A educação cristã realmente é um “ministério”?

Atuar como professor em uma escola cristã não qualifica automaticamente alguém para ser um “professor-ministro”. Ser assim descrito é, na verdade, uma honra, mas também é uma responsabilidade que deve assumir todo aquele que acredita ser chamado para servir nesse ministério.

Os educadores cristãos usam vários termos e expressões para descrever a tarefa em que eles estão envolvidos, tais como “educação cristocêntrica”, “ensino a partir de uma perspectiva cristã”, “currículo baseado na Bíblia”, “disciplina redentora”, “ministério servil”, e assim por diante. Esses termos parecem razoáveis e adequados para descrever a tarefa em que os professores cristãos estão engajados. Embora cada termo tenha uma conotação particular, todos eles apresentam uma noção do que significa o “ministério”. A correlação entre educação cristã e “ministério de ensino” não é incomum. Mas isso trata-se apenas de um jargão fantasioso, um clichê, ou de fato a educação cristã é um ministério?

Essa questão leva a muitas outras. O que queremos dizer por ministério? Quantos ministérios existem? Será que todos os ministérios são iguais ou compartilham algo em comum? Eles têm todos o mesmo status de igualdade? Este artigo tenta identificar e explicar a essência do ministério. Também procura analisar se o conceito de ministério se aplica à educação cristã e como esse conceito afeta a prática e a administração da educação. Além disso, o artigo explora a questão crucial: quão bem a prática nas escolas cristãs atualmente reflete esse ideal?

Principais considerações

O fundamental para nossa discussão é adotarmos uma posição biblicamente embasada ou “uma mente cristã”, expressão de autores como Harry Blamires.1 Trata-se de algo mais do que um rótulo casual. No Ocidente, vivemos o secularismo e somos impactados profundamente por ele. Devido ao impacto ser maior do que imaginamos, precisamos estar vigilantes diante das sutilezas do secularismo para conscientemente resistir às práticas que estão em conflito com os princípios e valores bíblicos.2 Adotar a perspectiva cristã desafia uma de nossas maiores fraquezas: a tendência de viver uma vida compartimentalizada, que separa o sagrado do secular.3 Na pior das hipóteses, a sensibilidade espiritual diminui à medida que a modernidade secular prevalece. Apesar de os educadores cristãos frequentemente falarem de “um equilíbrio entre o espiritual, mental, físico e social”, a realidade é que ele é muitas vezes fragmentado e dividido. Por exemplo, as atividades espirituais de uma escola cristã frequentemente são distintas do currículo formal em que as matérias são ensinadas de acordo com os critérios ditados pelo poder público.

Diante dessa realidade, a autêntica educação cristã pode ser descrita como um ministério? Para responder a essa e a outras perguntas, relacionadas aos conceitos de realidade, bondade e valor, a Bíblia nos provê orientação e um quadro de referências. As respostas para todas essas perguntas derivam do fluxo histórico das Escrituras. Esse fluxo compõe uma metanarrativa poderosa, descrita diversas vezes como “conflito cósmico” ou “criação-queda-redenção-consumação”. Diante da atitude depreciativa da pós-modernidade em relação ao núcleo das metanarrativas, os cristãos afirmam que ela é a base de uma cosmovisão distintiva e normativa, o centro de sua fé pessoal. A metanarrativa cristã é o centro da fé que o cristão professa, dando-lhe respostas sobre quem é Deus, o que Ele tem feito, a origem e os dilemas da humanidade, a resposta divina a esses problemas e o destino final da humanidade.

Apreciando o que significa ser humano. É fundamental para nossa discussão uma clara compreensão do que significa ser verdadeiramente humano. Ao contrário de suposições amplamente defendidas de que os seres humanos evoluíram de um estado primitivo, essa discussão endossa o relato bíblico dos seres humanos sendo criados exclusivamente pelo próprio Deus (conforme Gênesis 1, 2, Salmo 8). Como criaturas, os seres humanos são essencialmente dependentes de Deus como fonte de vida. DEle emanam a compreensão e o propósito da existência, que inclui a inteligência, tomada de decisão, criatividade, emoção, características físicas, individualidade, sociabilidade e espiritualidade. Dessa forma, o ser humano deve refletir a imagem divina, apresentando em si vislumbres das características de Deus. Contudo, a personalidade é mais do que simplesmente a soma das partes. Essas qualidades constituem um todo inter-relacionado, a alma humana “que vive , se move e tem o seu ser” no Criador (veja Atos 17:28).

Reconhecendo a situação da humanidade. Um problema fundamental confronta cada membro da humanidade. Os cristãos acreditam que a rebeldia dos primeiros pais rompeu o relacionamento aberto com o Criador. Consequentemente, eles e o mundo mergulharam em um conflito de proporções cósmicas, comprometendo a imagem divina que deveriam refletir. Apesar dessa condição, a natureza humana em sua essência anseia e busca ativamente se reconectar com o Criador. Agostinho afirmou: “Nosso coração estará inquieto enquanto não encontrar seu descanso em Ti.”4

O contexto e a essência do ministério

A Bíblia proclama as boas-novas de que Deus proveu esperança e sentido para a existência humana em face do desvio e quebrantamento causados pela queda. Ao contrário da acusação popular de que Deus é cruel e vingativo, Sua compassiva natureza redentora é destacada no início de Gênesis 3 e está presente em toda a Escritura.

A declaração de João 3:16, frequentemente citada, é seguida por outra de profundo significado: “Pois Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dEle” (João 3:17, NVI).

Muitos cristãos tendem a preocupar-se com o lado forense da salvação e fracassam em reconhecer que a palavra “salvar” ou sozo (grego) também tem conotações de cura, não só de doenças físicas, mas também de cura completa – física, mental e espiritual. Em seus atos milagrosos de cura, Jesus deu testemunho disso. A cura física foi acompanhada pela cura emocional e espiritual. Relacionamentos quebrantados foram restaurados e exclusões foram dissolvidas, resultando na aceitação social, reconciliação e paz. Salvação é restauração no sentido mais abrangente. A restauração é mais do que a soma das partes, ela é holística ou integral. Ela se concentra no desenvolvimento de toda a pessoa – espiritual, intelectual, físico e social. O termo “pessoa inteira” tem implicações importantes. Embora os aspectos da personalidade possam ser identificados como elementos distintos, a noção de desenvolvimento holístico pressupõe a integração efetiva ou entrelaçamento de cada elemento com os outros. Para a mente ocidental, esse é um desafio conceitual que deve ser superado.

O conceito do ministério tem destaque nos escritos de Paulo ao discorrer sobre a ekklesia ou “igreja”, no Novo Testamento. Devido à sua função, foi definida como koinonia – “comunhão” ou “comunidade de fé”, e “corpo de Cristo”. O objetivo sempre foi construir, restaurar e reconciliar. As palavras de Paulo são notáveis e esclarecedoras: “Foi [Cristo] que designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo... DEle todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função” (Efésios 4:11-16).

A palavra traduzida como “preparação” tem conotações significativas. O verbo katartismon implica cura. Na perspectiva grega, significa a reabilitação de um membro quebrado ou a restauração de uma articulação deslocada. Esse verbo também tem significado político. Indica a reunião de partes alienadas para permitir a continuação de uma governança harmoniosa.5 Em essência, esse processo representa uma reversão da alienação resultante do pecado de nossos primeiros pais. Esse ministério está focado em Cristo. Como Paulo afirma de forma tão eloquente: “Ele foi supremo no início e – liderando o desfile da ressurreição – Ele é supremo no final. Do começo ao fim, Ele está lá, elevando-Se muito acima de tudo e de todos. Então, Ele é supremo, tão supremo, que tudo de Deus encontra o seu lugar nEle, sem aglomeração. Não só isso, mas todos os pedaços quebrados e deslocados do Universo – pessoas e coisas, animais e átomos – adequadamente se fixam e se encaixam em harmonias vibrantes, tudo por causa de Sua morte, o sangue que escorreu da cruz”(Colossenses 1:18-20, A Mensagem).

Um ponto que merece destaque é que o ministério da reconciliação acontece em comunidade. Mas o que estamos considerando é mais do que uma comunidade como um fenômeno sociológico. William Andersen argumenta que a igreja do Novo Testamento, ekklesia, encaixa-se no perfil da comunidade, mas sua argumentação avança um pouco mais. Ele afirma que a escola cristã deve ser reconhecida como um ministério da igreja em geral, refletindo os mesmos elementos da comunidade, compartilhando o mesmo objetivo final: a restauração da totalidade ou, como muitas vezes se afirma, “a restauração da imagem de Deus no ser humano”.6

Implicações do ministério

Está claro que, embora existam diferentes ministérios em contextos específicos – igreja, saúde, educação, assistência social, aconselhamento etc. –, o objetivo de todos eles é o mesmo: a restauração. Assim, esses ministérios são complementares. Eles não são isolados e independentes. Ao contrário, eles são interdependentes. De tempos em tempos, os pressupostos sobre a suposta importância de um ministério acima dos outros desencadeia atitudes de superioridade e assumida autoridade que são obstrutivas e perturbadoras. Essa posição é questionável. A igreja evangélica muitas vezes afirma as suas raízes na Reforma, mas se esquece dos pontos de vista de Lutero e Calvino sobre o status ministerial de “teólogos, jardineiros, faxineiros e comerciantes”.7

As escolas cristãs que adotam tal visão e missão verdadeiramente imitam o ministério redentor e restaurador do próprio Jesus. O ministério da restauração tem implicações salvíficas. A salvação é a reconciliação, no sentido mais abrangente. Como Westly explica: “Salvação no sentido bíblico não pode ser entendida em uma única dimensão, com posições reducionistas e paroquiais. A salvação que a Escritura apresenta tem a ver com uma totalidade abrangente nesta vida fragmentada e alienada. A salvação no sentido bíblico é uma novidade de vida, o desdobramento da verdadeira humanidade na plenitude de Deus (Colossenses 2:9). É a salvação espiritual e física, do indivíduo e da sociedade, da humanidade e de toda a criação (Romanos 8:19).”8

Tal visão representa um desafio significativo para a falsa dicotomia feita com frequência entre o sagrado e o secular. Como Harry Blamires argumenta, a mente cristã é capaz de ver os aspectos mais seculares da vida a partir de uma perspectiva cristã, com pressupostos e valores bíblicos, chamada de cosmovisão.9 George Knight argumenta que a educação cristã é um verdadeiro ministério e cada professor é um “agente da salvação”.10 Também é a religião em sua essência (Do latim religere, que significa “para unir de novo”).

O objetivo final da educação cristã

A educação cristã pode ser considerada como um dos ministérios complementares previstos por Paulo (Efésios 4:11-14). O processo que alicerça a educação cristã em todas as fases e aspectos é a formação. O objetivo final desse processo é por vezes expresso como a restauração da imagem de Deus nos seres humanos por meio do desenvolvimento harmonioso das faculdades mentais, sociais, físicas e espirituais.

Essa meta prevê um processo que, em todas as fases e aspectos, represente a renovação integral. Nos últimos anos, a expressão “formação espiritual” tem sido amplamente utilizada para descrever tal renovação. Mas esse termo não se refere a uma espiritualidade nebulosa que é comumente encontrada no pensamento pós-moderno. Estamos falando de desenvolvimento dinâmico, criativo, biblicamente fundamentado pelo poder do Espírito Santo como parte do trabalho compartilhado do Deus Triuno, pois “em [Deus] vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:28). Dallas Willard nos lembra de que a expressão pode ser justamente considerada como “re-formação espiritual”, em reconhecimento de nossa origem, de nossa queda e de nosso novo potencial.11

A formação espiritual, em outras palavras, é re-criação, em resposta à nossa situação e a Deus por meio da obra de Cristo e da convicção e capacitação concedidas pelo Espírito Santo. Assim, é obra e prerrogativa do Espírito Santo. Essa formação está alinhada com a redenção da criação. Constitui uma resposta, válida para toda a vida, à aceitação pessoal da ação de Deus por meio da graça em Cristo no Calvário. É parte essencial do plano de Deus e do ministério do evangelho de Jesus no Novo Testamento. Ela está ligada à restauração, transformação e renovação, procurando curar a desconexão humana resultante da queda. Esse processo nos leva a refletir sobre a importância da semelhança com Deus, da integridade pessoal e do serviço desinteressado, em vez de estabelecer como prioridade a elevação da grandeza humana, o ganho material e a posição social. Esse desenvolvimento envolve um progresso, relacionado a estágios de maturidade e à faixa etária.

Compreensivelmente, os professores de matemática, ciências, tecnologia, finanças e de outras disciplinas irão ajustar as temáticas a essa visão geral. A contribuição dos professores cristãos para o enfoque pastoral no ensino de suas especializações é comumente aceita, mas tende a ser vista mais como um papel complementar do que na perspectiva de uma integração holística. Há, contudo, um problema fundamental com essa visão dualista. A preocupação com questões imediatas e a preparação para uma carreira profissional tendem a eclipsar outras funções do ensino. Mas este artigo argumenta que as necessidades deste mundo não devem ser ignoradas, pois fazem parte do todo. Dessa forma, é importante uma ampla visão que forneça um contexto em que esses elementos específicos – as matérias do currículo formal – estejam integrados e se estendam até a eternidade. Nas últimas décadas, o debate tem girado em torno da expressão “integração fé e ensino”. Não estamos defendendo um remendo planejado de alusões espirituais e lições objetivas em cada aula – em outras palavras, pseudointegração12 –, mas uma integração com propósito.

Qual é a relação das disciplinas seculares do currículo com a formação espiritual? A resposta é simples: Tudo! Caso contrário, estaríamos defendendo o dualismo que é inconsistente com a afirmação de Paulo de que “nEle vivemos, nos movemos, e existimos” (Atos 17:28). Um exemplo notável de integração entre o sagrado e o secular é o do religioso Lawrence, monge carmelita, que “demonstrou a presença de Deus por meio da lavagem de panelas e frigideiras e serviu a seus irmãos”. Isso não se aplica apenas à vida religiosa. Isso está baseado em uma visão holística da vida em que a distinção entre o sagrado e o secular não é um problema. A esse respeito, Pettit argumenta com razão, quando afirma: “Esse processo não deve ser dividido entre espiritual e físico, privado e público ou secular e sagrado. Envolve integração, a pessoa toda, sua maneira de pensar, hábitos e comportamentos, a forma de se relacionar com Deus e com os outros. Ele deve resultar em uma vida de amor a Deus e também de amor aos outros.”13

Pettit explica que, ao utilizarmos o termo “espiritual”, estamos nos referindo ao relacionamento holístico, dinâmico, maduro entre o crente e Deus, e entre o crente e outros (crentes e descrentes). Assim, há dois princípios: o da formação pessoal e o serviço na comunidade cristã. A formação pessoal diz respeito à transformação (formação) de um indivíduo no centro do seu ser (espírito). Essa transformação ao longo da vida é ativada quando o indivíduo coloca sua fé em Jesus Cristo e busca segui-Lo. Essa mudança ou transformação que ocorre na vida do crente depende do contexto de uma autêntica comunidade cristã, sendo direcionada ao serviço a Deus e aos outros. Assim, a vida não é vivida em reclusão monástica. Como representantes de Cristo, nossa adoração, estudo, trabalho, recreação, serviço comunitário, busca cultural, expressão e interação social estão harmoniosamente integrados. “Assim, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”(1 Coríntios 10:31). Como tal, a vida engloba todas as facetas da personalidade, evidencia a abrangência da formação que o indivíduo obteve.

As implicações para o ensino como ministério

O currículo formal. A visão bíblica do conhecimento reconhece tanto a ordem sobrenatural quanto a natural. Deus é reconhecido como a melhor e mais essencial fonte de toda a sabedoria e virtude. Assim, o conhecimento verdadeiro é mais do que uma reunião de informações factuais e habilidades de mercado a ser transmitido, aprendido, reproduzido e aplicado. O verdadeiro conhecimento engloba elementos cognitivos, experienciais, emocionais, relacionais, intuitivos e espirituais que funcionam como um todo inter-relacionado. A educação cristã procura restaurar a informação factual, seu verdadeiro significado, como uma forma de conhecer a Deus e Sua criação. Enfatiza a ação responsável de indivíduos que ajam como discípulos, servos e apoiadores mútuos, respeitando também o ambiente criado. A distinção comumente vista entre o sagrado e o secular é artificial e falsa. Toda verdade é parte da ordem de Deus, e Sua presença pode ser reconhecida e praticada mesmo nos aspectos aparentemente seculares e mundanos da vida. A aquisição do verdadeiro conhecimento leva ao entendimento que se manifesta na sabedoria, integridade, ação apropriada e adoração. O verdadeiro conhecimento é ativo por natureza. A sabedoria e o conhecimento da prática se manifestam pela ação.

As escolas cristãs respeitam o lugar das tradicionais disciplinas ou áreas de aprendizagem com suas linhas teóricas. Essas disciplinas são vistas como parte da busca humana em explorar, descobrir, entender, testar e comunicar conhecimentos. Ronald Nelson argumenta: “Cada [disciplina] desenvolve sua própria heurística, ou seja, seus próprios princípios e métodos de descoberta. Cada uma elabora e revisa suas próprias categorias especiais, seu próprio sistema conceitual. Cada uma reivindica a prerrogativa de formular os seus próprios critérios para julgar a validade do que é apresentado pelos estudiosos da área. Mesmo sob questionamentos, cada uma tem seu próprio mecanismo de coesão interno.”14

Assim, as disciplinas podem ser consideradas tanto como janelas através das quais se pode ver ou janelas de oportunidade pelas quais se pode agir. Como janelas, elas proporcionam a oportunidade de ver ou perceber, de entender algo de Deus e de Sua atividade. Esse entendimento está refletido no mundo criado, na Bíblia e no conhecimento do conflito cósmico, promovendo a valorização da herança cristã. Como janelas de oportunidade, elas motivam respostas, aplicação, expressão e prática, que são favoráveis à construção da comunidade, da cidadania, da justiça social e da gestão do ambiente e dos recursos de forma que sejam consistentes com os valores bíblicos. Esses valores são por vezes descritos como valores do reino, por causa de sua base no relato do Novo Testamento sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. Por isso, no planejamento do currículo formal, o equilíbrio é procurado entre a compreensão espiritual, intelectual, física, social e emocional. Apesar de algumas áreas de aprendizagem se encaixarem em uma categoria, elas muitas vezes têm relevância em outras categorias ou “reinos de significado”.15 Elas não são distintas uma da outra, porque todos elas têm sua origem comum na realidade centrada em Deus. As ligações interdisciplinares são reconhecidas e estão presentes particularmente no ensino fundamental e médio, o que proporciona oportunidade para a integração de temas de estudo relevantes.

O currículo formal serve como espaço para a verdadeira aprendizagem: traz oportunidade para fazer conexões, ver padrões e totalidades, formar uma cosmovisão e retratar significados.16 Tal aprendizagem reflete o movimento de um conhecimento superficial a um significado mais profundo. Na mesma linha, está a pesquisa sobre a função do cérebro com relação à aprendizagem de ideias e experiências que vão sendo formadas em redes neurais ou mapas de significado para a formação de um quadro maior (ou gestalt). Tais concepções de aprendizagem nos ajudam a entender o que é a fé e como ela cresce. Essas ideias não são novas na sua essência. Fowler, por exemplo, fala da importância de histórias pessoais para o desenvolvimento de sua fé.17 Essas importantes histórias estão no centro do que Stephen Covey18 descreve como paradigmas que informam e impulsionam o desenvolvimento da integridade de caráter, sentido e eficácia pessoal.

O papel do professor cristão. A atuação do educador cristão como um professor-ministro é de suma importância. Além da especialização em suas áreas de ensino, com capacidade para promover e apoiar a aprendizagem nessas áreas, o papel do professor nas escolas cristãs é mais extenso e global. O ensino é uma partilha de realidades ou o entrelaçamento de conexões entre disciplinas, entre alunos e o mundo. Assim como educadores profissionais, espera-se que os professores sejam competentes em suas respectivas áreas de ensino, motivando e mantendo altos níveis de envolvimento na aprendizagem de forma equitativa, justa, não discriminatória e com apoio emocional. Eles devem ser sensíveis às implicações espirituais inerentes à sua área de aprendizagem. Eles irão refletir uma disposição que está aberta a novas perspectivas compartilhadas entre pares, reflexivas e autocríticas em sua busca por excelência para a glória do Criador. Os professores cristãos também serão as pessoas de fé e integridade que compartilharão a visão da escola e seus objetivos e irão modelar ativamente a cultura, o ethos e o estilo de vida dentro da sala de aula e além dela. Enquanto os especialistas podem assumir um papel pastoral designado, os professores irão nutrir e apoiar ativamente as crianças no ministério pastoral. Eles estarão continuamente conscientes do impacto que têm sobre a aprendizagem não planejada de seus alunos.

O ambiente de aprendizagem. As escolas cristãs procuram fornecer um ambiente de aprendizagem enriquecido, significativo, espiritual e culturalmente sensível. Há um esforço para fazer conexões entre o aluno e a matéria, entre a mente e as emoções, e desenvolver mapas de sentido na mente de seus alunos. Assim, há sensibilidade para a cultura, para a metodologia e para as habilidades relacionadas às diferentes áreas de aprendizagem e onde elas se encaixam dentro do esquema mais amplo de aprendizagem. Abordagens de ensino vão reconhecer e afirmar a diversidade de intelectos e dons compartilhados entre os alunos, e promover a excelência em todas as facetas do desenvolvimento. Os professores geralmente atuarão como facilitadores e mentores para os estudantes, de modo interativo, dando apoio emocional. Já os estudantes frequentemente trabalharão em colaboração, em aprendizagem cooperativa com os colegas em uma ampla gama de atividades, dentro e fora da escola. Os professores irão reconhecer e ir atrás das oportunidades, tanto planejadas quanto incidentais, para explorar novos insights espirituais e entendimentos, e incentivar decisões pessoais e o empenho dos alunos.

A escola cristã: uma comunidade de fé. A aprendizagem, obviamente, não se limita à sala de aula. Como uma comunidade de fé, a escola cristã oferece um ambiente ou contexto cultural que aumenta a qualidade de aprendizagem. Por outro lado, o ethos da comunidade é reforçado pela qualidade dessa aprendizagem. Assim como a koinonia do Novo Testamento, as identidades pessoal, física, espiritual e psicossocial de bem-estar são alimentadas e mantidas. Dwayne Huebner19 descreve essa dinâmica graficamente. Ele adota a metáfora da tecelagem para descrever como os indivíduos criam um “tecido da vida”, que compreende um entrelaçamento de ideias, abstrações, memórias, metáforas bíblicas e dos costumes culturais derivados da comunidade de fé e das relações dentro dela. Ele argumenta que a vida na intimidade e no contexto dessas relações confirma o passado pessoal e coletivo, que, por sua vez, reconhece, pratica e celebra a presença de Deus. É um processo dinâmico, nutritivo e de constante renovação. Essas concepções são consistentes com o ser humano que Deus criou à Sua imagem, com a capacidade de pensar e agir.

Conclusão

Uma escola intitulada cristã não é necessariamente uma escola cristã. Assim como um professor que atua em uma escola cristã não está qualificado automaticamente para ser um “professor-ministro”. Ser assim descrito é, na verdade, uma honra, mas também é uma responsabilidade que deve assumir todo aquele que acredita ser chamado para servir nesse ministério. Se formos honestos com nós mesmos, vamos reconhecer disparidades e falhas no que observamos atualmente na educação cristã. Algumas dessas escolas, embora tenham o rótulo de espirituais, são escolas voltadas ao mercado, competitivas, com atuação semelhante à das escolas não cristãs. O desafio da secularização, as diversas ameaças e a influência negativa daqueles que não estão comprometidos com a filosofia cristã sempre serão uma realidade. Mas mesmo diante desse contexto, o professor vocacionado e comprometido com os ideais cristãos poderá exercer seu “ministério”.

Don Roy (Ph.D., Universidade Deakin, Victoria, Austrália) é professor senior associado do Avondale College of Higher Education.

E-mail: doncroy@gmail.com

REFERÊNCIAS

  1. H. Blamires, The Christian Mind: How Should a Christian Think? (Ann Arbor, Michigan: Servant Books, 1978). Veja também J. Stott e R. McCloughry, Issues Facing Christians Today, 4a edição. (Grand Rapids Michigan: Zondervan), p. 59-67; D. Gill, The Opening of the Christian Mind (Downers Grove, Illinois: InterVarsity Press, 1989); A. Holmes, The Making of a Christian Mind, (Downers Grove, Illinois, 1985); J. Moreland, The Kingdom Triangle: Recover the Christian Mind, Renovate the Soul, Restore the Spirit’s Power (Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2007).
  2. Veja o comentário de Barclay sobre Romanos 12:2. W. Barclay, The Letter to the Romans: Daily Study Bible (Edinburgh: The Saint Andrew Press, 1966), p. 167-171.
  3. Veja D. Roy, “Christian schools–a world of difference,” TEACH: Journal of Christian Education 2 (1): 38-44.
  4. Augustine, The Confessions of St. Augustine, Livro1.
  5. Barclay, pp. 176, 177.
  6. W. Andersen, “From Gospel Into Education: Exploring a Translation,” Partes 1 e 2, Journal of Christian Education, Papers 79 (Abril) 1984: 26-37 e Papers 81 (Outubro) 1984: 11-19.
  7. A. Mackenzie, Faith and Work: Martin Luther/John Calvin. Disponível em: http://workliferhythm.org/cc/article/0,,PTID331328_CHID808482_CIID1789804,00.html;
  8. D. Westly, A Theology of Presence: The Search for Meaning in the American Catholic Experience (Mystic, Connecticut: Twenty-Third Publications, 1988), pp.69, 70.
  9. Blamires, op. cit.
  10. G. Knight, Philosophy & Education: An Introduction in Christian Perspective (Berrien Springs, Michigan: Universidade Andrews, 2007).
  11. D. Willard, Renovation of the Heart: Putting on the Character of Christ (Leicester, England: InterVarsity Press, 2002).
  12. D. Wolfe, “A linha de demarcação entre a integração e pseudointegração,” em Harold Heie e David Wolfe, The Reality of Christian Learning (Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans, 2004); também R. Harris, The Integration of Faith and Learning: A Worldview Approach (Eugene, Oregon: Wipf and Stock, 2004).
  13. P. Pettit, ed., Foundations of Spiritual Formation: A Community Approach to Becoming Like Christ (Grand Rapids, Michigan: Kregal Publications, 2008), p. 24.
  14. R. Nelson, em Heie e Wolfe. Também Harris, p. 318.
  15. Embora considerado por alguns como um pouco “datado”, o pensamento de P. Phenix e P. Hirst é produtivo e ainda muito pertinente. Veja P. Phenix, Realms of Meaning (New York: McGraw-Hill, 1964) e P. Hirst, “The logic of the curriculum,” Journal of Curriculum Studies, 1 (1969) 2.
  16. C. Nummela e C. Geoffrey, Making Connections: Teaching and the Human Brain (Reading, Massachusetts: Addison-Wesley, 1994).
  17. J. Fowler, Stages of Faith (New York: Harper & Row, 1981).
  18. S. Covey, The 7 Habits of Highly Effective People (London: Simon & Schuster, 1989).
  19. D. Huebner, “Practicing the Presence of God,” Religious Education 82 (Fall 1987).