Divinitatis sensus e a missão da igreja

Atormentado pelo desespero, Leon Tolstói, por vezes, foi levado à questão do sentido da vida, tanto que pensou em suicídio como uma solução lógica para a sua inquietação. Mas, ao mesmo tempo, ele também encontrou dentro de si um profundo sentimento de Deus, que o instava a prosseguir. “Sim”, escreveu o famoso romancista russo, “enquanto o meu intelecto estava trabalhando, algo em mim estava trabalhando também, e me impediu de agir... posso chamar de uma consciência da vida, que era como uma força que obrigou minha mente a seguir em outra direção e me tirar da situação de desespero... Meu coração se manteve definhando com outra emoção consumidora. Não posso chamar isso de outro nome que não o de uma sede de Deus. Este desejo de Deus... veio do meu coração.”1

Nos momentos mais desesperadores de sua vida, Tolstói encontrou um novo valor e significado na existência motivada pela “consciência da vida”, pelo “desejo por Deus”. Essas expressões descrevem uma experiência universal da humanidade, muitas vezes chamada de um sentido do divino, um divinitatis sensus.

A crença sobre ser sensível à presença de Deus não é incomum, apesar de que tais discussões não podem afirmar a relação de fé em um Deus Criador pessoal que tem um interesse permanente na vida de alguém. Mas um cristão não pode falar de divinitatis sensus sem, ao mesmo tempo, afirmar a fé em Deus que vive – tanto como Deus do cosmos, quanto Deus do coração humano. Este artigo2 é uma tentativa de definir o significado de divinitatis sensus e extrair algumas implicações para a missão da igreja.

O que é divinitatis sensus?

Quero começar essa discussão me referindo a João Calvino, por duas razões. Recentemente, em 2009, foi o 500º aniversário de nascimento do grande reformador, e a igreja cristã ao redor do mundo marcou esse importante evento por meio de uma série de estudos sobre a contribuição de Calvino à missão e mensagem da igreja. Em segundo lugar, Calvino foi talvez o primeiro teólogo e filósofo cristão a discutir a possibilidade de conhecer a Deus de dentro para fora. Calvino argumentou que a natureza fundamental do sentido universal da divindade ou sensus divinitatis é a “semente” do conhecimento de Deus que é plantada em cada pessoa. Calvino afirmou: “Estabelecemos isso como uma posição a não ser controvertida, que a mente humana, até mesmo por instinto natural, possui algum senso de divindade. Para que ninguém possa abrigar-se sob o pretexto de ignorância, Deus concedeu a todos algumas noções de Sua existência... a lembrança a qual Ele renova com frequência e insensivelmente, de modo que, como os homens universalmente sabem que existe um Deus, e que Ele é o seu Criador, devem ser condenados pelo seu próprio testemunho, por não tê-Lo adorado, e consagrado a sua vida a Seu serviço.”3

A posição de Calvino nos leva a quatro conclusões. Primeiro, Calvino acreditava que o divinitatis sensus é naturalmente concedido pelo Criador. É uma espécie de instinto racional, mas também emocional, o sexto sentido, por assim dizer, que fala universalmente em cada coração humano que existe um Deus. Segundo, esse sentimento universal de divindade implica que os seres humanos estão conscientes de certos traços de Deus, tal como a Sua existência, Sua condição de Criador, e Seu merecimento de culto pelos seres humanos que foram criados por Ele. Paulo fala de Deus, dos “atributos invisíveis, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Romanos 1:20, Almeida Revista e Atualizada) e da lei interna da obrigação moral que está no coração de todos (Romanos 2).

Terceiro, esse sensus tem sido dado à humanidade a fim de que ninguém possa se esconder atrás do pretexto da ignorância e escapar do julgamento final.

Finalmente, de acordo com Calvino, o divinitatis sensus é uma espécie de lembrança que cada um tem, e um aguçamento e aprofundamento desse sensus pode ser uma ação complementar da graça divina. Calvino não definiu o que essa ação de Deus é, ele apenas afirmou que Deus renova a capacidade de conhecê-Lo.

A visão de Plantinga

Uma visão mais recente sobre essa percepção interior de Deus é a de Alvin Plantinga, um filósofo de religião na Universidade de Notre Dame.4 Plantinga afirma: “O divinitatis sensus é uma disposição ou um conjunto de disposições para formar crenças teístas em várias circunstâncias, em resposta ao tipo de condições ou estímulos que provocam o trabalho desse sentimento de divindade.”5

Considere o que está envolvido na definição de Plantinga de divinitatis sensus. Primeiro, há a disposição – isto é, uma inclinação, uma tendência, uma propensão – voltada para o pensamento com referência a Deus. Em segundo lugar, essa disposição do sensus leva à formação de crenças teístas concretas, como conhecer a Deus como Criador, que merece adoração e obediência.6 Em terceiro lugar, há algumas circunstâncias ou condições que desencadeiam o funcionamento do sensus.

Quais são esses acionadores? Segundo Plantinga, os acionadores vêm de diferentes experiências humanas que podem levar a uma percepção de Deus.7 Por exemplo, a apreciação da beleza da natureza ou uma experiência do amor verdadeiro nas relações humanas podem levar a uma reflexão da criação de Deus ou do amor perfeito de Deus para conosco. Mesmo experiências negativas, como de sofrimento humano ou de morte, podem desencadear algo para afirmar o valor da vida e da presença viva de Deus (como foi o caso de Tolstói). Todos esses acionadores podem levar a algum grau de conhecimento de Deus, até mesmo ao desejo de adoração.

Ao contrário de Calvino, Plantinga amplia o conteúdo do divinitatis sensus para afirmar que mesmo aqueles que não são crentes podem ser levados à fidelidade e adoração a Deus, se somente permitirem certas condições para estimular ou acionar o seu senso interno da divindade.

O conceito de Ellen White

À discussão sobre o sentido do divino vamos acrescentar outra dimensão a partir dos escritos de Ellen White. Ela é bastante clara sobre o caráter limitado para a salvação do latente conhecimento de Deus ou sentimento em relação a Ele. Ela afirmou: “Em sua sabedoria humana não pode o mundo conhecer a Deus. Seus homens sábios reúnem um imperfeito conhecimento de Deus, por Suas obras criadas, e então, em sua loucura, exaltam a natureza e as leis da natureza acima do Deus da natureza.”8 Ela ainda acrescentou: “É impossível alcançar um perfeito conhecimento de Deus, da Natureza tão-somente; pois a natureza mesma é imperfeita. Em sua imperfeição não pode representar a Deus; não pode revelar o caráter de Deus em sua perfeição moral.”9

Ellen White não usou a expressão “senso do divino”, mas ela parece falar do conhecimento natural de Deus, que corresponde à revelação natural de divinitatis sensus. Esse conhecimento de Deus é possível por meio da natureza externa do ser humano, mas é também uma parte da estrutura interna do ser humano. O pecado, é claro, tem danificado severamente essa capacidade natural de conhecer a Deus, mas ainda há alguma sensibilidade nos seres humanos à presença viva de Deus. No entanto, Ellen White é cuidadosa ao distinguir entre o trabalho da voz interior, do divinitatis sensus, e a vã profissão. “Pessoas há que fizeram por algum tempo profissão de fé religiosa e que estão, para todos os intentos e desígnios, sem Deus e destituídas de sensibilidade de consciência. São vãs e frívolas; sua conversa é de baixo teor.”10

Para concluir: o divinitatis sensus pode ser entendido como uma disposição interior natural para conhecer a Deus, uma disposição que pode ser ativada sob certas condições. Mas, por si só, não é suficiente para levar uma pessoa à salvação, mas pode ser um ponto de contato.

Divinitatis sensuse a missão da igreja

Como, então, podemos usar essa sede inata por Deus, por mais ofuscada ou opaca que seja, para aumentar a eficácia da missão cristã?

1. Estar consciente do divinitatis sensus, sentido por todos os seres humanos. Essa percepção pode ser danificada e diluída com a presença do pecado, e sua nitidez pode ter sido reprimida pela indiferença à Sua presença. No entanto, essa busca interior de Deus pode ser um ponto de contato para a apologética cristã. Ou seja, o divinitatis sensus só pode ser um ponto de partida para a missão cristã. A revelação disponível na natureza ou na harmonia do Universo pode levar o sensus a um desenvolvimento adicional, mas a mais completa compreensão de quem é Deus, o que Ele pode fazer para a libertação do homem da escravidão do pecado e como se pode detectar isso, só pode vir quando a plenitude de Cristo como a Verdade e o Caminho é captado e compreendido. E isso só é possível através do testemunho bíblico, fortalecido pelo Espírito Santo. Assim, o pouco que é revelado por meio do sensus sobre Deus não é suficiente para a salvação e para uma vida cristã madura, mas é um bom ponto de preparação ao reconhecer a possibilidade e oportunidade do conhecimento de Deus por não crentes.

2. O divinitatis sensus deve nos ajudar a ver os não cristãos não como totais antagonistas do Evangelho, mas como pessoas que podem estar abertas para descobrir a realidade e a plenitude de Deus e o Seu caminho para a salvação. Nem todos podem se encaixar nessa descrição, pois há aqueles que deixam a teimosia e a obstinação moral pecaminosa desafiarem as sondagens e fundamentos do Espírito, e persistem no embotamento de seu sensus interior. Não devemos desistir de nossa missão à primeira vista de rejeição, pois mesmo que uma pessoa rejeite o testemunho do evangelho, se o ponto de contato da sensibilidade divina estiver lá, temos de depositar a nossa esperança no fato de que as pessoas perdidas não estão além do alcance da graça de Deus. Eles poderão entrar no reino de Cristo com a alegria de encontrar a verdadeira realidade espiritual.

3. Finalmente, na nossa abordagem missionária, precisamos ser muito mais conscientes dos possíveis acionadores do funcionamento do divinitatis sensus. Esses acionadores podem chocar alguém na questão em que a sede por Deus conduz a busca para encontrar o Deus que ama, Seu poder e grandeza, por um lado, e Sua benevolência e amor por outro lado.

Esses acionadores podem ser positivos ou negativos. Os acionadores positivos que podem estimular o divinitatis sensus representam todas as experiências do estado positivo e agradável em nossa consciência. Por exemplo, quando vemos o céu estrelado em uma clara noite de verão, podemos experimentar uma sensação de êxtase estético. A experiência pode nos levar a afirmar a existência de uma extraordinária e, até mesmo, inteligente força na natureza. De repente, podemos sentir como essa força destrói o nosso desespero de solidão no Universo. Todos esses sentimentos podem vir até nós, mesmo quando não reconhecemos o Deus Criador pessoal. Existe a possibilidade de que esses sentimentos de alegria, de reconhecimento de algo tão bonito lá no céu, se combinem para, afinal, desencadear a crença na possibilidade da presença de Deus. Assim, a fé na existência de Deus pode surgir.

Outra experiência estética que desempenha o papel de acionador pode ser a música. Ouvir música de Bach ou Mozart pode trazer uma sensação de harmonia e paz a que temos estado procurando. Esse êxtase de harmonia poderia despertar a ideia de harmonia universa. O resultado pode ser uma crença em Deus, que garante a harmonia e a unidade na vida real.

Os acionadores negativos representam todas as experiências negativas ou prejudiciais em nossa vida. Já mencionamos o pensamento de Tolstói sobre suicídio que o levou do ponto máximo de desespero à “consciência da vida”, um reconhecimento de que há valor e significado nesta vida. Mesmo as experiências mais negativas da vida podem desencadear uma afirmação para o positivo. Como no caso de Jó, alguém pode ser capaz de sentir o poder de Deus, mesmo no meio da destruição: “Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus” (Jó 19:26 – ARA).

Outro exemplo de um acionador negativo é o sentimento de culpa. Toda vez que sentimos a forma extrema de culpa pessoal, pode haver uma possibilidade de abertura forçada para o perdão como a única saída, e a única alternativa positiva para a desesperança e desespero que podem esmagar nosso ser. O perdão perfeito pelos seres humanos não é possível, mas a busca de perdão pode nos levar a Alguém que é capaz de perdoar totalmente, e este é Deus. Assim, em nossa missão e ministério, podemos procurar acionadores que estimulem o interior e latente sentido de buscar a Deus. Esses acionadores podem variar de pessoa para pessoa, mas podemos tentar tocar os pontos de contato, que levem o indivíduo a uma crença mais dinâmica e aberta e a um relacionamento com um grande e amoroso Deus. A nossa insistência em procurar esses estímulos de divinitatis sensus representam a ligação excepcional apologétia em nossa missão aos não cristãos.

Aleksandar S. Santrac (Ph.D., Universidade Estadual de Belgrado) é da Sérvia, e está trabalhando como professor de religião, ética e filosofia na Universidade do Sul do Caribe, Porto Espanha, Trinidade e Tobago. Tem pós-doutorado pelo Instituto Católico de Paris. É professor visitante da Universidade de Notre Dame, South Bend, Indiana, EUA. Trabalhou como pastor evangelista em seu país natal. E-mail: asantrac@gmail.com

REFERÊNCIAS:

  1. Leon Tolstói, Zonia citado em William James. The Varieties of Religious Experiences: A Study In Human Nature. Nova York: Modern Library, 2002. p. 174.
  2. Este artigo está baseado em minha tese Knowing God: Evaluation of John Calvin’s and Alvin Plantinga’s Concept of Sensus Divinitatis como parte do programa de doutoramento no Instituto Católico de Paris e posição de “visiting scholar” na Universidade de Notre Dame, Indiana, EUA.
  3. John Calvin. Institutes of the Christian Religion. Filadélfia: Presbyterian Board of Christian Education, 1936. Livro I, cap. iii, p. 1.
  4. Plantinga não desejava ser visto como um intérprete de Calvino e diz que sua ideia de divinitatis sensus tem somente similaridade terminológica com a de Calvino (Entrevista com Alvin Plantinga, Universidade de Notre Dame, Notre Dame, Indiana, November 15, 2007, conduzida por Aleksandar S. Santrac).
  5. Alvin Plantinga. Warranted Christian Belief. Oxford: Publicadora da Universidade Oxford , 2000. p. 173.
  6. Plantinga. The Twin Pillars of Christian Scholarship. Grand Rapids: The Stob Lectures, Calvin College and Seminary, 1989-1990. p. 53.
  7. Plantinga diz: “Em uma variedade de circunstâncias – ao contemplarmos o céu acima estrelado, quando em perigo, ao vermos que fizemos algo profundamente errado... nós seres humanos nos encontramos conscientes da presença de Deus, percebendo que nós Lhe devemos obediência e fidelidade” (Ibid.).
  8. Ellen G. White. Mensagens Escolhidas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira. Vol. 1. p. 295.
  9. Id.
  10. ––––. O Lar Adventista. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira. 1992. p. 51.