Mensageiros da esperança

A esperança é o poder para enfrentar nossos temores e, por meio de Cristo, superá-los para viver como um povo redimido, não somente livre do pecado, mas também do medo, da ansiedade, da dúvida e do isolamento.

Medo, esperança, amor, ódio. Cada uma dessas pequenas palavras pode evocar sensações diferentes; cada uma está presente na vida, às vezes, ao mesmo tempo.

Seria muito bom se fosse possível distinguir as palavras boas das ruins mais facilmente. No entanto, não é o que acontece no mundo ocidental em nossos dias, nem em grande parte do restante do mundo. Em vez disso, muito do discurso das culturas atuais concentra-se nas “boas novas” do medo e na depreciação da ingenuidade da esperança. O chamado às armas ecoa como falta de preparo da humanidade para a “crise” vindoura – seja ela qual for –, destinada a ser tratada com chumbo, e não com amor.

Há uma certa preocupação geral, não apenas aqui, mas em todo lugar, porque toda pessoa consciente teme que a luta dos outros torne-se a sua própria luta.

De que maneira devemos viver, então, como mensageiros da esperança, em um mundo que é fascinado e motivado pelo medo? Como devemos viver como mensageiros do amor em um mundo que tão rapidamente aliena e isola o “estrangeiro que está dentro de suas portas”?

Esperança e medo

Mensageiros da esperança em meio à cultura do medo... O que nos dá a capacidade de confrontar o medo e ainda assim ter esperança? O que permite que a “paz que excede todo entendimento”, que acalma tudo o que não faz sentido transpareça em nosso semblante enquanto os outros se desesperam?

Como se encontra paz quando o telefone toca e faz o mundo desabar? Quando se recebe uma ligação que nos deixa atordoados e pensando: “Será que isso é realmente verdade?” Como se reage a uma notícia ruim? É nesses momentos que a fé nos ajuda a transformar a tristeza ou uma desagradável surpresa em esperança e confiança.

Atentemos para o que o apóstolo Paulo diz ao povo que vivia cheio de perplexidades em sua época: “Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:37-39, NVI).

É somente no contexto de uma visão de fé em relação a este mundo que podemos encontrar perspectiva e paz. São estas as fontes de onde fluem águas de paz e esperança a todos nós: acreditar que Deus é bom e quer o nosso melhor; saber que Ele é o nosso pastor e nos conduz às águas tranquilas; e estar certos de que nEle podemos confiar.

Como, pois, deve viver aquele a quem foi confiada a missão de ser um mensageiro da esperança? A esperança é algo que se distribui como alimento ou água em tempos de necessidade? É algo que se pode doar para ser guardada e usada quando for necessário? A esperança pode ser obtida sem que haja alguma forma de relacionamento?

Viver com confiança nesta época de incertezas é a característica marcante de um “mensageiro da esperança”, daquele para quem a “paz de Deus, que excede a todo entendimento”, é uma experiência presente, e não simplesmente um estado futuro almejado. “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Filipenses 4:6-7, NVI).

Para viver com esperança no presente é necessário reconhecer e lidar francamente com certas situações que causam medo tanto a nós como aos outros. Procurar meramente descartar o medo é tornar a esperança algo simplista.

Os níveis de esperança e os níveis do medo

Há três níveis de esperança, e eu sugeriria três níveis de medo como seu corolário.

Nível superficial: “Espero ter um bom dia!” Ou: “Temo não ter um bom dia!” “Espero que não chova no piquenique.” Ou: “Temo que chova no piquenique.” Esse tipo de sentimento de esperança ou temor é o mais comum. Contudo, ocorrer um dia ruim ou chuvoso não é algo tão significativo em termos de consequências.

Nível relacional: “Eu espero que ele/ela goste de mim!” Ou: “Temo que ele/ela não goste de mim.” “Espero que ele/ela saia comigo novamente.” Ou: “Temo que ele/ela não queira sair comigo novamente.” “Espero que ele/ela se esforce pelo nosso casamento.” Ou: “Temo que ele/ela não se esforce pelo nosso casamento.” Nesse caso, a consequência é muito mais significativa, pois é relacional, pessoal e normalmente dolorosa. Mas com o tempo você se reanima, procura lidar melhor com a situação e vive mais um dia. Tanto a esperança como o temor estão em jogo de forma bem mais significativa nesse nível.

Nível existencial: “Eu espero me recuperar deste câncer.” Ou: “Temo não me recuperar deste câncer.” Esse nível de esperança ou medo – expresso em situações em que a vida está em risco – representa a própria capacidade de continuar vivendo.

É no segundo e terceiro níveis que a maioria das pessoas busca, consciente ou inconscientemente, por alguma forma de esperança. É bem mais provável que elas se voltem para aqueles que conhecem e em quem confiam para buscar auxílio e esperança na hora da necessidade.

Para sermos mensageiros da esperança, temos de estar integrados à comunidade. Devemos estar lá com as pessoas, presentes, e não apenas aparecer durante um momento de crise, ainda que isso seja importante. Estar com as pessoas, misturar-se com elas, buscar atender as suas necessidades – esse era o método utilizado pelo Mestre (Ellen G. White, Ciência do Bom Viver, p. 143). Temor e esperança são os dois agentes da graça, tão bem retratados no hino “Graça excelsa”: “A graça libertou-me assim, e meu temor levou” (Hinário Adventista, 208).

A graça, favor imerecido de Deus, primeiramente nos ensina que o nosso lugar no plano celestial é de um povo que verdadeiramente necessita de restauração e de perdão – um povo que leva sobre si a pena de morte e está sujeito aos ataques do mal. Mas a mesma graça que mostra o nosso estado de desamparo também afasta de nós o medo, por meio do nosso relacionamento com Cristo, da esperança que temos na salvação por Ele oferecida e em Sua breve volta. A graça alivia os nossos temores pela esperança que temos em Cristo, permitindo-nos enfrentar a nossa realidade e encontrar segurança.

A esperança faz exatamente isso. A esperança é o poder para enfrentar nossos temores e, por meio de Cristo, superá-los para viver como um povo redimido, não somente livre do pecado, mas também do medo, da ansiedade, da dúvida e do isolamento. A esperança nos capacita a superar o medo e a viver confiantemente nestes tempos de incertezas.

Minha irmã mais nova é uma mulher extraordinária. Ela viveu com os índios Haida, na costa do Alasca, onde trabalhou para proporcionar algum nível de educação a eles e tentar entender a forma de espiritualidade nativa que possuem. Ela também viveu por dois anos com o povo Inuíte, acima do Círculo Ártico. Foi perseguida por ursos polares e atacada por um tubarão, mas continua vivendo uma vida tranquila.

Certa ocasião, enquanto vivia no Ártico, ela foi acampar com seu cão, Chico. Subiram por uma trilha distante quase 20 km da aldeia até um planalto que media o equivalente à metade de um campo de futebol, e ali ela montou sua barraca. Chico, normalmente um cachorro calmo, mas bastante forte, estava ficando cada vez mais nervoso e inquieto. Judy olhou para onde ele estava olhando muito ansioso e viu, à beira do barranco, a 30 km de distância, dezoito grandes orelhas, que atingiram o cimo do morro e vinham em sua direção. Eram dezoito orelhas que pertenciam a nove lobos enormes.

Judy não levava nenhuma arma, só a faca de neve. O medo estava estampado em seus olhos. O que ela poderia fazer? Negar a existência dos lobos? Começar a cantar canções alegres para se sentir melhor? Entrar na tenda e fechar o zíper?

Ela descreve que naquele momento foi tomada por um profundo sentimento de calma. Prendeu Chico em sua coleira, pegou a faca de neve e, sem imaginar o que poderia acontecer, caminhou em direção ao seu “medo”. Passo a passo, à medida que se aproximava, os lobos também foram aparecendo e colocaram suas patas enormes na beira do barranco. Ela conversou com os lobos calmamente, dizendo a eles que ela não tinha um sabor muito bom. Com os braços levantados, ela caminhou calma e firmemente em direção a eles, enfrentando o maior medo que já havia experimentado em sua vida. Depois de caminhar mais ou menos 15 m, eles fugiram um atrás do outro, olhando para aquele “ser” que os havia confrontado.

Judy observava tudo em silêncio. Ela conseguiu dormir bem naquela noite; sabia que os lobos não voltariam. A verdade é que ela se encheu de esperança e conseguiu enfrentar seu medo. A esperança havia renascido em seu coração, e ela enfrentou seu medo.

Onde está a nossa esperança quando o medo bate à nossa porta? Onde está a esperança da nossa comunidade quando o medo bate à porta? Acima de tudo, a esperança da verdadeira fé e do amor deve se manifestar numa calma e transformadora confiança, permitindo que o medo, o perigo presente e até mesmo o ódio sejam transformados em esperança e vencidos pela confiança.

“Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nEle, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15:13, NVI).

Peter Bath (D. Min., Seminário Teológico de Lancaster) é vice-presidente de Missão e Recursos Humanos no Hospital da Flórida, nos Estados Unidos. Tem servido à Igreja há mais de 33 anos.

Este artigo foi publicado originalmente em Dynamic Steward. Usado com permissão.