Hannu Takkula

Diálogo com um adventista membro do Parlamento Europeu

Hannu Takkula é membro do Parlamento Europeu, a mais poderosa instituição legislativa da União Europeia (UE). A UE é composta por 27 estados-membros, com representação no Parlamento. Takkula é um dos 13 membros que representam a Finlândia.

Ele cresceu em um tradicional lar cristão com uma consistente educação cristã. Sua família pertencia ao laestadianismo, um movimento revivalista da Igreja Luterana. Quando estava com 15 anos, sua família foi excomungada da igreja, porque ele participou de uma competição esportiva, e seu pai, como diretor da escola, autorizou que os alunos assistissem à competição na TV. Além disso, ele e seus irmãos estavam estudando música clássica, algo considerado inadequado para os laestadianos.

Após o choque emocional e a decepção, Takkula se distanciou completamente dos laestadianos. Logo depois, ele fundou uma banda de rock’n’roll. Totalmente imerso em suas atividades, aos poucos foi se afastando de sua família e de suas tradições. Nos dois anos seguintes, viveu o sonho do rock’n’roll. Seus pais estavam começando a se preocupar, temendo a mudança em sua vida. Seu pai desejava que ele voltasse para o caminho correto. Por isso, queria encontrar uma boa escola cristã para Hannu. Ele fez uma pesquisa e localizou uma escola adventista do sétimo dia em Toivonlinna. Embora soubesse muito pouco sobre os adventistas ou a escola, Hannu concordou em ir para Toivonlinna. “A escola estava localizada no sul da Finlândia, longe da minha família, que morava no norte. Em segundo lugar, eu estava eufórico porque a escola estava aceitando meus créditos anteriores e ia deixar que eu continuasse meus estudos do Ensino Médio”, ele explica.

Finalmente, ele se tornou adventista. Hoje, é um dos principais cidadãos da Finlândia e um parlamentar.

Hannu Takkula é casado com Anne, professora em uma escola em Turku. O casal tem dois filhos. O filho mais velho, que é músico, pianista e cantor, estuda na Academia Sibelius, em Helsinque. O filho mais novo está cursando bacharelado em Administração, na Faculdade Avondale, na Austrália. A família tem dois domicílios: um em Turku, na Finlândia, e outro em Bruxelas, Bélgica.

Conte-nos resumidamente sobre suas atividades.

No Parlamento da União Europeia, sirvo como membro e coordenador da Comissão de Educação e Cultura. Minhas responsabilidades têm a ver principalmente com questões educacionais e culturais. Também sou membro suplente da Comissão da Indústria, Pesquisa e Energia, a qual, na maioria das vezes, está direcionada a questões de pesquisa e inovação. O Parlamento Europeu pode ser comparado ao Congresso dos Estados Unidos. Nós, os deputados, representamos nosso país de origem, assim como os membros da Câmara dos Deputados representam o seu distrito/região. No Parlamento Europeu, nossa tomada de decisão influencia toda a Europa. Nosso mandato parlamentar é de cinco anos.

Que influência a educação religiosa na infância exerceu em sua vida?

Naturalmente, a escola e a religião tiveram e têm um grande impacto em minha vida. Acredito que a educação permite uma vida melhor. Também acho que uma educação religiosa na infância pode dar um profundo significado à vida e ajudar a manter a força de caráter e propósito. Quando olho para trás, vejo que esses dois fatores – educação formal e educação cristã na infância – têm sido as principais influências em minhas decisões e escolhas. De modo geral, acho que a crença cristã me guiou até o lugar em que estou agora.

Como você se interessou por política?

Talvez, minha infância e família tenham muito a ver com isso. Meu pai participou ativamente da política social e regional no conselho público. Frequentemente, discutíamos questões sociais em casa. Tanto minha mãe quanto meu pai são professores. Portanto, questões educacionais eram discutidas em casa. Então, eu poderia dizer que, por causa, do ambiente em que fui criado, fiquei interessado em política. Durante os meus estudos, participei de atividades em grêmios estudantis, o que contribuiu para o meu envolvimento na política mais tarde. Para minha surpresa, fui eleito para o Parlamento Finlandês do distrito eleitoral Lapônia em 1995.

Qual a avaliação que o senhor faz das suas contribuições na política?

Ser eleito para o Parlamento Finlandês com a idade de 31 anos foi uma experiência de mudança de vida. Senti que servir no Parlamento era uma vocação religiosa. Durante os dez anos no Parlamento Finlandês, estive envolvido de perto na elaboração da legislação nacional. Era o representante finlandês no Conselho Europeu e na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Além disso, muitas vezes, compareci às assembleias das Nações Unidas, integrando a delegação finlandesa. Como resultado, minha visão de mundo se expandiu. Foi muito motivador e gratificante participar do processo legislativo nacional. Também tive a oportunidade de fazer parte da promulgação da legislação como um membro do partido governante da Finlândia. As questões educacionais e culturais estavam sob minha responsabilidade política no Parlamento Finlandês. Outra responsabilidade, na qual era muito ativo, era cooperar para o desenvolvimento. Em 2004, fui eleito para o Parlamento Europeu. Renunciei a minha cadeira no Parlamento Finlandês, uma vez que, de acordo com a legislação finlandesa, não é legal ter duas cadeiras parlamentares ao mesmo tempo. Assim, entrei para o Parlamento Europeu, onde tenho trabalhado durante os últimos seis anos. Trabalhar aqui tem sido muito interessante. Tenho sido capaz de me reunir com líderes mundiais em posições de alta responsabilidade. Além disso, tive a oportunidade de participar do desenvolvimento da legislação em toda a Europa, especialmente nos campos da educação e cultura. Outros setores políticos também são importantes. Nos últimos anos, uma das prioridades têm sido as questões de direitos humanos. No geral, o tempo dedicado aos dois parlamentos – nacional e europeu – tem sido gratificante. O meu mandato atual vai até 2014, quando será realizada nova eleição. Ainda não decidi se vou ser candidato.

Agora o senhor está em Bruxelas. Como vê os desafios para a Igreja Adventista do Sétimo Dia?

Em minha opinião, a Igreja Adventista tem de adotar uma atitude aberta com relação à tomada de decisão política e tentar ter um papel ativo, porque a política visa a cuidar de interesses mútuos. Também é importante que os pontos de vista e opiniões da Igreja sejam conhecidos no campo da política. Do ponto de vista europeu, a situação é que a Igreja Católica está muito ativa, enquanto as outras igrejas, como a Igreja Adventista, estão fechadas em si mesmas. Talvez, elas têm se concentrado no crescimento da igreja, vendo o aspecto político como secundário. Em minha opinião, seria importante estar ativamente envolvido na sociedade. Isso não significa que o tempo gasto em atividades políticas e sociais deva reduzir o tempo empregado no trabalho espiritual. No entanto, esse envolvimento seria importante para informar os legisladores sobre os valores e ideais da Igreja Adventista. Com base na política europeia em vigor, a comunicação dos valores adventistas é tão essencial quanto a dos católicos, em especial porque os membros do Parlamento apresentaram iniciativas sobre a lei dominical. A tramitação dessas iniciativas no Parlamento ainda não teve qualquer resultado, porque não houve apoio da maioria dos deputados. Na verdade, não sei se eles em alguma ocasião vão obter a maioria. No entanto, os católicos promovem sua fé e seus valores. Tenho estado à espera de ouvir, por exemplo, as opiniões dos adventistas e judeus sobre o sábado. Os legisladores devem saber se as diferentes comunidades religiosas e os seus valores são igualmente levados em conta na elaboração da legislação.

Qual é sua principal contribuição em Bruxelas?

Essa é uma pergunta difícil. Gostaria de trazer esperança e uma visão positiva para a tomada de decisão política e para o processo legislativo. Creio que durante os últimos anos, temos estado no meio de uma crise. A política tem sido usada apenas para controlar em que direção estamos sendo levados pela corrente. Metas decisivas, em menor ou maior grau, se perderam. Talvez esse tipo de liberalismo que permite tudo tenha se tornado muito poderoso na política. Desejo poder chamar a atenção para questões que realmente impactam a humanidade e as pessoas. Quero defender as pessoas como seres humanos, especialmente os seres humanos que são desfavorecidos e precisam de atenção especial e de segurança. Um assunto concreto sobre o qual participei foi a realização de um seminário sobre tráfico de seres humanos. Dois dos oradores desse seminário são adventistas: você, da Finlândia; e o pastor Wintley Phipps, dos EUA. O pastor Janos Kovacs-Biro também esteve envolvido na organização do seminário. Esse evento foi o início de uma série de outros por meio dos quais esperamos atrair membros do Parlamento e os meios de comunicação para discutir assuntos atuais. Nesse momento, sinto uma forte atração pelas questões que estão ligadas aos direitos humanos e à liberdade religiosa. Agora é o momento de trabalhar pelos menos favorecidos para que eles tenham uma oportunidade de segurança e de vida humana. Acredito que isso é importante.

Como a fé influencia seu trabalho?

A fé serve como base de todas minhas decisões. Ela também me dá uma base ética para as decisões e a prática política que conduzem a vida humana. De modo geral, a fé influencia minha maneira de pensar – às vezes, de forma explícita; outras vezes, implícita.

Que conselho daria para um jovem que busca uma carreira política?

É importante que diferentes pessoas estejam envolvidas na tomada de decisões. Na política, precisamos de pessoas de várias idades, inclusive jovens. Também acredito que todos nós precisamos levar avante nossas responsabilidades cívicas. Ser parte da política e do processo legislativo é uma forma de desenvolver a sociedade em direção a uma base de valor fundamentada nos valores cristãos. Quero encorajar os jovens a participar da tomada de decisão política e expressar abertamente as suas crenças.

Kalervo Aromäki é pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia na Finlândia. E-mail: kalervo.aromaki@gmail.com