Relacionamentos: contornos culturais ou orientação bíblica?

Uma relação íntima, positiva e monogâmica faz com que o crescimento e a integração da identidade ao longo da vida seja mais fácil. Nesse assunto, a cultura não pode ser nosso melhor guia, mas sim as orientações bíblicas acerca de relacionamentos íntimos e amorosos.

Considere o seguinte:

Quem é responsável por essas crenças? Em uma palavra: a cultura. Em todo o mundo, temos culturas que aceitam algumas dessas afirmações como verdadeiras, enquanto outras negam veementemente sua veracidade. Tudo depende de qual parte desse vasto mundo alguém está. A cultura, muitas vezes, cria e perpetua identidades e formatos que diferem de um lugar para outro.

Enquanto isso, a Bíblia sugere um padrão focado em relacionamentos e cooperação. A identidade é formada em relação a outras pessoas significativas. Assim, é muito importante o que os outros pensam de mim, as mensagens que eles me passam e o que eu acho que as outras pessoas pensam de mim. Acima de tudo, a Bíblia ordena que eu viva dentro de uma perspectiva acerca do que Deus espera de mim, de meu relacionamento com Ele e com meu próximo.

A vida relacional implica o desenvolvimento de identidades individuais para o casal. Sendo assim, a sexualidade também é um fator criador de identidade. Isso nos faz perguntar: Como é que as relações sexuais afetam a identidade de um indivíduo? É possível que a identidade de alguém possa ser afetada negativamente por relações não monogâmicas? Com a ajuda da Bíblia, não é difícil obter respostas para essas questões. Mas existe alguma maneira de provar isso com base em posições científicas?

Um pouco de teoria

Humberto Maturana1, biólogo chileno e neurofilósofo, propôs uma teoria geral da cognição na qual sugere que a existência da mente se deu por meio da interação humana e do uso da linguagem. Sua premissa básica é a de que nossa mente não está em nosso cérebro. Ao contrário, diz ele, nossa mente é resultado da interação linguística estabelecida por dois atores humanos. Das ideias de Maturana, podemos chegar a duas deduções muito interessantes para o propósito deste artigo: (1) que a consciência é social, não bioquímica; e (2) que as relações sociais são criadoras de identidade.

Michael White2, psicólogo australiano e fundador da terapia narrativa, afirma que a vida das pessoas é moldada pelo significado que elas conferem às suas experiências, ao lugar que elas ocupam dentro de estruturas sociais e às práticas culturais e linguísticas próprias e de seus relacionamentos. A partir da leitura de White, podemos concluir que (1) uma igreja é uma estrutura social que participa na formação da identidade e (2) que as pessoas com um conjunto definido de crenças religiosas atribuem diferentes significados às suas experiências da vida se comparadas a pessoas que não têm o mesmo conjunto de crenças.

Assim, nossa identidade é formada como resultado de nossos processos interativos com outras pessoas. Ao mesmo tempo, cada indivíduo deve aprender a construir sua própria identidade dentro do grupo social em que interage. Finalmente, outro princípio teórico importante a manter em mente é chamado de “teoria do apego”, para o qual nos voltamos agora.

O amor como criador de identidade

As crianças precisam da demonstração de amor. Quando não recebem o cuidado adequado, quando não lhes é demonstrado amor ou carinho suficientes, o desenvolvimento da identidade é afetado de forma negativa, como tem sido amplamente demonstrado pela teoria do apego em todas as suas formas: desorganização, ambivalência/resistência, esquiva e insegurança. Não é objetivo deste artigo explicar em detalhe cada um desses tipos de fixação. No entanto, um tipo de relacionamento compromissado é necessário se quisermos desenvolver um estilo de apego seguro, que é caracterizado por incutir uma ideia positiva de si e dos outros.3

É importante notar que o apego não é algo que está presente apenas durante a infância, mas é um padrão de comportamento que se mantém ativo durante toda vida.4 Uma das primeiras manifestações de apego é o amor que, aparentemente, inclui três elementos no processo de desenvolvimento da identidade5. São eles: (1) dois componentes comportamentais — dar e receber afeto, (2) dois componentes cognitivos — ver o que é positivo e bom no outro e perdoar, e (3) um componente emocional — garantir a intimidade.

A condição humana provê a base principal para garantir nossa identidade através da interação entre o que dizemos que somos, o que outras pessoas nos disseram que somos e o que os contextos confirmam que somos. No caso de duas pessoas, por exemplo, essa identidade é mantida por dois membros mediante (a) definição que cada um dá a si mesmo e aquela atribuída ao outro membro, (b) definição que cada membro tem do outro e (c) definição que cada um obtém a partir do outro.

A construção relacional como casal é uma interação contínua entre seus membros envolvendo as expectativas de um em relação ao outro, os contextos originais e atuais, contradições, confirmação e refutação. Todos esses fatores são criadores de identidade.

Os casais da pós-modernidade pertencem a um mundo em mudança, em que os valores permanentes têm desaparecido. A incerteza agora é a norma. Há menos idealização, mais datas de validade e menor permanência. Assim, quando alguém pensa em estabelecer um relacionamento estável, medos e dúvidas aparecem. As pessoas temem se sentir presas e perder sua identidade e liberdade. Elas temem se distanciar da família, crescer e assumir novas obrigações. Todos esses medos se tornam parte de nossa identidade. Quem comunica esses medos: o medo de que um relacionamento estável seja ruim ou negativo, medo de que o casamento inevitavelmente acabe muito rápido?

A resposta a essas perguntas é bastante clara. Nossa própria sociedade e cultura são os geradores desses medos que acabam sendo internalizados pelas pessoas e refletidos em comportamentos contrários à formação de uma identidade estável ou pelo menos livre de medo.

Um casal humano é um criador de identidade. Quanto mais estável é um casal, mais consolidada será a identidade de seus membros dentro de um contexto de segurança. Nesse relacionamento, os membros do casal são capazes de expressar abertamente suas vulnerabilidades. Apenas em um relacionamento estável é possível desenvolver uma ligação emocional para canalizar nossa necessidade interior de segurança, proteção e contato humano.

A sexualidade como um criador de identidade

A partir do que foi discutido anteriormente, uma conclusão lógica pode ser extraída: a de que a sexualidade é uma parte essencial na formação da identidade. O sexo é parte de uma intimidade que se desenvolve entre duas pessoas. Mas o que é intimidade, afinal de contas? E por que ter relações sexuais apenas “por diversão” acaba afetando nossa identidade?

Díaz Morfa6 define intimidade como a capacidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa a fim de entrar em contato com seus sentimentos. Ele ressalta que a intimidade requer que o indivíduo mantenha sua própria individualidade, e que só alguém que confia em sua identidade é capaz de envolver- se efetivamente em um relacionamento abrangente. De acordo com Morfa, ter relações sexuais com outra pessoa não por amor, mas para satisfazer uma necessidade física, não é um ato íntimo. Na verdade, diz ele, a intimidade exige que eu me doe e compartilhe meus sentimentos para que através do sexo a verdadeira intimidade possa ser alcançada.

Em outras palavras, ter relações sexuais ocasionais, sem qualquer tipo de compromisso, ou relações sexuais monogâmicas descompromissadas (com o acordo de que a relação pode ser interrompida a qualquer momento para iniciar outra), afeta nossa identidade, entre outras coisas, por causa do conflito que surge dentro da intimidade.

Mais uma vez, a sexualidade, entendida como um contexto seguro de criação de identidade, em que posso me expressar como sou e onde sou capaz de crescer, é atropelada por medos internalizados.

Existem vários medos que impedem a intimidade de florescer. Todos eles estão relacionados com nossas próprias vulnerabilidades, necessidades e identidade. Morfa7 identifica alguns deles como: (1) medo de revelar a si mesmo, (2) medo de ser abandonado, (3) medo de um ataque agressivo, (4) medo de perder o controle, (5) medo de nossos próprios impulsos destrutivos, (6) medo de perder nossa própria individualidade.

Em contraste com essas situações negativas, a teoria do apego define o amor entre adultos como um elo emocional que faz a ligação entre nossa necessidade interna de segurança, proteção e contato com outras pessoas significativas. Como casais, vivemos para dar e receber afeto, assim, buscamos uma relação íntima duradoura. Se eu optar por múltiplos parceiros, minha segurança e necessidade de afeto será definitivamente afetada.

O apego constitui uma base segura para nossa identidade, uma fonte de proteção e contato íntimo que alivia a tensão e permite a adaptação positiva e bem-estar geral.8 Essa “base segura” é caracterizada pela confiança na disponibilidade e resposta do cuidador e pelo sentimento de que se é digno do amor e carinho recebido. É possível desfrutar dessa “base segura” em um envolvimento de uma noite? Não podemos perder essa confiança quando percebenos que o relacionamento é baseado apenas em sexo?

Conclusão

O desenvolvimento e a manutenção de uma identidade estão intimamente relacionados com o processo de apego9. Assim, uma relação segura é a arena natural em que é possível reintegrar nossas próprias características que têm sido negligenciadas ou rejeitadas, ou nem sequer formuladas. A base da verdadeira intimidade é a possibilidade de compartilhar nossa vulnerabilidade emocional10. Uma relação íntima, positiva e monogâmica faz com que o crescimento e a integração da identidade ao longo da vida seja mais fácil. Nesse assunto, a cultura não pode ser nosso melhor guia, mas devemos nos guiar pelas orientações bíblicas sobre relacionamentos íntimos e amorosos.

Carlos A. Chimpén (Psy.D., Universidade de Salamanca) leciona psicologia na Universidade de Extremadura, na Espanha. E-mail: cchimpen@unex.es

REFERÊNCIAS

  1. H. Maturana, “Ontologia del converser”, em Terapia Psicologica 10 (1988b):15-23.
  2. M. White, Guías Para Una Terapia Familiar Sistémica (Barcelona: Gedisa, 1944).
  3. S. Yárnoz, I. Alonso-Arbiol, M. Plazaola, L. Sainz de Murieta, “Apego en adultos y percepción de los otros”, em Anales de psicología 17 (2001) 2:159-170.
  4. M. Ainsworth, “Attachments beyond infancy”, em American Psychologist 44 (1989): 709-716; J. Bowlby (1969/1982). Attachment and Loss, vol. I. London: The Hogarth Press, 1969, 1982); Bowlby, “Developmental psychiatry comes of age”, em American Journal of Psychiatry, 145 (1988): 1-10.
  5. J. Díaz Morfa, Prevención de Los Conflictos de Pareja, (Bilbao: Desclée de Brouwer, 2003).
  6. Ibid.
  7. Ibid.
  8. M. Hofer, “Relationships as regulator: A psychobiological perspective on bereavement”, em Psychosomatic Medicine, 46 (1984):183-198.
  9. V. Guidano, “Affective change events in a cognitive therapy systems approach,” in Safran and Greenberg, ed., Emotion, Psychotherapy and Change (Nova Iorque: Guilford, 1991), pp. 50-81.
  10. L. L´abate and S. Sloan, (1984), “A workshop format to facilitate intimacy in married couples”, em Family Relations, 33 (1984): 245-250.