Como temer a Deus sem ter medo

“Temei a Deus e dai-Lhe glória.” (Apocalipse 14:7 ).1

Quando Deus nos criou, Ele também implantou em nossa vida um sistema de alarme para nos proteger do perigo e da dor. Um dos principais sensores desse alarme é a emoção do medo, que serve como luz de advertência similar à do painel de um automóvel. Mas um inimigo sabotou esse sistema, para que muitos sejam incapazes de distinguir entre “bons medos” (medos saudáveis) de “maus medos”(medos doentios). Quando nosso sistema de alarme soa ininter- ruptamente, perdemos a capacidade de descartar os falsos alarmes. Satanás tira completa vantagem dessa disfunção, aprisionando-nos com distorções do senso de realidade, mediante muitos falsos temores que insere em nossa vida: ansiedade, nervosismo, maus presságios, preocupação, desânimo, assombro, temor, pânico e terror. Não é de estranhar que na Bíblia mais de 300 passagens nos roguem para não temer. Mas como podemos entender as ordens bíblicas de “temer a Deus” e de “não temer”? Eis aqui estão algumas perspectivas que podem solucionar esse paradoxo.

O temor a Deus é um bom temor

Considere estes textos escriturísticos:

Considere também os seguintes textos:

Convivendo com um paradoxo

Você gostaria de conviver com um paradoxo, no qual duas declarações aparente e mutuamente excludentes ainda são verdadeiras? Mike Yaconelli, fundador do ministério cristão Youth Specialties, entendeu algo sobre tal paradoxo quando escreveu o seguinte sobre os dois lados do medo:

“A tragédia da fé moderna é que já não somos capazes de ficar aterrados. Não tememos a Deus, não tememos a Jesus, não tememos ao Espírito Santo. Como resultado, acabamos com um evangelho ameno voltado para atrair milhares..., mas que não transforma a ninguém... Gostaria de sugerir que a igreja se tornasse novamente um lugar de terror; um lugar onde Deus continuamente nos dissesse: ‘Não temas’; um lugar onde nosso relacionamento com Ele não fosse uma simples crença doutrinária ou teológica, mas a consumidora presença divina em nossa vida. Estou sugerindo que o domesticado deus da relevância seja substituído pelo Deus cuja presença desfaça nosso ego em poeira, consuma nossos pecados em cinzas e nos desnude completamente, para revelar a verdadeira pessoa interior... A igreja precisa tornar-se um lugar gloriosamente perigoso, onde nada esteja seguro na presença divina, exceto nós. Nada – incluindo nossos planos, compromissos, prioridades, política, dinheiro, segurança, conforto, possessões ou necessidades... Nosso mundo está ansioso por ver pessoas cujo Deus seja grande, santo, atemorizante, gentil e protetor como o nosso; um Deus cujo amor nos amedronte e atraia a Seus fortes e poderosos braços, onde deseja sussurrar aquelas assustadoras palavras: ‘Eu te amo.’”2

O temor a Deus é parte integrante de Sua graça. John Newton, autor da música “Graça Excelsa” (H.A. 208), captou essa realidade quando escreveu: “A graça libertou-me assim e meu temor levou.”

O “temor de Deus” protege-nos do medo doentio

Ficar apreensivo após haver testemunhado um terrível acidente automobilístico é certamente uma reação esperada. Mas não é desígnio do Criador que vivamos em estado constante de preocupação e medo, como nossa reação primária contra o perigo. Mediante a graça, Deus quer reparar nosso alarme interno, de forma que, conforme as palavras de Oswald Chambers, saibamos que quando “tememos a Deus, não tememos a mais nada e, ao mesmo tempo, se não temermos ao Senhor, temeremos tudo o mais.”3

Viver sob a cobertura da graça de Deus torna-nos possível discernir todos os alarmes falsos. Um deles é o temor acerca dos eventos finais, o tempo de tribulação (Marcos 13:19; Lucas 21:25). Se até este ponto você acreditava, talvez sem intenção, que o medo do tempo vindouro de provação fosse uma de suas armas essenciais contra os enganos dos últimos dias, então Satanás realmente o enganou. Se temermos algo ou alguém que não a Deus, fomos ludibriados. Deus é o único no Universo digno de temor.

O medo doentio acorrenta-nos, prende-nos, trava-nos e nos priva de seguirmos adiante, de crescermos e nos tornarmos o que Deus quer que sejamos. Quantas perdas causadas pelo medo ocorrem em nossa vida! Sem dúvida, pessoas duvidosas e temerosas são as mais propensas ao engano do que as pessoas que confiam, pois seu medo as controla.

Satanás usa medos doentios para perturbar a fé em Deus

Satanás está continuamente buscando oportunidades de tirar vantagem dos medos que sentimos. Em cada temor ele está tentando desviar nossos olhos do Pai Celestial, sugerindo que Ele não é suficientemente bom, capaz ou poderoso para lidar com nossas situações específicas. Então sugere que tomemos os problemas em nossas próprias mãos porque, a despeito de tudo, não podemos confiar em Deus, já que Ele não está fazendo um bom trabalho.

Quando não tememos a Deus, temos medo de tudo o mais. Entregando-nos a tais temores:

John Ortberg descreve o medo doentio: “O medo sussurra aos nossos ouvidos que Deus não é grande o suficiente para cuidar de nós. Diz-nos que não estamos realmente seguros em Suas mãos. Faz-nos distorcer a forma como pensamos a Seu respeito... O medo criou mais hereges praticantes do que a má teologia, porque nos faz viver como se servíssemos a um Deus limitado, finito, parcialmente presente e semicompetente.”4

Quando nossos temores se tornam muito grandes para Deus lidar com eles, estabelecemos o fundamento para a idolatria, fazendo com que falsos deuses resolvam nossos problemas e inadequações, ao invés de retornarmos a Deus. Portanto, o saudável temor a Deus, como resposta ao Seu evangelho eterno, é um dos antídotos essenciais contra todos os enganos produzidos pelo inimigo nos últimos tempos.

O temor a Deus capacita-nos a um relacionamento íntimo, bem achegado, com nosso Criador. Ao louvá-Lo e adorá-Lo, descobriremos que Ele quer remover todos os nossos fardos, acalmar todos os nossos temores e dar-nos paz e descanso sem fim. “Porém eu, pela riqueza da Tua misericórdia, entrarei na Tua casa e me prostrarei diante do Teu santo templo, no Teu temor.” (Salmos 5:7).

Assim, da próxima vez que você temer, lembre-se do que disse o salmista: “Em me vindo o temor, hei de confiar em Ti... Em Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Que me pode fazer o homem?” (Salmos 56:3, 11).

Ervin K. Thomsen (D.Min. pela Universidade Andrews) é autor de diversos artigos. Ele dirige atualmente o Healing Stream Ministries, http://www.streamofhealing.org.

REFERÊNCIAS

  1. Todas as referências bíblicas são da Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida, 2a Edição.
  2. 2. Mike Yaconelli, http://www.youthspecialties.com/articles/Yaconelli/fear.php.

    3. Oswald Chambers, Run This Race: The Complete Works of Oswald Chambers (Grand Rapids, Michigan: Discovery House Publishers, 2000). Devocional de 23 de agosto.

    4. John Ortberg, If You Want to Walk on Water, You’ve Got to Get Out of the Boat (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publ. House, 2001), p. 43.