História, filosofia e destino: percepções de Daniel

A cosmovisão de Daniel e seu conceito da importância do indivíduo e das nações no plano de Deus para redimir o mundo têm profunda relevância para a atualidade.

Ao iniciarmos a leitura do livro de Daniel, somos informados de que ele acabara de ser aprisionado e levado para a Babilônia. No cativeiro, ele experimentou grandes desafios pessoais e teve visões incomuns, às vezes inquietantes. Se nos concentrarmos nesse relato inicial, obteremos um conhecimento diferente do que normalmente obtemos da leitura das profecias e de outros relatos. Essas informações são bastante aplicáveis a nossa vida atual, independentemente de nossa realidade.

O notável professor e historiador Collingwood afirmou que “o objetivo final da história não é conhecer o passado, mas entender o presente”.1 Podemos acrescentar que o objetivo da história religiosa é entender o presente e fornecer orientação e esperança para o futuro (conforme 2 Pedro 1:19).

Com isso em mente, vamos considerar sinteticamente alguns dos princípios mais evidentes no livro de Daniel.

O passado esclarece o presente

O livro de Daniel começa informando-nos de que nenhuma pessoa é uma ilha. Nossas ações impactam os outros. Daniel e seus companheiros foram capturados e colocados em circunstâncias desfavoráveis por conta das ações dos líderes da nação, e não por seus próprios erros. O reino de Judá não tinha aprendido as lições dadas a Israel cerca de cem anos antes (Jeremias 18:6-12; 26:2-8). Eles também participaram de práticas ímpias e de comportamento antiético. Consequentemente, em 605 a.C., eles perderam sua independência quando a Babilônia forçou Judá a pagar tributo. Esse acontecimento humilhante tinha o objetivo de desperta a consciência da nação.2 No entanto, o povo não se conscientizou, tomando a direção de um fim prematuro marcado por atos imorais (2 Reis 23:26; 24:1-2).

O reino de Judá estagnou porque não conseguiu internalizar a robusta cosmovisão que Daniel e seus companheiros possuíam. Esses jovens representavam parte do grupo remanescente, preparado para manter corajosamente sua fé. Eles compreenderam desde o início que cada indivíduo e nação têm seu papel concedido por Deus. Assim, ao não agir de maneira honrada e de acordo com os princípios revelados por Deus, as consequências tornam-se desastrosas. Isso foi enfatizado quando viram Nabucodonosor, sob a direção de Deus, punir sucessivamente amorreus, moabitas, filisteus, egípcios e os cidadãos de Tiro pelo seu comportamento malicioso e prepotente (Ezequiel 25:5-17; 26:3-7; 29:3 -9, 17-19).

A cosmovisão unificada dá propósito e esperança

Daniel viveu em um momento crucial da história. A nação que representava o reino de Deus na terra fracassou em ser Sua embaixatriz e foi para o cativeiro. Na época em que Daniel estava ativo, surgiram novas filosofias que iriam seduzir o mundo, como as de Lao Zi, Confúcio, Buda, Pitágoras e Zoroastro (o mitraísmo veio de seus ensinamentos). Cada uma dessas filosofias tinha seus próprios elementos atraentes que procuravam a verdade, mas também enfatizavam perversões encantadoras. A própria Babilônia agiu como um “manancial” a partir do qual todas as outras falsas religiões ganharam inspiração. Esses laços são particularmente evidentes no hinduísmo, por exemplo.3 O império neobabilônico, no qual Daniel se encontrava, era particularmente conhecido por suas contribuições para a astronomia, juntamente com um sistema de astrologia bastante desenvolvido, destinado a prever o futuro.4

A genuína cosmovisão, que sustenta o relato bíblico, estava firmemente guardada por Daniel e seus companheiros como é evidente a partir de suas palavras e ações ou a partir do relato daqueles que simpatizavam com eles ou eram por eles influenciados. Os elementos são os seguintes:

  • O Universo é governado por um Deus pessoal, criador. A milagrosa salvação dos justos da fornalha ardente e de Daniel da cova dos leões dá provas mais do que suficientes de que Deus tem um interesse pessoal nos seres humanos (Daniel 3:24-25, 28; 6:22).
  • Deus está vivo e é infinito. Esses pensamentos foram expressos pelo rei Nabucodonosor durante sua experiência de conversão (Daniel 4:34-35; 6:26), um pensamento que foi impressionado pelo Espírito Santo.
  • O reino de Deus é baseado no princípio do amor (Deuteronômio 10:15-19; conforme Mateus 22:36-40, 1 João 4:7-8). Apesar de rebeldes, Ele prometeu ser o seu Salvador e justificar os pecadores arrependidos
  • (Isaías 45:22-25). A relação que Daniel teve com Deus (Daniel 9:23, 10:11, 12:13) indica que ele entendeu esse princípio fundamental. Ele levou a instrução de Deuteronômio 10:12 a sério: “Que é que o Senhor, o seu Deus, lhe pede, senão que tema o Senhor, o seu Deus, que ande em todos os Seus caminhos, que O ame e que sirva ao Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração e de toda a sua alma” (NVI).

  • O reino de Deus está baseado em princípios morais imutáveis. Ele é justo, misericordioso e clemente; o Seu comportamento é entendido pela Sua lei, o que reflete Seu caráter (Daniel 9:7-11;. conforme Salmos 89:14).
  • O reino de Deus enfrenta oposição de forças antagônicas (Daniel 10:13, 20-21). A informação revelada no capítulo 8 (11-14) nos diz que o foco de um proeminente poder contrário a Deus vai envolver questões sobre quão adequada é a misericórdia de Deus e da Sua compatibilidade com o Seu código de justiça. Curiosamente, o contemporâneo de Daniel, Ezequiel, identifica esses pensamentos como sendo inspirados por Satanás (Ezequiel 28:12-19; conforme Apocalipse 12:3-5, 12-17).
  • O mal será finalmente destruído (Daniel 2:44; 7:26-27). O apóstolo Paulo diz: “Em breve o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês” (Romanos 16:20, NVI). Isso ecoa o pensamento de Gênesis 3:15.
  • A imortalidade pertence a Deus. É Seu presente para o vencedor (Daniel 12:13; conforme 1 Timóteo 6:16).
  • Esses princípios estão no cerne da cosmovisão do grande conflito, adotada pelos adventistas do sétimo dia, que é semelhante à que foi mantida por grupos remanescentes ao longo da história. Isso por si só deveria nos dar confiança na liderança de Deus.

    A história das atividades do Criador nas entrelinhas

    A história das atividades do Criador está nas entrelinhas de dois livros de João (João 1:1-4, 14; Apocalipse 1:5-7). A história também é uma revelação dos caminhos de Deus, na realidade de Cristo – os caminhos do Criador. Dessa forma, algumas questões difíceis podem ser resolvidas ao considerar-se o registro de atividades criativas de Deus. Essa é uma posição familiar adotada pelos adventistas do sétimo dia, por exemplo, em relação à guarda do sábado e aos cuidados da saúde. Assim, não devemos ficar totalmente surpresos pelo fato de que Daniel e seus amigos entenderam que a história da Bíblia é um relato da relação de Deus com toda Sua criação.

    Daniel e seus companheiros mostraram que possuíam grande respeito pela ordem especificada na criação, com relação à comida e bebida (e, sem dúvida, a outras áreas também). Ao fazê-lo, eles mostraram respeito pelo próprio corpo, desenvolvimento espiritual e cuidado com a criação. Na verdade, em alguns aspectos eles estavam adiantados em relação ao nosso pensamento. Daniel 2 retrata um quadro em que Deus quebra os impérios deste mundo com uma pedra (“sem auxílio de mãos”, Daniel 2:34). O foco dessas nações (e das nações de hoje) estava na aquisição de bens materiais e no encontro de métodos para o progresso (a utilização de metais nas imagens transmite essa ideia). O consumismo e o autoengrandecimento estavam presentes e bem estabelecidos na neo-Babilônia. Deus usou o material de construção básico da terra (rochas) para privar as nações do seu ciclo contínuo de atividades orgulhosas. Aqui temos um lembrete poderoso de que as nações, os descendentes de Adão, são provenientes do solo (adamah) e são dependentes do Deus criador da vida. Todos os que falharem em entender o caráter e os caminhos do próprio Criador serão privados de Seu poder.

    A consequência prática dessa compreensão é que se o relato bíblico descreve um padrão consistente de pensamento/comportamento na criação e na nova criação (novo estado da Terra), então é fato que Deus deseja que Seus seguidores organizem sua vida em conformidade com essa informação após sua conversão (re-criação). Por exemplo, o sábado do sétimo dia foi estabelecido no Éden, foi mantido por Cristo e terá continuidade na nova terra (Gênesis 2:2, Lucas 4:16, Isaías 66:23). Assim, o sábado do sétimo dia deve ser considerado uma parte sagrada do tempo. Novamente, no Éden, Deus designou para a humanidade uma alimentação à base de plantas (Gênesis 1:29). Na nova terra não irá ocorrer nenhum derramamento de sangue, o que significa que o vegetarianismo será restabelecido (Isaías 65:25, Apocalipse 21:4; conforme Romanos 8:22). Conclui-se que um estilo de vida vegetariano é o ideal de Deus para os dias de hoje (1 Coríntios 10:31; conforme Apocalipse 14:7) e será comprovado como benéfico para a saúde física e espiritual.

    Nações possuem papéis distintos para cumprir o propósito de Deus

    Deus trabalhou (e continua a fazê-

    lo) com as diferentes culturas a fim de cumprir Seu grande plano para a salvação. Babilônia e Medo-Pérsia (potências Orientais) e Grécia e Roma (potências Ocidentais) estiveram envolvidas na definição do cenário para o aparecimento e ministério de Cristo, séculos depois de Daniel. Essas nações interagiram com outros grupos, tanto do norte quanto do sul. Dessa forma, foi enfatizada a importância universal das profecias relacionadas com o nascimento e o ministério de Cristo.

    Quando Cristo nasceu, o Império Romano estava no poder e facilitou o comércio entre vários países. As notícias dos acontecimentos do Império espalhavam-se em vastas áreas. Por exemplo, os chineses estavam cientes de que um grande evento tinha ocorrido no Ocidente, relacionado com a vinda de um Messias (Maitreya). Uma expedição foi enviada (64 d.C.) ao longo da Rota da Seda, em resposta a um sonho visto pelo imperador Ming-Ti. Infelizmente, os expedicionários voltaram com escrituras budistas Mahayana.5 Curiosamente, no entanto, o único registro astronômico que permanece da estrela que acompanhou o nascimento de Cristo vem da China.6 Esse evento foi associado com a visita dos magos do Oriente (Mateus 2:1, 7-10), o que ilustra o amplo interesse que os povos antigos tinham pela astronomia (e pela astrologia) e a sede que possuíam pela aquisição de novos conhecimentos. É lamentável que o conhecimento da misericórdia de Deus não foi aceito mais amplamente em sua forma autêntica.

    O trânsito de ideias entre culturas fluiu por meio das rotas comerciais, com a consequente expansão da Igreja do Oriente nos confins da Ásia.7 Também levou, por exemplo, à absorção, no budismo, de ideias judaicas sobre a vinda do Messias (Mahayana). Estas, por sua vez, influenciaram aspectos de práticas religiosas chinesas.8 Infelizmente, as ideias pagãs se infiltraram na igreja cristã, especialmente na época de Constantino. Esses movimentos foram anunciados antecipadamente por Daniel, e ele lamentou as dificuldades às quais a comunidade de fé seria submetida (Daniel 7:28, 8:27).

    A verdade não muda

    Somos confrontados em Daniel 1 pela decisão corajosa feita por quatro jovens ao defender os princípios delineados pela Bíblia, os quais eles tinham aprendido em casa. Em contraste, sob a pressão de colegas e superiores, a maioria de seus companheiros decidiu que a verdade poderia ser deixada em segundo plano.

    Enquanto a maioria dos brilhantes cativos, sob pressão, deixou de lado importantes práticas culturais, religiosas e princípios, Daniel continuou firme. Esse fato foi demonstrado visivelmente quando seus colegas de trabalho, com inveja de seu comportamento íntegro e do favor que ele havia alcançado, tramaram contra ele. A trama envolvia a vida de oração de Daniel (Daniel 6:6-9). Nessa intriga, os conspiradores levaram em conta que Daniel não comprometeria sua relação com Deus nem mudaria seu testemunho público. Nesse sentido, eles não foram decepcionados.

    Ao longo de sua vida de serviço na Babilônia, Daniel se recusou a aceitar ideias que pervertessem o grandioso plano de salvação descrito em Gênesis 3:15. Os adivinhos e magos (Daniel 4:7) supostamente fizeram mortos ressurgirem, e a morte violenta de Ninrode (o fundador de Babel – Gênesis 10:8-10) foi lembrada com a representação do choro de Tammuz (Jeremias 44:15-18). Tammuz representava Ninrode reencarnado. Apresentaram a morte de Ninrode como voluntária para o benefício da humanidade e conectada com a remoção do pecado e do sofrimento (ou seja, o culto representava uma versão alternativa do esmagamento da cabeça da serpente encontrado no relato de Gênesis).9 Por outro lado, Daniel aceitou de bom grado a profecia registrada em Gênesis, como uma indicação de que o nascimento, ministério e sofrimento de Cristo eram garantia de que ele iria receber a vida eterna (Ezequiel 14:14, 20; Daniel 9:24-27, 12:13).

    As tentativas de perverter a verdade, que tiveram início após o dilúvio na antiga Babilônia, continuam até hoje. Daniel não silenciou diante dessa tendência, conforme indicado pelo seu relato sobre as atividades do poder do chifre pequeno (Daniel 8:9-12). Um dos métodos de trabalho preferido de Satanás é combinar elementos de crenças não santificadas com crenças genuínas. A atuação da igreja dominante, após a morte dos apóstolos, concluiu com sucesso uma síntese das doutrinas pagãs e crenças cristãs e continua a fazê-lo com a tentativa de santificar práticas pagãs.10

    A comunicação intercultural e a sensibilidade são estimuladas na Palavra de Deus, mas não há apoio para o sincretismo (Mateus 7:5-9, 15:2-3). A vida de Daniel é um testemunho desse princípio. Ele alertou para a vinda de um poder religioso que iria interferir notavelmente nos conceitos de misericórdia e justiça de Deus (Daniel 7:25; 8:9-12; conforme Salmos 89:14). Ao fazer isso, ele nos alertou sobre toda filosofia ou doutrina que não possua esses dois grandes pilares do reino de Deus em equilíbrio. Uma análise cuidadosa de todos os grandes sistemas filosóficos do mundo, fora o cristianismo autêntico, indica uma distorção dos pilares do reino divino. Dessa forma, há sempre o risco de que ao compartilhar o evangelho através das culturas ocorrerá a ameaça do sincretismo. Daniel nos avisa para termos cuidado.

    Princípios que sustentam um governo estável

    Muitos governantes surgiram com o objetivo de alcançar uma alta posição e até mesmo uma dominância regional e mundial. Houve os que alcançaram notável sucesso. No entanto, a história está repleta de exemplos de fortes líderes sendo sucedidos por fracos, e há inúmeros casos de impérios e grupos de pessoas que desapareceram.

    Saber como esses eventos podem ser explicados é um exercício desafiador. Mas, certamente, carisma e fortes características pessoais são necessários em um líder; visão e encorajamento para que os cidadãos pensem de forma criativa e trabalhem cooperativamente são bons pontos de partida. Um país também precisa de uma base econômica sólida. A Bíblia, no entanto, enfatiza qualidades com base no princípio do amor (tipo ágape). Esse princípio encontra expressões exteriores em práticas como a busca da justiça, misericórdia, humildade, pureza, paz, atos morais e o avanço do conhecimento do Deus Criador (Mateus 5:3-20, 38-48). A aplicação consistente desses princípios em nível nacional irá contribuir para o sucesso de um país. Por outro lado, a rejeição deles levará ao enfraquecimento e a eventual desintegração. A resposta das massas a esses princípios também é fundamental para a prosperidade da nação (2 Crônicas 33:1-9; Oseias 4:1-3; 6:6; 7:14-16). O mesmo princípio vale para o bom funcionamento da sociedade e de sua unidade base, a família.

    Voltando aos tempos de Daniel, podemos observar que as atitudes e práticas ajudaram as nações a encher sua taça de iniquidade, levando-as ao fracasso. De Israel, foi dito: “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, Eu também os rejeito” (Oseias 4:6, NVI). Palavras semelhantes foram ditas para outras nações (Jonas 3:4-10, Romanos 2:11-16). Isso aconteceu porque eles rejeitaram o fato de que os preceitos morais se originaram com Deus e a autoridade judicial final também se encontra nEle. Claramente, o império neobabilônico chegou ao fim por causa do orgulho e da devassa rebelião contra o conhecimento de Deus, que levava à glorificação do poder dos deuses pagãos e a uma vida destinada à satisfação dos sentidos (Daniel 5:2-4, 18-28).

    Orgulho, desvio das virtudes morais encontradas em todas as culturas,11 rejeição aos apelos da consciência e a contestação das lições provenientes do livro da natureza (Romanos 1:20-23; 2:14-16) contribuem juntamente para a ruína nacional. A cosmovisão adotada, a atitude e o compromisso dos cidadãos em relação à busca da justiça são fatores de importância vital para explicar os acontecimentos da história.12 Quando o cálice da iniquidade das nações estiver cheio, virá o fim.13

    Instrumentos escolhidos

    Vamos, neste tópico, voltar brevemente nossa atenção para considerar as responsabilidades individuais destacadas por Daniel.

    Daniel e seus amigos foram capazes de influenciar os assuntos da nação neobabilônica. Eles alcançaram cargos de confiança e honra (Daniel 2:46-48). Notavelmente, quando as forças medo-persas invadiram a Babilônia, as habilidades administrativas de Daniel foram ainda reconhecidas (Daniel 5:30, 6:1-3). Ele adaptou-se à nova cultura, com sua filosofia religiosa subjacente, sem comprometimento. Ele também tinha aprendido a arte de compartilhar elementos do plano da salvação para além das fronteiras familiares e tornou-

    se um missionário eficaz (Daniel 2:28, 44-45, 4:19-27, 6:22-27). Conforme Daniel 12:3, esse é o plano de Deus para nós também. A instrução indispensável dada por Cristo a todos Seus seguidores é compartilhar o conhecimento da esperança que eles possuem (Mateus 28:19-20).

    Deus também mostrou, por meio das experiências de Daniel, que Ele tem aliados incomuns e que as pessoas mais improváveis podem responder aos sussurros de Seu Espírito. Você teria escolhido o rei Nabucodonosor como sendo alguém potencialmente interessado em conhecer os planos de Deus? Daniel viu a oportunidade e a usou. Não tenho dúvidas de que ele tentou encontrar uma maneira de dizer a Ciro sobre a profecia de Isaías a seu respeito (Isaías 45:1-5; Daniel 12:3). Daniel não tinha medo de viver suas crenças de maneira positiva e de falar a favor de Deus conforme a oportunidade se apresentasse. Ele possuía não só habilidade e conhecimento, mas também sensibilidade intercultural.

    Tão certo como Daniel e seus companheiros foram instrumentos nas mãos de Deus, nós também fomos escolhidos por Ele para o propósito de levar o conhecimento divino aos demais.14 Devemos dizer aos outros que há um Deus criador que se preocupa com todos.

    A vida é mantida nas mãos de Deus

    A completa verdade sobre a vida se revelou a Belsazar com uma força impressionante na noite em que uma misteriosa mão escreveu na parede de seu palácio. Ele foi achado em falta nos princípios morais e pereceu nas mãos dos soldados de Dario, o medo (Daniel 5:5-6, 25 - 28, 30). Daniel e seus três notáveis amigos estavam familiarizados com o cuidado protetor de Deus. Eles entenderam que sua vida estava nas mãos de Deus e que Ele iria protegê-

    los e livrá-los da morte se o nome dEle fosse honrado (Daniel 3:16-18; 6:21-22; Hebreus 11:31-40). Eles não temeram a morte ou o julgamento de Deus, pois estavam em paz com Ele diariamente. Daniel estava certo de que os santos de Deus herdarão a “soberania, o poder e a grandeza dos reinos que há debaixo de todo o céu”. Além disso, sabia que o reino de Deus não vai terminar, e os salvos irão adorá-Lo por toda a eternidade (Daniel 7:27, NVI) . Com essas palavras, temos a certeza de que a imortalidade é um dom de Deus a todos os que O seguem com sinceridade.

    Sabendo que nossa própria vida está nas mãos de Deus, a instrução é que nesta vida temos de fazer nossa decisão ao lado de Deus. Não haverá oportunidades adicionais. Belsazar aprendeu sobre isso quando Daniel anunciou que Deus o havia pesado e achado em falta (Daniel 5:27). Essa informação foi repetida em uma visão separada, registrada no capítulo 7 de Daniel, em que Deus é retratado em toda Sua magnífica grandeza, presidindo o registro da vida das pessoas (Daniel 7:9-10, 13-14; Eclesiastes 12:13-14). Essa cena nos mostra que devemos levar a sério as nossas ações. Destina-se a gerar respeito e compromisso, um senso de tranquila confiança e alegria (Daniel 7:27).

    Tudo isso esteve em nítido contraste com a doutrina que emana da antiga Babilônia, segundo a qual o grande Ninrode liberta homens e mulheres do medo do julgamento. Ele foi apresentado como sendo transladado para o Céu, dando origem à ideia de que a alma poderia migrar para o Céu sem ligação com Deus.15 Belsazar escolheu essa crença. Deus respondeu à sua provocação descarada de forma conclusiva. Hoje, esse relato transmite uma mensagem clara para todos os que são tentados a escolher um caminho semelhante de autoindulgência e salvação própria.

    Viva para glorificar a Deus

    Daniel aceitou e ensinou uma cosmovisão coerente com a original que o Criador entregou. Ele foi um dos participantes na nova aliança destacada pelo seu contemporâneo Jeremias (Jeremias 31:31-33). Ele viveu uma vida consistentemente comandada pela fé (por exemplo, Daniel 2:17-19, 6:10-11, 21-22). O que hoje nós vemos como história, Daniel enxergava por meio da fé (Daniel 9:24-27).16

    A comunhão de fé começou no Éden, e não em 31 d.C, na ressurreição de Cristo. A mulher de Samaria, entre outros, entendeu essa verdade (João 4:25, 1 Coríntios 10:1-4, Hebreus 4:1-5). Mas muitos ainda proclamam com satisfação que os ensinamentos do Messias começaram apenas após a ressurreição dEle, e que muitos de Seus ensinamentos foram emprestados de outros. A cosmovisão de Daniel e sua fé no Deus Criador refletem os pontos de vista de seus antecessores, desde Adão, o que significa que as suas convicções têm origem em um ponto na história que tem prioridade sobre todos os outros. Foi bem observado que qualquer semelhança encontrada em outras filosofias é por alteração ou derivação a partir do original.17 Cristo foi o agente escolhido por Deus para se comunicar com a humanidade desde o princípio (João 1:1-4, 14). Não é de se admirar, então, que os ensinamentos do Novo Testamento possam ser encontrados no Antigo Testamento, e que Cristo nos aconselhou a dar atenção aos escritos de Daniel (Mateus 24:15).

    Daniel compreendeu o grande princípio de que o desenvolvimento do caráter determina o destino. Isso foi bem declarado por um autor: “Deus só tem um destino pretendido para a humanidade – a santidade. Seu único objetivo é produzir santos [...]. Nunca tolere, por causa da simpatia por si mesmo ou por outrem, qualquer prática que não esteja de acordo com o Deus santo [...]. Santidade não é simplesmente o que Deus me dá, mas o que Deus me deu e que está sendo exibido em minha vida.”18 Daniel alegrou-se com a perspectiva da ressurreição dos justos (Daniel 12:13), pois ele buscou a santidade. Você também pode!

    Warren A. Shipton (Ph.D., M.Ed., FASM) concluiu seu doutorado na Universidade de Sydney. Foi decano de Ciências na Universidade James Cook e ex-reitor da Universidade Asia-Pacific International (2006–2010), Tailândia. Ele é autor de um livro sobre Daniel e Apocalipse: Visions of Turmoil and Eternal Rest. E-mail: wshipton@gmail.com

    REFERÊNCIAS

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