À procura da verdade presente

Como membros do corpo de Cristo é esperado que sejamos Sua comunidade atual e redimida, a encarnação concreta da verdade presente e dos ideais de Seu reino eterno.

Falar sobre a verdade não é uma tarefa fácil. A maioria dos estudiosos concorda que não existe uma definição única para verdade. As definições vigentes continuam a ser amplamente debatidas. Os filósofos clássicos prepararam o caminho para que Tomás de Aquino definisse a verdade como “a conformidade entre a coisa e o intelecto”.1 Por muitos séculos, essa foi a definicão comum no dicionário: a verdade é uma forma de acordo entre a afirmação e a realidade. As coisas começaram a mudar quando Emmanuel Kant afirmou que a definição clássica de verdade é de fato uma mera forma de raciocínio circular,2 e Kierkegaard argumentou que “a verdade é subjetividade. Um ser humano não pode encontrar a verdade separada da experiência subjetiva da própria existência”.3 Friedrich Nietzsche acrescentou que o que chamamos de verdade é apenas “uma invenção de convenções fixas para fins meramente práticos”4, e Erich Fromm concluiu que a ideia de verdade absoluta se tornou obsoleta.5

Definições atuais de verdade

Assim, o debate sobre a verdade levou a um grande espectro de definições. Uma razão para isso é a variedade de sentidos em que a palavra verdade é usada.6 Para muitos, desde os tempos de Aristóteles, a verdade é ainda definida como uma correspondência entre a declaração e a realidade (teoria da correspondência). De acordo com esse ponto de vista, a afirmação é verdadeira quando corresponde à realidade que supostamente descreve.7 Para outros, a verdade significa coerência lógica entre o que é dito e os fatos, pelo menos dentro de um sistema (teoria da coerência).8 Desse ponto de vista, a afirmação é verdadeira se não contém contradições internas.9 Outros sustentam que a verdade é o que algum grupo específico determina (teoria do consenso).10 Para alguns, a verdade é construída por processos sociais, históricos e culturais, mas não reflete nenhuma realidade externa (teoria construtivista).11 Para outros, a verdade é identificada por sua eficácia quando se aplica os conceitos de prática (teoria pragmática).12 As teorias deflacionárias ou minimalistas argumentam que “dizer que a afirmação é verdadeira é apenas realizar o ato de concordar com, aceitar ou endossar uma declaração” (teoria performativa).13 E para outros, a verdade é apenas um conceito redundante, uma palavra tradicionalmente utilizada na conversa, principalmente para dar ênfase, mas que na realidade não equivale a qualquer coisa real (teoria da redundância).14 Apesar dessa variedade de definições, a busca pela verdade continua.15 “No mundo científico há uma busca pela verdade, o desejo de ampliar a compreensão humana da realidade. Os físicos buscam a verdade dos processos do Universo criado, os fisiologistas buscam a verdade dos processos do corpo humano, e os psicólogos buscam a verdade dos processos da mente. Os historiadores buscam a verdade dos eventos e acontecimentos que moldaram o passado humano.”16

Definições bíblicas da Verdade

Não é o meu propósito argumentar contra qualquer uma das teorias da verdade anteriormente mencionadas, embora isso fosse bastante interessante. Aqui, considero o conceito bíblico da verdade, tal como apresentado em algumas passagens do Novo Testamento.

A palavra verdade (aletheia em grego) é muitas vezes usada no Novo Testamento como a tradução do termo hebraico emeth. Ele apresenta significados distintos:

  1. A verdade como o oposto do erro (cf. Efésios 4:25). Esse uso é mais ou menos filosófico.
  2. A verdade como integridade moral, confiabilidade ou sinceridade, em oposição ao engano (cf. João 8:44). Essa utilização é principalmente ética.
  3. A verdade como realidade, uma contrapartida aos tipos, símbolos, sombras (cf. Colossenses 2:17) ou meras aparências (cf. Filipenses 1:18). Essa utilização é especialmente hermenêutica e teológica.
  4. A verdade como sinônimo de “fé cristã” (como em 2 Pedro 1:12, NVI). Esse uso eclesial é bem conhecido para os adventistas.

Jesus definiu a verdade como encarnada em Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6), uma definição que inclui todas as quatro dimensões mencionadas, uma vez que Jesus era ao mesmo tempo: (1) fiel a Deus, (2) Seu mensageiro de confiança, (3) o cumprimento dos tipos do Velho Testamento e (4) a incorporação da revelação de Deus. Se concordamos que a verdade, como revelação, consiste no vir à luz do que é real,17 a definição de verdade, apresentada por Jesus, corresponde bem ao que chamamos de revelação, pois nela Deus se revelou a nós de uma forma única. Essa definição encarnada da verdade deveria ser um paradigma válido para nós.

Verdade presente

Em 2 Pedro 1:12, é dito aos cristãos: “Vocês estão solidamente firmados na verdade que receberam.” O que essa declaração significa? Desde que a palavra “verdade” é compreendida a partir de uma multiplicidade de significados, é preciso esclarecer o sentido da palavra “presente”, que qualifica o substantivo verdade. O adjetivo parouse, traduzido como “presente”, pode ter pelo menos três significados:

  • Espacial: Uma verdade que se manifesta não está oculta ou ausente. A palavra parouse está relacionada com a parousia, “manifestação” (cf. versículo 9 e Colossenses 1:5). Nesse sentido, a verdade presente seria uma verdade que aparece claramente aos observadores.18
  • Temporal: A verdade que não só é passado ou futuro, mas relevante para hoje.
  • Existencial: A verdade relacionada com a experiência espiritual dos crentes (cf. 2 Timóteo 3:7 e 3 João 1:8). A verdade em que os crentes foram ensinados.19 Nesse caso, a verdade presente se refere à “doutrina cristã”.20
  • A nossa alegação é que a frase bíblica “verdade presente” inclui esses três sentidos. Em nossa história adventista temos usado abundantemente a expressão “verdade presente” neste último sentido, mas às vezes com um alcance restrito, como se isso significasse apenas “a mensagem adventista”. Não há nada que se oponha a esse uso interno, pois pertence à nossa herança e tem um alto valor inspirador em nossa tradição. Mas eu gostaria de focalizar a frase “a verdade presente”, considerando variados significados possíveis.

    “A Verdade Presente” na tradição adventista

    Fritz Guy, teólogo adventista, afirma: “Uma das grandes características da herança adventista é seu compromisso com a verdade, um compromisso que tem sido tipicamente vigoroso e muitas vezes corajoso. Esse compromisso foi expresso através da vontade de enfrentar o mundo caso as evidências indicassem que esse era o caminho da verdade e da disposição de discordar de outros integrantes da comunidade de fé se isso fosse exigido pela lealdade à verdade.”21

    “A ideia de ‘verdade presente’ – verdade cujo tempo chegou – é o elemento mais importante na herança teológica adventista. Enquanto a verdade eterna é, por definição, sempre verdadeira, um elemento particular da verdade pode adquirir particular relevância em um momento particular. A verdade pode, assim, ser entendida como eterna e dinâmica.”22 Para os estudantes e acadêmicos cristãos, a própria palavra verdade deveria significar descoberta e crescimento. Ser autenticamente cristão, no sentido mais amplo, é estar tão profundamente comprometido com a verdade que ainda temos que aprender com a verdade que já conhecemos. Nesse sentido, observa-se claramente que “qualquer tentativa de tornarmos determinados entendimentos anteriores, independentemente de sua configuração histórica, o critério final de interpretação presente e futuro da fé não é apenas uma má ideia, é uma traição do princípio básico adventista de ‘a verdade presente’”.23

    Alguns crentes, ansiosos em serem fiéis à verdade revelada por Deus para Seu povo, parecem ignorar os desafios do mundo atual e vivem olhando para o passado, para ter a certeza de não se afastarem da verdade presente dos pioneiros. Outros, ansiosos por apresentar respostas ao mundo ao seu redor, não hesitam em adaptar a revelação de Deus, em sua busca por relevância para enfrentar os desafios do presente. Para escapar das armadilhas desses dois extremos, torna-se necessário superar a tentação de separar as realidades que andam juntas. Por fidelidade ao texto bíblico, não podemos separar a “verdade” da palavra “presente”.24

    Compromisso com a verdade

    Como cristãos, temos um duplo compromisso: com a verdade revelada de Deus e com o mundo atual em que Ele nos colocou com uma missão (Mateus 28:18-20). Esses dois compromissos às vezes podem parecer estar em conflito. Alguns de nossos contemporâneos, sensíveis às tendências científicas, têm dificuldade em conciliar a noção bíblica da verdade e sua visão da realidade. Como estudiosos cristãos, podemos nos sentir presos na tensão dolorosa entre “presente” e “verdade”, como se essas duas realidades fossem quase dois mundos separados. Somos tentados a nos retirar claudicando de um mundo a outro. Nós muitas vezes lutamos para permanecer fiéis à revelação de ontem, a fim de que seja possível ver suas implicações com as realidades de hoje. Embora possa não ser fácil combinar lealdade para com o passado e sensibilidade para com o presente, esta é nossa vocação e missão cristã: viver no mundo sob a Palavra. Como discípulos de Cristo, somos chamados a fazer da verdade presente uma verdade que está presente.

    Se acreditamos que a tarefa do pesquisador cristão é procurar a verdade, abraçar a verdade e ensinar a verdade, podemos concordar que, para nós, como indivíduos, “bem como para a comunidade de fé, o compromisso com a verdade é o primeiro e o mais elevado princípio da teologia. Porque a teologia é uma empresa cognitiva, a verdade é seu valor supremo.”25 Como membros do corpo de Cristo, temos um compromisso pessoal e coletivo com a verdade.

    A verdade como doutrina

    No mundo clássico ocidental, a verdade era para ser encontrada por meio da razão e da reflexão. Era esperado que o pensamento esclarecido produzisse ações virtuosas para que a pessoa racional fosse uma pessoa boa. Assim, para Platão, “não haverá fim para os problemas dos estados ou da própria humanidade até que os filósofos se tornem reis neste mundo, ou até que aqueles, que hoje chamamos de reis e governantes, real e verdadeiramente se tornem filósofos.”26 Ainda hoje, essa ideia está viva e tem sido chamada de mito ocidental fundamental: “mito da cabeça, da mente, da importância da lógica racional e impessoal.”27

    Quando traduzida em termos cristãos, a visão clássica equivale à verdade com razão e proposições doutrinárias. Esse ponto de vista intelectual da verdade é evidente na ideia popular de que a religião é um assunto pessoal, uma decisão privada, dependente de crenças. Essa abordagem doutrinária da verdade torna muitas vezes a espiritualidade tão preocupada com a formulação correta de nossas crenças e a defesa de nossos dogmas que pode deixar de lado a centralidade de nosso próprio compromisso com Deus na vida cotidiana. A partir desse ponto de vista, o conhecimento é principalmente teórico, e isso torna possível a um estudioso reconhecer a Bíblia “como a encarnação do conhecimento e da verdade, e ver a si mesmo como seu professor ortodoxo... e pregar os mandamentos e ainda roubar ou cometer adultério ou roubar o templo” (cf. Romanos 2:21, 22). Através de tais inconsistências, diz Paulo, o nome de Deus é blasfemado.28 Nossa experiência pessoal mostra que nossa ação pode se afastar de alguma forma de nossas crenças estabelecidas. Nosso assentimento intelectual a certas doutrinas nem sempre nos faz colocar em prática algumas de suas implicações. Assim, por exemplo, podemos argumentar publicamente sobre a soberania de Deus, embora não permitamos que Ele governe nossa vida privada. Um dos problemas do cristianismo tradicional ao longo dos tempos é sua tendência à elevação da ortodoxia (pensamento correto) acima da ortopráxis (ação correta). Nós não precisamos ir muito longe na história para observarmos que a presunção de possuir a verdade muitas vezes levou à arrogância, intolerância ou condição ainda pior.

    A verdade “como é em Jesus”

    Jesus Cristo, nosso mestre e modelo, deu-nos um exemplo perfeito do que significa estar comprometido com a verdade. NEle, palavras e ações, tanto públicas quanto privadas, foram consistentes. Sua vida era vivida por inteiro, não era uma vida compartimentalizada: profissional, social, espiritual e assim por diante... A partir da linha de pensamento predominante na maioria dos filósofos de Seu tempo – e de nosso tempo –, Jesus advertiu que “conhecer a verdade” não é somente um esforço intelectual, mas uma experiência libertadora existencial (cf. João 8:32). Esse tipo de conhecimento é um processo de compromisso que envolve toda a pessoa. Um pensamento compartimentalizado é estranho aos verdadeiros discípulos de Cristo. Eles são chamados a tornar a verdade presente na teoria e ação, na crença e no comportamento, na cognição e comprometimento. O compromisso com a verdade exige que o estudioso cristão seja “escrupuloso na montagem da prova, honesto em reconhecer os argumentos contra sua posição, justo na avaliação da força desses argumentos e simpático em representar a posição daqueles de quem discorda”.29 Nesse sentido, defender a verdade requer tanta humildade e coragem quanto conhecimento e inteligência.

    Viver a verdade

    Nossa preocupação aqui é esta: Como podemos lidar com a verdade de maneira que a nossa vida pessoal se transforme, tornando-nos pessoas melhores, e nossa missão como igreja seja reforçada? Paulo diz que a conversão deve afetar nossa maneira de pensar, e que devemos ser “transformados pela renovação de nossas mentes” (Romanos 12:1-2). Essa nova maneira de pensar, de acordo com a visão bíblica da pessoa como uma entidade inteira, não deixa espaço para uma dicotomia de pensamento e ação. Segundo a Bíblia, a verdade é essencialmente relacional. A realidade e a verdade são mais bem conhecidas não só pela reflexão racional, mas também pela experiência direta. O verdadeiro conhecimento de Deus é, portanto, essencialmente empírico e cresce a partir de um encontro pessoal com Ele. O conhecimento pessoal de Deus não é apenas o conhecimento de proposições a Seu respeito. Não é o resultado de um pensamento especulativo, mas o resultado de uma experiência pessoal com Deus e com Sua obra de salvação (cf. Deuteronômio 4:39, Jeremias 22:15-16). Nesse sentido, portanto, conhecer a verdade é mais do que saber sobre ela. Conhecer a Deus – fonte da Verdade final – é encontrar-se com Ele e experimentá- Lo, ouvir Sua voz e obedecer-Lhe. É por isso que a fé bíblica não é um mero produto da razão. Não é apenas uma certeza intelectual em matéria de doutrina.

    Não diz Tiago que até os demônios “creem” (cf. Tiago 2:19)? Pois a fé, de acordo com o Novo Testamento, é uma atitude de confiança e de compromisso com uma Pessoa em vez de apenas uma lista de crenças,30 embora essas crenças sejam importantes. O que estou defendendo é que a fé precisa nos levar além de uma perspectiva individual e especulativa na esfera de envolvimento pessoal (João 8:31-32). A verdadeira fé faz a verdade presente na vida de uma pessoa.

    Fazendo a verdade presente

    Como podemos lidar com a verdade de maneira que toda a nossa vida seja envolvida por ela, dando-nos uma percepção mais clara de nossa realidade presente e de nossa missão? Como podemos tornar a verdade presente em nossa vida pessoal?

    Se a tarefa do estudioso cristão é procurar a verdade, conhecer a verdade e ensinar a verdade, seria de se esperar, portanto, que eles refletissem em sua vida, melhor do que ninguém, os resultados desse compromisso. A verdade é poderosa quando é teorizada, mas é ainda mais poderosa quando é materializada. Há poder na oração, mas há ainda mais poder se orarmos e agirmos ao mesmo tempo. Há poder na verdade, mas há mais poder ainda na verdade que está presente. As pessoas precisam não só entender os argumentos de nossa fé, mas ver seus benefícios. Um estudante cristão em uma sala de aula, uma enfermeira em um hospital, uma secretária em um escritório, um assistente em uma loja, ou um trabalhador em uma fábrica comprometidos em viver a verdade presente podem ter uma influência incalculável. Como cristãos, temos uma missão. Somos pessoas assinaladas na escola, no trabalho e em casa. O mundo está nos observando (cf. 2 Coríntios 3:2; Hebreus 12:1-2).

    A Igreja que faz a verdade presente

    Como membros do corpo de Cristo, estamos destinados a ser Sua presente e redimida comunidade, a encarnação concreta da verdade e dos ideais de Seu reino. O pequeno grupo foi o caminho de ação escolhido pelo nosso próprio Senhor. Ele começou com os Doze. A história da igreja que veio depois deles transborda em exemplos de influência estratégica de pequenos grupos. Ao longo dos séculos, a humanidade tem sido liderada por minorias ousadas. Tom Sine abordou bem esse fato em seu livro The Mustard Seed Conspiracy (A Conspiração da Semente de Mostarda), cujo título alude à pequena semente de um grande arbusto que cresce. Seu subtítulo é “Você pode fazer a diferença no mundo conturbado de amanhã.”31 Esta é sua ideia principal:

    “Jesus nos permitiu conhecer um segredo surpreendente. Deus escolheu mudar o mundo por meio do humilde, singelo e imperceptível... Essa sempre foi a estratégia de Deus mudar o mundo por meio da conspiração do insignificante. Ele escolheu um marginalizado grupo de escravos semitas para se tornar os insurgentes de Sua nova ordem... E quem sonharia que Deus iria escolher trabalhar através de um bebê em um estábulo para dar a volta ao mundo! Deus escolheu as coisas loucas, as coisas fracas, as coisas humildes, as coisas que não são... A política de Deus ainda é trabalhar com o presente embaraçosamente insignificante para mudar seu mundo e criar seu futuro.”32

    Sobre essa afirmação, John Stott escreveu: “O presente embaraçosamente insignificante. Eu sinto a necessidade de sublinhar essa política às avessas que Deus adotou. Ao mesmo tempo, estou ansioso, pois devemos compreender que é real. O que falta em números na minoria, pode-se fazer em convicção e compromisso.”33

    Motivados por seu amor a Cristo, à humanidade e a seu compromisso com a verdade, os primeiros cristãos, os reformadores, e seus herdeiros, incluindo a Igreja Adventista, iam por toda parte pregando a Palavra de Deus e transformando o mundo, porque nada tem tal influência humanizadora como o evangelho. Em seus esforços para viver a verdade presente, o povo de Deus fundou escolas e hospitais, cuidou dos cegos e dos surdos, dos órfãos e das viúvas, doentes e moribundos; lutou contra o comércio de escravos, melhorou as condições dos trabalhadores em fábricas e minas e dos prisioneiros; protegeu de abuso as crianças e mulheres; e trouxe a todos os tipos de pacientes tanto a compaixão de Jesus quanto métodos modernos de medicina, cirurgia reconstrutiva e reabilitação. Viver a verdade presente nos mantém pregando o evangelho até o fim.

    Conclusão

    Aprendemos com Jesus que o compromisso com a verdade exige compromisso pessoal com Ele. Nós somos fiéis à verdade, tornando Cristo realmente presente em nossa vida e ao nosso redor (cf. Mateus 25:31-46). O sábio discípulo é guiado pelo “Espírito da verdade em toda a verdade” (João 16:13). O poder das palavras de Jesus é conhecido ao colocá-las em prática. Enquanto Jesus é o Verbo de Deus encarnado, muitas vezes, nos satisfazemos com palavras retoricamente embalsamadas. Mais importante que a formulação do evangelho no credo correto – e isso é importante – é nos esforçarmos para encarná-lo em brilhante ação. A verdade precisa se tornar presente.

    Minha proposta é que em vez de construirmos sobre uma noção restritiva da verdade presente como patrimônio, construído em uma lista concreta de doutrinas, deveríamos construir sobre a noção bíblica da verdade feita presente, enraizada na dinâmica da sabedoria divina. Em vez de relacionar o conceito de verdade presente, principalmente, a um conceito restritivo de remanescente de Deus, o que resulta muitas vezes em uma mentalidade exclusiva e em uma igreja autocentrada, devemos nos esforçar para fazer a verdade presente, ligando nossa missiologia na justiça e na misericórdia, e não em números e resultados. Em vez de restringir a verdade presente apenas ao reino apocalíptico, devemos explorar a teologia bíblica de tempo, em que os fundamentos permanentes atravessam as urgentes expectativas de tempo, e o kairós (as atuais oportunidades) inspira nossa forma de nos prepararmos para a vinda dos eventos de kronos (tempo final). Em vez de uma abordagem legalista à lei de Deus, devemos lidar com a lei de Deus como uma forma viva de verdade fazendo-se presente em nossa vida cotidiana, resultado de nossa aliança com Deus, através da presença do Espírito Santo em nosso coração. Assim, mantendo-nos “firmemente estabelecidos na presente verdade” (2 Pedro 1:12), seremos capazes de fazer a verdade realmente presente em nossa vida e ao nosso redor.

    Roberto Badenas (Ph.D., Universidade Andrews) recentemente se aposentou depois de servir à Igreja por 43 anos como teólogo, pastor, professor, autor de diversos artigos e dois livros. O último cargo que ocupou foi como diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica e Diretor Departamental de Educação e Ministérios da Família da Divisão Intereuropeia. Este artigo é uma adaptação do capítulo “Dealing with ‘Present’: 2 Pedro 1:12 Revisited”, publicado no livro Exploring the Frontiers of Faith: Festschrift in Honour of Dr. Jan Paulsen, (ed. Borge Schantz e Reinder Bruisma. Lüneburg: Advent Verlag, 2009).

    REFERÊNCIAS

    1. T. Aquinas, De veritate 1:1; cf. L. Dewan, “Is truth transcendental for St. Thomas Aquinas?” Nova et Vetera, 2 (2004) 1: 1-20.
    2. E. Kant, Critique of Pure Reason (Palgrave Macmillan, 1929), 197.
    3. S. Kirkegaard, Philosophical Fragments (Princeton, New Jersey: University Press, 1985), 75; Concluding Unscientific-Postscript (Princeton, New Jersey: University Press, 1974), 181-182.
    4. Ver L. Hinman, “Nietzsche, metaphor and truth”, em Philosophy and Phenomenological Research 43 (1982) 2:179-199.
    5. E. Fromm, Man from Himself: An Inquiry into the Psychology of Ethics (Nova Iorque: Holt, 1947).
    6. Para uma introdução e discussão das teorias sobre a verdade, veja B. Dowden and N. Swartz, “Truth”, em The Internet Encyclopedia of Philosophy, ed. James Fieser, http://www.utm.edu/research/iep/ (2005).
    7. F. Canale, The Cognitive Principle of Christian Theology (Berrien Springs: Andrews University, 2005), 450-451; A. Tarski, “The semantic conception of Truth”, em Philosophy and Phenomenological Research 4 (1944): 341-376.
    8. Por exemplo, Hegel, Spinoza, Leibniz, etc.
    9. J. Young, “The coherence theory of truth”, em Stanford Encyclopaedia of Philosophy, acessado em 09 de setembro de 2008, http://plato.stanford.edu/entries/truth-coherence/.
    10. Ver J. Habermas, Communication and the Evolution of Society (Boston: Beacon Press, 1979), 1-68.
    11. A expressão “epistemologia contrutivista” foi usada pela primeira vez por J. Piaget no famoso artigo “Logique et connaissance scientifique” (1967) que apareceu na Encyclopédie de la Pléiade. Ele se refere ao matemático A. Brouwer (1605-1638) e ao filósofo G. Vico (1668-1744). Cf. Constructivist epistemology (www.answers.com/topic/constructivistepistemology).
    12. Por exemplo, W. James, C. Peirce, J. Dewey, etc.
    13. Ver P. Strawson, “Truth” em Proceedings of the Aristotelian Society, suppl. vol. XXIV, 1950. Cf. R. Kirkham, Theories of Truth (Cambridge, Massachussetts: MIT Press, 1992). O capítulo 10 contém uma detalhada discussão da teoria performativa da verdade de Strawson.
    14. F. Ramsey, “Facts and Propositions” (1927), reimpressa em Philosophical Papers, ed. D. Mellor (Cambridge: Cambridge University Press, 1990), 34-51.
    15. T. Currie III, Searching for Truth: Confessing Christ in an Uncertain World (Westminster: John Knox Press, 2001).
    16. F. Guy, Thinking Theologically (Berrien Springs, Michigan: Andrews University Press, 1999), 250.
    17. Canale, 452.
    18. A ideia de verdade como divulgação, foi desenvolvida no trabalho de Heidegger e outros. Com base na palavra grega aletheia, a verdade é entendida como “a descoberta ou revelação de algo anteriormente oculto. A verdade, nesse sentido, significa revelar ou descobrir. Como divulgação, a verdade existe quando a realidade se revela sem distorção”. Ver Canale, 452.
    19. Seventh-day Adventist Bible Commentary (Washington, DC: Review and Herald Pub. Assn., 1955), 6: 599.
    20. G. Harder, in Theological Dictionary of the New Testament 7, 656, traduz a verdade presente aqui como “Christian doctrine or Christianity generally”.
    21. Guy, 250.
    22. Ver B. Wiklander, “The truth as it is in Jesus”, em Ministry (February 1996): 5-7.
    23. Guy, 80.
    24. Ver E. Tolle, The Power of Now: A Guide to Spiritual Enlightenment (Vancouver: New World Library, 2004).
    25. Guy, 52.
    26. Plato, The Republic 473C.
    27. M. Novak, The Spirit of Democratic Capitalism, (Nova Iorque: American Enterprise Institute, 1982).
    28. G. Berkouwer, “Revelation and Knowledge”, em Studies in Dogmatics: General Revelation (Grand Rapids: Eerdmans, 1955), 137-171.
    29. B. Mitchell, Faith and Criticism (Oxford: Clarendon Press, 1994), 23.
    30. A. Chouraqui, traduz “fé ” por adesão e comprometimento, e “crer” em adesão e apoio (La Bible, Paris: Desclée de Brouwer, 2003).
    31. Ver T. Sine, Mustard Seed versus McWorld (Grand Rapids, Michigan: Baker, 1999).
    32. Sine, The Mustard Seed Conspiracy (Londres: MARC, 1981).
    33. J. Stott, Issues Facing Christians Today (Grand Rapids: Zondervan, 1984), 19-22, 75-78.