Qual será sua escolha?

Parei em frente à porta fechada, e respirei fundo. Sabia o que havia atrás daquela porta: um paciente idoso confinado a uma cama de hospital. No quarto, estavam também vários membros de sua família sentados ao redor da cama mantendo uma vigilância cuidadosa e cautelosa sobre o homem doente.

Meu receio não era devido ao estado de saúde do paciente. A questão era o clima no quarto. Sabia que ao entrar no quarto, cessariam as conversas e todos olhariam para mim. Os rostos ficariam sisudos e haveria ansiedade, desconfiança e contestação. Um dos parentes chegaria com um grande bloco de papel e as perguntas começariam: “Qual é seu nome? O que você vai fazer para o meu pai e por quê? Você lavou as mãos?” Etc. Todas as respostas teriam de ser dadas por escrito. Tudo o que eu fizesse para o paciente seria cuidadosamente observado, analisado e registrado.

Como fiquei à porta por um tempo, preparando-me para entrar, outra enfermeira se aproximou e me entregou uma bolsa com fluído intravenoso. “Poderia, por favor, pendurar isso para mim neste quarto?”, ela perguntou, apontando para a porta fechada. Ao pegar a bolsa com o conteúdo intravenoso que ela me entregou, pensei nas opções disponíveis. Poderia entrar no quarto rapidamente, não olhar para os olhos de ninguém, fazer o meu trabalho e sair logo que possível. Ou poderia assumir um ar de autoridade, afinal, eu era a profissional! Eu, então, estaria pronta para enfrentar qualquer objeção de uma forma mais profissional, é claro. Ou, eu poderia apenas demorar ainda mais para entrar no quarto até conseguir transferir minha responsabilidade para outra pessoa, como a minha colega tinha acabado de fazer.

Atitudes em formação

Imagem: Microsoft Office

Nascemos com um potencial para uma grande variedade de reações que se evidencia desde os primeiros anos de idade. Pais, professores, líderes da Escola Sabatina, outras pessoas, todos tentam nos guiar à medida que crescemos, incentivando-nos a desenvolver um comportamento com reações aceitáveis, mesmo que não percebamos isso.

Em uma manhã do último Natal, nossa neta de dois anos, Ava, saiu de seu quarto de muito mau humor. Nada a satisfazia, nem abraços, nem qualquer um dos alimentos disponíveis para o desjejum, nem mesmo seu bichinho de pelúcia favorito. Ela empurrou a tudo e a todos para longe, e continuou com a sua atitude azeda e desafiadora. Finalmente, seu pai, em desespero, ordenou que ela voltasse para o quarto e ficasse lá até que pudesse sair como uma menininha feliz.

No início, houve um choro alto e raivoso atrás da porta fechada do quarto. O choro finalmente morreu a distância, e tudo ficou em silêncio por um tempo. Então, ouvimos um canto, inicialmente baixinho que, aos poucos, foi aumentando de volume e ganhando energia. Era um dos seus cânticos favoritos da Escola Sabatina. Não demorou muito, a porta se abriu e uma menina totalmente diferente surgiu – toda sorridente e terna.

Atitudes perigosas

Recentemente, eu estava aproveitando um calmo e relaxante voo a caminho de um compromisso. Como a viagem é coletiva, podia ouvir a conversa agradável e amigável entre empresários que estavam nos bancos atrás de mim. Chegando ao nosso destino, depois de um pouso suave, a aeromoça anunciou que poderíamos usar o celular, o que muitos dos passageiros passaram a fazer, inclusive um dos homens atrás de mim.

De repente, ficou claro para muitos de nós que havia um problema. Um homem ao celular começou a falar cada vez mais alto. Ele demonstrava frustração e raiva evidentes em frases tais como: “Eu disse para ele NÃO fazer isso! Ele entendeu claramente as minhas instruções. Não me importa qual é o problema! Ele deveria ter seguido a minha ordem!” Enquanto eu esperava para sair do avião, olhei para o rosto do homem e vi linhas profundas de estresse e preocupação. Independentemente da satisfação que aquele homem tivera naquele dia, agora ela estava destruída.

A filosofia do peixe

Em um dos grandes setores comerciais, em Seattle, Washington, há uma área contendo bancas com frutos do mar frescos à venda. Os vendedores de peixe, em Seattle, trabalham longas horas em ambiente frio, úmido, manuseando gelo e peixe fedorento. É um trabalho que certamente se qualifica para os primeiros do topo de uma lista de “Os piores empregos de todos os tempos”. Um dia, há vários anos, o grupo de homens que trabalhava em uma determinada banca de peixe decidiu realizar uma reunião e discutir meios que pudessem melhorar as condições do seu trabalho e também aumentar o sucesso do negócio. Durante a reunião, o chefe pediu que cada um desse sugestões – qualquer sugestão, bastava pensar nas ideias mais malucas possíveis. Um jovem sugeriu: “Acho que deveríamos nos tornar os mais famosos do mundo.” Os demais explodiram em gargalhada, mas como a discussão continuou, essa ideia se tornou menos e menos escandalosa, e, finalmente, o consenso foi: “Bem, por que não nos tornarmos mundialmente famosos?”

Mas como isso poderia acontecer? O produto não poderia ser mudado. A localização não poderia ser mudada. Os horários e condições de trabalho não poderiam ser alterados. As únicas mudanças teriam que ser dentro daqueles que trabalhavam lá – sua percepção e resposta ao trabalho, interação uns com os outros e com os seus clientes, e atitudes individuais. Como resultado, quatro princípios distintivos foram estabelecidos: “Brinque” – torne o trabalho divertido; “Faça o Dia Deles” – atraia os clientes para o divertimento; “Esteja Lá” – mantenha o foco no trabalho e naqueles que estão sendo atendidos e “Escolha a Sua Atitude”.

A partir daquela reunião e dos conceitos iniciais que foram desenvolvidos, finalmente surgiu o que agora é conhecido como “A filosofia do peixe”. Aquela pequena feira de peixe é agora um lugar animado e feliz, onde os clientes se reúnem para rir animados, fazer brincadeiras engraçadas com as pessoas que trabalham lá – e eles compram peixes. Eles finalmente se tornaram mundialmente famosos. (Veja www.fishphilosophy.com).

Uma questão de escolha

Em uma entrevista, ao perguntarem a um jovem peixeiro sobre o princípio de “Escolha a Sua Atitude”, ele falou que todas as manhãs antes de sair da cama, ele conscientemente faz a opção de ter um bom dia, de aproveitar seu trabalho e de alegrar os momentos de cada visitante ou cliente. Não importa se ele acorda cansado ou preocupado com os problemas. Com base nessa escolha deliberada no início do dia, ele diz que se sente mais feliz no decorrer do dia e se alegra em encontrar maneiras de ajudar a outros a serem felizes, mesmo em um mercado de peixe. Ele ainda disse que seu tempo no trabalho agora passa mais rápido e é mais agradável.

É encorajador saber que não temos de ser vítimas das circunstâncias. Ter uma lista de possíveis respostas é realmente um benefício. Uma atitude negativa provoca estresse em nosso corpo, resultando em aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca. Nossa resposta imune fica comprometida, a digestão interrompida e o pensamento lógico prejudicado. Podemos dizer ou fazer algo irracional, desencadeando complicações posteriores.

Tomar uma decisão consciente para manter a calma, para identificar possibilidades positivas e explorar alternativas, e manter uma atitude alegre e otimista vai produzir muitos benefícios em diferentes circunstâncias no trabalho, família e igreja, favorecendo nosso próprio bem-estar. Não podemos mudar as experiências de vida que nos sobrevêm, e na maioria das vezes não podemos mudar as nossas circunstâncias, mas podemos estar no comando de nossa resposta a elas. Pode haver momentos em que, como a pequena Ava, necessitemos nos isolar em “nosso quarto” por um tempo, para elaborar uma resposta mais adequada. Pode haver momentos, como o que ocorreu com o empresário no avião, em que será preciso parar e avaliar a situação e decidir sobre uma reação positiva diante de um algo negativo. Estar no controle de nossa resposta é fortalecedor. Quando nos concentramos em ser quem queremos ser, tudo que estamos fazendo é influenciado. Somos livres para lidar com pessoas e situações difíceis com mais calma.

Segredos para o sucesso

Aqui estão cinco passos para desenvolver uma atitude positiva:

1. De acordo com a Filosofia do Peixe, escolha uma atitude feliz e positiva, como primeira decisão a cada manhã. Essa escolha pode precisar ser reforçada várias vezes durante o dia, quando surgirem situações diferentes. Entregue o dia a Deus. Pedir a Sua presença e orientação irá garantir seu sucesso. Nós não temos que estar nisso sozinhos. Ele será um “auxílio sempre presente”, como prometeu no Salmo 46:1, 2 (NVI). Suas promessas são certas, mas temos que pedir.

2. Identifique os pontos positivos e os motivos para ser grato em cada situação. A gratidão pode ajudar a manter as coisas em perspectiva. Diz Ellen White: “Deus espalha bênçãos por todo o nosso caminho para iluminar a nossa jornada e conduzir o nosso coração a amá-lO e louvá-lO, e Ele quer tirar água do poço da salvação para que o nosso coração possa ser renovado. Nós podemos cantar as músicas de Sião, podemos alegrar o nosso próprio coração, e podemos alegrar o coração dos outros; espero que possa ser fortalecido, que as trevas tornem-se em luz.”1

3. Tenha sempre um bom senso de humor. Aprenda a rir, e você será mais positivo, especialmente se você puder aprender a rir de si mesmo. Nada funciona melhor do que o riso para aliviar o estresse, a dor e o conflito. A pressão arterial elevada, o estresse e a preocupação podem ser diminuídos ou mesmo evitados, e o equilíbrio restaurado à medida que a mente e o corpo se beneficiam de uma saúde melhor, sob a influência positiva do humor. Os fardos não parecem tão pesados, os problemas e conflitos são colocados em perspectiva e as relações melhoram. Em resumo, o riso é realmente um bom remédio e um poderoso antídoto.

Bob Newhart, que fez milhões rir e trouxe ânimo nas situações mais difíceis, disse certa vez: “O riso nos dá distância. Ele nos permite dar um passo atrás em uma situação, lidar com ela, e depois seguir em frente.” “A alegria do coração”, na verdade, “transparece no rosto” (Provérbios 15:13, NVI).

4. Acredite que você é responsável pelo seu destino. A vida não é algo que está acontecendo ao seu redor. É o que você faz dela. Nossas escolhas, palavras, atos – a maneira como vivemos nossa vida – significam tudo para nós. Não temos de ser vítimas de situações e dificuldades. A melhor notícia de todas é que, com nossa vida comprometida com Deus, temos promessas de direção, sabedoria e Sua presença orientadora para todas e quaisquer experiências da vida. Temos uma ação certa com o sistema GPS (Global Positioning System) do Céu. “Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, de boa vontade; e lhe será concedida” (Tiago 1:5, NVI).

5. Tire um tempo para pausas. Isso pode acontecer durante os nossos atarefados dias em que somos confrontados com situações aparentemente impossíveis. As demandas e problemas da vida parecem ser incansáveis e monumentais. Tornamo-nos cansados e frustrados. Se nada está dando certo, podemos ficar impacientes e até mesmo de pavio curto.

Em tais momentos, que bom seria fazer uma pausa. Dê um passo para trás com a situação. Retire-se literal ou figurativamente para uma sala silenciosa, ou mude de atividade. Uma calma leitura reflexiva, uma oração, um exercício, uma caminhada ao ar livre, a prática de um passatempo favorito, a visita a amigos, ou a ajuda em um projeto voluntário – todas essas ações podem levar a uma mudança de foco. Ficaremos mais calmos, e as situações poderão ser analisadas sob outras perspectivas. Jesus nos deu um bom exemplo de Seu hábito em fazer isso, de periodicamente levar Seus discípulos para longe do árduo trabalho deles, a um lugar tranquilo onde pudessem descansar, ser renovados e reenergizados. Fazendo uma pausa, descansamos a mente para que ela possa se tornar calma e apta para pensar com mais clareza. “Venham a Mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e Eu lhes darei descanso” (Mateus 11:28, NVI).

Como parei do lado de fora do quarto para fazer uma oração rápida, verificar os meus materiais e abordagem, de repente senti uma onda de simpatia para com as pessoas que estavam dentro daquele quarto. Talvez elas tivessem, em ocasiões passadas, sido afetadas por alguns incidentes negativos que resultaram em sua desconfiança geral da equipe médica. Ou talvez elas estivessem apenas inseguras e temerosas do prognóstico de seu pai doente. Qualquer que fosse a situação, era uma condição que eu provavelmente poderia contribuir muito para mudar – com a minha atitude. Possivelmente poderia iluminar um pouco mais o dia delas com um espírito alegre, e um pouco de útil e reconfortante tratamento para o paciente doente. Aquela era a minha oportunidade – o meu momento. Assim, com essa atitude, um sorriso e um sentimento de segurança calma, eu abri a porta e entrei no quarto.

Rae Lee Cooper é enfermeira da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, Silver Springs, Maryland, EUA. E-mail: cooperr@gc.adventist.org

  1. Ellen G. White. Our High Calling. Washington, D. C.: Review and Herald Publ. Assn, 1961. p. 10.