Vinte anos após o Relojoeiro Cego

Há vinte anos, O Relojoeiro Cego entrou em cena e foi assegurado aos seus leitores que a fé em um Deus Criador tinha sofrido um golpe mortal. O autor, Richard Dawkins, dispôs-se a “persuadir o leitor não somente que a cosmovisão darwinista acontece e é verdadeira, mas que ela é a única teoria conhecida que poderia, em princípio, resolver o mistério de nossa existência”.1 O crescimento do movimento do Design Inteligente nos últimos 20 anos pode ser visto como a medida do sucesso de Dawkins.

A estratégia derrotada de Dawkins

O título do livro é uma referência ao “argumento de projeto” elaborado no início do século 19 pelo clérigo inglês William Paley, que havia observado que o propósito evidente na construção de um relógio significa logicamente que “o relógio deve ter tido um relojoeiro”.2 Paley argumentou então que um propósito semelhante é evidente em organismos; portanto é lógico inferir a existência de um Criador dos seres vivos. Contrapondo-se à observação racional de Paley, Dawkins adotou uma estratégia derrotada desde o princípio. Em vez de apresentar argumentos logicamente coerentes a favor do Darwinismo, ao contrário, escolheu “tornar-se um advogado e usar os artifícios da advocacia”.3 Presumivelmente Dawkins está usando o termo “advogado” no sentido inglês da palavra, com o significado de advogado de defesa. Sua admirável honestidade ao admitir isso no prefácio de seu livro torna fácil entender porque seus argumentos parecem destinados mais a confundir o leitor do que realmente a justificar o Darwinismo. Em resumo, Dawkins escreve como um advogado que claramente defende um cliente culpado.

A incursão amadorística de Dawkins na arte da advocacia foi plenamente arrasada por verdadeiros advogados, como particularmente Phillip Johnson, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O livro de Johnson Darwin on Trial,4 publicado poucos anos após O Relojoeiro Cego, mostra o que um advogado preparado pode fazer com argumentos logicamente incoerentes. Entretanto, isso não deve ser visto como significando que Dawkins não seja uma pessoa brilhante ou que a leitura de O Relojoeiro Cego seja monótona e enfadonha. Exatamente o contrário é verdade. A prosa de Dawkins é estimulante. Sua admiração pelos maravilhosos sistemas naturais como o sonar usado pelos morcegos é contagiante, embora a sua insistência na idéia de que eles não exigem um projetista faz com que pareça que ele está tentando convencer a si mesmo em face de esmagadoras evidências contrárias. Dawkins provê um exemplo perfeito de como se tornar brilhante, introduzindo vida em um argumento que já é um cadáver.

Desfigurar o Darwinismo para salvá-lo

Em seu entusiasmo para convencer o leitor, Dawkins comete qualquer pecado. Provavelmente o mais sério e irônico deles é a violência que ele comete contra o próprio Darwinismo. Atuando como sumo sacerdote ungido por si mesmo, utiliza um exemplo após outro que nada tem a ver com o Darwinismo. Desde a replicação de cristais de argila até simulações múltiplas em computador, as doutrinas centrais do Darwinismo são esbofeteadas, espancadas e postas para fora do ringue. Meu exemplar original de O Relojoeiro Cego – a edição em brochura publicada em 1988 – veio com um disquete contendo um programa destinado a convencer o leitor mediante uma simulação da evolução. Esse programa Apple Macintosh – intitulado imaginativamente “o relojoeiro cego”, como o livro – permitia uma pessoa colocar-se no lugar da própria “Mãe Natureza”, selecionando vários “biomorfos” “mutantes”, até se obter um resultado desejado.

Se Darwin estivesse vivo, seguramente se desgostaria diante de uma representação tão embaraçosamente imprecisa de sua teoria. Supõe-se que a seleção natural não tenha um objetivo, uma teleologia; é por isso que Dawkins a chamou de “relojoeiro cego”. Entretanto, o processo evolutivo executado pelo programa “o relojoeiro cego” ocorre em resposta à direção inteligente de uma pessoa com um objetivo específico em vista. Sim, a evolução ocorre, mas dificilmente é a evolução darwinista. De qualquer maneira, mesmo um simples programa como esse requer todo o trabalho e inteligência para a criação de um computador como o Apple Macintosh, bem como para elaborar o programa, sem mencionar ainda a pessoa necessária para colocá-lo em funcionamento. Dawkins é explícito quanto à natureza do surgimento de coisas simples que atuam em conformidade com as leis da Física, e não de criações complexas tais como computadores, softwares e seres humanos.5

Possivelmente, a mais famosa ilustração do mecanismo darwinista feita por Dawkins envolve uma frase da obra Hamlet, de Shakespeare. Especulando sobre o formato de uma nuvem, Hamlet diz: “Methinks it is like a weasel” [“Parece-me ser igual a uma doninha”].6 Aqui Dawkins usa ainda outra simulação computacional para mostrar que é possível a evolução da frase em poucas combinações se as letras corretas forem fixadas enquanto as incorretas continuarem a mudar aleatoriamente até que, por acaso, sejam substituídas por outras corretas. Por exemplo, se a segunda letra, que deveria ser “e”, fosse “p” em uma seqüência aleatória inicial de letras, ela poderia “mudar” para outra letra do alfabeto, mas, se por acaso se tornasse “e”, a seleção não permitiria mais alterações. O pecado neste exemplo é duplo. Primeiro, desfigura o Darwinismo, pois está sendo exigido um objetivo – a frase. O Darwinismo proíbe especificamente este tipo de teleologia, porque alega que os seres vivos resultaram de causas “naturais”, e não de um plano inteligente de um planejador que tivesse um objetivo em mente.

Desfigurar a natureza para apoiar o Darwinismo

O segundo pecado nesse exemplo é a desfiguração da própria natureza. As máquinas protéicas, que podem bem ser representadas por uma seqüência de letras como “Methinks it is like a weasel”, operam dentro de tolerâncias como quaisquer outras máquinas ou seus componentes. Uma seqüência aleatória de aminoácidos não tem nada semelhante, da mesma forma como um amontoado de ferro velho nada tem das funções de um pistão ou de um virabrequim. Se as partes não forem construídas dentro de certas especificações, jamais funcionarão. Embora as tolerâncias possam variar de uma a outra proteína, ainda existem limites para o quanto elas podem variar, sem os quais cada proteína poderia fazer de tudo. As proteínas devem exercer alguma função mínima antes de poderem ser selecionadas, da mesma forma que uma seqüência de letras deve possuir uma ordem mínima antes que se possa discernir algum significado. Dawkins ludibria por não exigir que sua seqüência inicial, de alguma maneira mínima, se torne como “Methinks it is like a weasel” antes de começar a fazer seleção a seu favor.

Como destaca Dawkins, “Se o progresso evolutivo tivesse de repousar sobre a seleção passo a passo, ele jamais teria levado a qualquer lugar”.7 Não obstante, é esse precisamente o fundamento da evolução darwinista para obter alguma proteína minimamente funcional antes da seleção cumulativa poder iniciar-se. Em sua defesa, Dawkins compreende o problema existente em sua ilustração, e com honestidade, embora sucintamente, destaca que, apesar de seu “modelo ser útil para explicar a diferença entre seleção passo a passo e seleção cumulativa, é enganoso em vários aspectos”. Essa norma de utilização de numerosas páginas excitando o leitor com algum argumento “enganoso” seguido de uma breve aquiescência imuniza Dawkins contra acusações, sejam de ignorância, sejam de fraude, porém deixa os leitores sem saber exatamente quando um argumento real está sendo oferecido a favor do Darwinismo.

Ocasionalmente, Dawkins realmente parece atentar para esse fato. Por exemplo, ele aborda a evolução do olho talvez não tanto como evidência a favor da evolução, mas como um meio de mostrar como o Darwinismo pode tratar de um órgão que tem sido apontado como evidência a favor do design na natureza.8 Porém, novamente aqui, sua argumentação é mais um comentário do que algo com coerência lógica. Seus interessantes experimentos ideais parecem depender da hipótese de que “5% de visão é melhor do que nenhuma visão”.9 Entretanto, em primeiro lugar, 5% de visão exigem quase 100% de todo o mecanismo necessário para a visão. Deve existir uma espécie de retina, um mecanismo para a formação da imagem, ou pelo menos para permitir a luz atingir a retina, um modo de conduzir o sinal para o cérebro, uma parte do cérebro capaz de reconhecer o sinal, etc.

Algumas pessoas de minha família sofrem de retinitis pigmentosa, doença hereditária que envolve a degeneração da retina, com significativa redução da visão. Mesmo essa visão defeituosa requer 100% do olho, nervo ótico, e a parte do cérebro relacionada com a visão. Dawkins luta para explicar a evolução gradual da visão, embora pareça ignorar a realidade biológica do seu funcionamento. Finalmente, sua argumentação retrocede para algo semelhante ao uso feito por Darwin de exemplos de diferentes espécies de olhos, algumas das quais são morfologicamente mais simples do que os olhos tipo câmara fotográfica dos mamíferos, embora ignorando os notáveis sistemas bioquímicos e fisiológicos necessários para os olhos de qualquer espécie poderem funcionar.10

Triunfantes alegações de vitória

Ironicamente, no mesmo capítulo Dawkins deixa de mostrar como os olhos poderiam realmente evoluir mediante as “sucessivas modificações ligeiras” de Darwin. Então exclama corajosamente: “Cento e vinte e cinco anos depois, sabemos muito mais do que Darwin sobre os animais e as plantas, e não conheço sequer um só caso de um órgão complexo que não poderia ter-se formado por numerosas e pequenas modificações sucessivas.”11 Em certo sentido, esta é uma alegação com a qual qualquer um pode concordar. Não conheço também sequer um avião que, a princípio, não poderia ter-se formado por numerosas pequenas modificações, porém não conheço nenhum avião que pudesse ter conseguido isso através do mecanismo darwinista para manter a capacidade de voar, e muito menos para torná-la cada vez melhor a cada passo. Não é que não se possam estabelecer cenários imaginários para a criação gradual de qualquer coisa, mas a tarefa torna-se muito mais desafiadora quando cada modificação deve tanto ser pequena como deve fazer com que o organismo produza maior descendência.

Após O Relojoeiro Cego

Desde meados de 1980, quando foi lançado O Relojoeiro Cego, houve muitas mudanças em nossa compreensão sobre onde se localiza a verdadeira complexidade dos seres vivos. O bioquímico Michael Behe, em seu livro A Caixa Preta de Darwin,12 enfrenta especificamente o desafio de Darwin provendo múltiplos exemplos de máquinas moleculares que parecem violar a exigência darwinista de numerosas pequenas modificações necessárias para a seleção natural.

Minha própria experiência na primeira leitura de O Relojoeiro Cego para um curso de pós-graduação sobre biologia evolutiva foi a imediata surpresa quanto à fragilidade dos argumentos.13 O efeito não intencional foi o surgimento de dúvidas sobre o Darwinismo e início de meu interesse sobre o design na natureza. Encontrei muitas outras pessoas que passaram por experiência semelhante. A leitura de O Relojoeiro Cego provavelmente constituiria um bom exercício para que todos, com capacidade lógica e o conhecimento necessário, pudessem ver o vazio da sua apologética darwinista.

Dawkins apela até para alguns “fatos” que mudaram nos últimos vinte anos. Por exemplo, o trombeteamento que ele faz do DNA-lixo, como bagagem evolutiva residual, caiu por terra com a descoberta de funções para muitas classes de DNA não codificadores, bem como com a perspectiva de novas descobertas.14 Além disso, parece que cada nova máquina molecular descoberta faz, cada vez mais, com que os seres vivos pareçam ter sido projetados.

Em última análise, Dawkins deixa de cumprir sua extravagante promessa do primeiro capítulo, de mostrar que, embora “a biologia seja o estudo de coisas complicadas que têm a aparência de terem sido projetadas com um propósito”,15 “a seleção natural, processo cego, inconsciente e automático que Darwin descobriu, e que hoje conhecemos, é a explicação para a existência e aparente propósito de toda forma de vida, sem qualquer propósito em mente”.16 Finalizando, ele recorre ao ataque às idéias de outros, desde o equilíbrio pontuado de Stephen J. Gould e Niles Eldridge até a teologia dos crentes – quem quer que questione os pontos de vista de Dawkins sobre o Darwinismo recebe dele o mesmo tratamento.

Mesmo procedendo assim, Dawkins nada apresenta que não tenha sido tratado previamente, em particular os argumentos da imperfeição, como quando afirma com relação à localização dos olhos nos peixes hecterossomatas: “Nenhum projetista sensível teria concebido tal monstruosidade se lhe fosse proporcionada a oportunidade de criar esse peixe em uma prancheta.” Esse argumento pode contrariar um ponto de vista teológico específico sobre Deus, mas não o projeto em si. Essencialmente esse é um “argumento espantalho”, pois um mau projeto dificilmente é evidência da ausência de projeto, e o ponto de vista de Dawkins sobre o que constitui um mau projeto pode ou não corresponder a um mau projeto. Essencialmente, somente porque alguém pensa que Deus não teria feito algo de certa maneira, isso não constitui um argumento sobre Ele ter ou não feito, ou sobre Sua capacidade de fazê-lo.

Reciclando argumentos antigos

Outro “mantra evolucionista” contra o design, no O Relojoeiro Cego, é a regressão infinita, ou seja, o argumento sobre “Quem projetou o Projetista?”.17 “Se desejamos postular uma divindade capaz de arquitetar toda a complexidade organizada existente no universo, seja instantaneamente, seja mediante evolução dirigida, essa divindade deve ter sido enormemente complexa desde o início.” Este argumento ateísta “de prateleira” ou “argumento pronto” tem sido apresentado há muito tempo. A incoerência interna de tal argumento é notável; se é verdadeira a hipótese de que é necessário maior complexidade para criar menor complexidade – e provavelmente é – por que é lógico alegar que leis simples como mutações aleatórias e seleção natural devem ter criado complexidade? O Darwinismo alega ser esse o caso, e nega que a complexidade deva surgir a partir de alguma complexidade maior, de forma que esse argumento não está baseado em hipóteses aceitas como universalmente verdadeiras pelos darwinistas, mas é uma tentativa de usar uma hipótese de projeto contra o projeto.

Logicamente, deveria ser possível detectar o projeto, mesmo não havendo resposta para quem é o projetista.18 Por exemplo, quando as linhas de Nazca no Peru foram descobertas pelos ocidentais, imediatamente foram reconhecidas como projetadas, apesar de ser um mistério quem as projetou. No caso de projeto nos seres vivos, é bem reconhecida na teologia cristã a necessidade de uma causa última, não causada, já considerada por Aristóteles. É por isso que a visão cristã de Deus, compatível com as Escrituras, é que Ele é eterno. Como coloca o apóstolo Paulo, “Ao Rei eterno, o Deus único, imortal e invisível, sejam honra e glória para todo o sempre. Amém!” (I Timóteo 1:17 – NVI). Em última análise, a crença em um Projetista não criado é no mínimo tão lógica quanto à crença darwinista em um universo não criado.

De cientista a capelão do diabo

Desde a publicação de O Relojoeiro Cego, as contribuições de Dawkins têm sido fracas para um pesquisador com artigos publicados na literatura científica com revisão pelos pares.19 Por outro lado, ele mesmo se declarou “Capelão do Diabo”20 e a partir de sua posição como professor da cátedra Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência, na Universidade de Oxford, e Professor Fellow do New College, ele parece concentrar seus talentos muito mais na destruição da fé religiosa, do que em ajudar o público a compreender a ciência. Em seu último livro, The God’s Delusion,21 Dawkins continua seus ataques à religião em vez de fazer algo em ciência, realmente. Seus esforços podem ser aplaudidos por um coro entusiasta, porém os leitores mais preparados continuam a esperar que ele apresente um argumento realmente lógico baseado em dados empíricos a favor da verdade do Darwinismo. No entretempo, diariamente crescem as evidências a favor da inferência, proveniente dos seres vivos, quanto a uma causa inteligente, e o movimento do Design Inteligente continua a ganhar impulso.

Timothy G. Standish (Ph.D., Universidade George Mason) é cientista do Geoscience Research Institute. Seu endereço: 11060 Campus Street; Loma Linda, Califórnia, 92350; EUA.

REFERÊNCIAS

  1. Página x, ênfase no original. Observa-se que há uma afirmação praticamente idêntica no segundo parágrafo (p. 287) do capítulo final, capítulo 11, “Rivais condenados”.
  2. W. Paley. Natural Theology: or, Evidences of the Existence and Attributes of the Deity.12ª ed. Londres: J. Faulder, 1802. p. 3. Publicação eletrônica da “University of Michigan Humanities Text Initiative”, Ann Arbor, Michigan.
  3. Página x.
  4. P. E. Johnson. Darwin on Trial. Washington, D.C.: Regnery Gateway, 1991.
  5. Ver capítulo 1, “Explicar o muito improvável”.
  6. Isso é discutido no capítulo 3, “A acumulação de pequenas mudanças”. Dawkins está citando Shakespeare, Hamlet, Ato III, Cena II.
  7. P. 49.
  8. Ver capítulo 4, “A abertura de caminhos através do espaço animal”.
  9. P. 84.
  10. Para uma breve discussão dos problemas envolvidos, ver: http://www.arn.org/docs/behe/mb_mm92496.htm.
  11. P. 91.
  12. M. J. Behe. A Caixa Preta de Darwin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
  13. T. G. Standish. In Six Days: Why 50 Scientists Choose to Believe in Creation. John F. Ashton (ed.). Sydney: New Holland Publishers, 1999.
  14. T. G. Standish. “Rushing to Judgment: Functionality in Non-Coding or Junk DNA,” Origins 53, 2002. pp. 7-30.
  15. P.1.
  16. P.5.
  17. Ver capítulo 11, “Rivais condenados”.
  18. Muito tem sido escrito sobre isso. Para iniciar, segue um bom ensaio: http://www.idthefuture.com/2005/06/who_designed_the_designer_a_lengthier_re.html; e também ver: http://www.ideacenter.org/contentmgr/showdetails.php/id/1147.
  19. O currículo de Dawkins pode ser visto em: http://www.simonyi.ox.ac.uk/dawkins/CV.pdf.
  20. R. Dawkins. A Devil’s Chaplain. Londres: Weidenfeld & Nicholson, 2003.
  21. R. Dawkins. The God Delusion. Nova York: Houghton Mifflin, 2006.