares e em escritórios corporativos. As aquarelas da série “Impressões e Reflexões” são exibidas regularmente em galerias de arte.

Dr. Clouten, vamos começar com seu caderno de esboços.

A vida inteira, literalmente, sempre trouxe comigo um caderno de esboços. O que me fascina é o momento e o lugar, assim como a precisão. Meu objetivo é gravar impressões no caderno de esboços. Alguns deles são direcionados e associados a entretenimento, pois quero atrair as pessoas para o que é visualmente interessante.

O senhor tem um tema especial?

Sim, fui influenciado por meu pai, que era pescador. Desse modo, o mar e os lagos desempenham um papel importante em minha arte. Uma de minhas últimas aquarelas é “Low Tide at Boccadasse, Italy” (Maré Baixa em Boccadasse, Itália). A areia da praia, entre o barco “encalhado” e o ciclo incessante das ondas, transmite um senso de expectativa. Também gosto de imaginar uma conversação entre pessoas, usando os elementos da aquarela.

Quem o influenciou, de maneira significativa, em suas idéias e expressões artísticas?

Meu professor de arte da Universidade de Sydney, Lloyd Rees, exerceu forte influência sobre mim como pessoa e como conselheiro. Suas aulas eram cativantes; ele compartilhava suas experiências. Associava-se, como pessoa, à sua arte e transportava isso para seu tema e estilo. Tenho cartas dele as quais aprecio muito. Aqui está uma em que o Dr. Rees comenta algumas das coisas simples e insignificantes que fiz, por exemplo, participar de um projeto de arte como estudante e comprar uma xícara de café para ele, que produziram mele impressão duradoura. Possuo algumas de suas aquarelas e livros. Donald Schon, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em suas publicações sobre a prática reflexiva e suas associações pessoais, causou impacto em minha prática e em meu enfoque artístico no processo de ensino.

Por que a aquarela o atrai?

Sou fascinado pelo modo como funciona a técnica da aquarela. Gosto de interagir com o papel e a tinta e observar como a temperatura e a umidade introduzem variações. A secagem da aquarela produz, muitas vezes, resultados inesperados. Acho divertido esse desenvolvimento, gosto do processo criativo e freqüentemente de seu resultado.

Por que o senhor aprecia o processo criativo?

A criatividade está ligada às pessoas. Ela é a comunicação com o propósito de estabelecer uma conexão — conexão entre a arte e as convicções religiosas, e o compartilhamento disso com os outros. É sobre isso que Ellen White se referia quando escreveu que todos somos criadores e temos o poder dado por Deus para pensar, agir e fazer.

O senhor tem uma filosofia artística?

O processo criativo provê um modelo de reflexão sobre meu papel de professor, administrador e artista. As fotografias me fazem recordar de experiências, mas não posso competir com a Natureza. O realismo na arte omite muita coisa. Através da arte, as percepções de um indivíduo e sua cosmovisão podem ser compartilhadas com as pessoas. Um tema da Natureza ou do meio ambiente pode gerar uma grande quantidade de idéias, algumas das quais são passíveis de serem colocadas no papel. Com as aquarelas é até mesmo possível transmitir emoções.

Então, o que é o processo criativo?

A criatividade começa com uma necessidade real, humana. Esse é o ponto inicial da arquitetura: por que deve ou não haver um novo edifício? Essa é a verdade do Gênesis e também percebida no Novo Testamento. A criatividade exige uma observação detalhada. É descobrir o problema, resolvê-lo e refletir no processo. A análise e a síntese são fundamentais, e as idéias devem ser filtradas a fim de decidirmos se são válidas. É um momento criativo. Para mim, segurar um lápis representa uma continuidade entre esta vida e o Céu. Há temas criativos no culto, na música, nos instrumentos musicais, na arquitetura e na literatura bíblica. Imagino que no Céu prosseguiremos com o processo de criatividade. A última fase do processo criativo é a comunicação. Engajar outros nesse processo faz parte da emoção.

Como profissional cristão, o que lhe trouxe maior satisfação?

Estou feliz com minha carreira de arquiteto. Ganhei vários concursos com minhas idéias arquitetônicas. Fiz projetos de várias igrejas, mas me lembro com satisfação do projeto de uma capela para um centro de idosos que envolvia tudo, desde o edifício até a adequação das luzes e vitrais. Tenho alegria em ser professor, servir como líder, trabalhar com diferentes tipos de pessoas e refletir sobre diferentes métodos de ensino. No ambiente do estúdio de design, cada estudante se engaja em criatividade e reflexão.

Estou bem ciente de que Deus está dirigindo minha vida. Reflito sobre isso em meu novo livro intitulado A Plan Larger Than I Can Draw (Um projeto maior do que posso desenhar). Tenho tido vislumbres de Deus como Criador através de minhas limitadas excursões no processo criativo.

De todas suas experiências, há alguma que o senhor gostaria de partilhar conosco?

Minha esposa, Norene, e eu tínhamos passado uma sexta-feira fazendo esboços das ruínas maias na mata. No meio da tarde, fomos com nosso Volkswagen para a rodovia Pan-Americana a fim de encontrar um local para acamparmos. A falta de sinais na estrada e as informações confusas dos mapas nos atrasaram e estávamos ansiosos para encontrar um local e montar nossa barraca antes do pôr-do-sol. Quando subíamos pela estrada de uma montanha íngreme, cruzamos com um carro. Um dos mexicanos gritou: “Para onde estão indo?” “Para Tuxla.” “Vocês estão no caminho certo. Nós somos adventistas do sétimo dia e estamos indo para o Colégio Linda Vista, a algumas milhas daqui.” Seguimos o Dr. Rodriguez e sua família e fizemos o culto de pôr-do-sol na instituição. Ali conhecemos o Dr. Butler e esposa, que insistiram em que ficássemos em sua casa. Ao partirmos, deram-nos um pacote para levar à Sra. Graves, numa clínica localizada logo após a fronteira da Guatemala. Ela ficou muito agradecida pela visita e nos entregou correspondências para levarmos ao hospital adventista na Nicarágua. Não somente fomos inspirados pelo trabalho desses fiéis missionários, mas tivemos a certeza de que, ainda que saibamos que na vida podemos estar no lugar certo e na hora certa, a fé é fundamental no viver cristão em meio às turbulências e incertezas.

O senhor tem um último conselho para os nossos leitores?

Cada um pode combinar emoção com reflexão. Nossas impressões da experiência estética enriquecem os compassos da vida. O arquiteto holandês Aldo van Eyck comentou: “A arquitetura não pode fazer mais e não deve fazer menos do que ajudar alguém a voltar ao lar”.

Norene e eu aprendemos a conhecer e apreciar uma vida mais significativa. Se isso é verdade para o mundo secular, é muito mais importante para a verdade espiritual. A vida com o Espírito Santo, no sentido mais amplo e na especificidade da escatologia, não pode fazer mais e não deve fazer menos do que auxiliar-nos no caminho de volta ao nosso verdadeiro lar.

Delyse Steyn (D. Ed., Universidade da África do Sul) é professora e coordenadora do Departamento de Comunicação da Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan.

O endereço de Neville Clouten é: 8695 Maplewood Drive, Berrien Springs, Michigan 49103, USA. 269-471-4163. E-mail: nclouten@yahoo.com. Algumas de suas aquarelas podem ser vistas no site http://www.nevilleclouten.com.