Um momento para relembrar, um chamado para prosseguir

No 150º aniversário da Associação Geral, o presidente da Igreja mundial emitiu um chamado destacando a importância de relembrar a história da redenção e prosseguir rumo aos seus capítulos finais.

O dia da grande decepção deixou muitos em desespero e perplexidade. Mas um pequeno grupo de crentes prosseguiu com a certeza da segunda vinda de Jesus e a confiança infalível na palavra profética. Eles não sucumbiram à depressão. Dedicaram-se ao estudo profundo da Palavra de Deus. Com sinceridade e persistência, indivíduos e grupos entregaram-se à oração a fim de descobrir a vontade de Deus para sua comunidade e fé. A união e a busca pelos caminhos de Deus os conduziram a algumas das grandes verdades que os distinguem como um povo separado com uma mensagem especial para os últimos dias. Essa mensagem inclui o sábado do sétimo dia, o santuário celestial, o dom do Espírito de Profecia, as três mensagens angélicas, a imortalidade condicional e o conceito da igreja remanescente com uma missão mundial. A descoberta de verdades únicas e a necessidade de compartilhá-las com as pessoas em todos os lugares levaram esse pequeno grupo de adventistas sabatistas a organizar-se e fundar a Igreja Adventista do Sétimo Dia. A primeira assembleia organizacional ocorreu nos dias 20 e 21 de maio de 1863, em Battle Creek, Michigan, 19 anos após o desapontamento de 1844.

Em 2013, chegamos ao ano que marcou o 150º aniversário do estabelecimento da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O que começou como uma organização com 125 igrejas e 3.500 membros, com sede nos Estados Unidos, tornou-se uma família mundial de fé e missão. De acordo com dados de 2011, atualmente, há 72.144 igrejas e 67.078 instituições em 208 países, totalizando 17,5 milhões de membros adultos à espera da manhã gloriosa.

Recentemente, o comitê executivo da Associação Geral se reuniu em Battle Creek, Michigan, para relembrar as bênçãos divinas durante esses 150 anos de oração e estudo, sacrifício e doação, crescimento e desenvolvimento na perspectiva local e na missão e ministério mundiais. Todos estamos unidos em função da esperança eterna de que em breve Jesus voltará.

Como igreja mundial, nunca devemos esquecer o que Deus tem feito por nós como Seu povo para que prossigamos na jornada com vivacidade e esperança. Deus espera nossa fidelidade. Nossa missão pressupõe isso. Nossa história nos conduz a isso. Nosso caminho, portanto, deve ser sempre ascendente.

A fidelidade de Deus

É um axioma da jornada cristã o fato de Deus esperar que sejamos fiéis a Ele. Mas essa expectativa é sempre em função de Sua fidelidade para conosco no passado. Quando Deus concedeu Sua lei a Israel e esperou por obediência, Ele pessoalmente advertiu Seu povo escolhido de que Sua expectativa estava enraizada em Sua ação histórica: “Eu sou o Senhor, o Teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão” (Êxodo 20:2).1

Mais tarde, Josué conclama os israelitas para que se apeguem “ao Senhor, o Teu Deus” (Josué 23:8), porque o Senhor foi fiel à Sua promessa de que levaria Israel à Terra Prometida. O povo respondeu ao apelo emocionado de Josué, dizendo: “Longe de nós abandonarmos o Senhor para servir a outros deuses! Foi o próprio Senhor, o nosso Deus, que nos tirou, a nós e a nossos pais, do Egito, daquela terra de escravidão, e realizou aquelas grandes maravilhas diante dos nossos olhos. Ele nos protegeu no caminho e entre as nações pelas quais passamos” (Josué 24:16, 17) .

Tempos mais tarde, Samuel cobrou os israelitas para que relembrassem o compromisso histórico deles com o Senhor, e o que Ele esperava do povo no presente: “Somente temam ao Senhor e sirvam-No fielmente de todo o coração” (1 Samuel 12:24). De fato, grandes coisas O Senhor fez pelo Seu povo! Mas a Palavra de Deus mostra quão terrível foi a queda deles quando as gerações posteriores falharam em reconhecer a liderança do Senhor. “Depois que toda aquela geração foi reunida aos seus antepassados, surgiu uma nova geração que não conhecia o Senhor e o que Ele havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins” (Juízes 2:10-12).

Anos mais tarde, Jeremias, porta-voz de Deus, resumiu a persistente negligência de Israel em recordar a liderança do Senhor e sua consequente apostasia: “Dei-lhes, entretanto, esta ordem: Obedeçam-me, e Eu serei o seu Deus e vocês serão o Meu povo. Vocês andarão em todo caminho que Eu vos ordenar, para que tudo lhes vá bem. Mas eles não Me ouviram nem Me deram atenção. Antes, seguiram o raciocínio rebelde de seus corações maus” (Jeremias 7:23-24).

A trágica história de Israel em esquecer a direção de Deus e abandonar Suas instruções não é uma história para ser lida e esquecida. O apóstolo Paulo explica, de maneira clara, que a rebelião do antigo Israel está registrada para que sirva de aviso espiritual ao Israel que está vivendo um pouco antes do retorno de Cristo. Depois de analisar os erros de Israel do passado, o apóstolo nos adverte: “Essas coisas aconteceram a eles como exemplos e foram escritas como advertência para nós, sobre quem tem chegado o fim dos tempos”

(1 Coríntios 10:11).

Da mesma forma, o Senhor aconselha aqueles que vivem nos “últimos tempos”: “Ao recapitular nossa história passada, havendo revisado cada passo de progresso até nosso nível atual, posso dizer: ‘Louvado seja Deus!’ Ao ver o que Deus tem realizado, encho-

me de admiração e de confiança na liderança de Cristo. Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado.”2

A história assim nos dirige

Ao celebrarmos o 150º aniversário de nossa organização como igreja, com um ministério e missão especiais, jamais deveríamos negligenciar o dever sagrado de trazer à mente a história passada sobre a direção do Senhor e de Seu ensino. Hoje, assim como foi para o Israel antigo, Deus espera nossa fidelidade fundamentada na confiança na direção e ensino concedidos por Ele.

Há alguns meses, representantes da igreja mundial em Battle Creek, Michigan, reuniram-se para celebrar e relembrar os 150 anos de direção e bênçãos de Deus, 150 anos do início da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia. Foi um fim de semana maravilhoso de celebração especial, com excelentes reuniões sobre nossa fascinante história e a incrível bênção de Deus sobre o Seu povo. Histórias inspiradoras, seminários, visitas inesquecíveis aos locais históricos e poderosos devocionais foram colocados no altar da memória sagrada para lembrarmos e jamais esquecermos quem somos e por que estamos aqui.

Com certeza, somos gratos por poder comemorar os 150 anos de história. Mas, na realidade, essa é uma data triste. Deveríamos estar em nosso lar eterno! O Senhor desejava ter vindo muito antes. Por que celebrar aniversários se deveríamos já estar no Céu? Por que não estamos lá ainda? Será porque continuamos nos esquecendo? Será que estamos negligenciando a mais sagrada responsabilidade de manter viva em nossa memória a liderança e os ensinos do Senhor no percurso de nossa história passada? Estamos avançando em obediência ao Seu chamado?

A missão assim nos dirige

Recentemente, estive na cidade de Zagreb, na Croácia. Ali visitei um fascinante museu com um nome incomum: “Museu dos Relacionamentos Desfeitos.” É um museu sobre indivíduos que tiveram o relacionamento romântico desfeito. É um museu sobre vidas e pessoas quebradas. Havia pequenos souvenirs sobre corações e promessas quebradas. Em 2011, o museu ganhou um prêmio de o mais inovador da Europa. Pergunto-me como seria um Museu de Relacionamentos Desfeitos do Céu. Contaria a história passada e atual de acordos e relacionamentos desfeitos entre Deus e Seu povo? Não quero ser parte desse museu. Tenho certeza de que você também não.

Infelizmente, há vozes, até mesmo na igreja atual, que desejam romper com a forte compreensão histórico-bíblica da palavra preciosa de Deus. Há aqueles que buscam reinterpretar o que Deus disse claramente, de modo a adaptar Suas palavras de acordo com seu próprio entendimento pessoal e, assim, quebrar a aliança de Deus com Seu povo.

Os líderes e membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia não são parte do Museu de Relacionamentos Desfeitos com Deus, pois estão firmados na Palavra de Deus e no “Assim diz o Senhor!”. Eu quero manter meu relacionamento pessoal com o Senhor e desejo que Sua preciosa igreja mantenha seu compromisso de ser, até o último dia, o povo remanescente, “os que obedecem aos mandamentos de Deus e se mantêm fiéis ao testemunho de Jesus” (Apocalipse 12:17).

Deus está nos chamando hoje para nos lembrarmos de Sua liderança e ensino no decorrer da história. Lembre-se:

Quando olhamos para trás e vemos os 150 anos de direção de Deus, estamos certos de que, pela graça dEle, a Associação Geral, como um órgão de supervisão do trabalho de Deus em todo o mundo, vai prosseguir defendendo firmemente a verdade divina. Prosseguirá sem diminuir sua forte orientação e suprindo a missão dos adventistas do sétimo dia em todo o mundo até os eventos finais da história, quando a perseguição religiosa, em última análise, impedirá o funcionamento das organizações. Mesmo quando isso acontecer, Deus nunca deixará de guiar Seu povo, independentemente dos acontecimentos. Este é o Deus a Quem servimos. Sua promessa em Mateus 28:20 é para nunca perdemos a confiança.

A jornada é sempre para cima e para frente

Cinco anos após a fundação da Associação Geral, Ellen White teve um sonho fascinante3, curiosamente quando estava em Battle Creek. Ela sonhou que estava entre um grande grupo de pessoas, do qual uma parte começou a se preparar para uma viagem. Eles tinham carroças abarrotadas. Durante a viagem, a estrada se tornou íngreme. De um lado, estava um precipício; e do outro, uma parede branca e lisa. A estrada se tornou mais estreita e íngreme. Finalmente, não era mais possível levar as carroças. As bagagens foram colocadas sob os cavalos e as pessoas prosseguiram com a viagem. O caminho foi ficando cada vez mais estreito e as pessoas foram obrigadas a andar bem junto à parede para não cair no precipício. A bagagem sob os cavalos, encostando na parede, pressionava os viajantes em direção ao precipício. Finalmente, desesperadas, as pessoas jogaram as bagagens no precipício e continuaram a viagem à cavalo, temendo que nos lugares mais estreitos caíssem e morressem. Ellen White escreveu: “Certa mão parecia tomar as rédeas e guiar-nos pelo perigoso caminho.”

Como o caminho ficou ainda mais estreito, os viajantes decidiram que não podiam mais usar os cavalos e prosseguiram a pé em fila indiana. Nesse momento, algo muito incomum aconteceu: surgiram pequenas cordas da parte superior da parede branca. Rapidamente, as pessoas as agarraram a fim de manter o equilíbrio. As cordas se moviam junto com as pessoas. O caminho ficou ainda mais estreito. Para ter mais segurança, as pessoas tiraram os sapatos e continuaram caminhando sem eles. Logo eles tiraram também as meias e prosseguiram com os pés descalços. Eles começaram a pensar em quem não estava acostumado com dificuldades. Olharam para vê-los, mas eles não se encontravam mais entre o pequeno grupo de crentes. Em cada ponto de dificuldade, alguns ficavam para trás. Apenas aqueles que tinham se acostumado com as dificuldades duradouras continuavam. As dificuldades fizeram com que esses viajantes piedosos continuassem prosseguindo com mais empenho.

O perigo de cair do caminho aumentou. Eles se encostavam à parede, mas não conseguiam colocar todo o pé no caminho, pois era muito estreito. Ellen White diz: “Apoiamos então quase todo o nosso peso nas cordas, exclamando: ‘Temos apoio de cima! Temos apoio de cima!’” As mesmas palavras foram proferidas por todos aqueles que estavam no caminho estreito. Enquanto caminhavam, podiam ouvir sons provenientes do precipício. Eram sons de divertimento, orgia, música mundana, cantos de guerra, músicas dançantes, música instrumental, gargalhadas, xingamentos, gritos de angústia e choro amargurado. Os que estavam no caminho estreito, no entanto, ficaram mais ansiosos do que nunca em seguir adiante. A maior parte do tempo, tiveram que apoiar todo o peso do corpo nas cordas, que aumentou de tamanho à medida que a viagem prosseguia.

Ellen White escreveu: “Notei que a bela parede branca estava manchada de sangue.” Em sua visão, esse poderia ser um sinal de encorajamento para que as pessoas que vinham atrás não desanimassem, pois os que já haviam passado antes pelo caminho, mesmo em meio a dificuldades, persistiram.

Finalmente, chegaram a um grande abismo onde o caminho terminou. Não havia nenhum apoio para os pés ou para descansar. Toda a confiança dessas pessoas estava depositada nas cordas, que se tornaram do tamanho do corpo dos viajantes. Eles se sentiam angustiados, pois não sabiam onde as cordas estavam presas. No sonho, Tiago White estava à frente de Ellen White, que podia ver grandes gotas de suor escorrendo do rosto de seu marido. As veias de seu pescoço e as têmporas estavam o dobro de seu tamanho normal. Gemidos agonizantes vinham de seus lábios. O suor escorria do rosto de Ellen White, e ela se sentiu angustiada como nunca antes, pois uma terrível luta estava diante deles. Se eles desistissem naquele ponto, a jornada teria sido inútil.

Do outro lado do abismo, havia um belo campo com grama verde, que brilhava, com vigas brilhantes maleáveis que pareciam ser de ouro ou prata refinada. Nada comparado com que já tinha visto na Terra. Ela se perguntou se conseguiriam chegar àquele belo campo ou se a corda que os sustentava se romperia e morreriam. Esses momentos finais são descritos por ela da seguinte forma: “Mais uma vez, em angústia sussurrei: ‘Em que estará presa a corda?’ Por alguns momentos, hesitamos em nos arriscar. Então exclamamos: ‘Nossa única esperança está em confiar inteiramente na corda. Dela temos dependido em todo o caminho difícil. Ela não falhará agora.’ Ainda estávamos hesitantes e angustiados. Foram então proferidas estas palavras: ‘Deus segura a corda. Não devemos temer.’ Essas palavras foram então repetidas por aqueles que estavam atrás de nós, e acompanhadas destas outras: ‘Ele não nos faltará agora. Trouxe-nos até aqui em segurança.’ Meu marido deu então um salto por sobre o assustador abismo ao belo campo além. Eu segui imediatamente. Oh, que sensação de alívio e gratidão a Deus experimentamos! Ouvi levantarem-se vozes em louvor triunfal a Deus. Eu era feliz, perfeitamente feliz. Despertei, e vi que, pela ansiedade que experimentara ao passar pelo caminho difícil, todos os meus nervos pareciam estar a tremer. Esse sonho não necessita de comentário. Produziu-me uma impressão tal que provavelmente cada minúcia permanecerá vívida diante de mim enquanto minha memória perdurar.”

Nossa jornada de hoje

Hoje, à medida que progredimos em nossa jornada, devemos fazê-lo com total confiança no Deus que nos conduziu no passado e que estende as “cordas” de orientação e segurança para nós. Devemos nos voltar totalmente a Jesus Cristo e à Sua justiça diante de cada necessidade, prosseguindo confiantemente sustentados pelo Seu poder. Deus quer que compreendamos que mesmo chegando a 150 anos de Sua liderança, não temos nada a temer quanto ao futuro. Podemos proclamar a mensagem do advento com poder, porque somos a igreja remanescente de Deus, com uma história marcante sobre a liderança DEle em Sua igreja. Ele nos chama para proclamar especialmente as três mensagens angélicas de Apocalipse 14.

Essa mensagem do advento não passará a outro grupo ou igreja. Não haverá outra igreja remanescente. Você e eu fazemos parte da última igreja que Deus preparou. Cento e cinquenta anos de Associação Geral são, simplesmente, um chamado para avançar na extensa via de um caminho estreito, permitindo a Deus que realize um reavivamento e reforma em nossa vida e igreja. É um chamado para reformar nossos caminhos egoístas e depositar nossos sonhos e esperanças na Santa Palavra e na Palavra Viva de Jesus Cristo.

Deus nos chama hoje para não termos medo e para nunca nos esquecermos de que Deus nos conduzirá se confiarmos completamente nEle e permitirmos que o Espírito Santo controle, ao máximo, cada um de nossos pensamentos e ações. Ele quer nos reclamar como seus. Ele quer voltar para nos levar para casa em breve, não deseja mais aniversários. Tenhamos fé em Deus!

Ted N.C. Wilson (Ph.D., Universidade de New York) é o presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

REFERÊNCIAS

  1. Todas as passagens bíblicas são da Nova Versão Internacional (NVI).
  2. Ellen G. White, Testemunhos Seletos. v.3 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001), p. 443 [CD-ROM].
  3. _____, Vida e Ensinos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001), p. 179-184 [CD-ROM].