Quão confiável é a profecia bíblica? O exemplo de Daniel

A profecia é de suma importância para a fé e a crença adventistas. O movimento adventista foi estabelecido sobre a base da profecia bíblica, com a convicção de que a história chegará ao seu clímax na segunda vinda de Cristo. Conduzindo àquela gloriosa culminação está a marcha da história, a qual chegará ao fim quando Deus destruir o pecado e Satanás para sempre e abrir as portas da eternidade para os redimidos de todas as eras. A interpretação adventista dos eventos dos últimos dias está amplamente baseada nas profecias de Daniel e Apocalipse, além de outras declarações proféticas da Bíblia. Muitos não-cristãos e cristãos, porém, têm questionado a autenticidade da profecia bíblica e se inclinado a rejeitar a interpretação adventista, considerando-a mera especulação.

Tal acusação não pode ser deixada sem resposta. Exige um sério exame teológico e histórico da profecia bíblica, para ver se é ou não confiável. Não há meio termo. Um rápido estudo de Daniel mostra que seu conteúdo consiste em profecia historicamente confiável e teologicamente repleta de significado. Este artigo vai mostrar por quê.

O livro de Daniel se divide em duas partes. A primeira metade contém alguns capítulos da história neobabilônica, especialmente aqueles que envolvem Daniel e seus três companheiros (caps. 1-6). A segunda metade do livro apresenta algumas profecias altamente simbólicas e de longo alcance; são chamadas de profecias apocalípticas (caps. 7-12). A primeira parte do livro também tem profecias, mas, à exceção do sonho de Nabucodonosor no capítulo 2, envolvem principalmente pessoas, lugares e eventos locais. As profecias relacionadas com Nabucodonosor no capítulo 4 e com Belsazar no capítulo 5 são mais do tipo da profecia “clássica” encontrada, por exemplo, em Isaías e Jeremias.

O esquema cronológico da profecia no livro que estamos considerando provê uma oportunidade para relacionar essas predições com seus respectivos cumprimentos a partir de um ponto próximo ao tempo do próprio Daniel, passando por um período intermediário depois de sua vida, até um período bem mais distante, séculos após a vida do profeta.

Profecia de um futuro próximo: a queda de Belsazar

O capítulo 5 de Daniel narra o que aconteceu no palácio da Babilônia na noite em que a cidade caiu diante dos medos e persas. O rei, identificado como Belsazar, convidou seus oficiais e a nobreza babilônica para um grande banquete. Deve ter pensado que os persas que cercavam a Babilônia não tinham qualquer chance de conquistar a cidade por causa de suas extraordinárias fortificações.

Durante a festa, uma escrita sobrenatural surgiu na parede do salão do palácio onde ocorria o banquete. As quatro palavras escritas foram misteriosas o bastante a ponto de nenhum dos sábios da corte poder interpretá-las. Daniel, que foi lembrado de um episódio anterior envolvendo interpretação, foi chamado. Ele foi capaz de ler a escrita e dizer ao rei o significado: Belsazar havia sido pesado na balança do julgamento divino e achado em falta. Seu reino estava para lhe ser tirado e entregue aos medos e persas.

Essa profecia se cumpriu quando as forças invasoras entraram na cidade naquela mesma noite depois de terem desviado o curso do rio Eufrates. Babilônia foi conquistada sem qualquer batalha. Belsazar foi morto e seu reino passou para as mãos dos medos e persas.

A princípio, alguém poderia pensar ser impossível, por meio de fontes históricas, comprovar o cumprimento dessa profecia. Embora seja verdade que é muito difícil demonstrar que a profecia foi dada na mesma noite em que foi cumprida, há métodos indiretos mediante os quais podemos avaliar a questão.

Por algum tempo, a existência de Belsazar era desconhecida. Seu pai Nabonido aparecia como o último rei do período neo-babilônico. A partir de 1861, o nome de Belsazar como príncipe coroado começou a aparecer em tabletes cuneiformes que estavam sendo traduzidos. Essas referências continuaram a se acumular até que um tablete conhecido como “O Relato em Versos de Nabonido” foi publicado em 1929. Esse importante tablete indicou que Nabonido “confiou seu reino” a Belsazar quando ele se retirou para Tema, na Arábia, por um período prolongado. Assim, veio à luz a evidência de Belsazar como uma espécie de co-rei, ou príncipe co-regente.

O episódio de Daniel 5 é específico. Ele indica que quando Daniel foi à sala do trono para ler a escrita na parede, o rei que lá estava era Belsazar, não Nabonido. Era de se esperar que Nabonido estivesse oferecendo o banquete, mas ele não é sequer mencionado no relato. A implicação direta é que Nabonido não estava no palácio naquela noite. Se não estava no palácio, onde estava?

Um texto babilônico conhecido como “As Crônicas de Nabonido” nos diz que Babilônia foi tomada sem luta no dia 16 de Tishri do 17º ano, o último do reinado de Nabonido. Isso corresponde a 12 de outubro de 539 a.C. À época, diz o texto, Nabonido estava fora com uma divisão do exército babilônico lutando contra Ciro e os persas nas proximidades de Opis, uma cidade junto ao rio Tigre. Assim, era impossível que ele estivesse em Babilônia na noite em que ela caiu.

Esse seria um ponto em que Daniel muito facilmente poderia ter cometido um erro, colocando Nabonido no salão do banquete naquela noite, mas o profeta sabia qual rei estava lá – Belsazar, o príncipe co-regente – bem como sabia qual rei não estava lá – Nabonido, o rei-pai, que estava no campo de batalha com o exército babilônico.

Como poderia o escritor desse capítulo ter tido um conhecimento tão acurado de quem estava ou não na cidade naquela noite? A resposta é óbvia: ele estava no palácio no momento em que o episódio aconteceu. Se o seu conhecimento desse fato central era tão preciso, então acredito que podemos confiar no seu relato quanto à profecia do que haveria de acontecer naquela mesma noite.

Profecia de um período intermediário: o surgimento de Alexandre

A profecia em Daniel 8 começa com o relato daquilo que o reino medo-persa, simbolizado por um carneiro irado, haveria de fazer. O carneiro é identificado como sendo a Medo-Pérsia (Daniel 8:20). Ele é seguido simbolicamente por um bode, representando a Grécia (Daniel 8:2-8, 21). Esse bode começa com um grande chifre, à semelhança de um unicórnio. Esse chifre representa seu primeiro rei ao este iniciar a guerra contra o carneiro persa.

Historicamente, sabemos que esse “chifre” foi Alexandre, o Grande, que reuniu seu exército e invadiu o Oriente Próximo, derrotando os persas e conquistando todo o território numa campanha relâmpago que durou apenas três anos.

Críticos do livro têm argumentado que isso não foi uma profecia, mas apenas uma descrição histórica escrita mais tarde como se fosse uma profecia. Há, porém, uma interessante história nos escritos de Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, que indica que essa profecia já era conhecida no quarto século a.C., portanto bem antes do tempo no qual os críticos dizem que foi escrita (segundo século a.C.).

A história é a respeito da campanha de Alexandre na costa da Síria e Palestina. A caminho do Egito, ele decidiu sair da rota principal e subir para Jerusalém. Ao chegar lá, um dos sacerdotes tomou o rolo de Daniel e lhe mostrou onde ele se situava na profecia, como o grego que haveria de derrotar o império dos persas. Impressionado por essa referência profética a respeito de si mesmo, Alexandre perguntou aos líderes judeus o que poderia fazer por eles. Pediram-lhe que aliviasse os impostos durante os anos sabáticos, quando os campos eram deixados sem cultivo e nenhuma colheita era possível. Alexandre teria dito que atenderia ao pedido. O relato de Josefo é o seguinte:

“E quando o livro de Daniel lhe foi mostrado, onde Daniel declarou que um dos gregos haveria de destruir o império dos persas, ele supôs que ele mesmo era a pessoa indicada; e, lisonjeado, despediu a multidão. Mas, no dia seguinte, convocou-a e perguntou-lhe que favores gostariam de receber dele. O sumo sacerdote pediu que lhes fosse permitido continuar seguindo as leis de seus antepassados e recebessem isenção dos tributos no sétimo ano. Ele fez como desejavam e quando lhe pediram que permitisse aos judeus da Babilônia e Média a também seguirem suas leis, ele imediatamente prometeu que assim o faria daquele momento em diante.”1

Se essa história de Josefo é verídica, então a profecia de Daniel 8, incluindo o detalhe do grande chifre da Grécia que representava Alexandre, já existia no quarto século a.C. Isso não apenas consistiria em evidência de uma data anterior para a composição de Daniel, mas também mostraria que um dos elementos da profecia teve seu cumprimento e foi reconhecido como tal quando aconteceu.

Desnecessário dizer, mais uma vez os críticos da natureza profética de Daniel rejeitam esse relato, tendo-o como não-histórico. Mas, há alguma evidência, no próprio relato, que testifica da natureza histórica do encontro de Alexandre com os sacerdotes em Jerusalém. Essa evidência vem da referência ao ano sabático nesse contexto.

Cerca de uma dúzia de referências a anos sabáticos tem sido encontrada em fontes extra-bíblicas. Tais textos e inscrições mencionam o equivalente a esses anos sabáticos em termos de outros calendários. Assim, uma tabela de anos sabáticos pode ser feita. O encontro com Alexandre ocorreu em 331 a.C. De acordo com a tabela dos anos sabáticos, o próprio ano 331 foi um ano sabático. O fato de a Judéia haver sido tomada pelo rei macedônio fez com que os líderes judeus se deparassem com o problema de ter que lhe pagar impostos. Eles não poderiam fazê-lo, pois naquele ano não teriam qualquer colheita. Assim, o pedido era necessário e urgente.

Esse pequeno detalhe, o pedido baseado no ano sabático, fornece evidência de que o episódio realmente aconteceu e que a transição histórica, que teve lugar naquele momento, fora, de fato, profetizada por Daniel antes que se cumprisse.2

Uma profecia de longo alcance: o surgimento e a queda de Roma

Daniel capítulos 2 e 7 contém profecias paralelas sobre quatro impérios mediterrâneos e asiáticos. Daniel 2 fornece o relato de eventos presenciados pelo rei Nabucodonosor durante um sonho e que os sábios da Babilônia não puderam descrever ou interpretar. Daniel, porém, foi capaz de descrever com sucesso tanto o sonho como sua interpretação. Usando os símbolos dos quatro metais que formavam a impressionante estátua de Daniel 2, Daniel descreveu a sucessão desses quatro grandes impérios: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma.

Há aqueles que não gostam dessa evidência bem direta da presciência divina na profecia e que têm argumentado contra essa visão. Dizem que o autor de Daniel não viveu no sexto século a.C. quando a profecia foi dada. Na opinião deles, ele viveu no segundo século a.C. e usou o nome de Daniel para escrever sobre eventos que já haviam acontecido. Assim, dizem esses críticos, Daniel consiste, na verdade, em história escrita como se fosse profecia.

O argumento, porém, pode ser avaliado para ver se condiz com a evidência. Se o autor de Daniel estivesse escrevendo no segundo século a.C. e fosse um historiador, não um verdadeiro profeta, que tipos de predições teria ele feito? Duas são as possibilidades. Primeira, poderia ter dito que o quarto reino, Roma, o qual era mais forte que todos os reinos anteriores, permaneceria para sempre. Essa era provavelmente a visão mais comum do futuro no segundo século a.C., época em que Roma começava a mostrar seu poderio. (Essa era a visão de Josefo, quando analisou essa seção do livro de Daniel. Ele não mencionou as divisões de Roma ou o reino, simbolizado pela pedra, que viria em seguida.) A outra possibilidade seria o escritor pensar que como houve quatro grandes reinos mundiais, poderia haver um quinto, um sexto, um sétimo e assim por diante. Em outras palavras, a seqüência poderia simplesmente prosseguir. Depois de Roma, outro grande poder mundial deveria vir, e então outro, e outro.

Essas, então, teriam sido as duas principais alternativas para um historiador escrevendo no segundo século a.C. que não fundamentasse suas informações na presciência divina: ou Roma permaneceria para sempre ou outros grandes poderes mundiais viriam em seguida.

O escritor de Daniel, porém, não seguiu nenhuma dessas duas alternativas lógicas. Rejeitando a idéia de que haveria futuros poderes mundiais, disse que o quarto poder seria quebrado em pedaços e que esses pedaços continuariam e guerreariam entre si até que Deus estabelecesse o Seu reino. Ele também rejeitou a idéia de que Roma permaneceria para sempre – esse quarto reino seria quebrado em pedaços. Na verdade, foi isso exatamente o que aconteceu com as invasões bárbaras de Roma no quinto e sexto séculos d.C.

Como foi que o autor de Daniel ficou sabendo com vários séculos de antecedência que Roma seria dividida em partes, que não permaneceria para sempre nem seria sucedida por outro grande reino mundial? Como foi que escolheu a alternativa menos provável, da perspectiva da lógica humana comum, para o futuro? O ponto é que ele não se baseou na lógica humana comum; se baseou no conhecimento que Deus lhe deu.

Conclusão

Há muitas profecias na Bíblia que seus escritores dizem que se cumpriram, mas os registros desses cumprimentos se encontram apenas na Bíblia. Em tais casos, não há nenhuma evidência externa que confirme o cumprimento. Muitas profecias bíblicas, porém, dispõem de suficiente evidência externa indicando seu cumprimento, como demonstram os exemplos acima mencionados.

As profecias bíblicas trabalham em vários níveis. Algumas foram endereçadas a pessoas, outras a cidades ou províncias, ao passo que outras a reinos ou nações. O mesmo é verdade no que diz respeito ao alcance do tempo. Algumas profecias estavam relacionadas com circunstâncias imediatas, outras com eventos num futuro relativamente próximo, enquanto que outras podem ser classificadas como predições de longo alcance, cobrindo vários séculos. Os exemplos descritos neste artigo abrangem essas três possibilidades.

O ponto em comum em todos esses exemplos é que existe evidência externa que demonstra a exatidão das predições. Isso provê evidência de que as profecias foram escritas com base em algo mais do que meras conjecturas humanas baseadas em fatos ou informações disponíveis. Elas testificam do Deus que deu as informações privilegiadas aos Seus servos, os profetas. Esta é mais uma boa razão para se crer que o Deus da Bíblia realmente existe.3

William H. Shea (M.D., Universidade Loma Linda; Ph.D., Universidade de Michigan) atuou como médico-missionário, professor de Teologia e diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Este artigo é baseado num estudo mais extenso publicado em The Big Argument: Does God Exist?, editado por John Ashton e Michael Westacott (Master Books, 2005). Seu e-mail: shea56080@aol.com

REFERÊNCIAS

  1. Flávio Josefo. Antiquities of the Jews. Livro 11, capítulo 8, parágrafos 337, 338. Veja também: Flávio Josefo. História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. p. 274.
  2. Tabelas dos anos sabáticos judaicos podem ser encontradas em B. Z. Wacholder. “The Calendar of Sabbatical Cycles During the Second Temple and the Early Rabbinic Period.” In: Hebrew Union College Annual. 1973. pp. 153-196.
  3. Para textos referentes a Belsazar e uma síntese deles, veja: R. P. Dougherty. Nabonidus and Belshazzar. New Haven, Connecticut: Yale University Press, 1929.
  4. Para uma coleção bastante útil de textos cuneiformes, especialmente fontes babilônicas relacionadas com os assuntos do presente artigo, veja: J. B. Pritchard (ed.). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 1955.

    Para uma cuidadosa análise da história babilônica, veja: H. W. F. Saggs. The Greatness That Was Babylon. New York: Hawthorn Books, 1962.

    Para a história da interpretação dos quatro reinos mundiais nas profecias de Daniel através dos tempos e a presença de Alexandre, o Grande, em Daniel 8, veja: L. E. Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers. Vols. I-IV. Washington, D.C.: Review and Herald Publ. Assn., 1950-1954.