Uma comunidade habitável

No caminho para casa, algo chamou minha atenção. Tinha visto aquilo muitas vezes, mas até aquele dia não havia me impressionado. Era uma placa com uma mensagem simples: “Bem-vindo ao município de Príncipe George – uma comunidade habitável.” Uma o quê? De repente, essa frase me chamou a atenção. Não sei por que não tinha percebido isso antes. Uma comunidade habitável? Ao contrário do quê? Uma comunidade não habitável? Acho que sou abençoada por viver em uma comunidade habitável. Não posso imaginar como seria viver em uma comunidade não habitável. Cheguei a minha casa com uma nova missão. A descoberta daquela manhã despertou minha curiosidade. Claramente, a inscrição da placa deve ter algo a ver com a maneira como as pessoas vivem em sua comunidade, e também com a qualidade de vida. Que órgão avalia as comunidades? Como é que aqueles que avaliam as comunidades chegam à determinação do que é uma comunidade habitável? Pensei em algumas respostas possíveis, mas decidi ir um pouco mais fundo na questão. Comecei a pesquisar o tema da habitabilidade e da comunidade. Iniciei indo ao site do município de Príncipe George para ver como ele definia uma comunidade habitável.

Descobri que “a habitabilidade é um conceito que transmite uma imagem de um futuro que é duradouro, vibrante, fundamentado na responsabilidade cidadã, e oferece uma qualidade de vida desejável. Habitabilidade, nesse contexto, é a soma dos fatores que se unem à qualidade de vida da comunidade – incluindo os ambientes construído e natural, a prosperidade econômica, a estabilidade e igualdade social, o acesso à educação e à cultura, as possibilidades de entretenimento e de lazer”.

Ao refletir sobre o planejamento e desenvolvimento necessários para criar comunidades habitáveis, não pude deixar de pensar na comunidade da igreja. Nossa igreja não surgiu por acaso. Durante séculos, Deus tem estado muito envolvido e ativo no desenvolvimento e crescimento de Seu povo, na comunhão dos fiéis, formando uma comunidade habitável e próspera. A Igreja é um corpo que representa a profunda comunhão e união com Cristo. Em Efésios 3:6, Paulo escreve: “Mediante o evangelho, os gentios são co-herdeiros com Israel, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus.”* Somos uma comunidade de discípulos e parte da família de Deus. Portanto, somos uma pequena comunidade em nossa igreja local, e parte de uma comunidade mais ampla dentro da igreja mundial.

Uma das melhores maneiras de entender a habitabilidade em nossa comunidade única e distinta -– nossa igreja – é olhar para o modelo da Igreja no primeiro século.

Em Atos, capítulo 2, o Espírito Santo desce sobre os apóstolos. As multidões testemunham os apóstolos falando em línguas diferentes, e eles ficam pasmos. Alguns admiram, outros criticam. Todos querem saber o que aquilo significa. Pedro, com os outros apóstolos, compartilha as palavras de Joel 2. Revela que os eventos em curso são o cumprimento da profecia de Joel. Além disso, Pedro inclui entre seus ouvintes os culpados de crucificarem o Messias, que Deus havia revelado ser Seu Filho.

As pessoas foram tocadas pelo com o que ouviram. Elas perguntaram a Pedro e aos apóstolos o que deveriam fazer. Pedro respondeu: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar” (Atos 2:38, 39). Pedro ainda diz, no verso 40: “Salvem-se desta geração corrompida.” Em outras palavras, “sejam salvos”. A responsabilidade foi colocada sobre as multidões para decidir a quem eles iriam seguir e servir. Será que eles iriam aceitar as palavras que Pedro pregou, ou iriam rejeitar suas advertências?

Vejamos algumas características que marcaram a primeira comunidade cristã.

1. Ouvir a Palavra. A característica inicial desses primeiros cristãos era a vontade de ouvir a palavra do Senhor. Não só de ouvir, mas também de aplicá-la para si mesmos. Outras traduções de Atos 2:37 usam as expressões “compungir” ou “cortar o coração”, referindo-se ao ato de ouvir a palavra do Senhor. Isso descreve a profunda tristeza interna que acompanha o verdadeiro arrependimento. A palavra do Senhor aos poucos foi entendida, e eles permitiram que ela afetasse seu coração. Essas pessoas não ouviram as palavras para depois ir até Pedro e dizer que tinha sido um bom sermão. Elas permitiram que as palavras fizessem uma mudança de vida. Não se sentaram com a mente vagando e com o coração fechado.

2. Agindo sobre a Palavra. Os novos crentes foram motivados a agir de acordo com as palavras que ouviram. Eles transformaram as palavras em atos, aceitando o batismo para o perdão dos pecados. Pedro pregou que o perdão dos pecados viria apenas por meio do arrependimento e do batismo. Pedro não permitiu a isenção do batismo. Esse é o sinal exterior da morte da velha vida e começo da nova. É exigido de todos. O que significa se alguém não for batizado? A resposta é clara: a pessoa rejeitou a mensagem e a palavra de Deus.

3. Obedecendo às doutrinas. Em terceiro lugar, os cristãos recém-batizados se dedicaram, perseveraram, deram atenção constante à aprendizagem e à manutenção das doutrinas que lhes foram ensinadas. Jesus prometeu aos apóstolos que eles seriam guiados a toda a verdade. À medida que as verdades de Deus foram reveladas pelo Espírito Santo aos apóstolos, eles ensinaram aquelas mensagens aos outros discípulos.

Os verdadeiros discípulos não querem perder a oportunidade de aprender mais sobre Deus. Desejam se dedicar às doutrinas encontradas nas Escrituras. Nós precisamos ter o mesmo fervor e zelo para estudar a Bíblia. É uma vergonha como muitas vezes os cristãos se permitem permanecer na ignorância da Palavra de Deus. Como no primeiro século, os verdadeiros discípulos sempre vão querer ser saciados com o conhecimento de Deus.

4. Companheirismo. Os primeiros cristãos valorizavam o companheirismo. Companheirismo não é só tomar uma refeição com o próximo. Atos 2:44 define o verdadeiro companheirismo: “Os que criam mantinham-se unidos e possuíam tudo em comum.” Essa é uma referência direta à fraternidade que se desenvolveu entre os apóstolos, a qual foi direcionada para objetivos e propósitos comuns. Primeiro, os crentes foram unidos e unificados. Aqueles cristãos não declararam estar em comunhão porque tinham sido batizados ou simplesmente porque assistiam aos cultos de adoração. O versículo 45 descreve a extensão de seu companheirismo: “Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade.” Tais discípulos tinham tudo em comum. Esse é o verdadeiro cristianismo. Se tudo o que temos é realmente do Senhor, como costumamos dizer, então devemos estar dispostos a compartilhar o que Deus nos deu com aqueles que necessitam de ajuda.

O verdadeiro companheirismo significa ter tudo em comum um com o outro. Nós vemos esse mesmo amor de uns pelos outros enfatizado em 2 Coríntios 8:2-5. Aqueles que não tinham nada para dar ainda estavam dando das migalhas que eles tinham para os outros que estavam em necessidade. Esse é o nível de companheirismo que devemos ter como meta.

Atos 2:46 nos diz que os discípulos se reuniam todos os dias no templo e partiam o pão de casa em casa. Os discípulos eram unificados por meio da oração fervorosa. O Comentário Bíblico Adventista analisa essa passagem, descrevendo a unidade da seguinte forma: “Esta é a verdadeira unidade que deve caracterizar o povo de Deus ao desejar desfrutar uma experiência especial com seu Senhor, ou ao esperar dele uma manifestação de poder. Tudo o que impeça tal unidade deve ser retirado para que não ponha obstáculos à obra do Espírito, que é a obra de Deus em favor de Seu povo.”1

Pense no conceito de adoração. Quantos de nós estaríamos dispostos a nos reunirmos diariamente com outros cristãos? Provavelmente não muitos, já que isso consumiria muito de nosso tempo. Certamente parecemos hesitar quando muitas reuniões ou comissões estão agendadas. Em vez de alegria e boa expectativa, muitas vezes exibimos decepção ou até mesmo raiva por sempre sermos requisitados. Parece que hoje muitos de nós perdemos o amor que deveria manter os cristãos unidos, diariamente. Eu sei que temos trabalhos que exigem de nós, crianças na escola e famílias que tomam muito de nosso tempo. Mas quando a congregação se reúne para uma finalidade em comum, especialmente para a adoração e oração, devemos estar muito felizes pela oportunidade de participar.

5. Evangelismo. Os discípulos eram dedicados à evangelização: “E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos” (Atos 2:47). Dia após dia, as pessoas estavam entregando a vida a Jesus e sendo batizadas. Para esses discípulos não era suficiente estar juntos, estudar a palavra de Deus e ajudar aos necessitados. Esses cristãos tinham um imenso desejo de compartilhar a boa notícia do evangelho com os outros. É um tema que vemos repetidas vezes ao longo do livro de Atos. Você consegue imaginar sua igreja realizando batismos diariamente? Isso foi exatamente o que aconteceu em Jerusalém. Será que temos um espírito de evangelização? Estamos nos sentindo compelidos a compartilhar o evangelho com os outros? Devemos obedecer ao mandamento de Deus para levar o evangelho a todas as pessoas. Quantos de nós conhecemos realmente os nossos vizinhos e compartilhamos o evangelho com eles? Temos a oportunidade de convidar os nossos amigos e vizinhos para ir à igreja. Quantos de nós na verdade fazemos isso?

6. Alegria de viver. Finalmente, os primeiros cristãos experimentaram continuamente alegria e prazer em sua nova fé. Comiam juntos com alegria e singeleza de coração. Eles louvavam a Deus em tudo. Alegravam-se em compartilhar a sua fé. Em outras palavras, eles se alegravam com o privilégio de serem cristãos.

Isso é real?

Sei o que você pode estar pensando. Provavelmente, está dizendo para si mesmo: “Isso tudo é agradável e meigo. Obrigado por compartilhar. Mas não se aplica à realidade de hoje.” Bem, tudo o que posso dizer é que é fácil para nós julgarmos Atos 2 como não sendo relevante em nossa vida. Mas Lucas registrou esses fatos para a nossa compreensão de que os cristãos deveriam ser assim. Se acreditamos verdadeiramente na Palavra de Deus e procuramos seguir seu conselho, então essa mensagem ainda é válida.

Por que uma autêntica comunidade bíblica é tão rara? Talvez seja porque a maioria de nós preferiria aparecer impressionantemente intacto do que alquebrado. Devemos entender, porém, que somente quando admitimos estar alquebrados é que estamos prontos para a comunidade. Viver neste mundo pecaminoso, de fato, vai nos trazer quebrantamento. Nenhum de nós está imune a ele. Alguns de nós fomos quebrantados pela perda de um ente querido. Alguns podem estar lidando com vícios, adultério, divórcio ou traição. Alguns estão alquebrados por uma doença. Mas a única coisa que todos nós temos em comum é que estamos quebrantados.

Veja o exemplo de um caso muito comum: a vida de Bárbara está uma bagunça. Seu problema de bebida está fora de controle, e seu marido, Ken, se recusa a dar-lhe mais apoio. Todos ao redor dela veem o problema de Bárbara, mas fingem que está tudo bem. Um caso clássico de negação.

Sentado na fileira de trás de Bárbara, na igreja, cada sábado de manhã, está Joe. Todo mundo admira Joe, especialmente todos os rapazes. Ele é um modelo de masculinidade. Joe jogava futebol na faculdade, e tem muitas histórias de conquistas atléticas. Mas quando está sozinho, seu coração está triste e vazio por causa de sua incapacidade de manter um relacionamento a longo prazo. Seu casamento durou apenas seis meses. Ao longo dos anos, com o seu pavio curto, ele afastou todos as pessoas que estavam junto dele.

Mas naquele sábado, quando um amigo pergunta a Joe como as coisas estão indo, ele rapidamente diz: “Ótimo... Nunca esteve tão bom.” Joe e Bárbara aprenderam que a igreja é um lugar para pessoas de plástico. Um lugar para pessoas perfeitas. Então, Bárbara se tornou a Barbie, completa, com o seu marido Ken e seus filhos de plástico perfeitos. E Joe tornou-se G.I. Joe, um herói de ação, de plástico, que todo o mundo admira, mas ninguém realmente sabe quem é. Mas, por dentro, Bárbara e Joe estão morrendo, porque não são feitos de plástico. Hoje, nossas igrejas estão lotadas de Barbies e Joes. Nós aprendemos que a imagem é tudo, que o que conta é a sua aparência, as impressões que você deixa, os grupos a que você pertence, e os amigos que você tem. Como resultado, na comunidade cristã, nós nos aperfeiçoamos na delicada arte de fingir.

Há algumas Barbies e Joes em nossa igreja? O que estamos fazendo, do ponto de vista da comunidade e também individualmente, para nos achegarmos a eles? Somos sensíveis às suas necessidades e conscientes da dor que estão experimentando? Podemos ter uma comunidade habitável em nossa igreja? Sim, nós podemos. Somente através de um profundo relacionamento pessoal com Jesus, e o coração cheio de amor genuíno e compaixão, estaremos dispostos a aceitar as pessoas como elas são, abstendo-nos de fazer julgamentos. Não há maior alegria do que ser usado pelo Espírito Santo para estender ajuda para aqueles que estão alquebrados, sozinhos, precisando de um amigo. Ao dedicar-nos diariamente ao estudo das Escrituras, através do desenvolvimento de um relacionamento pessoal com Deus, compartilhando a alegria da verdadeira comunhão uns com os outros, podemos experimentar a versão de Deus de uma comunidade habitável.

Marilyn Scott é pastora adjunta da Igreja Adventista de Spencerville, Maryland. E-mail: m.scott@spencervillesda.org

  1. Seventh-day Adventist Commentary. Vol. 6. Washington, DC: Review and Herald Publ. Assn., 1957. p. 135.

* Todas as referências bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional.