Quando fé e razão estão em crise

Experiência e revelação são maneiras diferentes com que os cristãos obtêm conhecimento. A experiência leva ao conhecimento através da razão, mediante o processo de descoberta. Tendemos a aceitar a razão como verdadeira quando podemos confirmá-la por meio da experiência adicional. A revelação, por sua vez, provê conhecimento além da capacidade de descoberta, relativo a proposições além de nossa experiência. Nem sempre somos capazes de testar as proposições reveladas pela experiência. Em vez disso, a avaliação da revelação depende de nossa estimativa sobre a confiabilidade da fonte da revelação. Essa consideração é uma aplicação da razão, mostrando que ela é indispensável mesmo para receber a revelação. A aceitação da revelação como verdade está baseada na confiança no Revelador, uma condição chamada fé. O cristão entende tanto a razão como a revelação como dons de Deus.

Considerando que razão1 e revelação têm sua fonte primária em Deus, elas deveriam estar em completa harmonia. Mas parecem estar em conflito na tentativa de explicar o mundo ao redor. Este artigo discute alguns dos fatores envolvidos na controvérsia entre ciência e fé, e sugere maneiras pelas quais os cristãos podem lidar com isso.

Por que fé e ciência entram em choque?

Pelo menos dois fatores contribuem para o confronto potencial entre fé e ciência. Primeiro, a falta de informação. Se tivermos todo o conhecimento sobre a revelação bem como sobre a razão, poderemos ver onde está a verdade. Mas não fazemos isso e então ocorre o conflito. Além disso, aquilo que consideramos conhecimento pode ser falso. Cristãos sinceros freqüentemente discordam sobre o mesmo ponto da revelação, não porque ela é contraditória, mas por causa das diferentes interpretações. Igualmente, os cientistas discordam sobre como interpretar os dados, e a história das revoluções científicas nos lembra que o consenso não traz proteção contra futuras reinterpretações.2

Segundo, o orgulho humano. O orgulho pode manifestar-se de várias maneiras. Uma delas é o orgulho de nossa opinião. Uma vez tomada certa posição, é difícil admitir que estamos errados, especialmente se o processo for público. Tanto os cientistas quanto os estudantes da Bíblia podem achar difícil se retratar de suas convicções. O orgulho também pode tornar difícil aceitar a revelação. Preferimos aprender por nossos próprios esforços a ter alguém a nos dar a resposta e esperar que a aceitemos tal qual ela é dada. Isso é especialmente difícil se a relação entre aquele que revela e o receptor não for achegada. Outro problema do orgulho é que a revelação bíblica lhe é, freqüentemente, desagradável. As Escrituras mostram que os homens são facilmente enganáveis, propensos ao erro e incapazes de discernir a verdade sobre Deus. Se a descrição bíblica for verdadeira, os seres humanos podem ser, às vezes, perversos o bastante para rejeitar deliberadamente a revelação, a despeito da força da razão (Romanos 1:18-25).

Respostas para o conflito entre fé e ciência

Várias respostas têm sido propostas com relação ao aparente conflito entre fé e ciência.3

Negação do conflito. Alguns eruditos tentam negar qualquer conflito entre ciência e Bíblia. O que parece ser um conflito pode realmente ser verdadeiro em algum sentido ainda não compreendido (“complementaridade”). Por exemplo, a ciência e as Escrituras podem ser vistas como tratando de diferentes esferas (“dissociação”), e o conflito é resultado da má aplicação de uma ou de outra fonte de conhecimento, para questionar exteriormente sua legítima esfera. Uma variável desse argumento é a reivindicação dos Magistérios não-interferentes (MNI)4 proposta recentemente por Stephen Jay Gould. De acordo com Gould, a ciência trata do mundo material, enquanto a Bíblia lida com idéias espirituais como Deus, valores, moralidade etc. Se essa reivindicação for verdadeira, não deveríamos estar discutindo a temática. Tais pontos de vista são obviamente equivocados; ciência e Bíblia discutem claramente alguns dos mesmos temas, talvez o mais destacado seja a origem e a natureza dos seres humanos.

Conflito admitido, mas resolução negada. Outra abordagem é reconhecer o conflito entre ciência e fé, mas considerar inacessível o problema. Ciência e fé podem ser mantidas apartadas uma da outra, sem que se permita sua interação (“compartimentalização”). Ou uma pessoa pode reconhecer o conflito, mas adotar a atitude de que é impossível saber a verdade (“agnosticismo”). Como alternativa alguns preferem aceitar uma fonte e rejeitar outra (“mutilação”). Muitos cristãos rejeitam a ciência, tendo-a como “obra do diabo”, enquanto muitos secularistas rejeitam a Bíblia, considerando-a ficção. Tais pontos de vista podem produzir uma fuga do árduo trabalho de lidar com os temas, mas eles também evitam qualquer possível inovação e deixam o indivíduo num limbo intelectual.

Integração priorizada. Essa abordagem tenta integrar fé e ciência numa cosmovisão abrangente. Esse é um trabalho difícil, mas no fim se revelará o mais satisfatório. Ele exige que se identifiquem os pontos de conflito aparente, que se avaliem as evidências pertinentes tanto da ciência quanto das Escrituras, e se estime a provável verdade de cada proposta. Por exemplo, ao avaliar as contrastantes reivindicações da ciência e da Bíblia sobre a origem da humanidade, o estudante pode considerar se é mais plausível que os seres humanos tenham sido criados diretamente por meio da ação de um Ente divino, ou através de processos ordinários observados na natureza.

A integração priorizada é compatível com a razão e a revelação. É coerente com a razão porque a utiliza para examinar as evidências da ciência e também da Bíblia, e a aplica na avaliação da provável verdade de cada proposta. É coerente com a revelação porque os escritores da Bíblia se referem favoravelmente, apesar de às vezes com ressalvas, a ambas as fontes de conhecimento. Numerosos autores bíblicos recomendam a razão, a sabedoria ou conceitos semelhantes (Atos 18:4; Isaías 1:18; I Pedro 3:15; Provérbios 3:13-15; I João 4:1). A revelação também recebe destaque nas Escrituras (João 17:17; I Pedro 1:25; Deuteronômio 29:29; Amós 3:7).

Eles aceitam tanto a razão como a revelação como fontes de conhecimento sobre o mundo. Mas não atribuem igual confiança às duas fontes. A Palavra de Deus é considerada como absolutamente verdadeira e imperativa. A razão humana é facilmente iludida e precisa, por vezes, ser corrigida pela revelação divina (I Coríntios 1:19, 20; Romanos 1:21, 22; Eclesiastes 8:17; Isaías 40:25, 26). Alguns cristãos sustentam que uma vez que a revelação é mais confiável que a razão, esta pode ser ignorada em casos de conflito. Infelizmente a questão não é tão simples. Até mesmo a Bíblia pode ser mal-interpretada (II Pedro 3:16; Mateus 4:5, 6; João 5:39, 40). Os homens podem distorcer a revelação divina, assim é preciso haver cautela. A própria razão precisa ser aplicada na auto-avaliação, e isso pode ser uma fonte de dificuldade quanto se tenta resolver aparentes disparidades entre revelação e razão.

Podemos ter que suspender o julgamento em algumas situações, e em todos os casos temos de reconhecer a falibilidade de nossos próprios juízos e opiniões. Porém, isso não significa que devemos nos refugiar no agnosticismo. Podemos usar nossa razão para tomar a decisão de exercer a fé, enquanto reconhecemos que a fé é uma escolha não baseada na demonstração de nossa crença.

Quatro pontos de conflito sobre as origens

As visões bíblicas e científicas das origens diferem em muitos detalhes, mas a maioria delas provém de alguns temas principais. Estes incluem os seguintes pares de proposições contrastantes:

1. Deus e a natureza.

1.A. Criação: Deus está ativo na natureza. Suas atividades incluem ações regulares de manutenção que observamos como leis naturais, e também leis especiais que constatamos como singularidades ou milagres.

1.B. Evolução: Todos os eventos na natureza acontecem em consonância com leis naturais. Se Deus existe, Ele pode ou não ter dado início ao Universo através do Big Bang, mas em qualquer caso Ele não intervém nos eventos naturais.

2. Deus e os seres humanos.

2.A. Criação: Deus criou a vida em sua rica diversidade desde o princípio. Os homens são uma criação especial e dotados de atributos descritos como a imagem de Deus.

2.B. Evolução: A vida surgiu pela ação de leis naturais, evoluiu e se diversificou a partir de um ancestral comum na rica diversidade vista no presente. Os seres humanos formam parte desse processo e são fundamentalmente animais com cérebros altamente desenvolvidos.

3. Deus e o tempo.

3.A. Criação: A Criação não precisou de longos períodos de tempo. O Universo foi criado ex-nihilo, pela Palavra de Deus. As condições necessárias à vida em nosso planeta e a própria vida foram criadas no breve período de uma semana. A criação de nosso mundo aconteceu num passado medido em milhares de anos, embora outros mundos possam ter sido criados em tempos anteriores.

3.B. Evolução: A produção de organismos vivos e seu meio-ambiente surgiram mediante processos graduais e naturais, que exigiram um tempo medido em centenas de milhões a bilhões de anos. Nosso planeta é apropriado à vida porque, por casualidade, ele reuniu propriedades que permitiram que tais condições se desenvolvessem.

4. Deus e o mal natural.

4.A. Criação: O mal natural não existia no estado original da Criação. Adão e Eva, os primeiros seres humanos, receberam a responsabilidade de cuidar do planeta e de seus organismos vivos. Por causa da queda, Satanás obteve o domínio do mundo. Esse domínio é a causa do mal natural, da morte, doença, destruição etc. Por Jesus Cristo, o domínio será restaurado aos seres humanos.

4.B. Evolução: O mal natural é o resultado desagradável da operação das leis da natureza. Não existe nenhum diabo pessoal, nenhum Adão, nenhuma queda e nenhuma futura restauração.

A maioria dos detalhes interpretativos que distinguem a Criação e a Evolução é referente a esses quatro pares de proposições contrastantes. A primeira proposição, tratando da relação de Deus com a natureza, forma o pressuposto fundamento das outras proposições. O modo como alguém responde a essas questões influenciará a escolha do modelo das origens. Seguem alguns exemplos:

Tentativas de reconciliar idéias sobre as origens

Foram feitas inúmeras tentativas de combinar idéias científicas com a crença em Deus. Só as mais populares serão consideradas aqui. Uma discussão mais ampla está disponível noutros lugares.5

A evolução teísta aceita as conclusões da ciência baseada na filosofia naturalista, mas tenta incluir uma espécie de influência divina para justificar a idéia de que os seres humanos fizeram parte de um plano e não surgiram acidentalmente. É um modelo muito popular, provavelmente porque parece estar baseado na ciência, mas não exclui Deus. Porém, há uma inconsistência lógica na tentativa de construir uma visão da atividade divina sobre o fundamento do naturalismo filosófico, que nega a ação de Deus na natureza. O conteúdo teísta desse modelo contradiz o fundamento filosófico da visão científica atual que separa Deus e natureza. O conteúdo evolucionista contraria a visão bíblica da criação especial. Teologicamente, a evolução teísta parece ser o pior esquema disponível; o deus da evolução parece pior do que nenhum deus. Cientificamente, os modelos evolucionários são contrariados pela evidência que sugere a incapacidade dos processos naturais de gerarem inovações morfológicas, ou a informação que regula seu desenvolvimento. A evolução teísta não reconcilia ciência e Bíblia porque sujeita a Escritura a deduções científicas baseadas no naturalismo filosófico, e porque falha em prover suficientes causas na natureza, por exemplo, para a origem de vida, as novidades moleculares etc.

A criação progressiva sugere que Deus criou em separado muitas e diferentes espécies de organismos, principalmente o ser humano, mas o fez ao curso de prolongados períodos de tempo. As criações sucessivas foram separadas por extensas eras, nas quais os processos ordinários de seleção natural resultaram em diversificação e evolução em pequena escala. Esse modelo está aberto à possibilidade de os humanos terem sido criados em especial e recente criação, talvez a criação descrita no Gênesis. Em termos científicos, tal modelo tem a censurável característica de imaginar uma criação especial sempre que conveniente, como se Deus pudesse ser invocado para preencher eventuais lacunas. Além disso, a sucessão de eventos da criação pressuposta no registro fóssil difere da sucessão genesíaca. Teologicamente, o modelo falha em explicar a causa da morte, pois afirma que ela está presente muito antes de os humanos existirem. Ele também destrói a idéia da queda, porquanto o registro fóssil não indica qualquer mudança na natureza do surgimento dos fósseis humanos. Isso remove a base lógica para a história da salvação. A criação progressiva, conquanto seja um aprimoramento à evolução teísta, falha em reconciliar a ciência e a Bíblia, porque viola as normas do pensamento científico ao introduzir Deus onde quer que uma lacuna o requeira, e também porque extingue a lógica sobre a qual o tema central da salvação bíblica está baseado.

A criação em duas fases6 é a proposição de que Gênesis 1:1 se refere a uma criação original do Universo, a qual deixou a Terra numa condição inabitável que poderia ter durado alguns momentos ou longas eras. Enquanto a Terra estava nessa condição – escuridão, umidade e inadequação à vida e à habitabilidade –, Deus criou numa semana uma variedade de habitats suficientes e os povoou de organismos vivos. Quando a criação foi completada, era sem falhas, mas o pecado de Adão entregou a Satanás o domínio da Terra, trazendo doença e morte. Deus recriará e restabelecerá um mundo sem defeitos, mas isso precisa ser realizado ao mesmo tempo em que se preserva a liberdade humana de escolha. Do ponto de vista teológico, essa teoria é superior a qualquer outra proposta. Cientificamente, ela levanta questões que merecem discussão.

A narrativa da criação genesíaca introduz uma questão na relação dos eventos do primeiro e quarto dias da criação. A Terra é iluminada no primeiro dia, mas o Sol não é mencionado senão no quarto dia. Como os primeiros três dias e noites foram produzidos? Três soluções possíveis são propostas: (1) A luz dos primeiros três dias poderia ter sido produzida por algo diferente do Sol. A presença de Deus pode ter sido a fonte da luz. Ou, talvez, uma supernova tenha iluminado a Terra naquele momento. Então o Sol poderia ter sido criado no quarto dia da criação. (2) O Sol estava realmente presente no primeiro dia, mas não visível talvez devido a uma cobertura nebulosa que difundia a luz. No quarto dia, dissipou-se a cobertura e o Sol pôde ser visto. (3) o Sol estava presente e visível do primeiro dia, mas no quarto dia foi designado para “governar” o dia, e funcionar em sinais e estações. Nossa falta de certeza de qual dessas possibilidades está correta não significa que a questão não tenha solução. Só quer dizer que não sabemos qual seja.

O modelo de Criação em duas fases também apresenta problemas científicos. Os mais conhecidos são a datação radioisotópica e a natureza da seqüência fóssil. Certas rochas contêm produtos de decadência radioativa que exigiria centenas de milhões de anos para se acumularem mediante processos naturais. O modelo de criação bifásica inclui a possibilidade de algumas rochas serem antigas, mas não explica por que deveria haver uma progressão de datas da mais antiga até a mais recente. A existência de um registro fóssil é prontamente explicada pelo modelo bifásico, como resultado de uma catástrofe global conhecida como Dilúvio. Porém, o modelo não explica por que os fósseis aparecem numa seqüência ordenada, na qual se agrupam em estratos geológicos sucessivos, tipos semelhantes de organismos, que correlacionam amplas áreas do globo terrestre. Como uma catástrofe global poderia criar uma sucessão fóssil ordenada em lugar de uma desordem caótica? Talvez o mundo pré-diluviano fosse altamente organizado e a catástrofe global tenha ocorrido numa altamente ordenada seqüência de fases. Conquanto essa explicação seja consistente com o modelo bíblico de criação bifásica, ela é um acréscimo ad hoc ao modelo.

Embora o modelo bifásico da criação bíblica não ofereça uma explicação para todas as nossas perguntas, parece o melhor modelo disponível. Ele dá crédito ao registro bíblico, enquanto aceita a ciência como compatível com os ensinos escriturísticos. Uma vantagem importante dessa teoria sobre as outras é que ela propõe uma causa suficiente para qualquer fenômeno natural – um Criador onipotente e onisciente. Não obstante, o fato de que ainda há questões para as quais o modelo não provê respostas é um sinal de que temos muito a aprender nessa área.

Fé e razão: convivendo com a tensão

Tendo atingido a compreensão da tensão existente entre fé e razão, qual é a resposta apropriada para nós pessoalmente, e que podemos fazer por aqueles que nos procuram pedindo ajuda para lidar com tais questões?7

Primeiro, podemos contribuir para a melhor compreensão da natureza e das limitações da ciência. O sucesso da tecnologia e da ciência experimental é tão amplo, que muitos são grandemente influenciados pelos pronunciamentos dos cientistas, mesmo em áreas além da ciência. As diferenças entre a ciência histórica e a ciência experimental deveriam ser explicadas. As dificuldades em lidar com singularidades e questões das origens podem não ser óbvias para os não-iniciados, mas elas são cruciais na compreensão do porquê da ciência ser tão bem-sucedida em algumas áreas e tão incompleta e especulativa em outras. A figura 1 apresenta um esquema que pode ser útil no caso.

Segundo, podemos partilhar o entendimento de que provar nossas convicções não é possível. Não podemos provar coisa alguma sem suposições; e nossas suposições determinam o que somos capazes de provar. É apenas quando as suposições são partilhadas, que alguém pode provar um ponto a outros. Os secularistas freqüentemente fazem suposições incompatíveis com as concepções cristãs. Não surpreende que os conflitos permaneçam sem solução. Não podemos provar que a Criação é verdadeira e nem podemos usar argumentos baseados na ciência naturalista para provar a falsa evolução, embora possamos certamente mostrar que ela tem problemas. Precisamos aprender a viver tranqüilamente sem provas, enquanto continuamos a buscar uma compreensão mais profunda da verdade.

Terceiro, podemos colaborar no desenvolvimento do pensamento crítico. Deveríamos encorajar outros a serem cautelosos a respeito das afirmações que ouvem e a aprenderem a distinguir entre dados e interpretações e entre bons e maus argumentos. Os crentes na Criação parecem propensos a aceitar maus argumentos. Por exemplo, os criacionistas uma vez afirmaram que pegadas humanas e de dinossauros foram vistas juntas nas rochas sedimentares do Rio Paluxy, no Texas. A informação foi repetida centenas de vezes, embora aqueles que a afirmaram originalmente tenham se retratado depois.

Outra alegação sem base é a de que a Terra não pode ser muito antiga, porque a população humana se expandiu muito rapidamente. Levaria apenas alguns milhares de anos para produzir um número de pessoas que agora vivem na Terra. A população humana não poderia se expandir segundo sua taxa atual, até o desenvolvimento da agricultura, a invenção da escrita, a produção de metais e os melhoramentos na saúde e na mecanização. Tais invenções proveram meios de apoio às populações maiores e ampliaram a capacidade do ambiente de sustentar o homem. Sem essas e outras invenções, a América do Norte poderia ainda ter uma população de apenas uns poucos milhões, como há 500 anos.8

Os evolucionistas também apresentam argumentos ruins. Por exemplo, às vezes eles sustentam que a história da arca de Noé não pode ser verdadeira, porque não teria como abrigar todas as espécies hoje conhecidas, inclusive milhões de tipos de insetos. Mas os criacionistas não acreditam nisso. A arca foi construída para vertebrados terrestres e a diversificação tem ocorrido desde o Dilúvio.

Quarto, podemos permitir que os outros nos vejam modelando uma atitude de fé, mesmo sabendo das dificuldades encontradas na integração da fé com a razão. Nossa fé não precisa ser perturbada pela compreensão de que há questões para as quais não podemos dar respostas empíricas. Podemos extrair coragem de outros que estejam bem familiarizados com os problemas, e fazer a decisão consciente de aceitar o registro bíblico como um ato de fé. A fé não é oposta à razão, mas é escolhida por um ato da razão.

Finalmente, e talvez o mais importante: deveríamos desenvolver a capacidade de pensar e agir a partir da perspectiva cristã de modo geral, e especificamente de uma perspectiva criacionista. Isso exige disciplina mental e vigilância para reconhecer as implicações das várias idéias e a necessidade de sua reinterpretação. Também requer o reconhecimento da diferença entre dados e interpretação, e a necessidade de iniciar com cuidadosa coleta e revisão dos dados, análise crítica e a colaboração de colegas, a fim de desenvolver interpretações baseadas nas concepções cristãs.

L. James Gibson (Ph.D. pela Universidade Loma Linda) é diretor do Geoscience Research Institute. Endereço: 11060 Campus Street; Loma Linda, Califórnia 92350, EUA. Site: www.grisda.org.

REFERÊNCIAS

  1. Aqui e no restante do documento, “razão” é utilizada significando a razão humana baseada na experiência e observação, independente da revelação divina, especialmente na ciência.
  2. T. S. Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas. Perspectiva: São Paulo, 2000.
  3. Por exemplo, ver Ian G.Barbour. Religion and Science: Historical and Contemporary Issues. São Francisco: Harper, 1997; J. F. Haught. Science and Religion: From Conflict to Conversation. Mahwah, NJ: Paulist Press, 1995; L. R. Brand. “A biblical perspective on the philosophy of science”. Origins, 59, 2006:6-42.
  4. S. J. Gould. Pilares do Tempo – Ciência e Religião na Plenitude da Vida. Editora Rocco: Rio de Janeiro, 2002. Outro biólogo evolucionista notou a “duplicidade” da proposta de Gould; ver K. R. Miller. Finding Darwin’s God. Nova Iorque: Harper Collins Perennial edition, 1999, 2002. p. 170.
  5. J. Gibson. “Issues in ‘Intermediate’ models of origins”. Journal of the Adventist Theological Society, 14, 2004, 2:71-92.
  6. Esta idéia básica é aceita amplamente entre os criacionistas, com diferenças sobre a extensão de tempo em que a Terra permaneceu em condição de inabitabilidade.
  7. Ver A. Plantinga. “When faith and reason clash: Evolution and the Bible”. Christian Scholar’s Review, 21, 1991:8-32.
  8. Jared Diamond informa uma recente estimativa mais alta, em torno de vinte milhões. J. Diamond. Guns, Gems, and Steel: The Fates of Human Societies. Nova Iorque: W.W. Norton, 1997, 1999.