Nossa vida, nosso trabalho: que espécie de influência exercemos?

“Davi retirou-se dali e se refugiou na caverna de Adulão; quando ouviram isso, seus irmãos e toda a casa de seu pai desceram ali para ter com ele. Ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens” (1 Samuel 22:1, 2).1

A lembrança mais recente que tenho de comentários sobre essa passagem é por ocasião do estabelecimento de uma igreja. Eu era um jovem estudante de Teologia, quando um grupo de membros de uma igreja que o meu pai havia pastoreado recentemente formou uma nova igreja em uma vila a poucos quilômetros de distância. Meu pai se referiu à nova congregação como uma “caverna de Adulão”, por causa das atitudes e circunstâncias de muitos dos membros fundadores.

No passado, era comum ver novas igrejas surgirem de uma congregação dividida. Todas as vezes que eu ouvia falar sobre a fundação de uma igreja, lembrava-me das palavras de meu pai e da caverna de Adulão. No início deste ano, li comentários sobre esse verso, pelo especialista em liderança John Maxwell, que estimularam meu pensamento.

Após matar Golias, Davi foi convidado a ficar no palácio de Saul, onde aprendeu sobre governar o reino de Israel, incluindo a arte de guerrear. Infelizmente, o ciúme de Saul levou Davi ao exílio. É nesse ponto da vida de Davi que encontramos a história da passagem bíblica citada. Tente imaginar as pessoas que se reuniram em torno de Davi: todos que estavam em perigo. Todos que tinham dívidas. Todos os descontentes. Nas próprias palavras de Davi: “Acha-se a minha alma entre leões, ávidos de devorar os filhos dos homens; lanças e flechas são os seus dentes, espada afiada, a sua língua” (Salmos 57:4).

O que Davi tinha a ver com aquelas pessoas? Foi esse tipo de pessoa que resistiu ao rei Saul? Foi esse o grupo com o qual Davi iniciou uma revolução? Que espécie de líderes – ou guerreiros – seriam aqueles descontentes e afligidos?

Davi conta como lidou com as circunstâncias: “Firme está o meu coração, ó Deus [...], cantarei e entoarei louvores. Desperta, ó minha alma! Despertai, lira e harpa! Quero acordar a alva. Render-te-ei graças entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações. Pois a tua misericórdia se eleva até aos céus, e a tua fidelidade, até às nuvens” (Salmos 57:7-10).

O que aconteceu aos descontentes?

Ao acompanhar as pisadas de Davi, descobrimos a transformação ocorrida naqueles aflitos e descontentes seguidores. “Foi dito a Davi: Eis que os filisteus pelejam contra Queila e saqueiam as eiras. Consultou Davi ao Senhor, dizendo: Irei eu e ferirei estes filisteus? Respondeu o Senhor a Davi: Vai, e ferirás os filisteus, e livrarás Queila. Porém os homens de Davi lhe disseram: Temos medo aqui em Judá, quanto mais indo a Queila contra as tropas dos filisteus. Então, Davi tornou a consultar o Senhor, e o Senhor lhe respondeu e disse: Dispõe-te, desce a Queila, porque te dou os filisteus nas tuas mãos. Partiu Davi com seus homens a Queila, e pelejou contra os filisteus, e levou todo o gado, e fez grande morticínio entre eles; assim, Davi salvou os moradores de Queila” (1 Samuel 23:1-5).

A força e o valor daqueles que seguiram Davi à caverna de Adulão continuaram. Eles prosseguiram conquistando as nações de Canaã, aniquilando os gesuritas, gersitas e os amalequitas. Eles também foram bem-sucedidos ao escaparem do rei Saul. “Permaneceu Davi no deserto, nos lugares seguros, e ficou na região montanhosa no deserto de Zife. Saul buscava-o todos os dias, porém Deus não o entregou nas suas mãos” (1 Samuel 23:14).

No decorrer da história, constatamos que o grupo de Davi aumenta de 400 para 600 pessoas (1 Samuel 23:13).

Quando Davi escapou para a caverna, ele atraiu o aflito e o descontente, mas pelo exemplo da dependência de Deus, ele transformou seus homens em efetivos guerreiros – e líderes. Quando Davi subiu ao trono, eles estavam preparados para assumir a liderança da nação.

Duas perguntas

A experiência de Davi nos confronta com duas perguntas: que tipo de pessoas atraímos? O que acontece com essas pessoas quando se associam a nós?

Olhe para a sua vida. Pense nas pessoas que vivem ao seu redor como amigos ou colegas de trabalho. Que espécie de pessoas são? São realizadoras e visionárias? Ou são descontentes e insatisfeitas? Você já reparou que as pessoas tendem a nos julgar não somente pelos amigos que escolhemos, mas também pelas pessoas que atraímos como colegas ou mesmo pela escolha de empregados?

Nessa primeira questão há, implicitamente, outra: Que tipo de pessoas somos? Nunca vamos atrair os otimistas se somos sombrios e pessimistas. Nunca vamos atrair os visionários se não vemos esperança. Nunca captaremos a imaginação e o entusiasmo das pessoas ao nosso redor se ignoramos as oportunidades e nos concentramos em nossos problemas.

Então, há uma segunda pergunta: O que acontece com as pessoas que se associam conosco? Nossos pais sempre nos dizem para sermos cuidadosos ao escolhermos amigos por causa da influência deles sobre nós. Mas a história de Davi também nos desafia a pensar sobre como influenciamos as pessoas. Vemos nessa história que os aflitos e os descontentes não precisam permanecer em seu descontentamento! Podemos influenciá-los. Algumas vezes, pergunto-me se damos tão pouca atenção ao que se refere à influência das associações que estabelecemos. Se tal como é sugerido pelo apóstolo Paulo (2 Coríntios 3:18), tornamo-nos como as coisas que admiramos, então influenciaremos aqueles que olham para nós!

“Se não estamos unidos a Cristo, desperdiçamos tudo. Todos exercemos uma influência, e essa influência conta sobre o destino de outros, para o seu bem presente e futuro ou para a perda de sua vida eterna.”2

“Todo o ato de nossa vida afeta a outros para bem ou para mal. Nossa influência tende a elevar ou a rebaixar; ela é experimentada, posta em prática e, em maior ou menor escala, reproduzida por outros. Caso por nosso bom exemplo, ajudemos outros no desenvolvimento de bons princípios, damos lhes poder para fazer o bem. Por sua vez, eles exercem a mesma influência benéfica sobre outros, e assim centenas e milhares são afetados por nossa inconsciente influência.”3

São o nosso otimismo, nossa visão, imaginação e fé contagiosos? As pessoas que se associam conosco são mais dependentes do Senhor Jesus ou mais indiferentes com as Suas exigências para nós? Estão mais descansadas em Sua bondade e graça? Estão mais determinadas a cumprir as Suas ordenanças? Estão mais ávidas para edificar o Seu reino?

“Você pode nunca saber o resultado de sua influência do dia a dia, mas tenha a certeza de que ela é exercida para o bem ou para o mal [...]. Jogue uma pedrinha no lago e uma onda está formada, e outra e outra; e como elas aumentam, o círculo se alarga até que elas alcançam a margem. Assim é a nossa influência, embora aparentemente insignificante, pode continuar a se extender para além do nosso conhecimento ou controle.”4

Que tipo de pessoas atraímos? O que acontece a elas quando se associam a nós?

Halvard B. Thomsen (D.Min., Universidade Andrews) é assistente do diretor administrativo da Divisão Norte-Americana da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Silver Spring, Maryland, EUA. E-mail: halvard.thomsen@nad.adventist.org

REFERÊNCIAS

  1. Salvo indicação contrária, todas as passagens da Escritura são da almeida Revista e Atualizada (ARA).
  2. Ellen G. White. Testemunhos para a igreja. v. 3. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002. p. 528.
  3. ______. Testemunhos para a igreja. v. 2. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001. p. 133.
  4. ______. Review and Herald (24 de Janeiro de 1882).